domingo, 30 de dezembro de 2012

O destaque do milênio

Richard Simonetti
(publicado originalmente na revista Visão Espírita n.° 11 - Ano I - Fevereiro.1999)

Até que a história fosse dividia em antes e depois de Cristo, os romanos contavam o tempo a partir da lendária fundação de Roma, em 753 a.C., pelos gêmeos Rômulo e Remo, filhos da vestal Réia Silvia.
Se decidissem efetuar um levantamento das grandes personalidades e acontecimentos de seu primeiro milênio, correspondente a 247 da era Cristã, certamente destacariam a fundação do Capitólio; a fixação do latim como língua dominante; a instalação da República; a Lei das Doze Tábuas, base do sistrema jurídico ocidental; a ascensão e morte de Júlio César; a consolidação do Império; o florescimento das artes com César Augusto; a construção do Coliseu; a destruição de Herculano e Pompéia na erupção do Vesúvio; o legado cultural, com Juvenal, Suetônio, Marco Aurélio, Sêneca...
Por insignificante, seria ignorada a seita formada por adeptos de um carpinteiro judeu que morrera crucificado na Palestina, sob o governo do procurador romano Pôncio Pilatos, aproximadamente no ano 786 da fundação de Roma. Eram uns doidos inofensivos que anunciavam o advento de um Reino Divino, onde todos seriam irmãos. Ingênuos, exaltavam estranhos princípios: o perdão incondicional das ofensas, a mansidão, o desprendimento dos bens materiais, o amor ao próximo, a paciência, a humildade, a disposição para o sacrifício...
Serviam bem aos propósitos dos governantes, quando elegiam um bode expiatório para suas sandices, como aconteceu com o imperador Nero, que os culpou pelo criminoso incêndio de Roma, que ele próprio ordenara no ano romano de 821. O povo divertia-se muito com a morte de centenas deles, devorados por feras famintas ou transformados em tochas vivas, no Coliseu.
Jamais poderiam imaginar os historiadores que a desdenhada seita, para a qual não havia lugar na história de Roma, haveria de crescer irresistivelmente, na mesma proporção em que o império definharia. Pior: a data de nascimento de seu fundador, um tal de Jesus, substituiria a cronologia inspirada na fundação de Roma para a contagem do tempo.

***

Faço essa digressão para comentar uma publicação da revista americana Life, traduzida pela revista Veja, edição especial, que exalta os eventos e personalidades mais importantes deste milênio [o que acabou no ano 2000]. No campo religioso destacam-se o Pentecostalismo, as Cruzadas, a Reforma Protestante e figuras como o Papa Inocêncio III, Joana D'Arc, Tomás de Aquino, Martim Lutero e João Calvino. Aparecem também grandes filósofos como René Descartes, John Locke, Jean-Jacques Rousseau, Adam Smith, Immanuel Kant, Thomas Jefferson, Karl Marx...
Ficaram de fora, nem sequer foram cogitados: um professor francês que adotou o pseudônimo de Allan Kardec para lançar, em 18 de abril de 1857, O Livro dos Espíritos, e a Doutrina Espírita, nele exposta, o mais revolucionário e importante movimento de ideias do milênio.
Pode parece ousada e pretensiosa essa colocação, leitor amigo. Entretanto, se você se der ao trabalho de analisar tudo o que se pensou, neste milênio que se finda, verá ideias interessantes, ideias envolventes, ideias renovadoras, mas nenhuma capaz de rivalizar com o Espiritismo.
Todas elas falam ao homem perecível. Quando, timidamente, cogitam da vida além túmulo, onde todos estaremos um dia, o fazem de forma especulativa e fantasiosa. O Espiritismo fala ao Espírito imortal. Estabelece uma ponte até então inimaginável entre o aquém e o além para nos oferecer a gloriosa visão do mundo espiritual, situando-nos como passageiros em trânsito pela escola terrestre, a caminho do infinito.
Na perspectiva atual, analisando o primeiro milênio do calendário romano, a partir da fundação de Roma, o acontecimento mais importante foi o Cristianismo, exaltando o amor como base fundamental para a construção do Reino de Deus.
Dentro de alguns séculos, com a visão em perspectiva mais objetiva, que só o tempo, senhor da verdade, oferece, os historiadores exaltarão o Espiritismo como o acontecimento mais importante deste milênio. É o Consolador prometido por Jesus. Veio na época oportuna, de maturidade intelectual e mental da Humanidade, para oferecer ao homem atormentado de nosso tempo uma gloriosa visão de imortalidade, conscientizando-o de suas responsabilidades, ante a certeza da vida que não acaba nunca e onde nunca está ausente a justiça de Deus.
Esse o grande destaque!

Os novos tempos

Irmã Rafaela

A Terra vive, nestes dias, a transição de um ano a outro, dito novo, convidando as pessoas à renovação também. Algumas fazem planos, outras acalentam sonhos, inúmeras ainda se mantêm na ilusão da matéria, cedendo aos encantos do mundo; poucas se dispõem efetivamente á transformação necessária, dedicando-se em atender ao chamado do Evangelho com vistas à construção do Homem Novo.
Há pouco vivia-se a alegria da lembrança do nascimento de Jesus, o "espírito do Natal" alentava o coração dos homens de boa vontade, mas o Cristo ainda não nasceu em muitos outros corações e o Divino Amigo deseja que isso aconteça, para que possa auxiliar no despertamento de seus irmãos que ainda dormem para as verdades espirituais.
O convite se repete nos dias de hoje com muito mais intensidade, porquanto a transformação por que passa o planeta atinge também a Humanidade. Apressai, portanto, os passos, a fim de que estejais preparados para quando o grande dia chegar - e ele não tarda! Redobrai vossos esforços, recomeçai a tarefa a cada dia, semeando as sementes de vida eterna para que a colheita a que fazeis jus seja farta de bênçãos de esperança, harmonia e luz!

sábado, 29 de dezembro de 2012

Kardec pedagogo

Francisco Muniz
(publicado originalmente na revista Visão Espírita n.° 3 - Ano I - Junho.1998)

O público espírita não desconhece que Hippolyte Léon Denizard Rivail, alter-ego de Allan Kardec, foi um dos educadores mais comprometidos com a formação integral dos jovens franceses, propondo a renovação de métodos educativos. As propostas de Rivail, contudo, não foram aceitas pelo governo da França de sua época, o que não impediu que o pedagogo divulgasse seus trabalhos através da publicação de vários livros, muitos deles abordando técnicas do ensino de disciplinas como Matemática, por exemplo.
As lides educacionais eram a principal ocupação de Hippolyte Rivail, que dirigia em Paris uma instituição de ensino com seu nome, além de ser membro de diversas academias e entidades dessa área. Entretanto, os pendores de Rivail para a educação pública foram substituídos quando o mestre, nascido em Lyon no ano de 1804, passou a dar atenção mais demorada aos fenômenos das "mesas girantes", o primeiro passo para a codificação do Espiritismo.
Após a morte de Rivail, em 1869, já sua fama como Allan Kardec, o iniciador do Espiritismo codificado, suplantava a do educador. Assim sendo, o desinteresse por seus trabalhos pedagógicos os levou ao esquecimento até que a jornalista e também pedagoga paulista Dora Incontri resolveu resgatar alguns desses textos, com o propósito de contribuir par ao conhecimento de uma faceta importante do Codificador.
Dora é a autora do livro "Textos pedagógicos - Hippolyte Léon Denizard Rivail (Allan Kardec)", com o qual a Editora Comenius, de São Paulo, inaugura a série Clássicos da Educação. Em suas 96 páginas, a obra reúne dois textos de Rivail - o "Plano proposto para a melhoria da Educação Pública" e "Discurso pronunciado na distribuição de prêmios", nos quais o pedagogo ressalta sua preocupação ante o sistema de ensino vigente no século XIX, que propugnava a distinção entre mente e espírito.
Para Rivail, discípulo de Pestalozzi, "a educação é a arte de formar homens; isto é, a arte de fazer eclodir neles os germes da virtude e abafar os do vício (...) Numa palavra, a meta da educação consiste no desenvolvimento simultâneo das faculdades morais, físicas e intelectuais". Mas, embora todos frisem tais conceitos, eles não são devidamente praticados.
O livro é um importante documento, tanto para o público em geral, especialmente as pessoas interessadas nos problemas educacionais, quanto para os espíritas, que podem assim aprofundar estudos comparando as atividades de Rivail e de Kardec. Nesse aspecto, Dora Incontri ressalta o quanto de percepção dos acontecimentos que o levaria a codificar o Espiritismo Rivail já apresentava em seus textos.

Estudo: dever dos espíritas

Francisco Muniz
(publicado originalmente na revista Visão Espírita n.° 3 - Ano I - Junho.1998)

O Espiritismo é um só e não tem a pretensão de ser dono de verdade alguma. O Espiritismo também não inventou a mediunidade, uma faculdade biológica que todo mundo - homem, mulher ou criança - apresenta. Entretanto, a Doutrina dos Espíritos diferencia-se das práticas espiritualistas pelo caráter científico, explicando os fatos e fenômenos "misteriosos" à luz da razão, da lógica e do bom senso, exatamente como recomenda seu codificador, o sábio francês Allan Kardec.
Assim sendo, é preciso que principalmente os espíritas que se pretendem sérios, aqueles comprometidos com os postulados doutrinários, atentem para a s discrepâncias que se cometem em nome do Espiritismo, procurando dirimir as dúvidas surgidas no seio do movimento e não dando margem a confusões. É dever de todo espírita sério estudar o Espiritismo e praticá-lo, mas não de acordo com seu próprio pensamento, achando que determinado aspecto estaria melhor desse ou daquele jeito.
Ao contrário, deve priorizar sempre os ensinos de Kardec, que é o guia para esses estudos. Quando o Espírito de Verdade, questionado a respeito, propôs que os mandamentos dos espíritas fossem o "amai-vos" e o "instruí-vos", reafirmava os preceitos cristãos de fraternidade e recordava o penamento socrático "conhece-te a ti mesmo".
É, pois, somente vencendo a ignorância que o homem se liberta de conceitos errôneos e caminha na direção do progresso, contribuindo para o esclarecimento próprio e da coletividade.

Técnico "espírita" perde cargo na Inglaterra

Francisco Muniz
(publicado originalmente na revista Visão Espírita n.° 11 - Ano I - Fevereiro.1999)

Um dos postulados do Espiritismo é a reencarnação, instrumento através do qual a Providência Divina promove o progresso dos espíritos. Qualquer neófito na Doutrina Espírita é sabedor dessa lei natural que alcança crentes e ateus, pobres e ricos, sábios e ignorantes. A reencarnação decorre do cumprimento da Lei de Causa e Efeito, que na filosofia oriental é chamada de karma, processo de resgate de faltas cometidas numa existência passada. E isso não se dá apenas no Oriente, mas em todos os quadrantes do planeta onde haja espíritos encarnados. Todos nós, na Terra, estamos resgatando erros cometidos no passado, submetendo-nos a sucessivas reencarnações com o objetivo de atingir a perfeição. Recordemos a explicação do Cristo a Nicodemos: "Não verá o Reino de Deus aquele que não nascer de novo".
Esse postulado espírita, que reafirma a lei do carma, ou de causa e efeito, esclarece as desigualdades entre os homens, fazendo-nos entender por que razão as pessoas nascem com deficiência física ou mental, por exemplo. Ficamos nesse exemplo para citar a polêmica que abalou a Inglaterra no final de janeiro de 1999, após o técnico da seleção de futebol daquele país, Glenn Hoddle, declarar, numa entrevista a um jornal de Londres, que os deficientes físicos e mentais pagavam "pecados cometidos em vidas anteriores". Hoddle foi obrigado a se retratar publicamente e terminou por ser demitido do cargo.
O comentário do técnico de futebol se deveu a um fato relevante: um garoto deficiente físico amante do "esporte bretão" ganhara pernas mecânicas e pôs-se a jogar bola com os amigos, numa demonstração mais que louvável de superação das imperfeições impostas pelo corpo à manifestação do espírito. O "Fantástico", da Rede Globo, abordou o feito com destaque, em uma das suas edições daquele mês. Glenn Hoddle foi instado pelo jornal The Times a comentar o episódio, gerando a polêmica que alcançou os quatro cantos do mundo.
O Espiritismo ainda não encontrou campo muito fértil na terra dos ingleses, apesar do esforço, no século XIX, de pesquisadores do porte de William Crookes, fundador na Sociedade de Pesquisas Psíquicas de Londres, e do escritor Arthur Conan Doyle, criador do detetive Sherlock Holmes e autor do livro História do Espiritismo, dentre outras obras do gênero. Por essa razão as declarações de Hoddle foram consideradas, no mínimo, estranhas, segundo um jornal espanhol, e o próprio primeiro-ministro inglês, Tony Blair, aconselhou o técnico a deixar a seleção se suas palavras realmente tinham sido aquelas publicadas.
Glenn Hoddle feriu suscetibilidades porque, ainda preso nas malhas do orgulho, o homem vê-se merecedor de privilégios perante a Divindade e acredita nas interpretações teológicas que falam da vida única do espírito sobre a Terra e das recompensas e pensas eternas após a morte. Crê, orgulhosa e egoisticamente, que será reconhecido pelo que aparenta e pelas posses materiais, que envaidecem e iludem, afastando-o da vida, seja física ou espiritual. É uma postura ainda farisaica que se perderá no fosso do esquecimento quando todos, espíritas ou não, nos conscientizarmos cada vez mais da importância de assimilar as verdades espirituais. A necessidade não está apenas entre aqueles que frequentam os centros espíritas, mas espalhada pela Terra inteira.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Espírito sexólatra

Francisco Muniz
(publicado originalmente na revista Visão Espírita n.° 11 - Ano I - Fevereiro.1999)

Dá muito "ibope" falar de temas paranormais, atualmente, e programas de televisão de cunho popular têm sabido aproveitar esse filão, embora seja mais para fazer escândalo proselitista do que para esclarecer às mentes desejosas de explicação acerca dos fenômenos extrafísicos. O mais recente (1999) desses "escândalos", veiculado no "Programa do Ratinho, do SBT, diz respeito a uma viúva que afirma receber frequentemente, à noite, a visita do marido desencarnado para práticas sexuais.
Com relação a esse fato, ao questionamento que certamente se está fazendo no Brasil, "será isso possível?", respondemos que sim, que essa mulher pode realmente estar falando a verdade, a despeito de ser notório que o citado programa já sofreu críticas e inclusive foi penalizado judicialmente por apresentar casos forjados com o fim de comover ou escandalizar a opinião pública. "O escândalo é necessário, mas ai daquele por quem vier o escândalo", ensina-nos o Mestre Jesus, que também nos orienta a sermos, em relação a tudo, "mansos como a pomba e prudentes como a serpente".
Caso seja mesmo verdadeira a história contada pela tal viúva e alardeada para todo o Brasil pelo apresentador Carlos Massa, o Ratinho, demonstra que o tal espírito ainda está bastante apegado à matéria e entregue às paixões sensuais, que só o corpo físico pode proporcionar, de tal modo que não lhe basta simplesmente ficar ao lado daquela que foi sua mulher em vida, mas procura fazer-se sentir ostensivamente, vampirizando os fluidos com que satisfaz seus instintos, através do sexo.
O contato sexual entre encarnados e desencarnados é antigo na história do mundo, de acordo com os relatos das tradições religiosas, que nos informam sobre súcubos e íncubos, seres considerados "demoníacos" que visitavam, sempre à noite, homens e mulheres, respectivamente, para o intercurso sexual. Conforme os registros, por vezes esses contatos se revestiam de intensos prazer; por outras, eram bastante desagradáveis para as "vítimas" que, confessando-os a um padre, não raro eram submetidas a rituais de exorcismo.
A julgar pela "disposição" com que o marido desencarnado da viúva comparece ao quarto dela, sempre no mesmo horário, evidencia-se um compromisso entre eles e talvez ela também sempre estivesse, mesmo que inconscientemente, ansiando por esses encontros, que perduram, segundo a viúva, há cinco anos. É possível, também, que o casal tenha tido um relacionamento tão satisfatório que essas "alegrias" simplesmente tenham se mantido no além-túmulo, não obstante o espírito em questão esteja ignorante de seu estado de desencarnado.
Em O Livro dos Espíritos, síntese da Doutrina Espírita, codificada por Allan Kardec, os Espíritos Superiores esclarecem que "somente os espíritos inferiores podem lamentar as alegrias que se harmonizam com sua imperfeição e que expiam pelos seus sofrimentos". Dizem, ainda, que "para os espíritos elevados, a felicidade eterna é mil vezes preferível aos prazeres efêmeros da Terra".
Dois aspectos interessantes devem ser levados em conta nesse caso: 1 - a mulher não é espírita, mas evangélica; e 2 - embora se ocupe de tais fenômenos, para explicá-los através da lógica e do bom senso, o Espiritismo não patrocina o sensacionalismo em torno desses episódios, porquanto os envolvidos são vistos como irmãos enfermados a merecerem bem mais compaixão que execração.

Tua dor

Irmã Rafaela

Tu tens chorado tanto, minh´alma querida! O que te aflige assim? Derramas lágrimas não inutilmente, por certo, que para tudo haverá uma razão. Qual será a de tua dor? Que se passa em teu coração? Não é ele habitado pelo Senhor de nós todos? Sentirá ele a ausência desse ser querido cuja simples lembrança produz calor e consolo nas almas doloridas?
Ah, não chores tanto, embora devas chorar às vezes, para suavizar o peito que melhor se balsamiza ante o contato das lágrimas vertidas pela via da sensibilidade. Mas não chores tanto, que lágrimas demais podem te levar ao mar da incompreensão e da revolta. Antes, aceita o momento da reflexão e humildemente pede a resposta de tuas aflições, porquanto bem será esse o instante em que deverás abrigar-te na oração e conversar intimamente com teu Criador, para que ele te dê o lenitivo de que necessites.
Talvez chores não por ti mesmo, mas por alguém ao teu lado que, invisivelmente, recorre a teus préstimos em busca desse consolo que vem pela prece. Um ser querido que te procura assim sabe que podes socorrê-lo, emprestando teu coração - a sensibilidade de tua alma - para talvez fechar feridas ou, ao menos, facilitar seu contato com a Divindade, através da simples intercessão. Em casos assim, tuas lágrimas são mais que bem vindas, mais que bem derramadas, pois lenirá dois corações, o dele e o teu, mesmo que no momento não tenhas dores a lenificar...
Pensa neles, nos que partiram, nos que se encontram do outro lado da vida, mas tão próximos que também se afiguram como o próximo da parábola evangélica referida pelo Cristo Jesus, nosso guia e nosso modelo de bom comportamento. E assim como o Divino Amigo nos recomenda a todos, abre teu coração para esse amor desconhecido, o amor que se doa em favor de desconhecidos, embora só o sejam porque não os vês, caso contrário perceberias que em verdade são seres muito queridos ao teu coração e aí então chorarias mais intensamente, percebendo que deixaste de muito fazer por eles, fazendo por ti mesmo...

A guerra e os sinais de evolução

Francisco Muniz
(publicado originalmente na revista Visão Espírita n.° 13 - Ano II - Abril.1999)

O espectro de uma guerra generalizada voltou a amedrontar o mundo em razão das dificuldades em se estabelecer a paz entre sérvios e albaneses da região de Kosovo, na (antiga) Iugoslávia. A despeito do medo que se tem de uma terceira guerra mundial, havemos de convir que o mundo está em constante conflito, posto que as ações beligerantes do Homem espoucam aqui e ali no planeta. Até nas áreas onde se imagina que as pessoas sema mais "civilizadas", mais sensíveis e solidárias, como no Brasil, atos de violência explodem com frequência, apesar das campanhas em favor da pacificação de ânimos e espíritos. Entretanto, jamais houve tanto amor na Terra como nos tempos atuais, como muito tem ressaltado o médium e tribuno baiano Divaldo Franco. E é esse amor que desejamos cubra toda a extensão do planeta, irmanando os homens num só ideal: o da paz.
Além da Iugoslávia, identificam-se conflitos armados na Ásia, África e América do Sul. Timor Leste e Bornéus, na Indonésia, lutam contra a violência. Em Angola, a intolerância vem de longos anos, com pequenos interstícios de pacificação. Na Colômbia e no Peru, guerrilheiros teimam em confrontar a ordem pública. No Oriente Médio, a paz continua sendo uma utopia que o medo e o despotismo não deixam concretizar-se. Nas grandes capitais do mundo, inclusive no Brasil, bandidos e policiais travam uma guerra não declarada, vitimando "culpados" e "inocentes".

Flagelos destruidores

A guerra é um desses flagelos destruidores com que Deus provê o melhoramento da humanidade, através de uma seleção natural dos espíritos. Mas se perguntaria: que seleção é essa, se tanto espíritos bons quanto mais sucumbem nesses conflitos? Para responder, recorremos a O Livro dos Espíritos, que, na questão 737 e seguintes, esclarece-nos quanto a esse problema. Aqueles espíritos considerados bons, assim, desencarnam em decorrência desses flagelos para adquirem mais méritos para o futuro, nas experiências no mundo espiritual. É necessário, porém, encarar tais fatos longe do ponto de vista material, posto que os julgamentos pela aparência, não raro, são falhos.
Ainda segundo a obra basilar do Espiritismo, a guerra se justifica pela predominância da natureza animal do homem sobre seu componente espiritual; seu propósito é tão somente a satisfação de paixões. Mas "à medida que o homem progride, ela (a guerra) se torna menos frequente, porque ele evita as causas, e quando ela se faz necessária, ele sabe adicionar-lhe humanidade". Quanto a esse ponto, observe-se que a mente belicosa dos cientistas tem se ocupado em criar equipamentos mortais cada vez mais sofisticados. Mísseis "inteligentes" estão sendo usados na Iugoslávia e um deles, programado para atingir uma ponte, destruiu também um trem de passageiros, matando mais de dez pessoas.
Entretanto, a guerra é necessária, no atual estágio evolutivo do homem no planeta, e atende aos impositivos da Providência quanto à liberdade e ao progresso da Humanidade. Liberdade porque, confundindo-se com a paz e a superação do domínio dos fortes sobre os fracos, é sempre esse, de alguma forma, o motivo das guerras. Progresso, porque ao final desses conflitos, que são sempre processos de transformação, alcança-se o objetivo, com a consequente reflexão sobre os fatos, o que leva o homem a ponderar melhor seus atos. Há, então, um crescimento moral, espiritual, que se reflete também no aspecto material, a exemplo do que se observou no mundo após a Segunda Grande Guerra.
Sendo, então, necessária a guerra, não há culpados entre os homens nela envolvidos? Os Espíritos Superiores, que nos revelaram a Doutrina Espírita, através de Allan Kardec, salientam que é verdadeiramente culpado aquele que fomenta a guerra em proveito próprio. Esse, acrescentam, "necessitará de muitas existências para expiar todos os assassínios de que foi causa, porque responderá por cada homem cuja morte tenha causado, para satisfazer sua ambição". Essas palavras reforçam, pois, o ensino do Cristo, segundo quem "o escândalo é necessário, mas ai de quem escandalizar"!

Ação construtiva

Mas não é construtivo ficarmos tecendo comentários, pertinentes ou não, acerca de fatos como esses, porque podemos fazer muito para superar esses conflitos, começando por transformar em nós mesmos as tendências belicosas, eliminando de uma vez por todas nossa natureza animal, a fim de vivermos nossa humanidade. Fazendo isso, estaremos colaborando pra a pacificação do mundo, uma vez que todo esforço individual se multiplica: "Um mais um é sempre mais que dois", conforme diz o poeta. Muitas pessoas, principalmente as do meio artístico, comprometidas em exaltar a paz, estão usando uma fita branca presa à roupa, indicando essa intenção. Quem não se afeiçoa a símbolos e rituais pode se integrar às vibrações que diversas instituições religiosas, inclusive espíritas, fazem toda noite em benefício da paz na Terra.
Em tudo e por tudo, lembremo-nos sempre da oferta de Jesus: "Eu vos dou a minha paz!" e lutemos contra o monstro da guerra em nós mesmos, contra nossas imperfeições, e construamos esse mundo de paz com que tanto sonhamos!

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Um livro para o futuro

Francisco Muniz
(publicado originalmente na revista Visão Espírita n.° 13 - Ano II - Abril.1999)

Apesar do número graúdo, as 1.019 (algumas edições apresentam apenas 1.018) questões contidas em O Livro dos Espíritos não pretendem apresentam a solução de todos os problemas com que a Humanidade se debate desde muito tempo, apenas apontar suas causas e consequências, para a conscientização dos homens. O livro base da Doutrina dos Espíritos, que no mês de abril de 2013 completará 156 anos de existência, é tão somente o preâmbulo de uma obra que prossegue nos outros quatro volumes da Codificação e não se esgota em si mesma. Lúcido quanto às verdades que ajudava a descortinar, Allan Kardec sabia que apenas dava os primeiros passos na trilha gloriosa do Espiritismo, uma ciência que nos revela o outro lado da vida - o verdadeiro lado da vida, do qual a existência física é uma pálida cópia.
É um livro, assim, para todas as épocas da Humanidade. As perguntas de Kardec, respondidas pelos Espíritos Superiores, sob a égide do Espírito de Verdade, que outro não é senão o próprio Jesus, dão cumprimento às palavras pronunciadas pelo Mestre de Nazaré pouco antes de perecer no sacrifício da cruz: "Se me pedirdes algo em meu nome, eu o farei. Se me amais, observareis meus mandamentos, e rogarei ao Pai e ele vos dará outro Paráclito, para que convosco permaneça para sempre, o Espírito da Verdade, que o mundo não pode acolher, porque não o vê nem o conhece. Vós o conhecereis, porque permanece convosco. Não vos deixarei órfãos. Eu virei a vós." (João, 14:12-18)

As primeiras questões

Durante algum tempo Kardec ficou embatucado quanto a como iniciar O Livro dos Espíritos, até que, por inspiração, resolveu abordar o princípio das coisas, ou seja, a ideia de Deus e do infinito. Eis as três primeiras perguntas e respectivas respostas:

1 - Que é Deus?
R - Deus é a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas.

2 - O que se pode entender por infinito?
R - Aquilo que não tem começo nem fim: o desconhecido; todo o desconhecido é infinito.

3 - Poderíamos dizer que Deus é o infinito?
R - Definição incompleta. Pobreza da linguagem dos homens, insuficiente para definir as coisas que estão além de sua inteligência.

Essa última questão mereceu de Kardec este comentário: "Deus é infinito em suas perfeições, mas o infinito é uma abstração; dizer que Deus é o infinito é tomar o atributo de uma coisa por ela mesma, definir uma coisa,  ainda não conhecida, por outra que também não o é".

Análise de filme (XIV) - O príncipe do Egito

Francisco Muniz
(publicado originalmente na revista Visão Espírita n.° 13 - Ano II - Abril.1999)

Baseado no livro do Êxodo, na Bíblia, o filme conta a história de Moisés (que em hebraico quer dizer "porque das águas o tirei") desde sua infância: sua vida com o faraó, a fuga depois de matar um homem, o contato mediúnico com o Espírito Jeová (Deus dos hebreus), sua volta para o Egito, as pragas nas terras do Nilo... até o momento em que consegue retirar seu povo do domínio egípcio. Com uma admirável produção visual e um trabalho sonoro muito bem elaborado, o filme, mesmo em desenho animado, torna-se altamente instrutivo para todo aquele pesquisador de assuntos referentes ao Espiritismo. Lembrando que Moisés (o primeiro grande médium da história!) foi autor/instrumento da primeira Revelação para o Ocidente; jesus, da segunda; e os Espíritos, da terceira e última. Garantimos que o filme contribuirá para fixar alguns conceitos bíblicos importantes para a cultura geral de todo espírita.

Análise de filme (XIII) - A vida é bela

Francisco Muniz
(publicado originalmente na revista Visão Espírita n.° 13 - Ano II - Abril.1999)

A perseguição nazista aos judeus, durante a Segunda Guerra Mundial, é o pano de fundo desse filme, que retrata o amor de um homem por sua família, expressado num intenso e inextinguível bom humor. Mostra que a vida tem seus lados de comédia e tragédia, cabendo-nos escolher sermos tristes ou mantermos acesa a chama da alegria que nos identifica com os seres comprometidos com a Consciência Cósmica que nos guia a todos. O bom humor é a receita para conseguirmos ser tolerantes para com os revezes que, por vezes, nos surpreendem em nossa trajetória rumo ao crescimento espiritual, porque nos infunde o otimismo, dando-nos confiança no futuro, certos de que a esperança é a mais profunda expressão da fé que remove montanhas. É imperioso manter o otimismo e o bom humor até mesmo quando somos chamados ao sacrifício de nós mesmos, porquanto não está na Terra a recompensa que nos é devida...

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Um roqueiro no Além - Raul Seixas se comunica?

Francisco Muniz
(publicado originalmente na revista Visão Espírita n.° 13 - Ano 2 - Abril.1999)

Aleister Crowler era um escritor e mago inglês que granjeou certa fama nos primeiros anos do século XX com seus livros de poemas bizarros e sobre magia. Excêntrico, denominava a si mesmo "A Grande Besta" do mundo oculto e fundou uma sociedade secreta dedicada ao que se chamava de "mágica sexual". Sua lua-de-mel, em 1903, foi passada na Câmara do Rei da grande pirâmide do Egito (Gizé). Ele próprio relatou que, ao chegar, com sua mulher, acendera uma vela e começara a ler um encantamento. De repente, uma pálida luz lilás iluminou o aposento, e Crowley continuou a ler, sem a vela. Em 1930, o mago fez uma visita ao escritor português Fernando Pessoa, em Lisboa, dirigindo-se depois à cidade de Cascais, onde "desapareceu misteriosamente" (truque que utilizava para aumentar o interesse sobre si mesmo).
Crowley era um dos ídolos do cantor baiano Raul Seixas, que o cita com om "viva!" na composição "Sociedade alternativa". No início da carreira artística (e durante quase toda a vida), Raul se envolveu com as chamadas ciências ocultas, juntamente com seu parceiro mais habitual, Paulo Coelho, hoje um escritor que faz sucesso com livros que exploram temas esotéricos. Essa "busca da Verdade" fez o cantor enveredar pelos estudos da Bíblia e outros livros sagrados das civilizações orientais, por exemplo, resultando em composições famosas da dupla Seixas-Coelho, como "Gita" e "Eu nasci há dez mil anos atrás".

***

Em outubro de 1998, o médium, escritor e radialista Nelson Moraes publicou o livro Um Roqueiro no Além, ditado pelo Espírito Zílio. O livro, de apenas 104 páginas, retrata as primeiras sensações de Zílio ao retornar à Pátria Espiritual, desde o torpor pós-morte do corpo até o reconhecimento de espíritos amigos e o trabalho benemerente. Até aí, nada haveria de diferente de outras obras do gênero, a não ser por um detalhe: muitos dos que leram o volume, editado pela Speed Art Editora, de São Paulo, reconheceram no autor espiritual a figura do cantor e compositor Raul Seixas, desencarnado em agosto de 1989 - há quase dez anos, portanto. Um Roqueiro no Além vendeu todos os primeiros dez mil exemplares e já foi tirada uma segunda edição. A repercussão tem sido das melhores, diz o autor encarnado, revelando que a atriz Nicole Puzzi tenciona transformar a história de Zílio numa peça de teatro.
De acordo com o relato de Zílio, através de Nelson Moraes, esse Espírito se ressente - uma vez redescobrindo-se desencarnado e devidamente socorrido pelos amigos da Espiritualidade - do comportamento adotado no plano físico. Como o suposto Raul Seixas, Zílio teria desvirtuado sua programação reencarnatória e, mais grave, propiciado a corrupção de muitos jovens através da apologia à transgressão, ao consumo de drogas e ao descompromisso ("Faz o que tu queres, pois é tudo da lei", reza um trecho de Sociedade Alternativa). Seu trabalho na Espiritualidade, então, tem sido, segundo a narrativa do livro, uma tentativa de resgate desses erros, graças à orientação dos amigos reencontrados. "Quase a totalidade das pessoas que leram o referido livro identificaram na figura de Zílio o nosso saudoso Raul Seixas", informa Nelson Moraes, salientando o convite do jornalista Walther Pedro Alvarenga, da Folha Metropolitana (Grande São Paulo). Após identificar Raul como o verdadeiro autor do livro, esse jornal publicou uma reportagem de Alvarenga sobre a obra de Nelson Moraes. O médium conta que diariamente recebe dezenas de telefonemas de leitores que insistem em ter confirmada a identificação de Zílio com Raul Seixas.

Emoções

Nelson afirma que tem ainda recebido diversas manifestações de leitores que se impressionaram positivamente com o livro. Uma mulher, por exemplo, chorou ao telefone enquanto cumprimentava o médium, relatando seu contentamento em saber que Raul Seixas havia se reequilibrado e vai continuar mandando suas mensagens espirituais. Segundo Moraes, essa moça afirmara que passou a ser espírita a partir da leitura de Um Roqueiro no Além. Outro episódio que teria comovido o médium aconteceu numa oficina mecânica, em São Paulo. Nelson foi informado de que um homem, que levara um carro para conserto rápido, fora apresentado a um exemplar do livro, enquanto esperava os reparos. Como se trata de uma obra de fácil leitura, esse homem logo se entreteve e, convencido da importância do trabalho para a formação dos jovens, saiu da oficina decidido a comprar dez exemplares, que distribuiu entre adolescentes.
As mensagens de Zílio começaram a chegar a Nelson Moraes em março de 1998, primeiro como experimentações, que se efetivaram somente no mês de junho. As impressões da aproximação do Espírito, porém, já se faziam sentir desde dois anos antes, segundo o médium. "Quando recebi a informação do Espírito de que juntos deveríamos escrever um livro, eu o reconheci imediatamente, fato que deixou-me bastante preocupado, pois se tratava de alguém famoso", diz Nelson, revelando-se então temeroso, recordando o caso de Humberto de Campos e Chico Xavier. "Esse preocupação", completa, "acompanhou-me durante o período em que realizava o trabalho de psicografia até quando chegamos ao capítulo em que ele (Zílio) retorna à Colônia-Escola e ali foi recebido pelos espíritos amigos e tratado como Zílio, seu nome numa encarnação anterior. Foi quando minhas preocupações se acabaram. Senti que esse era o nome que deveria ser usado como autor do livro".

Esperança

"Nas ilusões da vida encontrei a morte! Na realidade da morte descobri a vida!", teria afirmado Zílio/Raul a Nelson Moraes, que estampou a frase na capa do livro. Em seu relato, Zílio, através de "Felipe", um dos amigos reencontrados no Além, fica sabendo ser um espírito bastante antigo, cuja história remonta á antiga Lemúria, onde, junto com aqueles que o recebiam na colônia espiritual e vários outros, realizava experimentos macabros de invocação de espíritos inferiores. Eis porque citamos, na abertura desta matéria, o ocultista Aleister Crowley.
"No meu entender, quando um espírito esclarecido se manifesta através da mediunidade para a elaboração de um livro, seu principal objetivo é trazer para o plano físico informações que possam ajudar àqueles que ainda estão a caminho", diz Nelson. O médium acrescenta que tais informes, sejam embasados em conhecimentos do espírito ou em experiências adquiridas, têm importância pelo conteúdo e não pelo nome que os subscreve. "De minha parte", esclarece, referindo-se a Um Roqueiro no Além, "devo respeitar a vontade do espírito autor do livro; entretanto, aqueles que o conheceram e eram seus fãs com certeza o identificarão".
Nelson diz esperar que a curiosidade não atrapalhe o leitor a ponto de se perder a essência da mensagem, "que visa principalmente a alertar os jovens com relação aos prejuízos causados pelo uso das drogas". Ele está certo, porém, de que "esse trabalho causará uma grande repercussão, despertando a curiosidade de pais e principalmente de jovens, contribuindo com o autor espiritual, cujo objetivo é advertir a juventude quanto aos males provocados pelos tóxicos e entorpecentes.

Livro pode ir ao teatro

Nelson Moraes está vinculado ao Espiritismo há 30 anos e edita a revista Fé Espírita, em São Paulo. Segundo ele, sua psicografia deslanchou após um encontro que teve com Divaldo Franco, que o aconselhou a dar publicidade a tudo que recebesse da Espiritualidade. Assim veio a público Autistas do Além, que já se encontra em segunda edição. O escritor também é autor de obras não-psicográficas nas quais aborda a moral cristã do ponto de vista dos princípios doutrinários do Espiritismo, como a infanto-juvenil Os talentos do Tonhão e do Luizinho, os contos de Pedaço de estrela, e Profecias - a verdade vinda do Cosmo.
A mais nova produção de Nelson, o romance intitulado Às margens do Evangelho, ainda no prelo, será lançado durante a Bienal do Livro de São Paulo. Também radialista, terapeuta e médium curador, Nelson conta ser possuidor de um magnetismo muito forte, razão pela qual os processos de cura que realiza têm ação imediata. Segundo ele, a própria atriz Nicole Puzzi, que planeja adaptar Um Roqueiro no Além para o teatro, é uma das beneficiárias de sua atividade mediúnica, desenvolvida nas dependências do Centro Espírita Família Cristã, na capital paulista.

Seria realmente Raul Seixas?

Na "Introdução ao estudo da Doutrina Espírita", em O Livro dos Espíritos, Allan Kardec chama a atenção para o fato de que, muitas vezes, espíritos inferiores se apresentam com nomes conhecidos e respeitados, admitindo que o controle da verdadeira identidade do autor da mensagem é bem difícil de se realizar, embora seja possível atentar para certos indícios reveladores da personalidade. Um desses indícios é a linguagem, que geralmente corresponde perfeitamente às características do espírito quando encarnado. No caso do Espírito Zílio, manifestado através de Nelson Moraes, de acordo com o médium o próprio missivista tomou o cuidado de não se revelar como Raul Seixas, mas através das impressões deixadas, principalmente quanto à essência do que ditou, deixou transparecer essa personalidade.
O leitor cético, por certo, não dará qualquer crédito aos relatos contidos em Um Roqueiro no Além, mas aquele que duvida pelo menos ficará curioso e o pesquisador sério analisará todos os aspectos em questão. Na mesma "Introdução...", Kardec cita que "se, pois, a identidade do Espírito evocado pode ser, até certo ponto, estabelecida em alguns casos, não há razão para que ela não o possa ser em outros. E se para as pessoas de morte mais remota não temos os mesmos meios de controle, dispomos sempre daqueles que se referem à linguagem e ao caráter. Porque, seguramente, o Espírito de um homem de bem nunca falará como o de um perverso ou debochado". Mais adiante o Codificador, sempre ponderado, afirma: "O nome pelo qual (um espírito) se apresenta é indiferente, e nada mais é, frequentemente, do que um meio para a fixação de nossas ideias". O que importa, segundo o mestre lionês, é o caráter da mensagem - se o espírito comunicante diz coisas boas, certamente é um espírito bom e não importará que nome tenha.

***

"Sou contra endeusarem Raul"

Esta entrevista com a a mãe do cantor e compositor baiano Raul Seixas, D. Maria Eugênia Seixas, foi realizada no final dos anos 1990 para a revista Visão Espírita, a propósito da repercussão alcançada pelo livro Um Roqueiro no Além, ditado ao médium psicógrafo Nelson Moraes, de São Paulo, pelo Espírito Zílio, identificado por muita gente com o autor de "Ouro de tolo".

Quando a Sra. leu o livro "Um roqueiro no Além", que sensação teve?
Eu gostei imensamente e achei que tinha ali, realmente, muita coisa característica do Raul, muita coisa que podia ser ele mesmo falando. O mais interessante é que muita coisa dita ali nunca tinha sido publicada. Eu recebi dois exemplares do livro: um, do fã-clube do Raul em São Paulo, e, o outro, do autor, Nelson Moraes, com uma dedicatória muito gentil. O do Nelson veio primeiro e o li com mita alegria. Quando chegou o segundo, eu reli a história.

Então a Sra. reconheceu Raul naquela história.
É como disse: muita coisa que está ali é muito característica dele, do Raul.

A Sra. tinha, antes, alguma noção de vida após a morte ou esse tipo de relato causou alguma surpresa?
Eu sou uma pessoa já idosa. Já tenho muita vivência, já ouvi falar muito sobre essas coisas. Não condeno ninguém. Acho que não há o que falar. Ao meu ver, o que vale é a fé naquilo que você acredita e professa. Senão, o que seria dos japoneses e chineses, que acreditam em Buda e COnfúcio? Ia tudo para o inferno...

E quanto à história do livro, ao fato de Raul já estar adaptado? Como recebeu isso?
Adaptado a quê?

À nova realidade.
À realidade em que ele está hoje. Acredito. Às vezes, fico pensando comigo: será que essas manifestações todas que fazem para Raulzito não o perturbam, ele que está lá, quieto, sossegado, na outra vida? O pessoal fica a fazer essa euforia toda, fazendo dele um deus... eu sou contra isso. Mas não posso falar, não posso divulgar isso em revistas comuns, dizer às pessoas que endeusam Raul que eu sou contra isso. Acho que tais manifestações têm muito de exagero, capaz de perturbar o pobre do espírito que está lá, coitado, sossegado, que deve ter, pelo tempo, já deve ter pago os pecados cometidos aqui.

A Sra. se recorda, na história do livro, da perturbação de que diz ter sofrido após o desenlace?
É lógico! Ele foi um pecador como todos nós e talvez um pouquinho mais. Não sei se devemos dizer assim... Ele saiu um pouco das normas de nossa sociedade atual. Ele ultrapassou, fez coisas erradas, na nossa concepção, mas, para um artista... Eu penso que um artista tem o espírito, a alma muito sensível, à flor da pele. Qualquer coisa, para ele, é mais do que para nós. Você vê na história dos compositores clássicos - Strauss, Schubert, Chopin, essa cambada velha, antiga -, todos eles tiveram problemas com a sociedade, com reis, impérios... foram presos... há tanta história sobre eles... Com Raul foi a mesma coisa. É tudo a mesma coisa. Eu, uma vez, falei com ele sobre isso e disse assim: por que você está parado aí, olhando aquela cadeira? Ele disse: "Não, estou estudando como é aquele pé". Uma bobagem, né? Para  nós, uma bobagem; para ele, é muita coisa. Ele era um artista, nsceu com esse dom e nisso eu creio. Porque o acompanhei desde menino, desde quando ele começou a se entender como gente. Com seus sete, oito anos, ele gastava inúmeros cadernos fazendo histórias e, sabido como era, vendia ao irmão mais novo.

O Raul tinha uma inclinação muito forte para as coisas ocultas. A Sra. percebia isso nele?
Ele dizia muitas vezes... ele falava muito assim: cada um de nós tem um deus em seu coração, que cada um pensasse da forma como quisesse - tudo valia. Não tem aquela música que ele fez, que diz que vale tudo? (Ela se refere à composição "Sociedade alternativa", feita por Raul em parceria com Paulo Coelho.)

Como a Sra. vê as manifestações espirituais?
Acredito, elas existem, realmente, têm que existir, porque a própria religião católica é, de certa forma, espírita, porque Deus é espírito. Os santos - por que acreditam nos santos? As almas que andaram aqui no mundo, que fizeram algum benefícios... todos eles são espíritos.

Então, para a Sra. não é nenhuma fantasia o relato do livro.
Não, não... eu já tenho muita vivência. Setenta e oito anos são um caminho comprido.

Raul está completando agora 10 anos de desencarnado. Alguma vez a Sra. sentiu a "presença" dele aqui [a entrevista foi realizada na casa de D. Maria Eugênia, em Salvador]?
Sempre, mas no sonho. Eu sonho muito com ele e são sonhos muito nítidos, muito perfeitos: com Raul, com meu marido, também chamado Raul (igualmente desencarnado), minha mãe... eu só posso sonhar com gente do passado, né?

Como são esses sonhos com Raul?
Agradáveis. Em geral, eu sonho com eles lá em nossa chácara (na cidade de Dias D´Ávila), onde Raul gostava muito de ir. Quando ele vinha a Salvador e queria fugir do assédio da mídia, pedia logo para ir para a chácara. Os sonhos, então, são diversos, diferentes, mas muito nítidos.

A Sra. já sabe que Nelson Moraes está recebendo novas mensagens do Raul/Zílio? Qual sua expectativa quanto a elas?
Nelson me falou qualquer coisa a esse respeito. Espero que sejam mensagens agradáveis. Ele, Nelson, falou que o Raul disse, no livro, que eu ia ficar doente, qualquer coisa assim. E, realmente, agora, de dois anos pra cá, estou diabética e tive uma isquemia cardíaca. Por isso não viajo mais, para não me arriscar fora da Bahia.

Espera reencontrar Raul um dia?
Gostaria, e são só a ele, mas a meu marido, minha mãe, meu pessoal todo, todos os meus entes queridos.

"Esse jogo não pode ser 1 x 1"

Francisco Muniz
(publicado originalmente na revista Visão Espírita n.° 3 - Ano I - Junho.1998)

A cada quatro anos o panorama esportivo da Terra vibra com a realização da Copa do Mundo de Futebol, maior evento do gênero nessa modalidade em todo o planeta. Nessas ocasiões, as pessoas, principalmente as que se deixam entusiasmar pela performance de cada seleção nacional, formam uma "corrente-pra-frente" e não raro se deixam contagiar pelo fanatismo próprio das torcidas. Frequentemente esse fanatismo - que nada mais é senão a paixão exacerbada e, assim, mal direcionada - descamba para a violência, dando vazão a atos de vandalismo e outros de natureza extrema, como as brigas entre grupos rivais, algumas até seguidas de morte. Se se trata de uma emoção mais contida, entretanto, provoca às vezes anomalias na saúde do torcedor, chegando até mesmo a ocasionar mortes por infartos fulminantes, tal é o afã com que o amante do esporte se entrega à torcida.
A música de Jackson do pandeiro cujo primeiro verso dá título a esta matéria ilustra bem essa paixão, principalmente entre os brasileiros. Temos fama de ser os maiores em tudo, inclusive no fan atismo pelo futebol, por que não? Talvez percamos em violência para os hooligans, torcedores ingleses que promovem, à custa de embriaguez, muita baderna após cada jogo, geralmente nos países europeus onde os times da Inglaterra tenham de disputar campeonatos. Recentemente, as autoridades policiais da Europa têm usado de bastante rigor para conter os atos de vandalismo e violência gratuita dos hooligans, o que arrefeceu um pouco o ânimo desses torcedores. Voltando à música de Jackson do pandeiro, ela se completa deste jeito: "Esse jogo não pode ser um a um / se meu tipe perder tem zum-zum-zum". Os mais exaltados, como de se esperar, passaram a cantá-la com uma alteração, tão sutil quanto um elefante: em vez do "tem zum-zum-zum", introduziram o "eu mato um". Coisas do fanatismo.

Furor canarinho

Há algum tempo, um choque entre torcedores rivais na final de um campeonato regional em São Paulo provocou a morte de um adolescente, em meio a uma terrível batalha campal mostrada pra todo o Brasil pela TV, resultando na suspensão temporária das atividades das torcidas uniformizadas. Isso pouco resolveu. Ainda hoje torcedores costumam apedrejar ônibus de clubes rivais e atacar seus contrários. Muitos homicídios têm acontecido por esse motivo fútil. Determinado torcedor é alvejado com um tido apenas por vestir a camisa de um time detestado pelo autor do disparo. E assim os cemitérios vão se enchendo, embora as prisões não acompanhem a mesma proporção, apenas porque em geral os criminosos são réus primários e como tal têm direito a certas regalias por parte da justiça humana.
Durante os jogos da Seleção Brasileira na Copa do Mundo, os torcedores ficam ainda mais fanáticos, ao ponto de esquecerem o bom senso e a razão, adotando um comportamento que muitas vezes beira a loucura. As pessoas ficam tão ligadas à performance de certos jogadores, depositando neles toda uma esperança, ficam em tal estado emotivo que, ao verem frustrada sua expectativa (quando da perda de um pênalti, por exemplo), sucumbem ante um ataque cardíaco. Contam os mais velhos que, em 1950, muitos torcedores cometeram suicídio em pleno Maracanã devido á derrota do Brasil para a seleção do Uruguai. A conquista da Taça Jules Rimet, no México, durante a Copa de 1970, também provocou mortes, dessa vez por alegria exagerada.

Pão e circo

Tem sido assim, porém, desde que na antiga Roma as autoridades de plantão ofereciam pão e circo para conter o fastio e as ameaças de revolta por parte da população do império, em sua maioria pessoas escravizadas em todas as terras conquistadas pelos soldados dos césares. Quando o Cristianismo ainda se ensaiava no planeta como doutrina libertadora de mentes e corações, já o império romano mandava e desmandava no mundo até então conhecido. Era a maior potência político-econômica da época e, como tal, convivia com problemas intestinos de grande monta. O tédio provocado pela riqueza fácil entre os nobres patrícios (a classe dominante) exigia prazeres cada vez mais excitantes até que os espetáculos sangrentos foram instituídos, principalmente a partir da perseguição aos cristãos.
Somos sempre o que fomos, ensina-nos a Doutrina Espírita. As ações do passado regem e regulam os acontecimentos do presente e constantemente colhemos os frutos do que plantamos em existências passadas. Reencarnamos, contudo, com o assumido propósito de trabalhar por nosso progresso moral e intelectual, de modo a aumentarmos a compreensão quanto ás leis de Deus. O problema é que esquecemos esse compromisso e assim temos de "refazer" nosso aprendizado. Se nossa força de vontade não é capaz de corrigir nossas tendências no caminho da auto-estima, se por nosso livre-arbítrio nos mantemos presos a conceitos antigos que a memória inconsciente sinaliza, fatalmente voltamos a falir em nossas provas.

"Aparição" gera polêmica


Francisco Muniz
(publicado originalmente na revista Visão Espírita n.° 3 - Ano I - Junho.1998)

Poucas vezes se fez tanto rebuliço no País por causa de uma fotografia. Uma simples foto de qualidade duvidosa, tirada num show musical no interior de São Paulo, mobilizou a produção de dois dos programas dominicais mais populares do Brasil. O "Domingão do Faustão", da Rede Globo, e o "Domingo Legal", do SBT, abriram espaço, no penúltimo domingo de maio (de 1998) para comentar o episódio: o cantor João Paulo, desencarnado no ano de 1997 vítima de um acidente automobilístico, teria aparecido em espírito durante a apresentação de seu parceiro, Daniel. A foto foi feita por uma jovem fã de 16 anos e publicada, com a devida ênfase do sensacionalismo, num jornal de Bauru, São Paulo.
Fauso Silva entrevistou a autora da fotografia e um fotógrafo profissional, e pediu análise técnica da foto a um perito do Instituto de Criminalística de São Paulo. De quebra, consultou também um "especialista" em Espiritismo, no caso, o escritor paulista Richard Simonetti, colaborador da Visão Espírita. Por seu lado, Gugu Liberato ouviu também fotógrafos, parentes do Espírito João Paulo, o editor do jornal que primeiro publicou a foto, um parapsicólogo e a vice-presidente da Federação Espírita de São Paulo, Ombretta Gori Sacco. Tentou, ainda, obter a opinião do cantor Daniel sobre a ocorrência, mas o artista recusou-se a comentários. Também o Espírito Dr. Fritz, incorporado no médium Rubens Farias, foi requisitado.
Mas teria o Espírito João Paulo realmente comparecido ao show de seu antigo parceiro? A menina que fez a foto teve essa impressão e estava bem segura de que era do cantor desencarnado a imagem que aparece ao lado de Daniel. Ela inclusive revelou grande emoção por se julgar instrumento dessa "aparição". Os técnicos, tanto os fotógrafos quanto o perito criminalista, contudo, negaram qualquer fenômeno sobrenatural operado na fotografia, referindo-se a efeitos tão comuns como a refração da luz, o simples fato de ser uma foto tremida ou uma superposição da mesma imagem. Ou seja, o que se pensava inicialmente poderia muito bem ser apenas uma ilusão de ótica.

Prudência

Os próprios espíritas entrevistados, tanto no "Domingão do Faustão" (Simonetti) quanto no "Domingo Legal" (Ombretta), foram bastante cuidadosos ao emitir opinião, lamentando a pouca nitidez da fotografia. Entretanto, ambos afirmaram que o fato pode acontecer, como já aconteceu várias vezes antes, de forma natural ou provocada, por meio de experiências científicas. Mas se Faustão quis dar um tom sensacionalista ao que chamou de "edição extraordinária" de seu programa, Gugu teve o bom senso de exibir filmes que confirmam a possibilidade de os espíritos serem fotografados.
Um dos filmes, um vídeo doméstico realizado no Brasil, mostra a aparição de um espírito na missa comemorativa do aniversário de sua avó mandada celebrar pela família. Nesse caso, o espírito se movimenta de um lado a outro da igreja, toda ocupada por encarnados, e faz-se acompanhar por outra entidade, que a família acredita ser o anjo da guarda, ou espírito protetor do aparecido. O outro filme é uma superprodução de Hollywood, "Três solteirões e um bebê", onde numa das cenas aparece um garoto que não fazia parte do elenco ou da equipe de filmagem. Esse menino fora reconhecido pela própria mãe. Emocionada, ela informara que seu filho havia desencarnado três anos antes da realização da película, filmada no edifício onde residiam.
É claro, isso só acontece pela vontade deles, a partir de uma permissão superior, por uma razão particular qualquer. Geralmente é para fazer com que certos incrédulos tenham resposta para suas indagações, a título de consolo e, ao mesmo tempo, esclarecimento. Seja como for, ninguém poderia dizer com certeza se a imagem naquela fotografia, na qual a fã adolescente pretendia somente registar a performance de Daniel, seria a do parceiro desencarnado. Mas, se fosse, seria apenas mais uma das tantas provas da imortalidade dos espíritos e de sua participação contínua na vida dos homens.

Depoimento

"Está mais para João paulo que para Daniel." Foi o comentário que fiz - relata o escritor Richard Simonetti em carta à revista - na segunda intervenção no "Domingão do Faustão", quando ele perguntou minha opinião, diante do parecer de um técnico, que afirmava ser o próprio Daniel quem aparece em imagem dupla, na foto feita por uma fã, em seu show na cidade de Lençóis Paulista. O público presente, em unanimidade, concordou comigo. Qualquer pessoa que examine a foto com isenção terá essa percepção.
Fica ao técnico a tarefa de explicar como uma falha da câmara fotográfica pode gerar a imagem de alguém que morreu, "por acaso" o companheiro pranteado do cantor remanescente da dupla. Eu diria que é o próprio João Paulo quem ali se apresenta, dando-nos um glorioso testemunho de imortalidade.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Viagra - A sensação do momento

Francisco Muniz
(publicado originalmente na revista Visão Espírita n.° 3 - Ano I - Junho.1998)

O afã com que as pessoas se atiram ao sexo, tentando tirar todo proveito imaginável (e para a imaginação não há limites!), provoca distúrbios capazes de desestruturar várias vidas.

No mês de junho de 1998 as farmácias brasileiras começaram a comercializar livremente a mais nova (até então) esperança dos que sofrem de impotência. Mas, mal foi anunciado para o mundo, o Viagra, o remédio que promete curar a impotência masculina, já tinha seu consumo elevado tanto nos Estados Unidos, onde foi lançado inicialmente, como em outros países, inclusive no Brasil. Só que aqui ele estava chegando tanto pela importação direta quanto através do Paraguai, quer dizer, pelo contrabando. Os preços, então, foram à estratosfera. Duas semanas após o anúncio do lançamento, pela TV, já a imprensa salientava que importadores de São Paulo ofereciam o produto por nada módicos R$600,00.
para se ter uma ideia da paranoia que acometeu os homens em função do Viagra, uma charge num jornal norte-americano, republicada pela revista Veja, ilustrava a correria em direção à nova droga, sexual: o desenhista mostrava duas filas; uma, só de mulheres em frente a um cinema que exibia o filme "Titanic"; a outra, só de homens diante de uma farmácia onde um cartaz dizia "já temos o Viagra".
O medicamento é indicado para homens com problemas de impotência, isto é, com dificuldades de ereção. É um problema sério principalmente entre casais, responsável muitas vezes pelo fim de vários casamentos. Nesse aspecto, o aparecimento do Viagra deve ser louvado. Entretanto, da forma como sua eficácia está sendo propalada, faz muita gente crer se tratar de mais um afrodisíaco, um produto que proporcione um melhor desempenho masculino nas relações sexuais.
Só que as coisas não são bem o que parecem e as pessoas geralmente não costumam avaliar o que têm à frente e assim vão com muita sede ao pote. Na noite do dia 22 de maio (de 1998) o Jornal Nacional informava acerca da morte, nos Estados Unidos (onde há 20 milhões de vítimas da impotência), de seis homens que tinham usado o Viagra. Todos eram portadores de cardiopatias e não atentaram para as recomendações contidas na bula do remédio, que nesses seis caos agiu como veneno. De acordo com as observações médicas, o Viagra é contraindicado para pessoas com problemas coronarianos, porque reduz bruscamente a pressão arterial. Mas a pretensão de fazer bonito junto às mulheres parece falar mais alto, para alguns incautos...

Loucura

Em suas obras, dentre as quais Sexo e Destino, o Espírito André Luiz, pela mediunidade de Chico Xavier, chama a atenção para os desregramentos sexuais, referindo-se à ignorância quanto ao comportamento perante o sexo como uma das maiores causas de loucura entre homens e mulheres. "Milhões de almas são dilaceradas todos os dias pelas angústias sexuais", informa o amigo espiritual.
Num capítulo do livro Família e Espiritismo (Edições USE, vários autores), Maria Aparecida Valente cita André Luiz ao afirmar que são duas as funções do sexo na espécie humana: "a) reprodução da espécie; b) permuta de energias perispirituais com vistas à formação de estímulos que incentivem o trabalho, à associação e às realizações entre as almas". O sexo hedonista, destinado exclusivamente ao prazer, é, pois, pura invenção humana.
O afã com que as pessoas se atiram ao sexo, tentando tirar topo proveito imaginável (e para a imaginação não há limites!), provoca distúrbios capazes de desestruturar toda uma vida e comprometer muitas outras. No início de maio (1998), a imprensa noticiou um fato estarrecedor: 37 milhões de adolescentes de 11 a 13 anos engravidaram no Brasil em 1997, segundo dados fornecidos pelo cientista baiano Elsimar Coutinho; na maioria a gravidez dessas meninas mal saídas da infância foi causada por estupro, muitos cometidos pelos próprios pais.
Isso dá o que pensar. Não se conhece o índice oficial brasileiros relativo aos casos de impotência, mas, a partir dos dados norte-americanos, pode-se imaginar que por aqui também haja muitos milhares de homens nessa situação. O Espiritismo, ao nos esclarecer quanto à Lei de Causa e Efeito, salienta que, pela reencarnação, os espíritos se submetem a constantes períodos de reeducação. E sendo o sexo uma força energética também estimulante desse processo educacional, compete aos seres utilizarem-na pra fins sempre dignos. Se tal não acontece, o homem arcará com as consequências de seus atos e desse modo fica fácil compreender por que há, então, tantas vítimas da impotência.

Palavras de um especialista

Segundo o médico mineiro Ricardo Cavalcanti, sexólogo dos mais respeitados no País àquela época, a impotência pode ter causas orgânicas e psicológicas. Dentre estas últimas, a mais comum é o medo de desempenho, isto é, o homem que ocasionalmente não conseguiu levar a termo uma relação sexual teme repetir a performance nas tentativas seguintes e começa a se observar. Com isso, ele perde a naturalidade e as tentativas tendem a provocar falhas cada vez mais constantes, configurando a impotência. Entre as causas orgânicas, Cavalcanti cita doenças como diabetes e hipotireoidismo, el´me de hábitos perniciosos como o uso de drogas, inclusive bebidas alcoólicas e fumo.
Comentando o quanto a impotência afeta os homens psicologicamente, Ricardo Cavalcanti revelou que esse fato algumas vezes leva ao suicídio, porque, ao contrário das mulheres, que não se matam por não alcançarem o orgasmo, clímax da relação sexual, os homens são capazes de pular do último andar de um edifício alto após um desempenho insatisfatório. Ainda de acordo com o sexólogo, não será o Viagra que vai resolver o problema na totalidade, posto que esse remédio só tem eficácia em cerca de 60% dos casos de impotência. Além do Viagra, os homens impotentes podem contar com alternativas aprovadas pela medicina, como as próteses penianas e outros estimuladores da ereção.

Provas da existência de Deus

Francisco Muniz
(publicado originalmente na revista Visão Espírita n.° 15 - Ano II - 1999)

Questão 4 de O Livro dos Espíritos: Onde se pode encontrar a prova da existência de Deus? A esta pergunta de Allan Kardec os Espíritos Superiores indicam que essa prova está "num axioma que aplicais às vossas ciências: não há efeito sem causa. Procurai a causa de tudo o que não é obra do Homem, e vossa razão vos responderá". Em complemento à resposta da Espiritualidade, o Codificador ressalta que "para crer em Deus, é suficiente lançar os olhos às obras da criação. O universo existe; ele tem, portanto, uma causa. Duvidar da existência de Deus seria negar que todo efeito tem uma causa, e afiançar que o nada pode fazer alguma coisa".
Com efeito, aprendemos, desde crianças, que Deus está presente em tudo, desde o vírus até a mais íngreme e elevada montanha, do grão de areia à mais distante estrela; Deus está foram manifestando-se em todos os aspectos da natureza, quanto dentro do homem, único ser pensante que pode concebê-lo. Parafraseando Descartes, poderíamos dizer assim: "sou, logo Deus existe". Ora, uma das maiores, senão a maior prova da existência de Deus é a própria inteligência humana, como pondera Léon Denis em O Grande Enigma. Ali, Denis argumenta que, se a inteligência existe no homem, deve encontrar-se nesse Universo de que faz parte integrante, posto que o que existe na parte deve encontrar-se no todo.
"Entretanto, a inteligência humana não é, por si só, sua própria causa. Se o homem fosse sua própria causa, poderia manter e conservar o poder da vida que está em si; mas, em verdade, esse poder, sujeito a variações, a desfalecimentos, excede a vontade humana", diz ainda Léon Denis em O Grande Enigma. Com isso o grande pensador do Espiritismo alude à grande inteligência que governa os mundos, entretendo as forças vitais que movem e modificam a matéria, através de leis perfeitas e imutáveis. "Todas a pesquisas, todos os trabalhos da ciência contemporânea, concorrem para demonstrar a ação das leis naturais, que uma Lei suprema liga, abraça, para constituir a universal harmonia. Por essa lei, uma inteligência soberana se revela a razão mesma das coisas..."
Essa inteligência soberana é Deus, "Razão consciente, Unidade universal para onde convergem, ligando-se e fundindo-se, todas as relações, onde todos os seres vêm haurir a força a luz e a vida; Ser absoluto e perfeito, fundamentalmente imutável e fonte eterna de toda a ciência, de toda a verdade, de toda a sabedoria, de todo o amor". E o mesmo Denis nos lembra que, em nossos momentos mais dolorosos, em todos os tempos e em todos os meios, nós elevamos nossas queixas a esse Espírito divino: "É a Ti, ó Potência Suprema! Qualquer que seja o nome que te deem e por mais imperfeitamente que sejais compreendida; é a ti, fonte eterna da vida, da beleza, da harmonia, que se elevam nossas aspirações, nossa confiança, nosso amor".
"A linguagem humana é, entretanto, impotente para exprimir a ideia doer infinito", ressalta o autor de O Problema do Ser, do Destino e da Dor, que nos exorta: "Não procures Deus nos templos de pedra e de mármore, ó homem que o queres conhecer, e sim no templo eterno da natureza, no espetáculo dos mundos a percorrer o infinito, nos esplendores da vida que se expande em sua superfície, na vista dos horizontes variados (...) Deus está, assim, em cada um de nós, no templo vivo da consciência. É aquele o lugar sagrado, o santuário em que se encontra a divina centelha".

domingo, 23 de dezembro de 2012

Análise de filme (XII) - A Invasão

Francisco Muniz
(publicado originalmente na revista Visão Espírita n.° 15 - Ano II - 1999)

À semelhança de "Contato", já comentado nesta página, este filme trata da ansiedade que o homem tem de encontrar vestígios ou confirmação de vida em outros mundos - e também do medo de que tais seres sejam belicosos. Esse medo se explica pela própria tendência da humanidade terrestre (há outras humanidades no Universo!), que tenta interpretar o desconhecido através de si mesma. Assim é que comumente os prováveis seres de outros planetas são apresentados hostis, com aparência monstruosa e interessados em tomar a Terra, porque, supostamente mais inteligentes que nós, entenderiam que não cuidamos direito do mundo que habitamos e por isso não merecemos viver nele. Afinal, poluímos nosso ambiente, destruímo-nos uns aos outros, demonstrando que utilizamos mal nossa inteligência.
É inegável que a curiosidade e o fascínio que as estrelas despertam no homem têm impulsionado em muito o progresso material da Humanidade, embora muitos recursos estejam sendo empregados de certo modo inutilmente. Muitos já disseram que se os bilhões de dólares gastos na corrida espacial fossem aplicados no combate à pobreza possivelmente erradicaríamos a fome no mundo; que se os homens se voltassem para dentro de si mesmos certamente descobririam os seres e mundos maravilhosos que tanto buscam e tanto temem.
Quando isso finalmente acontecer, generalizadamente, com certeza experimentaremos a mais incrível das invasões: a do amor em nós, a do reino de Deus, que então já será deste mundo, como propõe o Cristo desde há dois mil anos...

Análise de filme (XI) - A educação de Árvore Pequena

Francisco Muniz
(publicado originalmente na revista Visão Espírita n.° 15 - Ano II - 1999)

Um menino mestiço órfão vai viver, em meados dos anos 30 do século XX, com os avós, que se incumbem de lhe dar educação baseada nos costumes indígenas dos Cherokees. À beleza da paisagem do noroeste dos Estados Unidos soma-se a dos conceitos educativos, lastreados na observação da Natureza e na elevação dos sentimentos humanos. Mais que tudo, vê-se o quanto os povos considerados primitivos, como os indígenas, ainda são possuidores de um conhecimento universal, segundo o qual o espírito está integrado a tudo que existe e não pode ferir nem mesmo um galho de árvore porque sofrerá as consequências de seus atos.
O Espiritismo nos esclarece essas questões, mostrando que somos parte importante na obra da Criação, com a responsabilidade, como co-criadores, de ajudar na manutenção e desenvolvimento dessa obra. Há um trecho, no filme, em que o menino, cujo nome é Árvore Pequena, é tirado de seus avós e mandado para uma escola do governo, administrada segundo os critérios da "civilização". Lá, ele perde seu nome índio e impõem-lhe outro, mas o tratamento recebido é tão contrário à educação que os avós lhe proporcionaram que o menino se vale do "correio das estrelas" e o avô vai buscá-lo de volta.
Essa passagem metaforiza o esquecimento que o espírito experimenta de suas vidas passadas e, reencarnado, tem que se esforçar para recuperar o contato com sua essência, recordando e fazendo prevalecer sua herança divina...

sábado, 22 de dezembro de 2012

Divulgação doutrinária

A divulgação do Espiritismo não é tarefa das mais fáceis, Não basta apenas que nos disponhamos a falar da excelência que é a Doutrina dos Espíritos; não basta que levemos a quantos a necessitem ou queiram recebê-la a mensagem de console e esclarecimento que o próprio Jesus no-la transmite, através de abnegados companheiros da Espiritualidade.
É preciso, principalmente, que tenhamos em nós a consciência de poder e saber transmitir esse conhecimento, vivenciando-o primeiro, acreditando em sua importância, para que estejamos convictos do que estamos dizendo ou fazendo. Para tanto, faz-se imprescindível estudarmos a Ciência e aprofundar-nos na Filosofia que Allan Kardec teve o mérito de codificar, há quase 150 anos.
Se apenas tratamos de ciência e filosofia superficialmente, pode ser que este ou aquele ouvinte ou leitor tenha algum proveito, mas grande parte deles experimentará uma certa frustração porque certamente espera muito mais de nós. Afinal, com todo progresso que tem havido no mundo, é inconcebível que nos mantenhamos no nível de um pré-escolar, em termos de Doutrina Espírita.
Como o próprio Kardec nos esclarece, o Espiritismo deverá acompanhar o desenvolvimento da ciência. Isso quer dizer que os espíritas, precisamente os envolvidos no trabalho de levar adiante as notícias que dizem respeito à Era do Espírito, necessitam estar bem informados dos avanços científicos tanto quanto fartamente embasados quanto aos princípios doutrinários

Análise de filme (X) - Star Wars (Guerra nas estrelas)

Francisco Muniz
(publicado originalmente na revista Visão Espírita n.° 8 - Ano I - Novembro.1998)

Baseado numa história oriental, o realizado George Lucas levou ao cinema um dos mais espetaculares filmes de todos os tempos. Reeditado com mais efeitos no ano passado (1997), Star Wars lega-nos uma mensagem filosófica segundo a qual a vontade de progresso e a liberdade deve prevalecer sempre. Pela ótica espírita, poderíamos interpretar assim: Luke Skywalker, o jovem "jedi" (espécie de sacerdote com faculdades mediúnicas), utiliza a Força (Deus) para poder libertar seu povo do domínio do Império (os vícios e impulsos atrasados nossos) dirigido por seu pai (os defeitos adquiridos em existências anteriores). Para isso deverá passar por muitas provas em lugares diversos (rteencarnação em muitos mundos no plano evolutivo), terá dificuldades e desenvolverá seus poderes telepáticos, intuitivos e telecinésicos (faculdades mediúnicas e psíquicas). Mesmo em momentos de desespero ele ouvirá a voz de seus mestres já desencarnados (ajuda espiritual); com sua espada enfrentará seu pai ao final do filme (com a arma da justiça terá equilíbrio para vencer as imperfeições); logrará vencer, libertar seu povo e encontrará seus mestres (mudança de homem velho em homem novo, libertação dos atavismos da matéria e reencontro com os guias espirituais). Por essa ótica o filme se tornará mais proveitoso quanto a ensinamento e reflexão.

Análise de filme (IX) - Gasparzinho

Francisco Muniz
(publicado originalmente na revista Visão Espírita n.° 8 - Ano I - Novembro.1998)

Dos quadrinhos para a TV e logo para a tela grande. Desenho animado que cativou gerações, o "fantasminha camarada" nos mostra, com os avanços tecnológicos em efeitos especiais, as experiências e realidades de um espírito no seu contato com o mundo material. Possivelmente seja um dos filmes que melhor nos ilustre as inúmeras possibilidades de interação dos espíritos conosco, e as propriedades do perispírito (corpo espiritual), esclarecendo-nos uma multidão de dúvidas a respeito da natureza dos seres do Além. Exemplo: Gasparzinho e seus tios (espíritos brincalhões) se encaixam nos ensinos espíritas de que ninguém perde sua individualidade após a morte e nem muda de comportamento e hábitos com a perda do corpo físico. Visualização dos espíritos com a aparência de sua última encarnação, materialização momentânea noturna (ectoplasma suscetível à luz) de Gasparzinho, além da vidência dos donos da casa, também dos outros meninos na cena da festa. Aparição do espírito da mãe de Kathy, com aura radiante, mostrando um nível de espiritualidade maior (ver escala espírita em O Livro dos Espíritos). Vale a pena lembrar também que os sentimentos traspassam as fronteiras da vida e mesmo em crianças o amor é o que nos une e nos inspira a sermos melhores a cada dia.

Uma certa encíclica papal

Francisco Muniz
(publicado originalmente na revista Espírita n.° 8 - Ano I - Novembro de 1998)

Ao completar 20 anos de pontificado (em 1998), o papa João Paulo II, então líder de uma das maiores correntes religiosas do planeta, lançou uma encíclica que aproximou ainda mais o pensamento católico dos postulados do Espiritismo.

O Espírito foi criado simples e ignorante e recebeu do Criador as armas (recursos) necessárias para seu enriquecimento íntimo. Com a inteligência e o livre-arbítrio o homem pode fazer escolhas que lhe dão alegrias ou dores, e à medida que ele adquire conhecimentos proporciona-se alegrias, ao passo que quanto mais se submete aos rigores da ignorância, mais dores coleciona. O pior inimigo do homem, pois, é a ignorância, defeito que deve ser superado com todas as forças, se ele quer atingir o melhoramento moral e intelectual. Não é outro o ensinamento do Espiritismo, que propõe a renovação espiritual do homem através da educação, significando a transformação de valores morais que objetivem a superação das imperfeições humanas.
Consciente de que é um ser inteligente criado, o Espírito demonstra, por isso, a fé no ente criador; e pela razão, produto de sua inteligência, questiona todas as implicações decorrentes dessa criação. A razão e a fé, assim, são dois instrumentos da elevação espiritual e não podem andar dissociadas, posto que uma complementa a outra, fortalecendo-se ambas mutuamente. "Fé inabalável", já dizia Allan Kardec, "só é aquela que consegue encarar a razão em todas as épocas da Humanidade". O Codificador reportava-se naturalmente aos conhecimentos que o homem adquire pela ciência e pela religião, as duas vertentes do saber humano que tanto cativam os filósofos.
Não surpreende, portanto, que o papa João Paulo II tenha se debruçado, agora, sobre a fé e a razão para consubstanciar sua nova encíclica, a 13.ª de seu pontificado, o mais duradouro deste século (o XX). No texto de sua encíclica, João Paulo II faz uma defesa da filosofia, da fé e da razão contra o irracionalismo e o pensamento sem embasamento científico. Segundo o documento, que representa "uma posição firma da Igreja diante do perigoso vazio de ideais da sociedade moderna", a intenção do líder católico é oferecer um ponto de diálogo entre crentes e ateus que buscam as mesmas respostas fundamentais da vida, tais como estas: de onde viemos? quem somos? o que acontece após a morte? São questões há muito respondidas pelo Espiritismo, que veio inaugurar, há mais de 140 anos, com Kardec, uma nova era para a humanidade - a era do espírito.
"A razão e a fé se  empobreceram e tornaram-se fracas uma diante da outra", relata João Paulo II, referindo-se aos tempos atuais, complementando: "A razão curvou-se sobre si própria tornando-se aos poucos incapaz de levantar os olhos para o alto e ousar a conquista da verdade do ser". Dessa incapacidade surgiram as várias formas de agnosticismo e relativismo que fizeram com que a pesquisa filosófica se perdesse num ceticismo generalizado, ressalta o papa. Mas, dizemos nós, tal só ocorreu porque os pensadores elegeram o materialismo como regra filosófica, desprezando o componente transcendental do saber humano, a despeito da inclinação dos homens para a religiosidade.
Somente a fé - que é algo instintivo - não é capaz de tornar o homem apto a compreender sua herança divina, tanto quanto exclusivamente a razão é insuficiente para nos dar a percepção de quem somos verdadeiramente. Se nos pautarmos apenas pela fé, cegamente, corremos o risco de nos perdermos pelo fanatismo, porque "a fé cega impõe ao homem que abdique da própria razão", ainda no entender de Kardec, para quem o Espiritismo considera sem raiz toda fé imposta. Por outro lado, o uso exclusivo da razão faz-nos cair no abismo do ceticismo, jardim da cultura materialista.
A fé, assim, deve ser inteligentemente vivenciada, o que significa fazer esforços razoáveis no sentido de se compreender as duas naturezas do homem, a material e a espiritual. Isso é o que o papa João Paulo II adverte ao dizer em sua encíclica que a filosofia é "o caminho para conhecer verdades fundamentais sobre a existência do homem e indispensável para aprofundar a inteligência da fé". Mas somente a filosofia é insuficiente para encontrar as respostas necessárias a tal entendimento e vai buscar na ciência sua contraparte complementar. É então que o Espiritismo, fincado no tripé ciência, filosofia e religião, apresenta-se como coadjuvante nessa busca.
Sabemos que o Espiritismo é bem menos religião que filosofia e ciência e já se disse que a Doutrina Espírita "não é a religião do futuro, mas o futuro das religiões" (Léon Denis). Se um dia os homens compreenderão que os postulados espíritas se ajustam à necessidade de melhoramento da Humanidade, é certo que essa compreensão só se dará na medida em que a fé se fortaleça em cada um, lado a lado com a razão. Porque, se é necessário separar o joio do trigo, é preciso também que um cresça junto ao outro até que chegue o momento da colheita, como bem explicou o Cristo Jesus.

Liderança carismática

Os 20 anos do pontificado de João Paulo II, pseudônimo adotado pelo cardeal polonês Karol Wojtila, passarão à história não apenas por ser o mais longo, mas também pelas transformações que a Igreja Católica promoveu no mundo, fossem elas de certa forma negativas, como o freio na "opção preferencial pelos pobres" idealizada pela Teologia da Libertação, ou positivas, a exemplo do movimento Renovação Carismática Católica. De qualquer forma, o papa emprestou seu carisma à face deste final de século, reforçado principalmente ao escapar do atentado que sofreu na Itália apenas dois anos depois de ocupar a cadeira de Sumo Pontífice no Vaticano e pelo hábito de beijar o chão dos muitos países que visitou, costume só abolido em função de sua idade.
Mas é com a Renovação Carismática que o catolicismo chefiado por João Paulo II encontra sua faceta mais de acordo com os novos tempos. A insatisfação coletiva que significava rebeldia nos anos 60 abeirou-se da religião católica e fez dela um espetáculo, dando novo colorido e sonoridade à missa. À parte o modismo que afeta os movimentos novidadeiros (apesar de ter sido iniciado nos anos 60, os Estados Unidos, só recentemente a Renovação Carismática tomou conta das igrejas brasileiras), vale notar o quanto, nesse aspecto, os princípios do Cristianismo primitivo voltam a estar presentes na Igreja, através dos fenômenos espíritas: o contato com entidades espirituais, nos transes de invocação do "Espírito Santo" e nas tentativas de cura pela imposição das mãos, por exemplo.
O movimento carismático, a bem dizer, trouxe alento a milhares de jovens que, graças à religião, estão fugindo das drogas e do vazio existencial em que se transformou a vida nas grandes cidades para abraçar um comportamento pautado na moral, como a afirmar que a construção do futuro exige pensar no auxílio divino. E o papa João Paulo II é o líder espiritual dessa renovação de pensamento no seio do catolicismo, como os próprios carismáticos proclamam.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Análise de filme (VIII) - Central do Brasil

Francisco Muniz
(publicado originalmente na revista Visão Espírita n.° 11 - Ano I, fevereiro de 1999)

O filme brasileiro que comoveu o mundo e poderia ter dado o primeiro "Oscar" ao País é um apelo poético à solidariedade e à humildade, virtudes de que o povo brasileiro sabe dar mostras como nenhum outro. A história da professora aposentada - que escreve cartas para iletrados e assim complementa os proventos para sobreviver - que se encarrega de conduzir um menino órfão à família no Nordeste remete às palavras do Cristo: "Tudo que fizerdes a cada um desses pequeninos é a mim  que o fareis". Os pequeninos são tanto as crianças quanto todos aqueles que padecem necessidades, sejam as do corpo, sejam as do espírito. O filme reafirma que é importante trabalharmos uns pelos outros, porque todos estamos juntos na caminhada evolutiva, que só terá validade se soubermos reconhecer-nos irmanados pelos laços do verdadeiro amor.

Análise de filme (VII) - Ghost, do outro lado da vida

Francisco Muniz
(publicado originalmente na revista Visão Espírita n.° 11 - Ano I, de fevereiro de 1999)

Esse filme, pelo sucesso que obteve há alguns anos, talvez seja a obra jamais produzida em Hollywood que melhor reflete os conceitos divulgados pela Doutrina dos Espíritos. A imortalidade da alma, a perturbação pós-morte, o amor que sobrevive ao túmulo, a afinidade espiritual, a mediunidade, os efeitos físicos... esses e tantos outros aspectos concernentes ao Espiritismo foram retratados quase que com total clareza. Dir-se-ia que seus autores, principalmente o roteirista, leram e compreenderam a obra de Allan Kardec e outros escritores espíritas, seguindo fielmente seus ensinamentos a ponto de realizarem uma obra-prima do cinema espiritualista.
É claro, alguns pontos ficam obscuros na trama, com o o fato de os espíritos conseguirem produzir efeitos físicos apenas pelo poder da vontade. O estudioso da Doutrina sabe que eles utilizam, até mesmo inconscientemente, o fluido animalizado para realizar tal façanha. Mas o filme será sempre uma referência para os interessados no Espiritismo, por ilustrar, em termos, o que acontece após a passagem deste plano para o mundo espiritual.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

A Cidade Estranha

Com o título acima, a revista Visão Espírita publicou, em sua edição n.° 7, de outubro de 1998, um interessantíssimo artigo do cientista e pesquisador espírita Hernani Guimarães Andrade, já desencarnado, que havia sido, quando na carne, presidente do Instituto Brasileiro de Pesquisas Psicobiofísicas (IBPP). O texto informa acerca da existência de conglomerados espirituais voltados para os mais diversos interesses, os quais são, ocasionalmente, extintos e seus apaniguados, espíritos ainda inferiores, levados à reencarnação. A partir dessa constatação, Hernani pede que observemos como se encontra o panorama moral do planeta, desde os anos 1960 - época da contracultura, quando o mundo conheceu uma revolução nos costumes e nunca mais as coisas foram as mesmas! - aos nossos dias, fazendo-nos considerar uma das facetas do movimento de transição espiritual que nosso planeta atravessa presentemente...
Leiam com atenção:

Em 1959 ficamos conhecendo Newton Boechat. Ele acabara de findar um roteiro de palestras e, passando por São Paulo, aproveitou a oportunidade para visitar-nos, iniciando então um relacionamento amistoso conosco, o qual tem durado até os dias de hoje, cada vez mais firme e cordial.
Naquela ocasião ouvíamos, interessados, as informações muito atualizadas que Newton nos comunicava sobre o Movimento Espírita e, particularmente, a respeito de seu convívio com o grande médium de Pedro Leopoldo: Chico Xavier.
Newton Boechat esteve no IBPP, para uma breve visita, no dia 16 de janeiro de 1989, às 14 horas, em companhia do professor Apolo Oliva Filho e dua signa esposa, D. Neyde Gandolfi Oliva. Naquela oportunidade, aproveitamos para relembrar nosso primeiro encontro, ocorrido há trinta anos. Pedi ao Newton que tornasse a contar o episódio que lhe fora revelado por Chico Xavier, em Pedro Leopoldo, e que ele me transmitira naquela ocasião em que nos vimos pela primeira vez.
Os que conhecem Newton são testemunhas da sua notável memória. Aproveitamos, então para obter a gravação do seu depoimento e conservá-lo mais fielmente, para a posteridade e para os arquivos do IBPP. Eis uma súmula do que nos informado pela segunda vez.
Newton Boechat iniciou explicando que inúmeros fatos têm sido contados por Chico Xavier, em caráter íntimo, aos seus amigos, e que, na ocasião, em algumas vezes não era oportuna a sua revelação ao público. Entretanto, com o passar do tempo, tais confidências foram se tornando livres de censura e poderiam ser dadas a conhecer, sem quaisquer inconvenientes. Assim, por exemplo, quando Newton estivera com Chico Xavier, em 1947, na cidade de Pedro Leopoldo, o livro intitulado No Mundo Maior tinha sido recentemente psicografado por aquele médium (mais precisamente, terminou de recebê-lo em 25 de março de 1947). Nesse livro há um capítulo versando sobre sexo (cap. XI). Cerca de 30% da matéria desse capítulo, recebida psicograficamente, tiveram de ser suprimidos, para não causar reações negativas, devido aos preconceitos ainda vigentes em nosso meio, naquela época. Somente mais tarde puderam vir a lume livros que abordaram um tanto livremente questões ligadas ao sexo.
Mas o episódio que Newton ficou sabendo foi-lhe relatado justamente logo após Chico Xavier haver recebido o livro No Mundo Maior [ditado pelo Espírito André Luiz], há 41 anos. Em Pedro Leopoldo, Minas Gerais, havia um bambuzal onde o médium costumava passear e conversar com os amigos que o procuravam. Foi ali que Chico revelou o caso ao Newton. Ei-lo:
Em um dos constantes desdobramentos astrais ocorridos com o nosso médium maior, durante o sono, Emmanuel conduziu o duplo-astral de Chico Xavier a uma imensa "cidade espiritual", situada numa região do Umbral. Esta lhe pareceu extremamente inferior e bastante próxima da Crosta Planetária.
Era uma "cidade estranha" não só pelo seu aspecto desarmônico e antiestético, como pelas manifestações de luxúria, degradação de costumes e sensualidade dos seus habitantes, exibidas em todos os logradouros públicos, ruas, praças, etc. Emmanuel informou a Chico que a vasta Comunidade Espiritual era governada por entidades mentalmente vigorosas, porém negativas em termos de ética e sentimentos humanos. Eram esses maiorais que davam as ordens e faziam-se obedecer, exercendo sobre aquelas entidades um poder do tipo da sugestão hipnótica, ao qual tais espíritos estariam submetidos, ainda mesmo depois de reencarnados.
Pelas ruas da referida cidade estranha desfilavam, de maneira semelhante a cordões carnavalescos, multidões compostas de entidades que se esmeravam em exibições de natureza pornográfica, erótica e debochada.
Os maiorais eram conduzidos em andores ou tronos colocados sobre carros alegóricos, cujos formatos imitavam os órgãos sexuais masculinos e femininos.
Uma euforia generalizada parecia dominar aquelas criaturas ou, mais apropriadamente, assistia-se a uma "festa de despedida" de uma multidão revelando a certeza da aproximação de um fim inexorável, que extinguia a situação cômoda, até então usufruída por todos. De fato, aqueles Espíritos, sem exceção, haviam recebido um aviso de que estava determinado, de maneira irrevogável, pelos Planos da Espiritualidade Superior, o seu próximo reingresso à vida carnal na Terra. A esse decreto inapelável não iriam escapar nem os próprios maiorais.

Alguns anos se passaram...

O relato de Newton Boechat foi-nos transmitido aproximadamente dez anos depois do seu bate-papo com Chico Xavier, em Pedro Leopoldo. Na ocasião em que o ouvimos, o fato causou-nos forte impressão e pudemos gravá-lo bem na memória. Cerca de doze anos se passaram depois de Newton nos fez essa revelação.
Lembramo-nos de que ainda trabalhávamos em uma divisão do DAEE, em São Paulo. Um dos nossos colegas havia regressado de uma viagem de férias. Ele estivera nos países do norte da Europa e, surpreendidíssimo, vira em bancas de jornais, em algumas capitais, revistas pornográficas expostas à venda livremente. Impressionado com aquela novidade, ele adquiriu algumas revistas e trouxe-as, para mostrar aos amigos o que estava se passando naqueles países "ultracivilizados". No dia em que o nosso colega recomeçou a trabalhar, ele nos mostrou as tais revistas.
Imediatamente lembramo-nos do episódio que nos fora relatado por Newton e, inadvertidamente, deixamos escapar uma expressão que nenhum dos nossos colegas entendeu: "Oh! Eles estão aí!"
Realmente, percebemos imediatamente que aquelas revistas deviam ser um dos sinais típicos do reingresso daqueles espíritos que jaziam nas zonas do Baixo Astral, na corrente da Vida Terrena. Com eles viriam mudanças profundas nos costumes da Humanidade: a licenciosidade; as "músicas" ruidosas e desequilibrantes; a rebeldia dos nossos filhos; a instabilidade das instituições familiares e sociais; e, finalmente, o que presenciamos, hoje em dia, com o recrudescimento da criminalidade e da insegurança, além do cortejo de outros inúmeros problemas com os quais se defrontam as criaturas humanas, neste atribulado fim de século.

Conclusão

É elementar, e poucos ignoram que a História da espécie humana apresenta-se pontilhada de períodos de grandes crises, seguidos de fases de prosperidade e reequilíbrio. É semelhante a uma sucessão de ciclos que se desenvolvem como uma espiral em constante ascensão. Há lento progredir, apesar dos episódios negativos. Provavelmente os Planos Superiores da Espiritualidade velam pela Humanidade, dosando sabiamente os "ingredientes" injetados na corrente da vida. A par dos espíritos rebeldes, reencarnam também aqueles que lutam pelo Bem, pela Ciência e pelo aperfeiçoamento do homem. Não percamos a esperança.

(Fonte: "Lições de sabedoria", edição FE)