segunda-feira, 22 de julho de 2013

Para a luz

Francisco Muniz



Por qual estrada andar
em meio à escuridão?

É noite escura e fechada
meus olhos não veem além
a luz que clareava meus passos
ficou algures, não sei...

Por qual estrada trilhar?

Não vejo a luz, perdido estou
mas eis que um ponto brilhante
aponta-me a direção

Vou para lá, devo ir
a fim de me encontrar
seguindo ao encontro da luz
encontro minha salvação...

Tempo

Francisco Muniz

A criança brincava, desatenta
ocupando-se de seus brinquedinhos.

Passou o vento, levou alguns deles;
a criança abriu o olhinhos
mas continuou ali, brincando
em sua inocência infantil.

Veio a chuva e a enxurrada
levou todos os seus brinquedos;
a criança chorou e, descuidada
não levantou-se dali.

Rugiu o trovão, ela teve medo;
riscou um relâmpago no céu;
a criança correu, entrou em casa
e entregou-se nos braços de Deus...

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Solidão, silêncio e sintonia

Francisco Muniz

Um ser feito de silêncio e solidão - assim é o homem quando decide viver a mais encantadora e importante de todas as experiências: a da autodescoberta, para enfim realizar o auto encontro. É no silêncio que ele poderá ouvir a voz de Deus vibrando em sua alma; é na solidão que ele propicia o encontro com a Divindade. Dessas duas atitudes nasce a terceira - a sintonia, como resultado do esforço espiritual consciente, oferecendo como consequência a unidade com o Divino, mesmo momentaneamente.
Silêncio, solidão e sintonia, pois, são a equação que, pela Matemática divina, possibilita ao homem reconhecer-se espírito e idealizar melhor o mundo que ele tem a incumbência de realizar em si mesmo, intimamente. É em seu mundo interior que ele fará, conscienciosamente, nascer o Reino dos Céus propalado por Jesus, habitando nele e fazendo-se um com o Cristo e com Deus.
No entanto, o homem ainda não sabe silenciar e muito menos cultivar esse sentimento de verdadeira entrega que é a solidão, ou solitude. Tais instâncias, ou melhor, tal conquista é obtida unicamente pelo exercício da meditação e da concentração da mente, que deve ser disciplinada para alcançar esses estados de consciência.
Não se pense, portanto, que o silêncio e a solidão sejam atitudes isolacionistas a provocar o afastamento do ser consciente da convivência com seus irmãos em humanidade. Pelo contrário, elas permitirão maior envolvimento com os demais, embora num nível que a maioria das pessoas não percebe ainda, por isso as críticas costumeiras sobre quem opta por sua espiritualização.
O silêncio e a solidão, como dito, são necessários para estimular o contato com a dimensão divina e assim vamos encontrar Jesus, conforme faz ressaltar o Evangelho, retirando-se para orar no jardim das Oliveiras, ficando aí em completa solitude, em sua silenciosa conversa com o Pai. O príncipe Sidarta Gautama, tendo decidido alcançar a Iluminação e ser um Buda, afastou-se do mundo para meditar prolongadamente sob uma árvore, até compreender em que consistia a realidade humana. O profeta Jonas - diz-nos o Velho Testamento - foi forçado a habitar, por algum tempo, o ventre de uma baleia para assimilar a tarefa espiritual que lhe pesava sobre os ombros.
Assim é também com aquele que almeja o crescimento espiritual e começa a fazer os esforços imprescindíveis para tanto, recebendo em troca a incompreensão e muitas vezes o desprezo até mesmo por parte de seus entes queridos. Ele então sofre em silêncio e padece na solidão. No íntimo, contudo, ele está em paz, pois sabe que, se há solidão externamente, esta se deve tão somente à falta de presenças físicas ao seu lado, porque as companhias invisíveis são constantes.
O homem é, em essência, um espírito encarnado e detém em si a imortalidade, da qual seus instrutores invisíveis vêm dar-lhe provas incessantemente, falando-lhe na acústica da consciência. E é para ouvirmos com clareza essas vozes que precisamos guardar silêncio e cultivar a solidão, deixando que a alma dialogue com os emissário da Realidade imperecível.

terça-feira, 16 de julho de 2013

Prêmio

Irmã Rafaela

São os dias maravilhosos estes em que tens tido a prova da misericórdia com que a bondade divina te premia, ainda que tenhas aprendido que Deus a ninguém concede privilégios. Mas observa: a todos ele chama ao trabalho santificante em favor dos mais necessitados. Quantos se dispões a atender ao divino apelo? O Cristo, quando aqui esteve, repetiu o amoroso convite, em troca recebendo o desprezo que caracteriza boa parte da humanidade em relação ao trato com as coisas divinas, espirituais.
No entanto, àqueles que de boa vontade se serve de instrumento à ação dos bons Espíritos na realização das tarefas do Mestre na Terra recebem, fazendo por merecer, todo o auxílio indispensável à consecução desses propósitos, e isto configura verdadeiro prêmio, que no futuro se revelará como as recompensas celestiais às quais os trabalhadores da última hora farão jus.
É para nossa alegria que vemos teu esforço em pertencer ao grupo dos seres corajosos que investem seu tempo e seus conhecimentos na aquisição dos valores imperecíveis da alma. Sê alegre também, como tarefeiro do Cristo na seara espírita. Por quanto faças, merecerás de nossa parte a devida correspondência - e sentirás a consciência pacificada, o coração felicitado, todo teu ser bafejado pelas emanações dulçurosas da convivência conosco, teus amigos.
Deus te abençoe. 

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Gratidão

Irmã Rafaela

É devido o agradecimento, meus filhos, para com Aquele que é a razão de nossa existência. Do mesmo modo, sejamos gratos a quantos partilham nossa convivência e nos acompanham pela longa caminhada em busca da luz e da verdade. Nada é em vão. E tudo terá então seu sentido, porquanto Deus sabe o que é melhor para cada um de seus filhos. Se sofreis, agradecei, pois Deus vos prova as forças dando-vos oportunidade de quitar vossos imensos débitos para com a Lei; se vos alegrais, agradecei também ao Pai Supremo, que vos prodigaliza os bens a fim de serdes úteis aos vossos irmãos, completando Sua grande obra em favor do homens.

***

Oh, minha querida amiga, minha pobre filha, tem confiança e não te lastimes. Tuas forças não te faltarão nos momentos em que delas necessitares, pois estamos ao teu lado. Tem coragem e trabalha com alegria em meio a tuas dores. Compreende a quem te faz sofrer, aceitando os revezes como prova do Divino Amor por ti mesma. Pedimos-te coragem. Ainda tens muito a fazer e não deves temer os embates, pois te ajudaremos no que seja preciso. Reconhece tua força, a força que os trabalhadores do Bem dispõem em si mesmos quando agem em nome da abnegação, do amor e do sacrifício de suas paixões.
Como te dissemos, estamos sempre contigo. Tem coragem e segue em frente. Que importam os espinhos que te ferem de vez em quando, uma vez que esses arranhões são superficiais? No entanto, não deixes que eles penetrem fundo em tua alma, para não atormentares teu coração desnecessariamente. São eles próprios da estrada de dores que escolheste a fim de abreviares as tuas provas. Estás vencendo um a um os desafios a que te propuseste. Falta pouco, pois, mas ainda há muito a fazer, não te esqueças. Sê corajosa, trabalha com alegria e humildade, como tens feito até aqui, e sentireis cada vez mais nossa ajuda.
Sossega teu coração e as bênçãos de nossa Mãe Maria se sentirão mais efusivamente em tua alma.
Deus te abençoe.

domingo, 14 de julho de 2013

Raiva e ressentimento: eu perdoo?

Francisco Muniz

"Pai, perdoai-os, porque não sabem o que fazem." (Jesus)

Através do esforço do sábio de Lyon, o insigne Allan Kardec, os Espíritos Superiores, em nome do Cristo, vêm-nos ensinar as verdades que precisamos conhecer a fim de, como salientou o Mestre de Nazaré, tornarmo-nos livres de nossa inferioridade, marcada pela ignorância e seus filhos diletos, o orgulho e o egoísmo. Assim é que, em nossa jornada rumo ao aperfeiçoamento, as Entidades Luminares nos apontam a necessidade do autoconhecimento, única via para a conquista das alegrias celestiais que jazem em nós mesmos. Somente conhecendo a verdade íntima é que teremos acesso ao conhecimento da verdade externa, desse modo capacitando-nos para o compromisso consciente com a esfera espiritual superior, para a consequente unificação em Deus.
Dito isto, fica razoavelmente claro ser preciso nos aprofundarmos no estudo e prática do Espiritismo e do Evangelho, compreendendo o máximo possível o que vem a ser caridade em seu aspecto moral. Em O Livro dos Espíritos, duas questões devem merecer nossa atenção, nesse quesito. A primeira é aquela em que o Codificador inquire dos Espíritos Superiores sobre qual o modelo mais perfeito já oferecido ao Homem em sua necessidade de transformação moral, recebendo em troca esta resposta sintética: "Jesus". A outra é a que interroga sobre como Jesus entendia a caridade, ao que os Espíritos informam: "Benevolência para com todos; indulgência para com as faltas alheias; e perdão das ofensas".
Observemos então que o perdão das ofensas é semelhante à manifestação de indulgência e de benevolência para com todos. Ademais, recordemos que o Cristo Jesus nos recomendou amarmos aos inimigos explicando ser esta a maior expressão de caridade que podemos manifestar. Sendo assim, o que dizer acerca da raiva e do ressentimento? Que essas atitudes resultam de nossa inferioridade moral, só compreensíveis (e aceitáveis) nas criaturas que ainda não conhecem o teor dos ensinos de Jesus, ao passo que, para aqueles que já estão afeiçoados a tais lições, esse comportamento desabonador não deveria mais fazer mais qualquer sentido.
A raiva é um daqueles gigantes da alma de que nos falam os psicólogos estudiosos das problemáticas humanas no tocante aos relacionamentos. São quatro esses gigantes: além da raiva, algumas vezes identificada como ira, há também o ódio, o medo e o amor. Se pensarmos em nós mesmos, individualmente, como as ovelhas desgarradas que o Cristo veio reunir em seu rebanho, para que tenhamos "vida em abundância", perceberemos que necessitamos aprender a conviver da melhor maneira possível com os outros ou não teremos condições de experimentar as alegrias que certamente caracterizam o rebanho do Divino Pastor. É aí que se torna imperiosa a necessidade de transformação moral, através da renúncia a tudo que nos mantém na inferioridade.
A raiva e o ressentimento são próprios de quem ainda não se conhece, desconhecendo igualmente suas potencialidades e limites. Mas à medida que o ser realiza sua tarefa de autoconhecimento, fazendo uso das faculdades que lhe são próprias, tais como a razão e a inteligência, compreende que será mais sensato utilizar os recursos que a Divindade lhe oferece para mais depressa elevar-se acima das mesquinharias terrenas. Então ele perdoa e não se deixa enredar-se pelas energias desagregadoras do melindre, do ciúme e da inveja competitiva, paixões fomentadoras da raiva e do ressentimento, quando, ferido em seu orgulho, acumula mágoas e decepções.
Perdoar, portanto, é prerrogativa dos seres conscientes de si mesmos em pleno uso de sua inteligência, fazendo eco às palavras do Cristo: "Perdoai para que Deus vos perdoe"...

João Batista e as veredas do Senhor

Francisco Muniz
(em lembrança do mês de junho)

A vinda do Messias ao mundo já era prevista havia muito tempo. Diversos profetas dos tempos antigos dos hebreus deixaram indicativos do Advento, sendo um dos mais enfáticos o profeta Isaías. Segundo este, nos tempos preditos apareceria aquele que viria "aplainar os caminhos do Senhor". Com tal expressão, Isaías falava do Batista, o profeta João que conclamava os judeus de sua época a abdicarem dos comportamentos contrários à ética e à moral, por se encontrar próximo o Reino de Deus.
João era primo de Jesus, uma vez que sua mãe, Isabel, era também prima de Maria, a mãe do Senhor. Antes que João realizasse sua missão, ele e Jesus tiveram diversos encontros, como na ocasião descrita por Humberto de Campos, Espírito, no livro Boa Nova, psicografado por Chico Xavier. De acordo com esse autor espiritual, nesses encontros eles traçavam os planos que concretizariam mais tarde, com a finalidade de conquistar adesões sinceras à proposta do Evangelho.
João, contudo, não apareceria fortuitamente ao planejamento idealizado pelo Cristo. Ele tinha uma história reencarnatória digna de registro. Seiscentos anos antes do Advento, caminhava pelas terras da Palestina o profeta Elias, o qual manifestava grande consideração pelo Deus único de Israel, ao ponto de afrontar o culto aos deuses pagãos, prática comum àquela época entre os povos politeístas. Um desses deuses era Baal, adorado na corte da rainha Jezebel e do rei Acabe. Como Elias lhes oferecesse constantes recriminações a esse respeito, principalmente a rainha devotada ao profeta um órdio mortal, porquanto a fraqueza moral do rei Acabe fazia-o temer as ameaças de Elias.
Porém, essas ameaças finalmente tomaram a força de um ultimatum, na forma de um desafio proposto por Elias aos sacerdotes de Baal: o deu mais poderoso faria acender pilhas de madeira em local público e o vencedor reclamaria a vida do perdedor. A rainha, crente em seu deus e nos poderes de seus sacerdotes, viu aí a chance de dar cabo do incômodo profeta, que tanto a importunava, e topou o desafio.
No dia e hora aprazados, ei-los orando aos respectivos deuses e os sacerdotes não lograram ver a fogueira acesa, ao passo que, chegada a vez de Elias fazer sua invocação, um raio cai do céu e põe fogo nos gravetos amontoados pelo profeta hebreu, causando estupefação entre os presentes. Vencido o desafio, Elias reclamou seu prêmio e todos os sacerdotes de Baal são passados a fio de espada, para horror de Jezebel, cujo ódio só fazia crescer.
E como a morte não apaga os sentimentos, eis nossos personagens de volta ao palco terrestre, seis séculos depois. O rei Acabe, vamos vê-lo na pelo do rei Herodes, enquanto a Jezebel do passado é sua amante Herodíades, esposa do irmão desse rei, ao qual deixara para viver maritalmente com o cunhado, comportamento esse condenado pelo profeta João, que vinha a ser Elias renascido. E como, também, com a morte não cessam as indisposições entre os espíritos, as animosidades acompanham as reencarnações, até que os seres se permitam o benefício do reajuste entre si, quitando os respectivos débitos contraídos perante as leis divinas, esse grupo de espíritos endividados, agora reencontrando-se em nova experiência na carne, teve a oportunidade da reconciliação.

***

Entretanto, as circunstâncias só se modificariam externamente e aqueles espíritos manifestariam outra vez quase o mesmo comportamento de antes. João, antigo Elias, recriminava a atitude dos soberanos; estes, por sua vez, externavam a pouca moralidade: o rei, receando a voz tonitruante "do que clama no deserto", e, por sentir, no fundo do coração, certa admiração pelo profeta, tolerava as admoestações; sua amante ainda mantinha as velhas indisposições, dedicando ódio ao Batista, embora ela e Herodes já passassem a admitir o Deus único, da forma como podiam e queriam. João, contudo, a pretexto a vinda próxima do Messias, insistia em que as pessoas, àquela época, modificassem suas inclinações morais a fim de se fazerem merecedoras de pertencer ao reino dos Céus.
É nesse clima de conturbação moral que Jesus realiza sua tarefa missionária, convocando os homens à construção do reino do Amor e da Verdade no altar do próprio coração. Deixa-se batizar por João e ouve de seu primo a inicial recusa: "Não sou digno de desatar tuas sandálias".
Mas ante o ódio crescente de Herodíades e sua pressão sobre a pusilanimidade do rei, o profeta é preso, situação esta que, para Herodes, é de proteção. No entanto, sem esquecer - inconscientemente - os aborrecimentos causados a ela desde muitos séculos, a mulher do rei procura um meio de se livrar da indesejável presença de João de uma vez por todas.
Aconteceu que aproximava-se o dia da festa de mais um aniversário de Herodes, quando a corte costumava presentear o soberano e este, mostrando-se agradecido, satisfazia o desejo de quem mais e melhor o adulasse. Herodíades arquiteta seu plano. Em conluio com sua bela filha, Salomé, sugere que esta dance para o rei e a instrui quanto à recompensa que poderia advir. Chegada a festa, é hora de Salomé apresentar-se e ela dança tão divinamente que o rei se rende à beleza e à arte da moça, sua enteada, dizendo-lhe que escolha o que quiser e será atendida.
Orientada pela mãe, Salomé exige, numa bandeja, a cabeça do profeta encarcerado. O rei estremece, atônito; não esperava por isso. Pedisse, a menina, outra coisa  e ele moveria céus e terras para satisfazê-la. Mas Salomé, agora sobraçada pela mãe, para não deixá-la fraquejar, não quer nada além e o rei que cumpra a palavra empenhada. Despachada, enfim, a ordem à guarda, pouco depois o carrasco traz numa bandeja prateada a cabeça sanguinolenta de João Batista, que desse modo resgata seus débitos para com Justiça Divina, submetendo-se à Lei de Causa e Efeito, demonstrando que, sim, o dito popular é correto: aqui se faz, aqui se paga.

***

Porém, a belamente triste história de João Batista não termina aí. Sobre ele o Cristo diria, mais tarde, que sobre a Terra de então não havia espírito equivalente ao porte evolutivo do profeta, destacando-o como "o maior dos filhos de mulher". Entretanto, sendo grande entre os homens, João era dos menores no Reino dos Céus, segundo as palavras do próprio Jesus. Mas por essa grandeza relativa entre nós esse Espírito fora escolhido para anunciar a vinda do Messias, aplainando seus caminhos até o coração dos homens. Transcorridos vinte séculos, essa tarefa se transfere de João para os cristãos do presente, que ainda têm a incumbência de de "endireitar as veredas do Senhor", mas neles (nós) próprios, deste modo fazendo com que os demais, observando a nova dinâmica da vida dos seres transformados, operem em si mesmos semelhante "milagre"... 

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Um, dois, três

Francisco Muniz


Desde que Pitágoras, na antiga Grécia, definiu o número 3 como o da Perfeição, as tríades, trípticos, trilogias e trindades vêm merecendo especial atenção por parte das mentes conscientes da Realidade extrafísica. O conceito pitagórico assim se estabelece, de modo místico, a partir da noção de que o número 1 corresponde a Deus, o Uno, por esta razão indivisível, bem como à dimensão espiritual; e de que o 2 representa a dualidade dicotômica da vida material, em suas expressões maniqueístas que quase sempre opõem a Criação e o Criador, que em verdade se complementam, uma sendo parte inseparável do outro. Dessa dicotomia vêm as ideias de caos e destruição, de incompletude e imperfeição, de modo que o 3 aparece como convite à Unidade, à unificação dos princípios, significando assim a Perfeição, que integra o Criador e a Criação.
Tríades são formulações do pensamento que englobam três conceitos na mesma ideia, como expressão da lógica dialética, que pressupõe um tese, sua antítese e a necessária e consequente síntese. No âmbito do pensamento espírita e espiritualista várias tríades aparecem para a reflexão do estudante desses temas, e passamos a registrar algumas delas aqui, a começar pela tríade expressa por Allan Kardec como lema da ação desenvolvida como o codificador da Doutrina Espírita: "Trabalho, solidariedade e tolerância". Por falar no Codificador, em O Livro dos Espíritos ele registra uma trindade bem diversa daquela da Teologia, explicando que são três os elementos constitutivos do Universo: Deus, Espírito e Matéria - seria esse, aliás, o verdadeiro espírito da trindade teológica?
E graças ao Codificador temos a informação de que o próprio Homem é uma entidade trina, composta pelo corpo físico, pelo corpo espiritual, que Kardec batizou de perispírito, e do espírito propriamente dito. Em sua estrutura física, o próprio corpo se divide em três partes: cabeça, tronco e membros; esotericamente, essa estrutura compreende três corpos: além do físico, material, haveria também o corpo astral e o corpo mental. Já o veículo de manifestação do Espírito no mundo material, a mente, igualmente apresenta uma divisão trina: o consciente, o inconsciente e o superconsciente...
No livro Brasil, coração do mundo, pátria do Evangelho, transmitido à psicografia de Francisco (Chico) Xavier, o Espírito Humberto de Campos cita o lema da missão de nosso país na obra do Cristo, explanada na tríade "Deus, Cristo e Caridade", inscrita na flâmula da comitiva de Jesus que veio observar as terras do Cruzeiro, para onde seria transplantada a árvore do Evangelho. Numa de suas epístolas, o apóstolo Paulo fala-nos das três maiores virtudes, a fé, a esperança e a caridade, afirmando que, das três, a maior é a terceira.
A benfeitora Joanna de Ângelis, Espírito mentor do médium Divaldo Pereira Franco, também cunhou uma tríade para explicar o papel da Casa Espírita no mundo, em relação a seus dirigentes, trabalhadores, frequentadores e assistidos: humanizar, espiritizar e qualificar. Em Fonte Viva, obra também psicografada pelo supracitado médium Chico Xavier, o mentor Emmanuel, falando acerca da necessidade de observarmos nossas mãos e conduzi-las para o trabalho útil, radiografa num terceto a utilidade de certos órgãos corporais: "O coração inspira. O cérebro pensa. As mãos realizam."
Os Espíritos Superiores nos ensinam os três modos pelos quais realizamos a tarefa do aprendizado com vistas ao progresso espiritual: 1 - pela reflexão, o mais fácil e, contraditoriamente, o menos utilizado; 2 - pela imitação, também pouco observada; e 3 - pela experiência, o mais doloroso e curiosamente o preferido pela maioria dos homens. Também são três os objetos de nossas relações: nós mesmos, o outro e Deus. Esse relacionamento, conforme nos inspirou um Amigo Espiritual, se expressa desta forma: conosco mesmos - com compaixão, pois nos vitimizamos, afundando no complexo de culpa, desenvolvendo a autopiedade; com o outro - com paixão, manifestando atitudes derivadas do orgulho e egoísmo que nos marcam: o ódio, o ciúme, a inveja e a ambição; com Deus - sem paixão, o que nos leva muitas vezes a duvidar da existência do Criador.
Mas como deveríamos estabelecer essas relações? Da seguinte maneira: conosco mesmos - sem paixão, isentando-nos das emoções desagregadoras que comprometem nosso trabalho de reeducação espiritual; com Deus - com paixão, manifestando o sincero entusiasmo perante o Pai Supremo, sempre justo e misericordioso para conosco; e com o outro - com compaixão, sendo para o próximo o que o próprio Deus é para nós, isto é, fazendo ao outro todo o bem possível, aceitando-o como está, sabedores de que ele, tanto quanto nós, está em processo de transformação e para tanto necessita, assim como nós mesmos, das manifestações de solidariedade, respeito e compreensão.