sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Espairecimentos espirituais

Francisco Muniz


De acordo com o dicionário, espairecimento é o ato de espairecer, que significa distrair-se, passear, divertir-se. É atividade de recreio, ou de lazer, portanto. No Plano Espiritual isso também acontece, entre os Espíritos de relativa evolução, de modo não somente recreativo, mas também educativo ou instrutivo, afinal, o lazer também promove a aculturação. Esse é o tema que o Instrutor Manoel Philomeno de Miranda explora no capítulo 16 de seu livro Reencontro com a Vida, pela psicografia do médium Divaldo Franco. Aí, o autor espiritual relata a natureza dessas atividades que, ao contrário do que se experimenta ou se observa amiúde na Terra, "não cansam, não produzem tédio, quando passam, ou saudade após fruídas, porque se incorporam ao Espírito, vitalizando-o com energias especiais que lhe dão alegria e facultam permanente bem-estar".
Assim, Manoel Philomeno nos fala da possibilidade de se entreter, os desencarnados, nas cidades espirituais em que se encontrem, com a audição de músicas de incomparável qualidade; com exibições teatrais sem paralelo na Terra; e com espetáculos de dança nos quais se materializam os quadros grandiosos do passado, evocando a cultura greco-romana. Além disso, também são realizadas conferências de ilustres visitantes de esferas mais altas, sobre assuntos "que encantam e iluminam a inteligência sem produzir entorpecimento".
Mas quem tomasse conhecimento de tais atividades unicamente pela leitura da obra de Manoel Philomeno talvez estranhasse a natureza do relato. No entanto, desde que o Espírito André Luiz iniciou seu trabalho de repórter do Além, nos anos 1940, enviando por Chico Xavier os informes referentes à Colônia Nosso Lar, esses fatos se tornaram comuns. No livro Nosso Lar, o primeiro da série A Vida no Mundo Espiritual, da FEB, André comenta a existência dessas atividades de lazer, às quais os moradores daquela colônia têm acesso mediante o crédito de "bônus-hora"; em outros momentos, podem eles aproveitar instantes de refazimento no Bosque das Águas, no contato com a natureza convidativa à reflexão. Numa outra obra sua, especificamente Os Mensageiros, André Luiz refere a vida social e relata visitas entre famílias de colônias diferentes, em ambiente fraternal. Durante esses encontros, acontecem concertos e recitais, em clima de grande encantamento, sendo as conversações marcadamente edificantes, bem ao contrário do que se observa na Terra.
Ainda segundo Philomeno, esses espairecimentos são verdadeiros "programas de engrandecimento moral e espiritual em forma de recreação para a mente e sua educação, para os hábitos e sua modificação para melhor (...), ensejando crescimento pessoal enquanto se estabelecem novos roteiros de renovação psíquica e emocional sempre com vistas à plenitude".
Mas seria oportuno perguntarmos - uma vez que tais informes nos chegam como lição - em que, objetivamente, os relatos de André Luiz e Manoel Philomeno nos aproveitam, especialmente aos médiuns trabalhadores. Mas pensemos: após nosso retorno ao mundo das causas e consequências, de duas, só uma coisa vai nos acontecer: ou vamos continuar trabalhando ou continuaremos dando trabalho. E Philomeno pontua: "Não somente o trabalho existe em nossas Esferas espirituais, mas também as bênçãos de Deus expressam-se de formas muito variadas, demonstrando-nos o Seu amor e o Seu interesse constante no burilamento das imperfeições e superação total da inferioridade".
E nosso Instrutor arremata: "Conforme, portanto, as aspirações e realizações de cada Espírito, este se sediará em ambiente adequado ao seu desenvolvimento intelecto-moral, encarregado da ascensão a planos cada vez mais felizes, sem sombra nem dor, sem ansiedade nem aflição". Será preciso dizer mais?

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Os gritos da Noite de São Bartolomeu

Allan Kardec (Revista Espírita – Set 1858, página 385)



De Saint-Foy, em sua Histoire de l’ordre du Saint-Esprit, edição de 1778, cita a seguinte passagem, retirada de uma coletânea escrita pelo marquês Christophe Juvénal des Ursins, tenente-general do governo de Paris, lá pelos fins do ano de 1572, e imprimida em 1601.

“No dia 31 de agosto de 1572, oito dias após o massacre de São Bartolomeu, eu havia ceado no Louvre, nas dependências da senhora Fiesque. O calor tinha sido grande durante todo o dia. Assentamo-nos sob uma pequena latada, às margens do rio Sena, para aspirar o ar fresco; de repente, ouvimos no ar um barulho horrível, de vozes tumultuosas e de gemidos misturados a gritos de raiva e de furor; ficamos imóveis, tomados de pavor, olhando-nos de instante em instante, mas sem coragem de falar. Creio que esse barulho tenha durado cerca de meia hora. Por certo o rei Carlos IX também o ouviu, ficou apavorado, não dormiu mais durante o resto da noite e, embora não comentasse o fato no dia seguinte, perceberam-lhe o ar sombrio, pensativo, alucinado.

“Se algum prodígio não deve encontrar incrédulos, seguramente este é um deles, atestado por Henrique IV. Conforme d’Aubigné, no livro I, capítulo 6, página 561, esse príncipe várias vezes nos contou, entre seus familiares e cortesãos mais chegados – e tenho várias testemunhas vivas que jamais relataram o fato, sem se sentirem ainda tomadas de pavor – que oito dias após o massacre de São Bartolomeu viu uma grande quantidade de corvos empoleirar-se e crocitar sobre o pavilhão do Louvre; que nessa mesma noite, duas horas após haver deitado, Carlos IX saltou de sua cama, fez se levantarem os que estavam em seu quarto e ordenou verificassem o que por ali se passava, pois ouvia no ar um grande barulho de vozes a gemer, em tudo semelhante ao que percebera na noite do massacre; que todos esses gritos eram tão impressionantes, tão marcantes e de tal forma articulados que Carlos IX, julgando que os inimigos dos Montmorency e de seus partidários os haviam surpreendido e os atacavam, enviou um destacamento de seus guardas para impedir esse novo massacre; que os guardas informaram que Paris estava tranqüila e que o barulho que se ouvia permanecia no ar.”

Observação – O fato narrado por Saint-Foy e Juvénal des Ursins tem muita analogia com a história do fantasma da senhorita Clairon, relatado em nosso número do mês de janeiro, com a diferença de que, nessa ocasião, um único Espírito se manifestou durante dois anos e meio, ao passo que, depois da noite de São Bartolomeu, uma quantidade inumerável de Espíritos teria feito o ar retinir apenas por alguns instantes. Aliás, esses dois fenômenos têm, evidentemente, o mesmo princípio que o dos demais fatos contemporâneos e da mesma natureza que já relatamos, deles não diferindo senão pelo detalhe da forma. Interrogados sobre a causa dessa manifestação, vários Espíritos responderam que era uma punição de Deus, o que é fácil de compreender.

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Calma e perseverança em Deus

Norma Lúcia Novaes



O homem vive incessantemente em busca da felicidade, mas não a encontra, porque felicidade sem mescla, sem "mistura", não é encontrada na Terra. Porém, se começarmos a dar importância aos bons sentimentos, que vêm dos bons pensamentos, vamos observar que na vida, apesar das instabilidades (as vicissitudes de que fala o Evangelho), o homem poderia gozar de relativa felicidade.
Como gozar dessa felicidade relativa? Não procurando a felicidade nas coisas perecíveis e sujeitas às mesmas vicissitudes, instabilidade e inconstâncias que estão nos gozos materiais, que servem apenas à aprendizagem do espírito enquanto encarnado; uma forma de adquirir experiência. E não se ensoberbecendo com a vida material, esquecendo-se de cultivar as coias do mundo espiritual.
Os gozos da alma vêm a desenvolver no homem uma satisfação imperecível, porque eterna, e constitui-se num aprendizado a caminho da bem-aventurança.
A única felicidade real no mundo é a paz do coração. Mas o homem no mundo, tornando-se ávido de tudo o que o agita e o coloca em desordem, aflige-se e atrapalha-se, porque toda esta ligação desregrada com as coisas do mundo material obscurece a luz que está no fundo do seu coração e lhe dá o sentido de Deus. As coisas materiais não são apenas aquelas que o dinheiro pode comprar, mas também as de que está cheio o coração: maus pensamentos, maus sentimentos, devido a uma vivência toda calcada na personalidade, não se reconhecendo um filho de Deus - um espírito criado a Sua imagem e semelhança.
Com aluz obscurecida, o homem se torna desarmonizado, primeiramente, consigo e, depois, com o outro.
O coração turbado é que leva o homem a viver ainda o processo de desinteligência, porque a alma embaraça-se, perturba-se, turva-se, passando a revolver o que de pior há dentro de si, abrindo campo para as angústias, confusões mentais, psíquicas, de relacionamentos (pessoais, de amizade, familiares, profissionais e outros) e todo tipo de adoecimento, assim como de espíritos interferentes - os chamados obsessores - encarnados e desencarnados.
O Espírito Fénelon diz, na sua mensagem "Tormentos voluntários" (em O Evangelho Segundo o Espiritismo), que toda a experiência de conturbação do homem é muito singular, curiosa, até incompreensível... porque, afinal, qual o motivo de o homem aplicar a si mesmo os seus próprios tormentos? De onde vem essa má intenção consigo mesmo? A falta da busca de Deus em si próprio? Porque toda a boa construção humana e espiritual, para vivermos bem - espiritual e materialmente - e no bem está em nossas próprias mãos.
Os maiores tormentos que o homem cria para si mesmo, ainda segundo Fénelon, são os derivados da inveja e do ciúme. Para o invejoso e o ciumento, não há repouso mental. Vivem em uma grande agitação, observando o que não têm, mas ou outros têm - e isso lhes causa um tormento.
Observar o êxito dos outros, que considera rivais, os confunde e os excita e atrapalha. Todo o estímulo que têm na vida é encobrir a luz, o progresso das pessoas que lhes estão próximas. E aí sentem alegria de unirem-se aos insensatos, como eles próprios, para incitar-lhes a raiva, a desconfiança, o ciúme e a inveja que os devoram, formando grupos afins. Não imaginam, porém, que com o passar do tempo vão ter que deixar todas essas mesquinharias, insignificâncias e futilidades, cuja cobiça lhes envenena a alma e, consequentemente, a vida.
Não é a eles que se aplicam estas palavras de Jesus: "Bem-aventurados os aflitos, pois que serão consolados", porque, completa Fénelon, "as preocupações dos insensatos não são aquelas que têm no céu as compensações merecidas".
Aquele, porém, que sabe contentar-se com o que tem, que nota sem inveja o que não possui, que não procura parecer mais do que é, sempre é rico, porque quando olha pra "baixo" de si, e não para "cima", vê sempre criaturas que têm menos do que ele; é calmo, porque não cria para si necessidades ilusórias.
"E a calma não é uma felicidade em meio às tempestades da vida?"

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(Texto baseado na mensagens "Tormentos voluntários" (ESE), do Espírito Fénelon.)

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

O papel da mediunidade

Francisco Muniz

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Nas terças e quintas-feiras, o estudo coletivo do Evangelho Segundo o Espiritismo (terceira obra basilar da Doutrina Espírita, codificada por Allan Kardec) na Casa onde trabalho é feito com a participação da assistência e assim o público é convidado a fazer perguntas por escrito sobre o tema abordado por um expositor. Desse modo, dúvidas são dirimidas e o aprendizado se facilita de parte a parte.
Dia desses, alguém dentre os participantes perguntou "qual o papel da mediunidade?", aproveitando que o assunto em análise - "Dom de curar", que abre o Cap. XXVI, "Dai gratuitamente o que de graça recebestes" - dava azo ao questionamento.
O expositor explicou muito bem a utilidade da faculdade mediúnica, concessão divina para o progresso espiritual das criaturas, mas fiquei imaginando que, a julgar pelas variadas informações dos Espíritos, mesmo a partir do que Kardec coloca em O Livro dos Médiuns, a mediunidade tem mais de um papel a desempenhar no mundo.
Então vejamos: temos a mediunidade como papel mata-borrão, que faz o médium, ultra-sensitivo, absorver as energias presentes nos ambientes onde se encontre, graças à lei do magnetismo, através do qual o perispírito manifesta a propriedade de atrair ou repelir fluidos, uns compatíveis, outros não.
Vemo-la também como papel carbono, que faz o médium assimilar, pelos mesmos princípios da lei de atração e de sintonia, os característicos de seus acompanhantes invisíveis: se são bons, procede bem; se não, comporta-se em desequilíbrio.
É, ainda, o papel ofício, considerando a responsabilidade do médium que se orienta pelo Espiritismo de ser um servidor do Cristo junto aos necessitados, sejam eles os desencarnados ou os encarnados. Há que se admitir que a mediunidade foi concedida aos homens - a todo e qualquer - para o devido aperfeiçoamento moral, desde quando se instruam e compreendam que essa faculdade não é sua, sendo utilizada unicamente pelos Espíritos que a trabalho lhes vêm orientar.
Mas, deixando as analogias de lado, a mediunidade tem um papel dos mais importantes no âmbito da ciência espírita, sendo o principal instrumento de investigação do objeto mesmo dessa ciência: o Espírito. Com essa ferramenta, torna-se possível devassar o panorama espiritual, através de faculdades como a vidência, a clariaudiência, o desdobramento e a psicometria, por exemplo.


quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Sábia, a coruja não fala

Francisco Muniz

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Diz-se que a coruja é o símbolo da sabedoria - e sabe por quê? Porque ela não fala, apenas observa, prestando atenção, com seus grandes olhos, aos acontecimentos em redor. O homem pode e deve proceder de forma análoga, utilizando os sentidos físicos da visão e da audição para seu aprendizado no mundo e, à maneira da coruja, deixar a fala para os momentos mais condizentes a esse exercício.
Não por acaso, o Cristo ensinou-nos a desenvolver educativamente tanto o olhar quanto a audição, ao pontificar que "quem tem olhos de ver, veja; quem tem ouvidos de ouvir, ouça". Compreende-se então por qual razão não é a fala mais um dos sentidos físicos à disposição do homem em sua representação corporal, mas um recurso de que o princípio inteligente se utiliza para entrar em relação com os semelhantes.
E se se trata de um ser inteligente, qual o Espírito, deve ele fazer uso racional de tão importante instrumento de comunicação. Ouvir primeiro, falar depois, para não agirmos intempestivamente - eis a necessidade. Ouvir mais que falar, porquanto assim se reflexiona melhor, tornando possível o aprendizado através das conclusões lógicas a que se pode chegar a respeito dos assuntos expostos. Nunca falar sem pensar, como aconselham os mentores espirituais, instruindo-nos no caminho da sabedoria, corolário do ser pensante.