sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Calma e perseverança em Deus

Norma Lúcia Novaes



O homem vive incessantemente em busca da felicidade, mas não a encontra, porque felicidade sem mescla, sem "mistura", não é encontrada na Terra. Porém, se começarmos a dar importância aos bons sentimentos, que vêm dos bons pensamentos, vamos observar que na vida, apesar das instabilidades (as vicissitudes de que fala o Evangelho), o homem poderia gozar de relativa felicidade.
Como gozar dessa felicidade relativa? Não procurando a felicidade nas coisas perecíveis e sujeitas às mesmas vicissitudes, instabilidade e inconstâncias que estão nos gozos materiais, que servem apenas à aprendizagem do espírito enquanto encarnado; uma forma de adquirir experiência. E não se ensoberbecendo com a vida material, esquecendo-se de cultivar as coias do mundo espiritual.
Os gozos da alma vêm a desenvolver no homem uma satisfação imperecível, porque eterna, e constitui-se num aprendizado a caminho da bem-aventurança.
A única felicidade real no mundo é a paz do coração. Mas o homem no mundo, tornando-se ávido de tudo o que o agita e o coloca em desordem, aflige-se e atrapalha-se, porque toda esta ligação desregrada com as coisas do mundo material obscurece a luz que está no fundo do seu coração e lhe dá o sentido de Deus. As coisas materiais não são apenas aquelas que o dinheiro pode comprar, mas também as de que está cheio o coração: maus pensamentos, maus sentimentos, devido a uma vivência toda calcada na personalidade, não se reconhecendo um filho de Deus - um espírito criado a Sua imagem e semelhança.
Com aluz obscurecida, o homem se torna desarmonizado, primeiramente, consigo e, depois, com o outro.
O coração turbado é que leva o homem a viver ainda o processo de desinteligência, porque a alma embaraça-se, perturba-se, turva-se, passando a revolver o que de pior há dentro de si, abrindo campo para as angústias, confusões mentais, psíquicas, de relacionamentos (pessoais, de amizade, familiares, profissionais e outros) e todo tipo de adoecimento, assim como de espíritos interferentes - os chamados obsessores - encarnados e desencarnados.
O Espírito Fénelon diz, na sua mensagem "Tormentos voluntários" (em O Evangelho Segundo o Espiritismo), que toda a experiência de conturbação do homem é muito singular, curiosa, até incompreensível... porque, afinal, qual o motivo de o homem aplicar a si mesmo os seus próprios tormentos? De onde vem essa má intenção consigo mesmo? A falta da busca de Deus em si próprio? Porque toda a boa construção humana e espiritual, para vivermos bem - espiritual e materialmente - e no bem está em nossas próprias mãos.
Os maiores tormentos que o homem cria para si mesmo, ainda segundo Fénelon, são os derivados da inveja e do ciúme. Para o invejoso e o ciumento, não há repouso mental. Vivem em uma grande agitação, observando o que não têm, mas ou outros têm - e isso lhes causa um tormento.
Observar o êxito dos outros, que considera rivais, os confunde e os excita e atrapalha. Todo o estímulo que têm na vida é encobrir a luz, o progresso das pessoas que lhes estão próximas. E aí sentem alegria de unirem-se aos insensatos, como eles próprios, para incitar-lhes a raiva, a desconfiança, o ciúme e a inveja que os devoram, formando grupos afins. Não imaginam, porém, que com o passar do tempo vão ter que deixar todas essas mesquinharias, insignificâncias e futilidades, cuja cobiça lhes envenena a alma e, consequentemente, a vida.
Não é a eles que se aplicam estas palavras de Jesus: "Bem-aventurados os aflitos, pois que serão consolados", porque, completa Fénelon, "as preocupações dos insensatos não são aquelas que têm no céu as compensações merecidas".
Aquele, porém, que sabe contentar-se com o que tem, que nota sem inveja o que não possui, que não procura parecer mais do que é, sempre é rico, porque quando olha pra "baixo" de si, e não para "cima", vê sempre criaturas que têm menos do que ele; é calmo, porque não cria para si necessidades ilusórias.
"E a calma não é uma felicidade em meio às tempestades da vida?"

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(Texto baseado na mensagens "Tormentos voluntários" (ESE), do Espírito Fénelon.)

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

O papel da mediunidade

Francisco Muniz

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Nas terças e quintas-feiras, o estudo coletivo do Evangelho Segundo o Espiritismo (terceira obra basilar da Doutrina Espírita, codificada por Allan Kardec) na Casa onde trabalho é feito com a participação da assistência e assim o público é convidado a fazer perguntas por escrito sobre o tema abordado por um expositor. Desse modo, dúvidas são dirimidas e o aprendizado se facilita de parte a parte.
Dia desses, alguém dentre os participantes perguntou "qual o papel da mediunidade?", aproveitando que o assunto em análise - "Dom de curar", que abre o Cap. XXVI, "Dai gratuitamente o que de graça recebestes" - dava azo ao questionamento.
O expositor explicou muito bem a utilidade da faculdade mediúnica, concessão divina para o progresso espiritual das criaturas, mas fiquei imaginando que, a julgar pelas variadas informações dos Espíritos, mesmo a partir do que Kardec coloca em O Livro dos Médiuns, a mediunidade tem mais de um papel a desempenhar no mundo.
Então vejamos: temos a mediunidade como papel mata-borrão, que faz o médium, ultra-sensitivo, absorver as energias presentes nos ambientes onde se encontre, graças à lei do magnetismo, através do qual o perispírito manifesta a propriedade de atrair ou repelir fluidos, uns compatíveis, outros não.
Vemo-la também como papel carbono, que faz o médium assimilar, pelos mesmos princípios da lei de atração e de sintonia, os característicos de seus acompanhantes invisíveis: se são bons, procede bem; se não, comporta-se em desequilíbrio.
Mas, deixando as analogias de lado, a mediunidade tem um papel dos mais importantes no âmbito da ciência espírita, sendo o principal instrumento de investigação do objeto mesmo dessa ciência: o Espírito. Com essa ferramenta, torna-se possível devassar o panorama espiritual, através de faculdades como a vidência, a clariaudiência, o desdobramento e a psicometria, por exemplo.


quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Sábia, a coruja não fala

Francisco Muniz

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Diz-se que a coruja é o símbolo da sabedoria - e sabe por quê? Porque ela não fala, apenas observa, prestando atenção, com seus grandes olhos, aos acontecimentos em redor. O homem pode e deve proceder de forma análoga, utilizando os sentidos físicos da visão e da audição para seu aprendizado no mundo e, à maneira da coruja, deixar a fala para os momentos mais condizentes a esse exercício.
Não por acaso, o Cristo ensinou-nos a desenvolver educativamente tanto o olhar quanto a audição, ao pontificar que "quem tem olhos de ver, veja; quem tem ouvidos de ouvir, ouça". Compreende-se então por qual razão não é a fala mais um dos sentidos físicos à disposição do homem em sua representação corporal, mas um recurso de que o princípio inteligente se utiliza para entrar em relação com os semelhantes.
E se se trata de um ser inteligente, qual o Espírito, deve ele fazer uso racional de tão importante instrumento de comunicação. Ouvir primeiro, falar depois, para não agirmos intempestivamente - eis a necessidade. Ouvir mais que falar, porquanto assim se reflexiona melhor, tornando possível o aprendizado através das conclusões lógicas a que se pode chegar a respeito dos assuntos expostos. Nunca falar sem pensar, como aconselham os mentores espirituais, instruindo-nos no caminho da sabedoria, corolário do ser pensante.

domingo, 6 de agosto de 2017

Terrorismo de natureza mediúnica

Pelo Espírito Vianna de Carvalho 
(Psic. Divaldo Franco, XVII Congresso Espírita Nacional, em Calpe, Espanha.) 



Sutilmente vai-se popularizando uma forma lamentável de revelação mediúnica, valorizando as questões perturbadoras que devem receber tratamento especial, ao invés de divulgação popularesca de caráter apocalíptico.

Existe um reaparecimento do passado no comportamento humano em torno do Deus temor que Jesus desmistificou, demonstrando que o Pai é todo Amor, e que o Espiritismo confirma através das suas excelentes propostas filosóficas e ético-morais, o qual deve ser examinado com imparcialidade.

Doutrina fundamentada em fatos, estudada pela razão e lógica, não admite em suas formulações esclarecedoras quaisquer tipos de superstições, que lhe tisnariam a limpidez dos conteúdos relevantes, muito menos ameaças que a imponham pelo temor, como é habitual em outros segmentos religiosos.

Durante alguns milênios o medo fez parte da divulgação do Bem, impondo vinganças celestes e desgraças a todos aqueles que discrepassem dos seus postulados, castrando a liberdade de pensamento e submetendo ao tacão da ignorância e do primitivismo cultural as mentes mais lúcidas e avançadas...

O Espiritismo é ciência que investiga e somente considera aquilo que pode ser confirmado em laboratório, que tenha caráter de revelação universal, portanto, sempre livre para a aceitação ou não por aqueles que buscam conhecer-lhe os ensinamentos.

Igualmente é filosofia que esclarece e jamais apavora, explicando, através da Lei de Causa e Efeito, quem somos, de onde viemos, para onde vamos, porque sofremos, quais são as razões das penas e das amarguras humanas... De igual maneira, a sua ética-moral é totalmente fundamentada nos ensinamentos de Jesus, conforme Ele os enunciou e os viveu, proporcionando a religiosidade que integra a criatura na ternura do seu Criador, sendo de simples e fácil formulação.

Jamais se utiliza das tradições míticas greco-romanas, quais as das Parcas, sempre tecendo tragédias para os seres humanos, ou de outras quaisquer remanescentes das religiões ortodoxas decadentes, algumas das quais hoje estão reformuladas na apresentação, mantendo, porém, os mesmos conteúdos ameaçadores. De maneira sistemática e contínua, vêm-se tornando comuns algumas pseudorrevelações alarmantes, substituindo as figuras mitológicas de Satanás, do Diabo, do Inferno, do Purgatório, por Dragões, organizações demoníacas, regiões punitivas atemorizantes, em detrimento do amor e da misericórdia de Deus que vigem em toda parte.

Certamente existem personificações do Mal além das fronteiras físicas, que se comprazem em afligir as criaturas descuidadas, assim como lugares de purificação depois das fronteiras de cinza do corpo somático, todos, no entanto, transitórios, como ensaios para a aprendizagem do Bem e sua fixação nos painéis da mente e do comportamento.

O Espiritismo ressuscita a esperança e amplia os horizontes do conhecimento exatamente para facultar ao ser humano o entendimento a respeito da vida e de como comportar-se dignamente ante as situações dolorosas. As suas revelações objetivam esclarecer as mentes, retirando a névoa da ignorância que ainda permanece impedindo o discernimento de muitas pessoas em torno dos objetivos essenciais da existência carnal.

Da mesma forma como não se deve enganar os candidatos ao estudo espírita, a respeito das regiões celestes que os aguardam, desbordando em fantasias infantis, não é correto derrapar nas ameaças em torno de fetiches, magias e soluções miraculosas para os problemas humanos, recorrendo-se ao animismo africanista, de diversos povos e às suas superstições. No passado, em pleno período medieval, as crenças em torno dos fenômenos mediúnicos revestiam-se de místicas e de cerimônias cabalísticas, propondo a libertação dos incautos e perversos das situações perniciosas em que transitavam.

O Espiritismo, iluminando as trevas que permanecem dominando incontáveis mentes, desvela o futuro que a todos aguarda, rico de bênçãos e de oportunidades de crescimento intelecto-moral, oferecendo os instrumentos hábeis para o êxito em todos os cometimentos.

A sua psicologia é fértil de lições libertadoras dos conflitos que remanescem das existências passadas, de terapêuticas especiais para o enfrentamento com os adversários espirituais que procedem do ontem perturbador, de recursos simples e de fácil aplicação.

A simples mudança mental para melhor proporciona ao indivíduo a conquista do equilíbrio perdido, facultando-lhe a adoção de comportamentos saudáveis que se encontram exarados em O Evangelho segundo o Espiritismo, de Allan Kardec, verdadeiro tratado de eficiente psicoterapia ao alcance de todos que se interessem pela conquista da saúde integral e da alegria de viver.

Após a façanha de haver matado a morte, o conhecimento do Espiritismo faculta a perfeita integração da criatura com a sociedade, vivendo de maneira harmônica em todo momento, onde quer que se encontre, liberada de receios injustificáveis e sintonizada com as bênçãos que defluem da misericórdia divina.

A mediunidade, desse modo, a serviço de Jesus, é veículo de luz, de seriedade, dignificando o seu instrumento e enriquecendo de esperança e de felicidade todos aqueles que se lhe acercam.

Jamais a mediunidade séria estará a serviço dos Espíritos zombeteiros, levianos, críticos contumazes de tudo e de todos que não anuem com as suas informações vulgares, devendo tornar-se instrumento de conforto moral e de instrução grave, trabalhando a construção de mulheres e de homens sérios que se fascinem com o Espiritismo e tornem as suas existências úteis e enobrecidas.

Esses Espíritos burlões e pseudossábios devem ser esclarecidos e orientados à mudança de comportamento, depois de demonstrado que não lhes obedecemos, nem lhes aceitamos as sugestões doentias, mentirosas e apavorantes com as histórias infantis sobre as catástrofes que sempre existiram, com as informações sobre o fim do mundo, com as tramas intérminas a que se entregam para seduzir e conduzir os ingênuos que se lhes submetem facilmente...

O conhecimento real do Espiritismo é o antídoto para essa onda de revelações atemorizantes, que se espalha como um bafio pestilencial, tentando mesclar-se aos paradigmas espíritas que demonstraram desde o seu surgimento a legitimidade de que são portadores, confirmando o Consolador que Jesus prometeu aos seus discípulos e se materializou na incomparável Doutrina.

Ante informações mediúnicas desastrosas ou sublimes, um método eficaz existe para a avaliação correta em torno da sua legitimidade, que é a universalidade do ensino, conforme estabeleceu o preclaro Codificador.

Desse modo, utilizando-se da caridade como guia, da oração como instrumento de iluminação e do conhecimento como recurso de libertação, os adeptos sinceros do Espiritismo não se devem deixar influenciar pelo moderno terrorismo de natureza mediúnica, encarregado de amedrontar, quando o objetivo máximo da Doutrina é libertar os seus adeptos, a fim de os tornar felizes.

Que é mesmo o mundo espiritual?

Francisco Muniz



Não é de hoje que a Humanidade tem notícia do mundo dos Espíritos, malgrado a incredulidade e o ceticismo de alguns homens, porquanto de tempos em tempos a Divindade promove movimentos com a finalidade de nos despertar para a realidade verdadeira da vida. É todo um continente esperando ser (re)descoberto e volta e meia nos chegam notícias de lá. Com frequência, viajores se dirigem para aquelas plagas, mas poucos de nós nos dispomos a empreender a viagem do conhecimento naquela direção. Os viajores? Ah, eles não voltam, dizem os céticos, ou, se voltam, quando voltam, não se dão a conhecer, tal a dificuldade imposta pelos que aqui estamos, presos à ilha da ignorância.

Quando o Espírito André Luiz ditou seu primeiro livro à mediunidade psicográfica de Francisco Cândido Xavier, contando a realidade da Colônia Nosso Lar, o próprio medianeiro estranhou o relato, pondo em dúvida aquelas informações. Foi preciso que o autor espiritual promovesse uma visita toda especial de Chico àquela cidade do plano espiritual, para diminuir a influência do médium mineiro na recepção da obra. E lá se foi Chico Xavier, em desdobramento mediúnico, confirmar a realidade, conhecendo detalhes arquitetônicos da colônia, como a Governadoria, os seis Ministérios – nos quais atuam 72 ministros – e o Bosque das Águas. Mais tarde, tanto sua visão quanto as notícias de André, a partir de então reconhecido como o “repórter do mundo espiritual”, foram confirmadas pela médium, também mineira, Heigorina Cunha, que no livro Cidade do Além mostra desenhos das localidades descritas por André Luiz.

Mas se o próprio Chico manifestou incredulidade, o movimento espírita brasileiro também não recebeu bem a publicação de Nosso Lar, livro considerado fantasioso até que a confirmação de Heigorina e o próprio tempo viessem fazer a diferença. O problema é que nas obras da Codificação Allan Kardec não faz qualquer menção a essas cidades astrais, daí as dúvidas sobre relatos como os de André Luiz, embora sejam antigas as informações a respeito, como dissemos mais acima. Antes mesmo que Kardec fosse chamado pela Espiritualidade para a tarefa ímpar de codificar a Doutrina dos Espíritos, já Emanuel Swedenborg publicava, no século XVIII, o relato de suas visões mediúnicas devassando o panorama espiritual, descrevendo cidades, vestuários e outras peculiaridades da realidade do mundo dos imortais.

Bem mais anteriormente ainda, o poeta renascentista italiano Dante Alighieri relatava na monumental obra A Divina Comédia o que observou em suas viagens astrais ao “Céu”, ao “Inferno” e ao “Purgatório”, em companhia do Espírito Virgílio, seu guia, que quando encarnado foi também poeta de renome em sua época. O conhecimento sobre o mundo espiritual, portanto, não é novidade, embora os homens façam dele uma ideia muito particular. É disso que o Espírito Manoel Philomeno de Miranda vem tratar no capítulo 13 de seu livro Reencontro com a Vida (psicografia de Divaldo Franco), procurando desfazer o véu de estranheza, para dizer o mínimo, ainda existente acerca da realidade do pós-vida. Diz Philomeno ser preciso considerar as palavras de Jesus: “Há muitas moradas na casa de meu Pai”.