quinta-feira, 6 de abril de 2017

“Eu quero!”

Francisco Muniz


“Quantos vivem na terra que algum dia, em trevas, maldirão haverem visto a luz! Ah, bem felizes sim, esses que, na expiação, foram privados da vista.”
(Vianney, cura d’Ars, ESE, cap. VIII, item 20)

Naqueles tempos, Jerusalém e a Palestina inteira, por assim dizer, regurgitavam de seres enfermos a aguardarem pacientemente o lenitivo que só o tempo lhes traria, mercê da divina Providência, uma vez que os homens versados na prática médica de então ainda não conseguiam atender a contento às especificidades de cada mazela, tornando impossível a cura de leprosos, aleijados, cegos, como os coxos e estropiados de toda sorte.
E todos lamentavam o sofrimento atroz de que se viam presas, especialmente os que padeciam da lepra, porquanto obrigados a viver longe das comunidades urbanas e de seus entes amados, para não contaminá-los com a doença que os execrava aos olhos alheios.
Dentre esses enfermos do corpo, um havia que parecia não reclamar como os demais. Ao contrário, ele se apresentava resignado e era visto muitas vezes em silêncio, a cismar possivelmente sobre as circunstâncias da vida naquelas paragens e naqueles dias difíceis para a alma humana. Era o cego Simeão.
Cego de nascença, Simeão acostumara-se a viver no escuro, mas sentia, no fundo de seu ser, que essa não era sua condição própria, pois algo no íntimo lhe dizia que ele poderia ver a luz do sol e, como tantos de seus concidadãos, alegrar-se enxergando a paisagem, as cores, a face e o riso das pessoas. Simeão sonhava com esse dia e sentia que ele não estava distante, uma vez que essa ideia lhe vibrava estranhamente no peito. E Simeão se entregava a suas meditações...
Um dia vieram lhe dizer que um novo profeta realizava curas em nome de Deus, fazendo aleijados andarem, leprosos se limparem e cegos enxergarem. Cegos enxergarem? Simeão ficou curioso: quem seria esse profeta, por onde andava , haveria a possibilidade de um encontro com ele? O coração de Simeão encheu-se de felizes expectativas. Desse informante, soube também que o profeta, a quem chamavam de Jesus, ao passo que Ele próprio se identificava como “o Filho do Homem”, numa referência simbólica ao poder supremo de Deus, costumava visitar as aldeias da Palestina falando num certo Reino dos Céus, convidando os homens a construí-lo no próprio coração, embora se demorasse mais em Jerusalém e nas cercanias do mar da Galileia, de onde provinha, tendo crescido em Nazaré.
Se era assim, haveria oportunidade de estar com esse Jesus sem precisar deslocar-se para muito longe, pensou Simeão, passando a prestar mais atenção nos acontecimentos ao seu redor, a fim de estar presente à ocasião em que sua aldeia também merecesse a providencial visita do Filho de Deus.
Não demorou muito para Simeão ouvir rumores sobre a aproximação de um ruidoso grupo de homens e mulheres e animou-se a comparecer à recepção deles na entrada da aldeia. Pediu ajuda a Zacarias, o vizinho que o havia informado quanto aos prodígios operados por Jesus, e assim ambos se juntaram à turba que aguardava a chegada do Nazareno e seus seguidores.
– Onde está ele, Zacarias, onde está esse Jesus que minh’alma aguarda desde sempre? – a voz de Simeão estava estranhamente embargada e Zacarias assustou-se:
– Ali! – disse ele apontando, esquecido de que Simeão não podia ver o que ele pretendia mostrar, mas o cego, por alguma razão, percebia a direção da voz de seu amigo e caminhou para lá. Era como se estivesse sendo atraído, mas ele não se importava por não poder resistir, porque simplesmente não o queria. Algo em seu íntimo lhe dizia para seguir em frente, que aquele era seu grande momento.
Ao chegar diante do Senhor – Simeão o sentia –, ele parou e passou a escutar. O vozerio era intenso, todos queriam algo daquele homem especial: doentes pediam-lhe um lenitivo, viúvas solicitavam consolo, pais desesperados clamavam pelos filhos escravizados ou mortos pelos romanos invasores, famintos imploravam por pão. Eram tantas as aflições que Simeão comoveu-se: poderia o Profeta resolver todos aqueles problemas, mesmo sendo ele o Filho de Deus? E envergonhou-se de sua motivação egoística. Ia retroceder, mas sentiu a vigorosa energia da mão pousada sobre seu ombro e ouviu a voz carregada de suave autoridade:
– E tu, meu amigo, que desejas de mim?
As palavras de Jesus trouxeram Simeão à realidade e ele recordou por que estava ali, mas foi ainda tomado pela compaixão que ele dirigiu-se ao Cristo:
– Senhor, não tenho o direito de pedir-Te coisa alguma, pois sinto em minha alma que vieste por outro motivo que não satisfazer as vontades de meus irmãos presos ainda a questões tão mesquinhas. Mas, se quiseres, poderás curar-me e tomar-me a teu serviço, uma vez que sinto e ouço em minha mente um chamado para algo maior que minhas meditações.  E alguma coisa me diz, Senhor, que és Tu a razão desse chamamento. Assim, se queres...
– Eu o quero, Simeão. Fica curado e segue-me, pois o Reino dos Céus é para os que recebem aqueles que meu Pai enviou e se dispõem a modificar a própria vida em função das necessidades do próximo, conquistando as alegrias celestiais. Recupera tua visão para demonstrares assim as verdades de que sou portador em nome dAquele que é todo amor, todo justiça e todo misericórdia. Abre teus olhos para a luz e mostra a teus irmãos de caminhada a trilha que conduz à Vida, para que os homens cedo despertem da cegueira em que se encontram e se libertem das cadeias da ignorância.
Simeão abriu os olhos, com efeito, e eles estavam marejados. Através das lágrimas abundantes ele via como se jamais houvesse sido privado da visão. Ele via a face serena do Cristo, as pessoas em volta implorando assistência do Senhor, e O reconhecia como aquele ser querido que o confortava em seus sonhos; via a paisagem árida de sua aldeia banhada pela luz solar; via suas mãos e seus pés e a crueza das roupas surradas que vestia. E via mais, muito mais do que seus olhos podiam mostrar: via em tudo a grandeza de Deus convidando os homens à comunhão com aquele Pai referido por Jesus, embora seus irmãos ainda não compreendessem...
Naquele momento, Simeão abraçava o compromisso com a Verdade, sendo dali por diante um sincero discípulo do Cristo.



quinta-feira, 9 de março de 2017

Nádia, ou O noivo equivocado

Francisco Muniz


“Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim que sou manso e humilde de coração, e achareis descanso para as vossas almas.”

(Mateus, 11:28 a 30)


Eliakim, o prometido de Nádia, não via com bons olhos a mudança operada no comportamento de sua amada desde que o tal profeta nazareno aparecera em Jerusalém. A moça efetivamente não era mais a mesma, agora andava arredia, cismadora, os olhos estranhamente tristes, com um brilho diferente no olhar. Que sortilégio a transformara assim? Fora ele, esse tal Jesus de Nazaré, o responsável por isso? Tinha de ser, pensava Eliakim, pois sua Nádia, com quem se casaria tão logo ele preparasse o dote dos esponsais, era uma menina doce mas dinâmica, apaixonada e apaixonante, e ele sentia-se correspondido em seus afetos. No entanto...

Nádia era, sim, simpatizante do Nazareno e não perdia oportunidade de ouvir suas belas lições, quando o podia, despreocupando-se de todo o resto. Jovem obediente aos reclamos de seus pais, sendo cumpridora de seus deveres familiares, ainda assim entendia ser muito mais importante renovar seus sentimentos e ideais com os ensinos proporcionados por aquele Jesus que ela já amava acima de tudo, vendo nele a expressão da Divindade, reconhecendo-O de fato como o Filho de Deus. Um dia, pensava, seu amado Eliakim também se entregaria a esse amor maior que o mundo, tão grande quanto inexplicável que tomava todo seu ser, e a vida a dois seria então completa.

O que ela não sabia, porém, é que seu prometido, entregue às perturbações próprias de sua personalidade insegura, seguia-a de longe e observava, à distância, como Nádia se misturava à turba de maltrapilhos que se amontoava para ouvir e ver o tal Profeta. Eliakim não compreendia como tanta gente se deixava enfeitiçar pelas estranhas palavras daquele homem que falava de um reino que não era da Terra, mas que poderia ser construído no próprio coração dos interessados. “Como?”, ele se perguntava, em meio às angústias do ciúme e da inveja, acrescidas pela irritação e pela revolta em que se consumia.

Mas as emoções desencontradas não o deixavam raciocinar e as palavras do Nazareno não penetravam sua mente a não ser para aumentar ainda mais seu desespero, uma vez que cada palavra ouvida era como uma punhalada em seu próprio peito e nessa comoção ele pensava que sua Nádia, assim como lhe acontecia, também estava enlouquecida por causa daquele homem. Era preciso fazer algo ante tal perigo e assim Eliakim elaborou um plano: primeiro, tentaria demover sua amada quanto a continuar nessa loucura; caso não lograsse êxito, recorreria até mesmo às autoridades do Templo, buscando salvar sua noiva, uma vez que os pais dela pareciam não se importar com esse fato, pois lhe diziam que Nádia, sempre ajuizada, estava mais colaborativa, muito mais responsável que antes, aparentando ter amadurecido muito nesses últimos tempos, creditando tudo isso à proximidade do casamento e não aos estranhos ensinamentos do Profeta.

Pois bem, foi com o coração oprimido por cruéis pensamentos que Eliakim afinal procurou pela noiva amada e lhe falou, com ela altercando, presa das mais angustiosas emoções, nestes termos:

– Nádia, como futuro marido teu, não admito e mesmo te proíbo que continues ouvindo as idéias loucas desse profeta insensato. Como minha prometida e, brevemente, minha esposa, terás de me obedecer!

Nádia, contudo, apresentava-se serena e firme, confundindo Eliakim:

– Já não tens esse poder, meu querido – disse ela, demonstrando profunda compaixão por seu prometido –, pois agora compreendo a Verdade e já sirvo ao Cristo com toda a força de minha alma. E tu me darias grande alegria se compartilhasses desses santos ideais, já que tocaste neste assunto, que vejo ser unicamente da esfera pessoal de cada um. Lamento que estejas tão contrariado, mas se compreenderes do que se trata estar com Jesus, que me ensina a amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a mim mesma, certamente mudarias de idéia e, juntos, seríamos felizes em nossa união futura...

Eliakim não a deixou terminar, bradando raivoso:

– Nunca, Nádia! Não posso dividir-te com outro homem nem por pensamento! Tu és minha. Minha! Não participarei dessa loucura! Estás enfeitiçada por esse profeta que perturba nossa gente e desagrada aos nossos maiores! Ele te desgraçou! Eu te ordeno que te apartes dele o quanto antes!

Porém a moça mantinha-se serena e seu olhar tranquilo transtornava ainda mais o espírito inquieto de seu noivo, que num ímpeto violento distende os braços na direção do pescoço da moça. Seus olhos injetados deixavam transparecer um brilho estranho que lhe modificava as feições e seu rosto, então, era um misto de horror e desespero a inspirar medo e pavor. Nádia, no entanto, com sua serenidade impassível deteve-o no gesto impensado, com sua voz firme e carregada de potente magnetismo:

– Pelo Cristo, nosso Senhor, não te atrevas!

Aquelas palavras paralisaram Eliakim e suas intenções. Num gesto brusco, ele liberta-se da constrição que o retivera por um segundo e foge pelas ruelas daquela parte de Jerusalém e some na noite, enquanto Nádia, envolta em pranto, retorna à casa de seus pais.

Mas naquela noite mesmo o noivo tresvariado correu na direção do Templo, onde buscou entrevistar-se com o Sumo Sacerdote, oferecendo-se para facilitar a prisão do tal Jesus, pois sabia onde encontrá-lo. O homem poderoso à frente, contudo, disparou uma gargalhada que desconcertou Eliakim:

– Tolo! – disse ele – Tu chegas muito tarde. Já entramos em combinação com um dos seguidores desse Jesus e esta noite mesmo ele estará em nossas mãos. Vai-te!

Expulso do Templo, Eliakim deixa-se ficar nas cercanias e logo observa o movimento dos soldados que trazem o Profeta preso, que a partir daquele momento experimentaria a sanha dos homens maus e ofereceria a própria vida em sacrifício para a redenção da Humanidade.

Quanto a Nádia, ela acompanha os acontecimentos que se desdobram após a prisão do Mestre e presencia, destemida, sua morte infamante na cruz, assim como estaria, mais tarde, entre as mulheres que no terceiro dia após a crucificação foram ao sepulcro e exultaram com a notícia da ressurreição do Senhor. Nascia ali, em seu coração, a certeza quanto às palavras ouvidas de seu Mestre tão querido, pois não era somente a consolação que Ele trazia ao mundo, aos homens que se dispusessem a ouvi-lo. Era, sobretudo, a informação verdadeira acerca do Reino nos Céus, o reino de Deus que se instala na alma daquele que escuta e realmente ouve, que vê e verdadeiramente enxerga a Realidade do Espírito imortal. Nascia no coração de Nádia, portanto, seu compromisso com o Cristo, um compromisso do qual ela não se desviaria jamais e no qual incluía seu amado Eliakim, a quem, sabia no íntimo de seu ser, estava ligada pelos imponderáveis laços do amor e resgataria, um dia, dos braços da impenitência para enfim libarem a felicidade a dois, em nome daquele que é, para sempre, o Caminho, a Verdade e a Vida...

terça-feira, 18 de outubro de 2016

O que virá depois

Nestas ponderações, constantes do livro Perturbações Espirituais, o Instrutor Manoel Philomeno de Miranda exorta os médiuns espíritas a assumirem suas responsabilidades decorrentes do conhecimento da vida além do corpo.

 


Oh! Irmãos da Terra! Que tendes feito do manancial sublime da fé libertadora que Jesus vos oferece como archote iluminativo para a travessia do vale de sombras no rumo da perene madrugada rica de imortalidade? Meditai em torno das comunicação sérias dos Espíritos felizes que vos advertem, mas, sobretudo, daqueles que são sofredores, porque fracassaram na vilegiatura carnal e retornam de alma dilacerada em busca do consolo que negaram ao próximo, falando-vos do que a todos aguarda após a dissolução da matéria, quando não se comporta conforme os padrões morais do Evangelho.
“Tende ânimo e estai atentos para as vossas responsabilidades, pois conheceis a vida além do corpo, e, por mais se prolongue a viagem orgânica, momento surge em que se dilui e o retorno ao Grande Lar é inevitável. Sereis convidados a prestar contas de como aplicastes o tempo e o conhecimento, de como agistes em relação ao vosso próximo, em conseqüência, a vós mesmos, e à vossa consciência, na qual está escrita a Lei de Deus, que abrirá campo à instalação da culpa e ao sofrimento que poderiam ser evitados, se houvésseis agido de maneira diversa, conforme aprendemos todos com a Revelação espírita.
“Vigiai as nascentes do coração, de onde procedem tanto o bem quanto o mal, conforme acentuou Jesus em outras palavras. Despertai e reflexionai com mais tento, porque o vosso é compromisso de alta responsabilidade, por tratar-se do seu caráter imortal. Sois Espíritos mergulhados na matéria temporariamente e deveis ter sempre em conta essa questão. Não muitos dão a impressão que viverão no corpo indefinidamente, em caráter de exceção, tão presunçosa é a sua sombra.
“Estais sob vigilância de ativos mensageiros da Treva, embora vos encontreis amparados pelo amor do Mestre inolvidável. Nada obstante, a questão é de sintonia. Como parece mais fácil tergiversar, divergir, ser original, desfrutar do prazer imediato do ego, do que ser fiel, fraterno, seguir a trilha da verdade, atender as necessidades da renúncia, a sintonia com as Entidades insanas torna-se mais simples e imediata.
“Jesus não nos solicitou que vencêssemos montanhas e atravessássemos desertos inóspitos ou mergulhássemos nos abismos oceânicos para servi-lO. Somente nos solicitou que nos amássemos, sem desejar ao irmão tudo aquilo que não anelamos para nós próprios. É tão pequena a quota que Ele nos solicitou, que não deixa de ser estranhável que nos embreemos pelo matagal das complexidades e desafios, para evitar atender-Lhe o apelo dulçuroso e afável.

“Não temais a morte nem receeis a vida, porque uma é continuação da outra, já que estais mergulhados no sublime oceano da imortalidade. A perspicácia dos vigilantes da impiedade acompanha-vos. Sede os vencedores do mal, onde quer que ele tente homiziar-se, nas paisagens do vosso coração ou nos encantados reservatórios da mente. Cantai a alegria de amar e de servir à doutrina que vos apresenta a bússola de orientação para o porto da plenitude. Jesus conduz a barca terrestre e leva-a com segurança ao seu destino.”

Os cuidados do médium passista com a saúde

Francisco Muniz 




No livro Os Mensageiros – ora em estudo no CEDLV, em turmas do Módulo Avançado –, o Espírito André Luiz fala-nos, pela mediunidade de Chico Xavier, de uma rara modalidade do passe magnético: o sopro. Segundo o escritor Wenefledo de Toledo, autor de Passes e Curas Espirituais, “o sopro é uma das formas de transfusão de energia em benefício do doente, é uma das técnicas do passe. É uma modalidade do passe não muito divulgada entre os espíritas”. Mas apesar de rara, essa técnica não é nenhuma novidade, conforme atesta Alfredo, personagem da primeira obra citada: “Isto não é novo. Jesus, além de tocar naqueles a quem curava, concedia-lhes, por vezes, o sopro divino. O sopro da vida percorre a Criação inteira. Toda página sagrada, comentando o princípio da existência, refere-se a isso. Nunca pensaram no vento, como sopro criador da Natureza?”, relata Alfredo.

Na obra de André Luiz, seu companheiro junto ao instrutor Aniceto, Vicente, questiona se essa técnica está à disposição de todo espírito encarnado, recebendo o esclarecimento de Alfredo: “O bem divino, para manifestar-se em ação, exige a boa vontade humana. Nossos técnicos do assunto não se formaram de pronto. Exercitaram-se longamente (...); para isso, precisam conservar a pureza da boca e a santidade das intenções”.

Ainda segundo Alfredo, “nos círculos carnais, para que o sopro se afirme suficientemente, é imprescindível que o homem tenha o estômago sadio, a boca habituada a falar o bem, com abstenção do mal, e a mente reta, interessada em auxiliar. Obedecendo a esses requisitos, teremos o sopro calmante e revigorador, estimulante e curativo. Através dele, poder-se-á transmitir, também na Crosta, a saúde, o conforto e a vida”.

E é Wenefledo de Toledo quem comenta esses critérios elencados por Alfredo: estômago sadio – cuidado com a alimentação, abstenção de álcool, fumo, vapores de condimentação, molhos apimentados, etc., buscar uma alimentação saudável para o corpo, a fim de que se possa doar o melhor de si; boca habituada a falar o bem – se o que entra pela boca, sem o necessário cuidado de seleção, contamina o sopro, que dizer então da boca que não se resguarda de palavras de baixo calão que criam nuvens escuras em torno de sua aura e as irradia para o próximo? É estarmos atentos e conscientes do nosso papel enquanto cristãos-espíritas, enquanto médiuns. Estarmos sempre vigilantes, tendo a consciência de que o que falamos nos envolve em energia do mesmo teor, é termos cuidado com o que falamos; mente reta, interessada em auxiliar – a necessidade de nossa reforma intima, da meditação, para que possamos trilhar na senda evangélica por pensamento, palavras e obras; e, finalmente, saúde física – o médium precisa estar clinicamente saudável para que não projete algo de sua própria condição enfermiça sobre os pacientes que se sintonizarem passivamente à sua faixa vibratória.

Essas recomendações, em verdade, transcendem a técnica do sopro e alcançam a generalidade dos passes. Para o Espírito Vianna de Carvalho, no livro Médiuns e Mediunidades (psicografia de Divaldo Franco), “a conduta sadia, que decorre de uma vida moral equilibrada, faculta mais poderoso intercâmbio de energias propiciadoras da saúde. Por sua vez, o médium que ora e se enriquece valores espirituais mais desenvolve a aptidão inata, ampliando o seu campo vibratório, aumentando o vigor da energia que canaliza para a saúde, tornando-se um dínamo valioso para o bem geral”. Daí a recomendação da Benfeitora Joanna de Ângelis em Florações Evangélicas, também através de Divaldo Franco: "Recorre aos recursos espíritas; ora, e ora sempre, para adquirires resistência contra o mal que infelizmente ainda reside em nós; permuta conversação enobrecida, pois que as boas palavras renovam as disposições espirituais”.

Por sua vez, o mentor Irmão Jerônimo relata, em Aprimoramento Mediúnico (psicografado pela médium Bernadete Santana), que “(...) é preciso que o passista tenha boa saúde, não dê passes quando se sentir doente ou intoxicado por excesso de alimentos ou medicamentos, pois tais fluidos por si mesmos são maléficos. Os médiuns devem purificar corpo e espírito para possuírem fluidos salutares e benéficos. É importante um trabalho de auto-limpeza, que consiste num mergulho em si mesmo. Sem a reforma íntima, não poderão realizar o bem desejado”.

(Agradecimentos a Ananias, Erlan, Itana, Luciene e Terezinha.)

domingo, 17 de julho de 2016

O vinho bom

Francisco Muniz



“Meus amigos, agradecei a Deus o haver permitido que pudésseis gozar a luz do Espiritismo. Não é que somente os que a possuem hajam de ser salvos; é que, ajudando-vos a compreender os ensinos do Cristo, ela vos faz melhores cristãos. Esforçai-vos, pois, para que os vossos irmãos, observando-vos, sejam induzidos a reconhecer que verdadeiro espírita e verdadeiro cristão são uma só e a mesma coisa, dado que todos quantos praticam a caridade são discípulos de Jesus, sem embargo da seita a que pertençam.
(Paulo, o apóstolo, ESE, cap. XV, item 10)

Convém que primeiro eu me apresente, antes de contar minha história. Eu sou Joaquim, filho de Zacarias e moro em Caná da Galileia desde que nasci. Fui um dos garçons que serviram na festa das bodas de Samuel e Ruth, durante a qual deu-se o prodígio que nos espantou a todos. Ainda hoje não entendo o que aconteceu. Bastou a mãe daquele homem dizer-nos que fizéssemos como ele ordenasse e a festa, que praticamente havia acabado, junto com o vinho, tomou outra dimensão, recomeçando com inusitado encanto, porquanto os convidados exultaram ao experimentar o vinho novo que saía das ânforas onde antes havia apenas água. A mesma água com que aquele Jesus mandou-nos encher as talhas.
Como ele fez aquilo? Como a água se transformou em vinho? E por que jamais se provou vinho igual? – sim, pergunto isso porque também eu bebi um pouco desse vinho e afirmo que nenhum dos que provei após aquela festa apresentou qualidade ao menos parecida. Era um vinho tão bom que por mais que o bebêssemos não nos embriagávamos! Fiquei intrigado e resolvi seguir aquele homem, para de alguma forma compreender sua magia, pois só pode ter sido mágica aquela façanha. Quem era aquele homem, aquele Jesus capaz de realizar o que somente nosso pai Moisés fez, para libertar nossos antepassados da escravidão no Egito? Resolvi que eu iria descobrir. E é aqui que começa minha história, a história de um seguidor desconfiado que depois...
Bem, eu o segui, como disse, depois de me despedir de meus pais e meus irmãos, levando apenas alguns poucos suprimentos. Quando Ele e seu pequeno grupo deixaram Caná, vi que sua mãe os acompanhava e deduzi que fossem seus familiares. Concluí que estivessem voltando à não muito distante Nazaré e isto me contentou, pois não teria de andar em demasia. Mantive-me a certa distância deles, mas observei que em determinado momento um rapazinho ao lado de Jesus virou-se e apontou para mim, certamente denunciando-me. No entanto, nada aconteceu, ninguém se importou com o fato de que eu estivesse caminhando atrás deles e durante todo o trajeto até Nazaré nenhum outro olhar se virou em minha direção.
Já na pequena cidade, mantive-me nas proximidades da casa onde se refugiaram e não precisei esperar muito até que Jesus saiu, dirigindo-se à Sinagoga, levando com ele um grupo bem menor. Postei-me à porta e o vi dirigir-se ao púlpito para ler nas Escrituras os vaticínios do Profeta Isaías sobre a vinda do tão aguardado Messias, que viria libertar Israel do domínio dos conquistadores estrangeiros e dar ao nosso povo a condução do mundo, pois sabíamos ser, desde muito tempo, os escolhidos por Deus para disseminar Seu santo nome pelas eras a fora, como Ele dissera ao nosso Pai Abraão. Então Jesus leu a profecia e fechou o Livro, dizendo com toda naturalidade que naquele dia se cumpriam aquelas palavras.
Como?
Sim, do mesmo modo que eu não entendi, os homens ali presentes, os próprios concidadãos de Jesus ficaram perplexos e começaram a discutir uns com os outros até que por fim se indispuseram com o filho daquela gentil Maria, porque não aceitaram o que ouviram de seus lábios. Falavam alto, gesticulavam, com raiva e violência, apontando para aquele homem corajoso que se manteve calmo e com toda a tranquilidade do mundo passou em meio à turba exaltada, deixando a Sinagoga com seu pequeno séquito e tomando o rumo da saída de Nazaré, recebendo os impropérios e mesmo algumas pedras que atiraram contra Ele. Quando o furor se dissipou, corri para alcançar Jesus e seus seguidores, encontrando-os não muito distantes. Na verdade, andavam tão devagar que era como se me esperassem chegar.
Ele me dirigiu a palavra:
– Demoraste, Joaquim. Se queres, de fato, aprender de mim, que sou manso e humilde de coração, convém te aproximes mais um pouco. Vem conosco, para que teus olhos vejam a Verdade do Reino dos Céus e tua boca a pronuncie no momento certo.
Juntei-me, assombrado, ao grupo dos discípulos e pude assim observar o que Jesus, autonomeando-se o Filho do Homem, realizava em nome de Deus, o Deus de Isaac e Jacó que agora Ele chamava de Pai, propositalmente ignorando que para nós, desde Moisés, esse Deus era o Senhor cruel e vingativo que nos impelia ao extermínio dos inimigos de nossa raça e certamente nos faria expulsar os romanos invasores que nos escravizavam em nossas próprias terras. No entanto, Jesus pregava, em nome desse Deus-Pai, o perdão aos inimigos, que devíamos ter para com eles amor e misericórdia... e eu ainda não entendia.
Eu estava com eles no dia em que Jesus viu-se rodeado por uma grande multidão e, após ter-lhes falado palavras belíssimas do alto de um monte durante várias horas, propôs alimentar aquelas pessoas. Mas quem tinha algo para comer tinha apenas pouca coisa e então prontifiquei-me, oferecendo os dois pães que me restavam. Um dos companheiros de Jesus que era pescador apresentou-lhe três peixes cozidos e conservados para grandes viagens e foi só. Mas aquele homem enigmático aceitou aquelas oferendas e pediu-nos que juntássemos alguns cestos, nos quais ele quebrava os pães e os peixes em pedacinhos e, acreditem!, os cestos ficaram cheios e do conteúdo todo mundo comeu, ficando saciados – eram milhares de pessoas!
De outra feita, caminhava com eles quando um homem cego – de nascença, segundo disseram – foi apresentado a Jesus para que o curasse e ele visse a luz do dia pela primeira vez em sua vida. Sabem o que Ele fez? Cuspiu no chão e depois tomou a terra cuspida nas mãos, misturou-a com um dedo e aplicou a mistura sobre os olhos sem vida daquele cego, mandando-o em seguida que os abrisse. Feito isso, o cego – Bartimeu era seu nome, soube depois – sorriu e chorou, pois via tudo em volta, e assim prostrou-se aos pés de Jesus, agradecido. Quando ele se foi, levando consigo a alegria daquele momento sublime, os companheiros do Rabi – agora eu já podia chamá-lo assim! – o questionaram, perguntando se aquele homem ou seus pais haviam pecado para que ele nascesse cego. Entretanto, Jesus disse apenas que não havia pecado na história, porquanto Bartimeu tinha nascido somente para dar testemunho do Reino dos Céus.
Eu não compreendi essa explicação, mas observei, durante o tempo que caminhei ao Seu lado, que Jesus não perdia ocasião para ensinar, doando-se de boa vontade a quem o procurasse, até mesmo àqueles fariseus pomposos que não gostavam dele e o confrontavam com as tradições de nosso povo, as quais o dito Filho do Homem procurava renovar com o ensinamento do que Ele dizia ser a Verdade: “Ouvistes o que foi dito, eu porém vos digo...” Então não eram verdadeiras as lições e as leis de Moisés e dos antigos profetas de nossa gente? Mas era assim que Jesus ensinava e desejava que entendêssemos. Mas como entender o que ele dizia e fazia? Eram coisas assombrosas, pois até mesmo os mortos ele trazia de volta, como vi com meus próprios olhos em duas oportunidades!
Eu pensava nessas coisas todas, certa noite, meditando nas contradições entre os ensinos novos e antigos, bem como nos prodígios realizados por esse Jesus e naqueles narrados nas Escrituras e protagonizados por Elias e Moisés, quando o Rabi, parecendo ler meus pensamentos, aproximou-se de mim e falou:

– Ainda não compreendes, Joaquim? E, no entanto, tu bebeste daquele vinho em Caná. Aprende que foi para isto que vim ao mundo, por ordem de meu Pai, para dispensar um vinho mais saboroso a todos os homens, a fim de que despertem para o sentido da vida em razão do futuro que os aguarda como filhos bem amados de Deus. Vê bem, Joaquim: os homens vivem perdidos nas trevas da própria ignorância, pois não compreendem o que veem e o que escutam, negando a verdade diante de seus olhos pelo costume do passado. Dia virá em que maldirão terem desprezado estes momentos preciosos de minha presença junto a eles. Mas é necessário que assim seja, para que se cumpram as profecias e todos entendam, enfim, que eu venho da parte de meu Pai para oferecer mão segura àqueles que, vendo a luz do Alto, teimam em permanecer no abismo das sombras. Aprende, ainda, que eu vim trazer a água viva que dessedenta por completo, para que os homens, insaciáveis, possam por si mesmos transformá-la no vinho bom que tornará mais saborosos os relacionamentos, fortalecendo-os no poder do amor que liberta e conclama à união das almas em torno da Vontade do Altíssimo...