sábado, 28 de setembro de 2013

Discurso do Casamento: uma cerimônia - ou Palavras aos noivos

Minha fala na Cerimônia Poética do casamento de minha filha Ananda e Gabriel, na Academia de Letras da Bahia, aberta e presidida pelos "imortais" João Eurico Matta e Aleilton Fonseca, respectivamente, tendo por mestre de cerimônia o radialista Marcos Castelhano, da Rádio Educadora. Foi algo inédito para a Academia e inusitado para quem participou. Ah, a cerimônia contou também com a musicalidade da cantora Manuela Rodrigues, amiga dos noivos.
O texto abaixo foi inspirado pela amiga espiritual Irmã Rafaela.

***

Há muito tempo – e já se passaram 20 séculos – houve no mundo uma certa festa de bodas na qual faltou vinho, tido como ingrediente importante naquela como em toda celebração desse gênero. Um homem fora chamado a suprir essa carência e, segundo reza a tradição, ele transformou água em vinho – e era um vinho de excelente qualidade.
Aqueles dentre nós minimamente versados em Religião sabem que falamos do Cristo Jesus e do episódio das Bodas de Caná. Há um simbolismo nessa passagem evangélica que acreditamos seja significativo para o dia de hoje, o dia em que Gabriel e Ananda formalizam o mútuo “sim”, um sim, em verdade, dito quando os olhares de ambos se cruzaram há aproximadamente sete anos. Hoje é o dia em que eles começam a descobrir, portanto, que a transformação da água em vinho deverá ser uma constante na vida deles. O vinho de antes era mesmo sem gosto, em comparação com o vinho novo, o vinho das alegrias imorredouras.
No entanto, transformar água em vinho é uma arte dominada por poucos, especialmente na esfera conjugal, razão pela qual pensamos dever ministrar aqui algumas orientações à guisa de conselhos aos jovens noivos – e que bom seria que ouvidos atentos as tomassem por importantes, ainda que não tenhamos a pretensão de converter ninguém e por nos vermos sem a devida qualificação para tal.
Quem me conhece sabe que, na condição de espírita, sou reencarnacionista e por isto acredito que o olhar de Gabriel sobre Ananda – e vice-versa – traz a luz de um passado para nós desconhecido e, para eles, estranhamente intuído, como se se perguntassem: onde já vi esse rosto antes?
Quem me conhece, igualmente sabe que sou o pai de Ananda, a quem dei o nome de Felicidade – é este o significado do nome de minha filha em sânscrito. Ananda, portanto, traz a felicidade consigo e por isto, Gabriel, você não precisa se esfalfar para fazê-la feliz. Digo-lhe que você não o conseguirá, porque cada um é feliz por si mesmo. Você deve, porém, fazer-se feliz ao lado dela – e é então que você terá ocasião de transformar água em vinho. Do mesmo modo, Ananda não precisa fazer Gabriel feliz, bastando externar sua felicidade intrínseca até o ponto em que ele possa, como o colibri atraído pela exuberante sutileza da flor, contaminar-se e assim sorver o vinho capitoso advindo da água transformada pelos esforços inteligentes com a finalidade de superar a rotina por vezes sufocante que tortura os casais em suas tentativas de convivência, no que chamamos de vida em comum.
E há uma causa para isso, responsável pela inobservância da milagrosa quão necessária transformação da água em vinho: e é que as pessoas, pretendendo unirem-se em matrimônio, não realizam o imprescindível autocasamento. Sim, é preciso que, antes de casarem um com o outro, casem-se íntima e solitariamente, aliando suas duas naturezas – a humana e a divina, ou espiritual –, para o abrandamento das provações futuras, uma vez que são inevitáveis. É quando os corações sensíveis e sensibilizados necessitam recorrer a Deus, ao Cristo, aos auxiliares invisíveis, reconhecendo a Potência Divina que dormita em nosso íntimo, à qual denominamos fé, como o bastião de todas as possibilidades de harmonização entre os seres.
Importa, portanto, reconhecer, cada um, a dimensão ignota da própria alma em suas manifestações na realidade material. Isto configura o indispensável autoconhecimento, o que em suma significa estarmos conscientes de nós mesmos, no tocante à integralidade do ser, e dessa forma promovermos a valorização de nossas relações, fazendo aos outros o que Deus faz por todos e por cada um de nós, ou, conforme as palavras do Cristo, só fazermos aos outros o que gostaríamos que nos fosse feito – tal é a Regra de Ouro para o sucesso dos relacionamentos.
Assim sendo, esta cerimônia se reveste de um sentido tão poético quanto transcendental – levando em conta que a Poesia é mesmo um exercício transcendente, levando-nos ao encontro das Musas, numa dimensão que diríamos para-humana, porquanto essencialmente espiritual, fazendo-nos afeitos ao romantismo. E é próprio das pessoas românticas viverem como se mergulhadas num livro – de prosa ou de poesia –, desejosas de tornar a vida algo grandioso – humano, sim, mas sem as agruras e as perturbações que acompanham a existência na Terra, vivendo um mundo à parte das provas concernentes a cada um.
Mas a Utopia é um não-lugar e precisamos, em nome da deusa Razão, viver com alegria e convicção o ambiente momentâneo, com a finalidade de transformá-lo e aprendermos a abandoná-lo no instante em que isto se imponha como necessidade. Bem viver, eis o grande desafio, para cuja vitória todos nós somos chamados, individualmente, na intimidade de nosso ser. No entanto, essa aventura espiritual, de cunho eminentemente moral ou moralizante, pode ser feita em conjunto – e a dois poderá ser bastante agradável, desde que saibamos carregar a própria cruz, cada um por si mesmo, embora cientes da importância do auxílio mútuo, em nome da Fraternidade.
Ananda e Gabriel acreditam ser chegada a vez deles. Cabe-nos apoiá-los nessa decisão e por isto aqui estamos, manifestando condescendência para com os esforços de ambos; mas que este testemunho não seja nunca, de nossa parte, conivência ante as atitudes desarvoradas que porventura venhamos a observar em seu comportamento. Juízo, meninos! Confiamos em vocês e esta confiança decorre da complacência divina perante a determinação demonstrada por ambos, e por tal razão não precisamos perguntar, ao contrário da tradição, se vocês aceitam um ao outro como seu legítimo compartilhante de tristezas e alegrias, posto ser isto, para todos nós, uma evidência.
Portanto, Ananda; portanto, Gabriel, beijem-se e vivam sua felicidade responsavelmente, sob as nossas bênçãos e, sobretudo, as bênçãos de Deus, nosso e vosso Pai.
- Laurinha, pode trazer as alianças!

sábado, 21 de setembro de 2013

Perseverança

Irmã Rafaela

Entrega tuas esperanças de felicidade nas mãos de Deus. O mundo onde te encontras ainda verá muitos padecimentos até que tenhas a alegria de ver tuas dores asserenadas, pela quitação de teus muitos débitos para com as leis divinas. Confia, pois, no Pai Supremo, depositando no Banco do Futuro os recursos com os quais esperas os lucros de teu labor.
Coragem, tuas provas aguardam teu empenho e não será da noite para o dia que te verás renovado e indene aos percalços que tu mesmo colocaste em teu caminho. A bondade divina, apesar de tudo, se derrama em bênçãos sobre ti, fortalecendo tua determinação em prol do trabalho de reconstrução íntima.
Sim, um dia "verás a Deus", conforme a amorosa ponderação do Cristo em seu discurso das bem-aventuranças dirigido aos homens. Para tanto, deves trabalhar com denodo, fazendo tua parte para que a Divina Providência te dê o acréscimo de misericórdia a que fizeres jus.
Na condição de discípulo do Senhor, sabes que não deves descurar do atendimento aos necessitados, porquanto assim é que alcançarás as culminâncias do progresso espiritual, transformando num céu de alegrias as dificuldades momentâneas em que vives. E lembra: aqueles ao teu lado são os "pequeninos do Pai"...

sábado, 14 de setembro de 2013

Na subida...

Irmã Rafaela

Repara, pois, a cruz que trazes aos ombros, a cruz do olvido, da incompreensão e também da deserção daqueles que começaram a jornada contigo e hoje se deixam levar por outros caminhos. Não os julgues, mas compreende a tua tarefa ascensional. Sim, desejas alcançar os cimos, no entanto, recorda as lições de fraternidade e caridade, para que a subida não te seja tão penosa e tenhas que retornar sobre tuas pegadas.
Olha para eles e ajuda-os o quanto possível. Eles também cultivam os mesmos ideias, mas de maneira diversa da tua. Compreende, pois, servindo e passando, não se retendo aos empecilhos da estrada que eles palmilham, mas repara que um dia já procedeste assim. Em tua vez, encontraste ajuda - e hoje deves auxiliá-los, para que não se demorem na vã contemplação.
Sofres a dor do isolamento? Não estás a sós, contudo. Sofres a dor da incompreensão? Teus bens não estão na Terra! Sofres a ansiedade, ador do silêncio ante o desejo de partilhar tuas impressões com os demais? Lembra daquele que, do Alto, te atrai para Seu amor inconfundível, onde a solidão, o silêncio e o convívio são a paz em plenitude.
Anda, portanto, atento aos afazeres mais comezinhos de tua jornada no rumo do progresso espiritual, consciente de que outrem não a fará por ti. Mas estamos contigo, hoje e sempre.

sábado, 7 de setembro de 2013

A inspiração no processo criativo

Francisco Muniz
(publicado originalmente na revista Visão Espírita n.° 18 - Ano II - 1999)

"O artista é, por excelência, intuitivo, foge das análises demoradas; de um 'sopro intuitivo' cria sua obra, quase sempre sem retoques." Esta frase do psiquiatra e expositor espírita Jorge Andréa dos Santos, baiano radicado no Rio de Janeiro, resume o livro A inspiração espiritual na criação artística, compilado pela escritora carioca Cristina da Costa Pereira. O livro, editado pelas Publicações Lachâtre, reúne depoimentos de artistas dos mais diferentes gêneros acerca do processo artístico, desde a elaboração das ideias até a concretização da obra. Os testemunhos mostram que muitos escritores, pintores, músicos, teatrólogos, coreógrafos e até bailarinos estão convictos de que se sentem orientados espiritualmente para a realização de sua arte, que não é, portanto, uma atividade mecânica obtida unicamente do domínio de certas técnicas.
Embora preencha uma lacuna existente na ampla literatura espírita no Brasil, Cristina não quis fazer um livro doutrinário nem rotular a arte, deixando para o leitor a tarefa de chegar à conclusão quanto à evidência da inspiração no processo criativo do artista. Segundo ela, a preocupação maior foi relatar a vivência dos artistas depoentes - nenhum de expressão mercadológica, digamos assim, mas todos representativos dos respectivos campos de atuação -, dos quais muitos têm consciência do envolvimento anímico ou mediúnico em seu trabalho. Essa consciência precisa alcançar todo aquele que lida com as artes, diz a autora, acrescentado que "o artista não pode fingir-se irresponsável" neste momento da humanidade, em que as mudanças impelem à verificação e aceitação da influência espiritual.
O artista tem a obrigação de fazer melhor uso de seu dom, afirma a autora, em achar que, sabendo da orientação espiritual, sua arte terá menor apreciação. Muito pelo contrário, o processo de criação fluirá melhor, salienta Cristina. Além do prefácio de Jorge Andréa, A inspiração espiritual... tem apresentação de Léon Denis, através de mensagem mediúnica datada de outubro de 1997, psicografada no Círculo de Pesquisa Espírita (Cipes), em Vitória (ES). Na mensagem, Denis observa que "arte e espiritualidade precisam estar juntas no seio da humanidade, para que se restabeleça de vez o esplendor das cores celestiais diante dos olhos humanos, ávidos da presença divina, ainda não totalmente percebida".
Professora de literatura no Rio de Janeiro, Cristina Pereira é autora de outros cinco livros e ressalta sua vivência espiritualista nos meios social e familiar como preâmbulo para chegar à presente obra, dividida em três partes: influência da espiritualidade na arte, com os depoimentos; artífices da palavra e a esfera espiritual, onde relata como Fernando Pessoa, Federico Garcia Lorca, Cecília Meireles e Teresa de Ávila consideravam a inspiração; e caravana literária, desfile de trechos de depoimento de João Guimarães Rosa sobre seu fazer literário e de poemas de autores do porte de Carlos Drummond de Andrade, Pablo Neruda, Manuel Bandeira, Mário Quintana e Cora Coralina, dentre outros.
Lançado em abril (de 1999), durante a Bienal do Livro do Rio de Janeiro, o livro vem sendo apresentado nas principais capitais brasileiras e no dia 28 de outubro Cristina autografou no centro de convenções do Parlamundi, da Legião da Boa Vontade, em Brasília.

A cruz

Irmã Rafaela

Sim, meu amigo, sofre e trabalha, na direção da luz divina, porquanto é preciso suportar o peso da cruz que trazes sobre os ombros. Os servidores do Cristo devem ser intimoratos, desenvolvendo seu potencial de amor com coragem e responsabilidade, posto ser dele, do Divino Amigo, a obra a que te afeiçoas.
Repara na lição do cireneu, o estrangeiro chamado a colaborar, e entende que a boa colaboração não prescinde dos esforços que todos devemos manifestar perante o Cristo. Pois não pediu Jesus que carregasse sua cruz todo aquele que se dispusesse a segui-lo?
Cala, então, teus ressentimentos e abraça a irmã amargura, acalentando-a em ondas de amor, e não seguirás amargurado. Compreende quem te trata com desdém e desamor como a resposta a teus rogos no caminho da pacificação. Sim, tu tens tua cota de responsabilidade nisso tudo e deves aceitar as reprimendas agradecido à Bondade Divina, consciente de que, se hoje já não pro
cedes para merecê-las, é que elas se prendem ao teu passado.
Prossegue trabalhando, amando e perdoando, fazendo na Terra o que ensina o Cristo. Mais uma vez te dizemos: não estás sozinho, e deves trilhar a senda do aprimoramento perseverando no Bem. Confia e segue em frente. Deus abençoa teus passos - hoje, agora e sempre.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Música & mensagem - Maracangalha

Francisco Muniz
(publicado originalmente na revista Visão Espírita n.° 18 - Ano II - 1999)

Maracangalha
Dorival Caymmi

Eu vou pra Maracangalha, eu vou
Eu vou de uniforme branco, eu vou
Eu vou de chapéu de palha, eu vou
Eu vou convidar Anália, eu vou
Mas se Anália não quiser ir, eu vou só
Eu vou só, eu vou só sem Anália
Mas eu vou

***
 Uma das mais difíceis tarefas de quem abraça a Doutrina Espírita é, sem dúvida, a própria transformação moral, a tão falada "reforma íntima", que implica na superação de defeitos, vícios e paixões em favor de bons hábitos e virtudes que distinguem o verdadeiro homem de bem. "O verdadeiro homem de bem é aquele que pratica a lei de justiça, de amor e de caridade, na sua mais completa pureza", pondera o Espírito Santo Agostinho no complemento à questão 918 de O Livro dos Espíritos, na qual Allan Kardec pergunta pelos sinais com que se reconhece no homem o progresso real que deve elevar seu espírito na hierarquia espírita, para atingir a perfeição a que se destina.
Podemos, assim, entender a "Maracangalha" de Caymmi como essa perfeição de que o espírito necessita, para elevar-se a Deus. Para tanto, é preciso que ele se liberte de tudo que o prende à Terra, na figura de suas más tendências, do que o faz ainda "material". Em suma, é necessário que ele tenha seu "uniforme branco", representado pela pureza de coração e sincera intenção de acertar sempre, cumprindo os ditames divinos, seja atendendo aos ensinamentos evangélicos, seja seguindo a própria consciência (o "chapéu de palha") no que esta recomenda à prática do Bem.
Nesse processo, é comum nos descobrirmos discípulos do Cristo e seguidores de suas palavras no que ele nos recomenda divulgar a Boa Nova a quantos nos partilham o caminho, e eis por que convidamos "Anália" para nos acompanhar nessa trajetória. Entretanto, esse convite nada tem de impositivo e porque todos têm seu livre-arbítrio, sendo donos da própria vontade, a cada qual é dado o direito de aceitar ou recusar esse convite, o qual, embora o acreditemos irrecusável, diz respeito apenas ao indivíduo, isto é, trata-se do autoconvencimento, que se processa pelo uso da razão. Assim , "se Anália não quiser ir, eu vou só", porquanto quem já se iniciou nessa marcha pela autotransformação dificilmente se desviará desse objetivo, posto que o bom, o belo e o verdadeiro plenificam o ser que não se contenta com o ilusório, com o que só satisfaz aos sentidos físicos.

Sonhos - mensagens espirituais

Francisco Muniz
(publicado originalmente na revista Visão Espírita n.° 18 - 1999)

O espírito jamais está inativo - informaram a Allan Kardec as entidades superiores que lhe ditaram as respostas às perguntas de O Livro dos Espíritos. Assim é que, enquanto o corpo físico repousa, durante o sono, os liames que o unem ao espírito se afrouxam e este percorre o espaço, entrando em relação mais direta com ous outros espíritos. Podemos julgar dessa liberdade do espírito durante o sono exatamente pelos sonhos, dizem-nos os tutelados do Espírito de Verdade, salientando que então espírito dispõe de mais faculdades que no estado de vigília, tendo a lembrança do passado e, às vezes, a previsão do futuro. Enganamo-nos, muita vez, asseguram os amigos espirituais, quando acreditamos que inexista verossimilhança em muitos de nossos sonhos que consideramos bizarros ou mesmo horríveis (OLE, questões 400 e seguintes).
Fazemos tal intróito para comentar as experiências do confrade João Pinto Bastos da Silva, militante do movimento espírita baiano, com relação aos sonhos premonitórios. Antes de registrá-las, porém, vejamos o que Kardec, devidamente assessorado pelos Espíritos Superiores, diz-nos a respeito das premonições através dos sonhos. Podem ser algumas vezes, tais sonhos - dizem -, "um pressentimento do futuro, se Deus o permite, ou a visão do que se passa no momento em outro lugar, a que a alma se transporta. Não tendes numerosos exemplos de pessoas que aparecem em sonhos para advertir parentes e amigos do que lhe está acontecendo? O que são essas aparições, senão a alma ou o Espírito dessas pessoas, que se comunicam com a vossa? Quando adquiris a certeza de que aquilo que vistes realmente aconteceu, não é isso uma prova de que a imaginação nada tem a ver com o fato, sobretudo se o ocorrido absolutamente não estava no vosso pensamento, durante a vigília?"
Vamos, então, aos relatos de João Pinto da Silva. No município de Mata de São João, distante 70 km de Salvador, uma irmã deste confrade construiu uma casa e o convidou a ir conhecer o imóvel. Na noite anterior à viagem, João sonhara que se deslocava à referida cidade, vendo, com perfeita nitidez, que toma o trem e, pouco tempo depois, saltava na estação, subia por uma ladeira e, ao chegar à praça principal, olhava à esquerda, deparando-se com a construção que ia visitar, observando-lhe todos os detalhes, inclusive as cores. Quando, no dia seguinte, procedeu exatamente como no sonho, olhando à esquerda ao chegar à praça e após ter subido a ladeira ao sair da estação, tele ele a convicção de que havia ido em espírito a Mata de São João.
De outra feita, o trabalho levou João Pinto a Brasília, conhecendo na capital federal a livraria da Federação Espírita Brasileira, na Galeria dos Estados, além de uma banca de livros espíritas da União Espírita de Brasília, perto da estação rodoviária. João voltou a Salvador com a ideia de instalar na cidade uma livraria fora do centro espírita que frequentava. Depois de muita procura, encontrou uma loja dentro de suas possibilidades econômicas, embora seus recursos fossem insuficientes para a compra imediata. Mas ele tinha, além da caderneta de poupança, também umas ações do Banco do Brasil que poderia negociar, mas ficara em dúvida se se desfaria delas ou não. À noite, entretanto, João sonhara que alguém se lhe aproximava e dizia: "Venda, que vai baixar". No dia seguinte ele procurou um corretor que o orientou a não vender os papéis, alertando para uma provável valorização. Mesmo assim, João preferiu a venda. Dois anos depois, apensa da inflação à época, os títulos tinham se desvalorizado abaixo da metade do valor pelo qual foram negociados. Nisso, a loja tinha sido comprada e a livraria, instalada.
Após sua aposentadoria, João Pinto da Silva adquiriu um sítio perto de Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo, onde pôs um trabalhador, Antonio, para tomar conta da roça. Semanalmente, João inspecionava o local, sempre às sexta-feiras. Havia um trecho de um quilômetro, na estrada, que, quando chovia, impedia o tráfego de carros. Para evitar tal transtorno, João comprara dois burros: um, branco e vagaroso, o qual Antonio montava sempre; o outro, marrom, tinha sido adquirido junto a um empregado de uma usina. Aqui deixamo o autor contar a história que ele intitulou "Os quatro burros":
"Compramos madeira para fazer cercas, descarregada no início da estrada lamacenta. Na sexta-feira pedimos a Antonio para pegar os burros e colocar a madeira na roça. Na semana seguinte resolvemos antecipar nossa ida ao sítio para quinta-feira. Na noite de quarta, sonhamos que Antonio estava se afastando da roça montado no burro marrom. Quando chegamos, encontramos a madeira no mesmo lugar e Antonio preparando os animais para levá-la para dentro. perguntamos a ele por que não executara a tarefa, já que ele tivera quatro dias para isso. Antonio respondeu que tinha coisas para fazer fora e não ia ficar aqui dentro. Despedimos Antonio, que, naturalmente, levou suas coisas montado no burro branco. Tempos depois nos aparece um preposto da usina para nos informar que o empregado que houvera nos vendido o burro marrom não podia tê-lo feito, pois ainda não havia pago totalmente o animal. E assim nosso sonho, que fora premonitório, realizara-se integralmente: saíra o burro marrom e Antonio. Temos aí a história dos quatro burros: o branco, o marrom, Antonio, que perdeu o emprego, e..." 

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Panteísmo

Francisco Muniz
(publicado originalmente na revista Visão Espírita n.° 21 - Ano II - Junho.2000)

As questões 14 a 16 de O Livro dos Espíritos fecham o primeiro capítulo, dedicado ao tema "Deus", e abordam exclusivamente a noção de panteísmo, falsa doutrina segundo a qual tudo é a divindade, uma vez que tudo no universo foi criado por Deus. O estudo acurado do Espiritismo nos mostra que tal pensamento carece de solidez. "Não podendo ser Deus, quer o homem ser, ao menos, uma parte de Deus", respondem os Espíritos Superiores a Allan Kardec (questão 15), revelando a inconsistência do panteísmo, resultado da pouca compreensão dos homens acerca do universo, da natureza e do próprio Deus.
Em decorrência desse pouco entendimento, os homens primitivos idealizaram a crença em pretensas representações de Deus, através de ídolos, chegando ao cúmulo de a eles fazerem oferendas, incluindo-se aí até mesmo o sacrifício de animais e de seres humanos. Mais tarde, a teologia elaborou o conceito de que os homens foram feitos à imagem e semelhança do Criador e assim concebeu-se um Deus antropomorfizado. Tal ideia leva a pensar que cada um, então, imagina Deus a partir de si próprio, com as virtudes e imperfeições que tiver, o que é absurdo.
- Deus é um ser distinto ou, como pensam alguns, será a resultante de todas as forças e de todas as inteligências do universo?, indaga o Codificador (q. 14), recebendo dos amigos espirituais esta resposta: "Se assim fosse, Deus não existiria, porque seria efeito e não causa. E ele não pode ser simultaneamente uma e outra coisa". Isso porque, como já vimos anteriormente, Deus é a "causa primeira de todas as coisas", conforme a definição dos Espíritos, na pergunta que abre a primeira obra da Codificação Espírita. "Deus existe - não podeis duvidar - e isto é o essencial", frisam os Espíritos Superiores.
Continuando, eles dizem: "Não queirais ir além. Não vos percais num labirinto de onde não podereis sair. Isto não vos tornaria melhores, mas talvez mais orgulhosos, porque acreditaríeis sabe quando na verdade não sabeis. Então ponde de lado todos esses sistemas; há mujitas coisas que vos tocam diretamente, a começar por vós mesmos. Estudai vossas imperfeições, a fim de vos desembraçardes delas; isto será mais útil do que pretender penetrar o impenetrável".
Neste momento vem bem a calhar a ponderação do dramaturgo inglês William Shakespeare: "Há muito mais entre o céu a terra do que sonha nossa vã filosofia" (o grifo é nosso). Mas é do homem dar asas à imaginação e por vezes essa asas são a cegueira e a incoerência, até que por fim venha o esclarecimento, à custa de muito esforço. Somente então é que se chega ao entendimento das palavras do Cristo, segundo as quais precisamos adorar a Deus "em espírito e verdade".
Assim, os que professam o panteísmo - por incrível que possa parecer, essa crença ainda persiste, mesmo em meio a homens ditos esclarecidos - "pensam nele achar a demonstração de alguns atributos de Deus. Sendo os mundo infinitos, por isso mesmo Deus o é também", pondera Kardec. Seguindo esse pensamento, o Codificador inquire os Espíritos: Não havendo o vácuo em parte alguma, Deus está em toda parte, pois que tudo é parte integrante de Deus, a todos os fenômenos da natureza ele dá uma razão de ser inteligente. Que se pode opor a esse raciocínio?" A resposta é a da lógica, da coerência e do bom senso que caracterizam a Doutrina Espírita: "A razão. Refleti maduramente e não vos será difícil reconhecer-lhe o absurdo", dizem os Espíritos Superiores.
Por fim, Kardec rechaça o panteísmo nestes termos: "Essa doutrina faz de Deus um ser material e, posto que dotado de uma inteligência suprema, seria em ponto grande aquilo que somos em ponto pequeno. Ora, desde que a matéria se transforma incessantemente, se assim fosse, Deus não teria estabilidade; estaria sujeito a todas as vicissitudes, a todas as necessidades da própria humanidade; faltar-lhe-ia um dos atributos essenciais da divindade: a imutabilidade. Não é possível aliar as propriedades da matéria à ideia de Deus sem o rebaixar em nosso pensamento; e todas as sutilezas doi sofisma não conseguirão resolver o problema de sua natureza íntima. Não sabemos tudo que ele é, mas sabemos aquilo que ele não pode ser, e esse sistema (o panteísmo) está em contradição com suas propriedades mais essenciais; ele confunde o Criador com a criatura, do mesmo modo como se quiséssemos que uma máquina engenhosa fosse uma parte integrante do mecânico que a idealizou. A inteligência de Deus se revela em suas obras, como a de um pintor em seu quadro; mas as obras de Deus não são o próprio Deus, do mesmo modo que o quadro não é o pintor que o concebeu e realizou" (grifo nosso).

Análise de filme - Melhor impossível

Francisco Muniz
(publicado originalmente na revista Visão Espírita n.° 21 - Ano II - Junho.2000)

Muitos dos frequentadores de casas espíritas adentram os pórticos do Espiritismo com a firme determinação de buscar respostas convincentes para suas inquietações existenciais, além do simples consolo para as dores morais e até mesmo físicas. Assim, não raro se deparam com a necessidade da reforma íntima, como condição sine qua non pra a obtenção, assimilação e continuidade dos benefícios buscados.
O filme estrelado pelo ator Jack Nocholson oferece-nos ensejo para comentários sobre o tema. Reforma íntima, em essência, é o entendimento da frase cunhada por Allan Kardec no tópico 4 do capítulo "Sede perfeitos" de O Evangelho segundo o Espiritismo, intitulado "Os bons espíritas". A frase reza o seguinte: "Reconhece-se o verdadeiro espírita por sua transformação moral e pelos esforços que faz pra dominar suas más inclinações".
Sabemos que todos somos possuidores de vícios (defeitos) e virtudes, em maior ou menor grau na relação entre estas e aqueles. A reforma que cada um de nós precisa fazer em si mesmo é jsutamente equilibrar essa relação, o que significa dizer que as virtudes devem preponderar sobre os defeitos, como numa balança em que um dos pratos deve estar muito abaixo do outro.
Para tanto, o trabalho no campo moral impõe-se como catalisador desse equilíbrio, levando o ser a se pautar pelo comportamento exemplificado pelas lições do MEstre Jesus. Tal é o impositivo da Lei de Evolução a que todos estamos submetidos. Para mais esclarecimentos, sugerimos consulta à obra Fundamentos da reforma íntima, ditada pelo Espírito Cairbar Schutel ao médium Abel Glaser. 

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Análise de filme - O pequeno Stuart Little

Francisco Muniz
(publicado originalmente na revista Visão Espírita n.° 21 - Ano II - Junho.2000)

Uma fantasia para divertimento das crianças também pode nos oferecer pontos para reflexão. No caso desse filme, uma das principais lições é a do convívio com as diferenças. No campo espiritual, em se sabendo que os espíritos foram criados simples e ignorantes e evoluem cada qual a seu tempo, a desigualdade de aptidões morais e intelectuais é também patente, ao ponto de Allan Kardec ter elaborado uma escala espírita.
No plano físico, essas diferenças podem ser observadas melhor desde o âmbito familiar, como é ressaltado no filme. Ainda que os casais se formem também pela afinidade física, em complemento do afeto que os una, os pais por vezes se surpreendem com a heterogeneidade que marca sua prole, iludindo-se com a vaidade de que os filhos herdam traços de seu caráter, além dos componentes genéticos.
Na verdade, cada um desses seres é um espírito, uma individualidade, de acordo com as palavras de Jesus, quando afirmou que "o que vem da carne é carne, o que vem do espírito é espírito", embora o espírito do filho não proceda do espírito dos pais. O que Jesus quis dizer, segundo nos esclarece a Doutrina Espírita, é que os espíritos vêm à Terra procedentes do mundo espiritual, enquanto o ambiente físico é próprio da carne, ou seja, da matéria.
"Os pais transmitem aos filhos uma porção de sua alma, ou nada mais fazem do que lhes dar a vida animal, a que uma nova alma vem juntar depois a vida moral?", pergunta Allan Kardec em O Livro dos Espíritos. Em resposta, os Espíritos Superiores informam: "Somente a vida animal, porque a alma é indivisível. Um pai estúpido pode ter filhos inteligentes e vice-versa".
Compete aos pais procurar equilibrar essas diferenças, através da educação ministrada aos filhos, corrigindo más tendências que se manifestem desde cedo, e estimulando o exercício das virtudes. Aqueles que se interessarem pelo aprofundamento do tema poderão recorrer ao livro Nossos filhos são espíritos, do escritor espírita Hermínio Miranda.

Música & mensagem - O velho Francisco

Francisco Muniz
(publicado originalmente na revista Visão Espírita n.° 21 - Ano II - Junho de 2000)

Essa música de Chico Buarque (letra abaixo) dá-nos ótima oportunidade para abordarmos aqui a tese comprovada da reencarnação. Comprovada porque renomados cientistas, a exemplo do norte-americano Ian Stevenson e o indiano Hamendras Banerjee, além do brasileiro Hernani Guimarães Andrade, já se debruçaram cobre a questão e deixaram claro - menos, talvez, para os negadores sistemáticos - em suas conclusões que os sucessivos renascimentos são uma realidade. Isso demonstra a verdade por trás das revelações do Espiritismo, que veio descortinar para o homem comum a existência de leis naturais que regem a vida e mostrar que o Espírito não é criado no momento em que a criatura sai do ventre materno. Pelo contrário, cada criança que vem ao mundo seguramente já teve por vezes muito mais existências que os próprios pais e terá várias outras até que alcance um estado em que não precise mais reencarnar. Tal é o impositivo da Lei de Evolução, que regula o progresso em todos os setores do universo, assegurando a vontade de Deus, cuja justiça soberana estabelece que tudo deve caminhar para a perfeição.
Acredite-se ou não na reencarnação, na condição todos estamos submetidos a ela. O fato é que a rigor não recordamos de nossas vidas anteriores, o que leva grande parte das pessoas a duvidar dessa realidade. O esquecimento do passado, entretanto, decorre da aplicação da justiça divina, como acréscimo de misericórdia pra nós. Imagine-se uma situação em que membros de uma família se descobrissem inimigos de outras existências, durante as quais mataram, traíram, roubaram e vilipendiaram-se mutuamente, provocando ódios, dores e muito sofrimento. Ora, a justiça da reencarnação está em que os seres precisam depurar os sentimentos negativos, aprendendo a superar as situações afligentes comportadas no relacionamentos, a fim de que avancem na senda do progresso espiritual. Recordando tudo (ou quase tudo) que fez ou sofreu no passado, que condições de melhoramento terá uma pessoa que ainda guarda feridas abertas no coração, em função de ver ao lado aqueles a quem causou dor ou deles fora vítima?
Assim, o ser espiritual tem a seu favor, constantemente, as bênçãos do céu, de acordo com as palavras dos Espíritos Superiores a Allan Kardec, em resposta à questão 171 de O Livro dos Espíritos: "Um bom pai deixa sempre a seus filhos uma porta aberta para o arrependimento. Não te diz a razão que seria injusto privar irremissivelmente da felicidade eterna todos aqueles de quem não dependeu o próprio melhoramento? Não são todos os homens filhos de Deus? Só entre os homens egoístas é que se encontram a iniquidade, o ódio implacável e os castigos irremissíveis". Aí é que se evidencia o ensinamento de Jesus, quando disse a Nicodemos "necessário vos é nascer de novo" para entrar no Reino de Deus, pois não é possível realizar em uma só existência todas as transformações morais que farão o Espírito atingir a condição dos seres venturosos que se encontram mais próximos de Deus, gozando daquela perfeição relativa que é a meta a que todos nos conduzimos.

O velho Francisco

Já gozei de boa vida
tinha até meu bangalô
cobertor, comida
roupa lavada
vida veio e me levou

Fui eu mesmo alforriado
pela mão do imperador
tive terra, arado
cavalo e brida
vida veio e me levou

Hoje é dia de visita
vem aí meu grande amor
ela vem toda de brinco
vem todo domingo
tem cheiro de flor

Quem me vê, vê meu bagaço
do que viu quem me enfrentou
campeão do mundo
em queda de braço
vida veio e me levou

Li jornal, bula e prefácio
que aprendi sem professor
frequentei palácio
sem fazer feio
vida veio e me levou

Hoje é dia de visita
vem aí meu grande amor
ela vem toda de brinco
vem todo domingo
tem cheiro de flor

Eu gerei dezoito filhas
me tornei navegador
vice-rei das ilhas
da Caraíba
vida veio e me levou

Fechei negócio da China
desbravei o interior
possuí mina
de prata, jazida
vida veio e me levou

Hoje é dia de visita
vem aí meu grande amor
hoje nem deram almoço, né
acho que o moço até
nem me lavou

Acho que fui deputado
acho que tudo acabou
quase que
já não me lembro de nada
vida veio e me levou

domingo, 1 de setembro de 2013

A "máquina de fazer doido" está descontrolada

Francisco Muniz
(publicado originalmente na revista Visão Espírita n.° 4 - Ano I - Julho de 1998)

É notório que a televisão é o mais poderoso e influente meio de comunicação que o homem já inventou. Em apenas meio século (data do final dos anos 40 sua invenção), ela passou a ser um forte indicativo do progresso entre todas as camadas sociais. Até o começo da década de 1980, quem não possuía um aparelho de TV não estava integrado à sociedade (de consumo, como se definiu depois). Hoje, essa integração está tão disseminada que qualquer barraco, por mais humilde que seja, exibe um televisor (os preços caíram muito desde 1960), muitas vezes o único responsável pelos momentos de lazer e diversão de famílias inteiras.
E é esse poder de penetração da TV, principalmente junto às camadas menos esclarecidas da população, que torna esse sistema de comunicação tão útil quanto perigoso. Questionados a respeito do progresso material, os Espíritos responderam a Allan Kardec que toda invenção é boa desde que os homens façam bom uso dela. Perguntamos, por nossa vez, se temos feito bom uso da televisão, um instrumento de comunicação instantânea que deveria, segundo entendemos, propiciar meios de educação coletiva, esclarecendo mentes e diminuindo de modo gradativo as disparidades sociais.
O que se vê, ao contrário, são emissoras generalizando e banalizando os aspectos mais grotescos e menos instrutivos do comportamento humano. Cenas de violência, sexo, hábitos insalubres e barbarismo são comuns, atualmente, nas telas de TV (a "máquina de fazer doido", na definição do escritor e humorista Sérgio Porto, já desencarnado e reconhecido pela alcunha de Stanislaw Ponte Preta), influenciando principalmente crianças e adolescentes. Recentemente, um programa infantil japonês causou distúrbios psicopatológicos em várias pessoas - tanto crianças quanto jovens e adultos - devido aos efeitos produzidos pela manipulação de cores e luzes.

Influência espiritual

Há algum tempo, a psicóloga transpessoal baiana Ruth Brasil Mesquita - atualmente diretora do Departamento de Assuntos Doutrinários da Federação Espírita da Bahia (FEEB) - referiu-se, numa palestra ao público espírita, à influência dos espíritos fascinadores sobre as pessoas encarregadas de coordenar a programação das estações de TV e também ,sobre os donos dessas emissoras. Segundo Ruth, tais espíritos, que se incluem facilmente no primeiro degrau da escala espírita elaborada por Kardec ("espíritos impuros"), se encarregam de tornar os programadores menos criteriosos na hora de suscitar a criação local e de comprar filmes e programas estrangeiros, priorizando o que tenha mais apelo popular. O principal critério seria, então, o da excitação dos sentidos, ou dos instintos mais primários.
A tese de Ruth explicaria, em parte, o volume de informações sobre o qual se debruçam educadores, psicólogos, sociólogos e "comunicólogos" (estudiosos do processo de comunicação), na tentativa de enxergar a natureza dos efeitos da TV no comportamento humano. Atitudes éticas, pautadas no bom senso, poderiam talvez evitar que crianças, procurando imitar ídolos criados pela TV (e pelo cinema), saíssem armadas para intimidar colegas e professores e até matá-los, como aconteceu em março (de 1998), nos Estados Unidos.
Quem detém um poder como o da televisão - e no Brasil ele é uma concessão governamental -, capaz de manipular consciências, tem responsabilidades muito grandes. Um programa de TV, antes de ser apenas entretenimento, deve promover o ser humano e não tratá-lo ao nível de animais, como é visto hoje em dia. Não é por acaso, portanto, que programas religiosos tenham que comprar espaços pra exibir suas mensagens e muitas vezes só conseguem uma faixa de horário em que boa parte do público ainda está dormindo. É claro, alguns religiosos conseguem ter sua própria emissora e até mesmo uma rede de TV.

Exceções

Quanto aos espíritas, já é possível ter alternativas, mesmo na chamada TV comercial. Quem deseja ver e ouvir as mensagens do verdadeiro e único Espiritismo encontra opções principalmente na Rede Globo e na TV Bandeirantes. E emissora carioca, que já produziu novelas com temáticas espíritas e pelo menos três vezes por ano (até então) realiza reportagens sobre mediunidade, veicula(va) toda quinta-feira, cinco minutos antes do Telecurso, a mensagem de "bom dia" da Federação Espírita Brasileira (FEB). A Band, por sua vez, transmite (não mais), em Salvador, o "Visão Social", programa conduzido nas manhãs de sábado pelo médium José Medrado; no Rio de Janeiro, no mesmo dia e horário, vai (ou ia) ao ar o "Despertar do Terceiro Milênio", com apresentação de Joel Vaz, um dos diretores da Globo.
Correndo por fora, o "Espiritismo via Satélite", transmitido diretamente de Salvador para todo o Brasil e América do Sul, desempenha há mais de dois anos a tarefa de divulgar a Doutrina Espírita para, pelo menos, cinco milhões de pessoas, principalmente onde a TV comercial não tem presença muito forte e os aglomerados populacionais carecem de atividades de entretenimento educativo. Com seu programa, o apresentador Alamar Régis Carvalho tem procurado dissipar, todos os domingos, o véu de misticismo que cerca o Espiritismo por este Brasil afora, tentando livrar as consciências da ignorância e do apego a pensamentos e valores que não condizem mais com o adiantamento moral e intelectual que se exige da Humanidade.