sexta-feira, 21 de março de 2014

Feminismo

Augusto Cezar (*)

Pergunta-me você o que seja feminismo, talvez supervalorizando a minha capacidade de resposta.
O assunto, no entanto, me faz lembrar uma história, aliás, repetida por vários cronistas, interessados nas tradições populares.
Dou-lhe esta explicação para que você não me considere plagiário com adjetivos jocosos e zombeteiros.
Conta-se que Jesus, acompanhado por alguns discípulos, seguia, dos arredores de Jerusalém, demandando a cidade de Jericó. O Mestre alterara o plano de excursão, através de muitas veredas, a fim de visitar necessitados e doentes.
Em dado instante, o grupo não soube acertar com o verdadeiro caminho e apareceu acalorada troca de opiniões.
Nisso, salientou-se, não longe, a figura de um viandante cuja presença pareceu providencial aos companheiros da Boa-Nova. Notando que o desconhecido se abeirava dos circunstantes, Simão pedro barrou-lhe a frente e interpelou-o:
- Amigo, acaso poderá a sua bondade informar-nos quanto ao exato caminho para Jericó?
O desconhecido trancou a face que lhe evidenciava o descontentamento e replicou em seguida:
- Quem lhe falou que sou guia de vagabundos? Tenho mais que fazer. Não me arrisco a contato com malfeitores e ladrões. Sigam para onde quiserem...
Dito isso, afastou-se, estugando o passo, e Pedro, desapontado, dirigiu-se a Jesus, comentando:
- Mestre, viu só que insolência? Não é justo suportar desaforos! Decerto que o Céu castigará esse brutamontes, impondo-lhe a punição que faz por merecer...
O Cristo ouviu, apreensivo, e ponderou:
- Pedro, não julgue sem o conhecimento preciso... Quem será esse homem? Talvez seja um doente ou um desesperado...
A expectativa reapossava-se dos apóstolos, quando surgiu, à frente deles, bela jovem carregando um cântaro de água na cabeça. Simão Pedro adiantou-se, interpelou-a repetindo a petição que fizera ao viandante agressivo e exasperado.
- O melhor caminho para Jericó? - indagou a morra sorrindo. De imediato, depôs no chão o vaso que trazia e passou a explicar com gentileza de que modo atingiriam a cidade sem obstáculos maiores. Além disso, encorajou os apóstolos à caminhada, com expressões de encantador otimismo.
Terminado o diálogo, ei-la retomando o vaso transbordante de água límpida, seguindo estrada afora...
Simão Pedro aconchegou-se a Jesus e lhe falou com intimidade:
- Mestre, notou a diferença? O bruto que nos desconsiderou e essa menina generosa se parecem a um animal e a uma flor...
Ante o Senhor, que se fizera pensativo, Pedro insistiu:
- Senhor, qual será a recompensa que o Céu concederá a essa jovem que nos prestou um serviço tão grande?
Jesus sorriu e falou ao apóstolo em voz alta:
- Sim, Pedro, essa jovem será recompensada; e o prêmio dela será casar-se com o homem brutalizado que passou por aqui, a fim de que consiga educá-lo para Deus e para a vida.
Surpresa geral encerrou o assunto.
É isso aí, meu caro. Se a mulher nos abandonar à própria sorte, negando-se a cumprir a missão que o Céus lhe atribuiu, com certeza, nós todos, os homens vinculados ainda à Terra, estaremos perdidos...

***

(*) Psicografia de Chico Xavier inserida no livro "Fotos da vida" (lição n.° 4), ed. GEEM.

segunda-feira, 17 de março de 2014

Eternas bênçãos

Irmã Rafaela

As bênçãos de nossa Mãe Maria caiam sobre ti, filha querida. Que as santas alegrias da vida espiritual te alcancem neste dia em que socorremos tuas carências, estimulando-te à paciência, à esperança e à confiança na sábia vontade de nosso Pai.
Bem te dissemos e te reafirmamos essa verdade: nada termina, tudo continua, em se tratando da vida imortal do Espírito. Confia, teus dias serão coroados de glória e logo virão os momentos em que serás bem mais feliz ao te reunires aos teus nos planos da Espiritualidade. Não tenhas pressa, contudo, pois os planos de Deus são os melhores para seus filhos.
Filha amada, querida amiga: os laços que se rompem  na Terra são reafirmados no Céu graças à sinceridade dos afetos e da convivência com as lições e os ideais do Cristo, fazendo-nos merecedores de toda a solicitude divina, pois Deus, o Pai extremoso, cuida bem dos filhos diligentes, tanto quanto não abandona aqueles que se transviaram.
Ainda uma vez te pedimos: tem paciência, tolera os que não podem ainda te tolerar e envolve em tua ânsia de felicidade todos os que de alguma maneira te prejudicam. Sê em Deus tu mesma e Suas bênçãos serão eternas.

Os pequeninos

Irmã Rafaela

Socorre-te de ti mesmo ajudando teus irmãos. É o que tens a fazer. Já te dissemos qual é tua tarefa. Tuas mãos serão ainda mais valorosas no trabalho abnegado em favor das criaturas. E daí que já faças alguma coisa? A dor do mundo é tão intensa que ainda não sentes nem a milésima parte dela! São tantas as queixas, os dramas, os problemas; tantos os infortúnios, as lamentações, os sofrimentos, quanto são poucos os que se dedicam a sofreá-los um tantinho oferecendo o lenitivo para o corpo e para a alma.
Repara, portanto, em tuas capacidades, pois podes ofertar de ti algo mais do que simples palavras. Já te dissemos também que não é por ti mesmo que o fazes, mas pelo Cristo, que precisa de tuas mãos, de tua mente e de teu coração para se fazer sentir na Terra, junto aos pequeninos desamparados, que são as ovelhas perdidas do rebanho do Divino Pastor. Lembra-te de procurá-los para vesti-los, saciar-lhes a fome e a sede e pensar suas feridas, especialmente no campo moral, causa dos muitos padecimentos nesse mundo onde as provas escruciam os incautos e atormentam os que já conseguem divisar a luz da Verdade.
A marcha é árdua, bem sabemos, e são perigosos os caminhos da realidade material; mas aquele que trilha à margem é mais sujeito aos riscos, ao passo que os emissários do Senhor protegem os de boa vontade. Não temas, pois; estamos ao teu lado.

segunda-feira, 10 de março de 2014

Sutileza dos fenômenos anímicos

Yvonne do Amaral Pereira, Espírito (*)


O animismo representa um capítulo indispensável no estudo da prática espírita.
Nos códigos doutrinários, especialmente em O livro dos Espíritos e em O livro dos médiuns, encontramos importantes lições sobre os potenciais que cada alma encerra em si, tornando-a capaz de produzir um sem número de fenômenos à revelia da interferência dos Espíritos.
Cunhada pelo sábio russo Alexandre Aksakof, a palavra animismo, que vem do latim anima, se destina à explicação daqueles fenômenos transcendentais que são produzidos pela alma do médium sem a colaboração direta dos Espíritos; são, por isso, manifestações que vem do próprio ser, exteriorizando capacidades que todos possuímos, mas que, na maioria de nós, encontram-se dormitando.
Assim, é possível à alma promover movimentações de objetos e mesmo fenômenos inteligentes sem o concurso espiritual, a ponto de confundir o observador quanto à verdadeira causa de tais episódios.
Em O livro dos médiuns, no capítulo intitulado “o papel dos médiuns nas comunicações”, Allan Kardec explica suficientemente tais ocorrências, lembrando, na palavra dos Espíritos Codificadores, que o ser encarnado também é um Espírito que, embora encarcerado no corpo, por vezes logra desprender-se das amarras da matéria para gozar da plenitude de suas forças espirituais.
Somos da opinião, inclusive, de que nenhum fenômeno mediúnico há que dispense a colaboração anímica, ou seja, a participação do médium. Ousamos afirmar que essa colaboração é indispensável para que os fenômenos aconteçam, já que o médium, qualquer que seja ele, jamais é inteiramente passivo durante as comunicações, participando ora com seu vocabulário, ora com seus conhecimentos, ora, mesmo, oferecendo limites e ampliações àquilo que cada comunicante pretenda alcançar.
Confessamos que nada do que produzimos na mediunidade, quando encarnada, teríamos feito se não colocássemos nossos potenciais anímicos à disposição dos Espíritos. Quer nos desdobramentos, quer na psicografia, sobretudo por sermos médium consciente, participávamos positivamente na obtenção dos ditados, facilitando aos Espíritos cuidarem das questões mais importantes, desembaraçando-se de aspectos procedimentais que pudessem turvar as atividades.
Daí porque, não apenas do ponto de vista teórico, mas pela nossa experiência, consideramos relevante que médiuns e esclarecedores se debrucem sobre o estudo dos fenômenos anímicos, pois que representam uma sutileza a mais na prática da mediunidade. Não havendo fenômeno mediúnico sem fenômeno anímico, é imperioso compreender quando começa um e termina o outro, ou em que momento se confundem e se complementam, para que a prática espírita possa ser levada a efeito com maior tranquilidade e sem estranhamentos.
O estudo do animismo e dos seus fenômenos nos permitirá ver essas manifestações com a naturalidade de que se revestem, longe da atmosfera de perseguição e ridicularização que os cercam. Animismo não é crime nem um fantasma temerário, mas ocorrência natural e comum no trato mediúnico.
Busquemos em Kardec e nos seus vários continuadores as referências de que necessitamos, a fim de colocarmos nossos potenciais mediúnicos e anímicos, o mais que pudermos, a serviço do Evangelho e do Espiritismo.
Com votos de paz,

Yvonne

***

(*) Mensagem recebida por Pedro Camilo em 07.09.11, para a XXVI Semana Telles.

O Espiritismo e a mulher

Léon Denis


Encontram-se, em ambos os sexos, excelentes médiuns; é à mulher, entretanto, que parecem outorgadas as mais belas faculdades psíquicas. Daí o eminente papel que lhe está reservado na difusão do novo Espiritualismo.
Malgrado às imperfeições inerentes a toda criatura humana, não pode a mulher, para quem a estuda imparcialmente, deixar de ser objeto de surpresa e algumas vezes de admiração. Não é unicamente em seus traços pessoais que se realizam, em a Natureza e na Arte, os tipos da beleza, da piedade e da caridade; no que se refere aos poderes íntimos, à intuição e adivinhação, sempre foi ela superior ao homem. Entre as filhas de Eva é que obteve a antiguidade as suas célebres videntes e sibilas. Esses maravilhosos poderes, esses dons do Alto, a Igreja entendeu, na Idade Média, aviltar e suprimir, mediante os processos instaurados por feitiçaria. Hoje encontram eles sua aplicação, porque é sobretudo por intermédio da mulher que se afirma a comunhão com a vida invisível.
Mais uma vez se revela a mulher em sua sublime função de mediadora que o é em toda a Natureza. Dela provém a vida; e ela a própria fonte desta, a regeneradora da raça humana, que não subsiste e se renova senão por seu amor e seus ternos cuidados. E essa função preponderante que desempenha no domínio da vida, ainda a vem preencher no domínio da morte. Mas nós sabemos que a morte e a vida são uma, ou antes, são as duas formas alternadas, os dois aspectos contínuos da existência.
Mediadora também é a mulher no domínio das crenças. Sempre serviu de intermediária entre a nova fé que surge e a fé antiga que definha e vai desaparecendo. Foi o seu papel no passado, nos primeiros tempos do Cristianismo, e ainda o é na época presente.
O Catolicismo não compreendeu a mulher, a quem tanto devia. Seus monges e padres, vivendo no celibato, longe da família, não poderiam apreciar o poder e o encanto desse delicado ser, em quem enxergavam antes um perigo.
A antiguidade pagã teve sobre nós a superioridade de conhecer e cultivar a alma feminina. Suas faculdades se expandiam livremente nos mistérios. Sacerdotisa nos tempos védicos, ao altar doméstico, intimamente associada, no Egito, na Grécia, na Gália, às cerimônias do culto, por toda a parte era a mulher objeto de uma iniciação, de um ensino especial, que dela faziam um ser quase divino, a fada protetora, o gênio do lar, a custódia das fontes da vida. A essa compreensão do papel que a mulher desempenha, nela personificando a Natureza, com suas profundas intuições, suas percepções sutis, suas adivinhações misteriosas, é que foi devida a beleza, a força, a grandeza épica das raças grega e céltica.
Porque, tal seja a mulher, tal é o filho, tal será o homem. É a mulher que, desde o berço, modela a alma das gerações. É ela que faz os heróis, os poetas, os artistas, cujos feitos e obras fulguram através dos séculos. Até aos sete anos o filho permanecia no gineceu sob a direção materna. E sabe-se o que foram as mães gregas, romanas e gaulesas. Para desempenhar, porém, tão sagrada missão educativa, era necessária a iniciação no grande mistério da vida e do destino, o conhecimento da lei das preexistências e das reencarnações; porque só essa lei dá à vida do ser, que vai desabrochar sob a égide materna, sua significação tão bela e tão comovedora.
Essa benéfica influência da mulher iniciada, que irradiava sobre o mundo antigo como uma doce claridade, foi destruída pela lenda bíblica da queda original.
Segundo as Escrituras, a mulher é responsável pela proscrição do homem; ela perde Adão e, com ele, toda a Humanidade; atraiçoa Sansão. Uma passagem do Eclesiastes a declara “uma coisa mais amarga que a morte”. O casamento mesmo parece um mal: “Que os que têm esposas sejam como se não as tivessem” – exclama Paulo.
Nesse ponto, como em tantos outros, a tradição e o espírito judaico prevaleceram, na Igreja, sobre o modo de entender do Cristo, que foi sempre benévolo, compassivo, afetuoso para com a mulher. Em todas as circunstâncias a escuda ele com sua proteção; dirige-lhe suas mais tocantes parábolas. Estende-lhe sempre a mão, mesmo quando decaída. Por isso as mulheres reconhecidas lhe formam uma espécie de cortejo; muitas o acompanharão até a morte.
A situação da mulher, na civilização contemporânea, é difícil, não raro dolorosa. Nem sempre a mulher tem para si os usos e as leis; mil perigos a cercam, se ela fraqueja, se sucumbe, raramente se lhe estende mão amiga. A corrupção dos costumes fez da mulher a vítima do século. A miséria, as lágrimas, a prostituição, o suicídio – tal é a sorte de grande número de pobres criaturas em nossas sociedades opulentas.
Uma reação, porém, já se vai operando. Sob a denominação de feminismo, um certo movimento se acentua legítimo em seu princípio, exagerado, entretanto, em seus intuitos; porque ao lado de justas reivindicações, enuncia propósitos que fariam da mulher, não mais mulher, mas cópia, paródia do homem. O movimento feminista desconhece o verdadeiro papel da mulher e tende a transviá-la do destino que lhe está natural e normalmente traçado. O homem e a mulher nasceram para funções diferentes, mas complementares. No ponto de vista da ação social, são equivalentes e inseparáveis.
O moderno Espiritualismo, graças às suas práticas e doutrinas, todas de ideal, de amor, de equidade, encara a questão de modo diverso e resolve-a sem esforço e sem estardalhaço. Restitui a mulher seu verdadeiro lugar na família e na obra social, indicando-lhe a sublime função que lhe cabe desempenhar na educação e no adiantamento da Humanidade. Faz mais, reintegra-a em sua missão de mediadora predestinada, verdadeiro traço de união que liga as sociedades da Terra às do Espaço.
A grande sensibilidade da mulher a constitui o médium por excelência, capaz de exprimir, de traduzir os pensamentos, as emoções, os sofrimentos das almas, os altos ensinos dos Espíritos celestes. Na aplicação de suas faculdades encontra ela profundas alegrias e uma fonte viva de consolações. A feição religiosa do Espiritismo a atrai e lhe satisfaz as aspirações do coração, as necessidades de ternura, que estendem, para além do túmulo, aos entes desaparecidos. O perigo para ela, como para o homem, está no orgulho dos poderes adquiridos, na suscetibilidade exagerada. O ciúme, suscitando rivalidades entre médiuns, torna-se muitas vezes motivo de desagregação para os grupos.
Daí a necessidade de desenvolver na mulher, ao mesmo tempo que os poderes intuitivos, suas admiráveis qualidades morais, o esquecimento de si mesma, o júbilo do sacrifício, numa palavra, o sentimento dos deveres e das responsabilidades inerentes à sua missão mediatriz.
O Materialismo, não ponderando senão o nosso organismo físico, faz da mulher um ser inferior por sua fraqueza e a impele à sensualidade. Ao seu contato, essa flor de poesia verga ao peso das influências degradantes, se deprime e envilece. Privada de sua função mediadora, de sua imaculada auréola, tornada escrava dos sentidos, não é mais um ser instintivo, impulsivo, exposto às sugestões dos apetites mórbidos. O respeito mútuo, as sólidas virtudes domésticas desaparecem; a discórdia e o adultério se introduzem no lar; a família se dissolve, a felicidade se aniquila. Uma nova geração, desiludida e céptica, surge do seio de uma sociedade em decadência.
Com o Espiritualismo, porém, ergue de novo a mulher a inspirada fronte; vem associar-se intimamente à obra de harmonia social, ao movimento geral das idéias. O corpo não é mais que uma forma tomada por empréstimo; a essência da vida é o espírito, e nesse ponto de vista o homem e a mulher são favorecidos por igual. Assim, o moderno Espiritualismo restabelece o mesmo critério dos Celtas, nossos pais; firma a igualdade dos sexos sobre a identidade da natureza psíquica e o caráter imperecível do ser humano, e a ambos assegura posição idêntica nas agremiações de estudo.
Pelo Espiritismo se subtrai a mulher ao vértice dos sentidos e ascende à vida superior. Sua alma se ilumina de clarão mais puro; seu coração se torna o foco irradiador de ternos sentimentos e nobilíssimas paixões. Ela reassume no lar a encantadora missão que lhe pertence, feita de dedicação e piedade, seu importante e divino papel de mãe, de irmã e educadora, sua nobre e doce função persuasiva.
Cessa, desde então, a luta entre os dois sexos. As duas metades da Humanidade se aliam e equilibram no amor, para cooperarem juntas no plano providencial, nas obras da Divina Inteligência.

terça-feira, 4 de março de 2014

Deus nunca se empobrece de compaixão

Dimas Luiz Zornetta, Espírito


Mamãe, seu filho pede perdão pelo que fez, conquanto saiba que agiu sob a pressão de inimigos invisíveis que lhe golpearam a mente.
Eu não queria, mãe, não queria cometer aquele ato impensado, mas uma vontade muito forte me absorvia e parece-me que fui um simples autômato para aquele ou aqueles que me indicavam o suicídio como sendo o melhor a fazer.
No dia sete tomei alguns tragos para ganhar coragem, sem saber o que oferecia aos meus infelizes agressores e no dia oito, pela manhã, já me achava transformado.
Não posso esquecer que, apesar dos infelizes irmãos que se fizeram obsessores de minha vida, voltei para cá na posição de um suicida desventurado, requisitando a compaixão geral para reconstituir a minha tranquilidade possível no ambiente de estranhos recursos que havia criado pra mim próprio.
Sei que Deus nunca se empobrece de compaixão. Quanto mais infeliz está o homem, mais ampla se faz a bondade do Pai Celestial. Ele me levantará por dentro de mim e concederá forças para ser seu filho outra vez, porque presentemente sou um trapo de dor e arrependimento.

(Chico Xavier, in Assuntos da Vida e da Morte - Ed. GEEM)

segunda-feira, 3 de março de 2014

A palavra

André Luiz/Chico Xavier


A palavra é indubitavelmente um dos fatores determinantes das criaturas.

Ponderada - favorece o juízo.
Leviana - descortina a imprudência.
Alegre - espalha otimismo.
Triste - semeia desânimo.
Generosa - abre caminho à elevação.
Maledicente - cava despenhadeiros.
Gentil - provoca reconhecimento.
Atrevida - traz a perturbação.
Serena - produz calma.
Fervorosa - impõe confiança.
Descrente - invoca a frieza.
Bondosa - ajuda sempre.
Cruel - fere implacável.
Sábia - ensina.
Ignorante - complica.
Nobre - tece o respeito.
Sarcástica - improvisa o desprezo.
Educada - auxilia a todos.
Inconsciente - gera amargura.

Por isso, exortava Jesus: - "Não procures o argueiro nos olhos de teu irmão, quando trazes uma trave nos teus".
A palavra é a bússola de nossa alma, onde estivermos.
Conduzamo-la na romagem do mundo para a orientação do Senhor, porque, em verdade, ela é a força que nos abre as portas do coração às fontes luminosas da vida ou às correntes da morte.

***

(Do livro Endereços de Paz - Ed. CEU)

domingo, 2 de março de 2014

A cada alfinetada...

Marcel Souto Maior

Nas noites de segunda e sexta-feira, Chico Xavier colocava O Evangelho Segundo o Espiritismo, de Allan Kardec, embaixo do braço e ia para o Centro Luiz Gonzaga. Seguia à risca uma instrução ditada por Emmanuel: fidelidade irrestrita a Jesus Cristo e a Kardec, o codificador da doutrina espírita. O guia do outro mundo levava tão a sério este mandamento que um dia chegou a determinar a Chico:
- Se alguma vez eu lhe der um conselho que não esteja de acordo com Jesus e Kardec, fique do lado deles e procure me esquecer.
Chico demorava na cartilha espírita, praticava as lições de caridade, promovia sessões de desobsessão às quartas-feiras, mas o centro ficava cada dia mais vazio. José Hermínio Perácio e a mulher, Carmem, se mudaram para Belo Horizonte - precisavam ficar mais perto da família. José Xavier teve que trabalhar à noite numa oficina de arreios para pagar uma dívida. De repente, o rapaz se viu sozinho no barracão. Quando pensou em sair de fininho, ouviu a voz de Emmanuel.
- Você não pode se afastar.
- Como? Não temos frequentadores.
- E nós? Nós também precisamos ouvir o Evangelho. Além disso, temos aqui vários "desencarnados" que precisam de ajuda. Abra a reunião na hora marcada e não encerre a sessão antes de duas horas de trabalho.
Chico seguiu as instruções. Às oito horas iniciava a oração de abertura da sessão. Em seguida, abria O Evangelho Segundo o Espiritismo ao acaso e comentava o capítulo em voz alta. Nessa época, começou a ver mortos e ouvir vozes com maior frequência e nitidez. Os seres invisíveis ocupavam os bancos vazios.
Do lado de fora, vizinhos e parentes acompanhavam aquele espetáculo absurdo: o rapaz falava sozinho, gesticulava, orava, duas horas seguidas. Uma das irmãs, uma noite, se pendurou na janela para ouvir o monólogo:
- Tenhamos fé em Jesus, minha irmã.
- ...
- Com paciência alcançaremos a paz.
- ...
- Sem calma, tudo piora.
- ...
A espectadora interrompeu a cena insólita:
- Com quem está conversando?
- Com a dona Chiquinha de Paula.
- Ela já morreu, Chico.
- Você é que pensa. Ela está bem viva.
A família ainda pensava em levar o rapaz a um bom hospício.
O padre Júlio Maria, da cidade mineira de Manhumirim, estava disposto a providenciar uma camisa de força para o espírita de Pedro Leopoldo. Todo mês, ele escrevia artigos para o jornal local, O Lutador, e fazia o favor de enviar suas opiniões pelo correio ao autor do Parnaso de Além-Túmulo. Em nome de Jesus Cristo, os textos excomungavam o Espiritismo, reduziam a pó a reencarnação e á piada o porta-voz dos mortos no Brasil. "Francisco Cândido Xavier deve ter a pele de um rinoceronte para suportar tantos espíritos", escreveu num de seus manifestos.
Chico ficou engasgado e precisou da ajuda de Emmanuel para engolir o comentário.
- Se você não tem pele de rinoceronte, precisa ter, porque se cultivar uma pele muito frágil, cairá sempre a cada alfinetada.
O padre Júlio maria espetou Chico Xavier durante treze anos. Só parou quando morreu. E, nesse dia, Chico ouviu o vozeirão de seu guia:
- Vamos orar pelo nosso benfeitor, o irmão Júlio Maria. Com ele sempre tivemos um cooperador maravilhoso. Dava-nos coragem na luta e concitava-nos a trabalhar e ao perdão incondicional.

***

(Do livro As Vidas de Chico Xavier - Ed. Planeta)

Lorde, o cão de Chico Xavier

Antonio Matte Noroefé

Chico Xavier tinha uma singular estima pelos animais; aqueles que frequentavam seu modesto lar sabem que o médium vivia cercado por algum animal doméstico.
Chico tinha um cão que atendia pelo nome de Lorde, o qual conhecia as pessoas que visitavam seu dono, quais eram as amiga, as curiosas e as maliciosas.
Palavras de Chico Xavier:
"- Senti-lhe, sobretudo, a morte. Fez-me grande falta. Era meu inseparável companheiro de oração. Toma manhã e á noite, em determinada hora, dirigia-me ao quarto apra orar. Lorde chegava logo em seguida. Punha as patas sobre a cama, abaixava a cabeça e ficava assim em atitude de recolhimento orando comigo. Quando eu acabava, ele também acabava e ia deitar-se a um canto do quarto. Em minhas preces mais sentidas, Lorde levantava a cabeça e enviava-me seus olhos meigos, compreensivos, ás vezes cheios de lágrimas, como a dizer que me conhecia o íntimo, ligando-se ao meu coração. Desencarnou. Enterrei-o no quintal lá de casa..."
Um dia certo visitante lhe pergunta se animais têm alma e Chico responde, rápido:
"- Ah! sim, os animais têm alma e valem pelos melhores amigos..."
Possuímos provas pessoais destas verdades, querido irmão Chico!...

***

(Do livro O Homem, o médium, o missionário - Ed. EME)

A horta educativa

Ramiro Gama

Quando D. Cidália reuniu os filhos menores de D. Maria João de Deus, observou que eles precisavam do grupo escolar. O Sr. Cândido Xavier, pai da numerosa família, foi consultado. Entretanto, a situação era difícil. O ano de 1918, época a que nos referimos, marcara a passagem da gripe espanhola. Tudo era crise, embaraço. E o salário, no fim do mês, dava escassamente para o necessário. Não havia dinheiro para cadernos, lápis e livros.
A madrasta, alma generosa e amiga, chamou o enteado e lembrou:
- Chico, vocês precisam ir à escola. E como não há recurso para isso, vamos plantar uma horta. Adubaremos a terra, plantarei os legumes e você fará a venda na rua... Com o resultado, espero que tudo se arranje.
- A senhora pode contar comigo - prometeu o menino.
A horta foi plantada.
Em algumas semanas, Chico já podia sair à rua com o cesto de verduras.
- Olhem a couve, a alface! Almeirão e repolho!...
E o povo comprava.
CAda molho de couve ou cada repolho valia um tostão.
D. Cidália guardava o produto financeiro num cofre.
Quando abriram o cofre, D. Cidália, feliz, falou para o enteado:
- Você está vendo o valor do serviço? Agora vocês já podem frequentar as aulas do grupo.
E foi assim que, em janeiro de 1919, Chico Xavier começou o A-B-C.

***

(Do livro Lindos Casos de Chico Xavier - Ed. LAKE)

sábado, 1 de março de 2014

Trezentas irmãs...


Em 1941, a viúva de José Cândido Xavier, Geni Pena, enlouqueceu. As rezas, os passes, as sessões de leitura do Evangelho no Centro Luiz Gonzaga [em Pedro Leopoldo] foram inúteis. Chico teve de internar a cunhada num hospício em Belo Horizonte. Arrasado, ele acompanhou a doente até o quarto, ficou ao seu lado algumas horas e voltou para casa à noite.
Estava arrasado. O filho caçula da moça, paralítico, chorava na cama, sozinho.
Chico se ajoelhou e começou a rezar. As lágrimas corriam, ele se lembrava do irmão, se sentia culpado, impotente.
De repente, Emmanuel entrou em cena, incomodado com a choradeira:
- Por que você chora?
Chico contou o drama da cunhada, lamentou a situação do sobrinho e foi interrompido por um sermão do recém-chegado:
- Não. Você está chorando por seu orgulho ferido. Você aqui tem sido instrumento para cura de alguns casos de obsessão, para a melhoria de muitos desequilibrados. Quando aprouve ao Senhor que a provação viesse para debaixo de seu teto, você está com o coração ferido, porque foi obrigado a recorrer à assistência médica, o que, aliás, é muito natural. Uma casa de saúde mental, um hospício, é uma casa de Deus.
Chico ouviu as críticas em silêncio, mas, entre um soluço e outro, pediu a recuperação da cunhada o mais rápido possível.
O discurso de Emmanuel se estendeu:
- Imaginemos a Terra como sendo o Palácio da Justiça, e a mulher de José como sendo uma pessoa incursa em determinada sentença da justiça. Eu sou o advogado dela e você é serventuário do Palácio da Justiça. Nós estamos aqui para rasgar ou para cumprir o processo?
- Para cumprir - respondeu Chico e, ainda aos prantos, insistiu: - O senhor tem que saber que ela é minha irmã também.
Emmanuel perdeu a paciência de vez:
- Eu me admiro muito, porque, antes dela, você tinha lá dentro, naquela casa de saúde, trezentas irmãs e nunca vi você ir lá chorar por nenhuma. A dor Xavier não é maior do que a dor Almeida, do que a dor Pires, do que a dor Soares, a dor de toda família que tem um doente. Se você quer mesmo segui a doutrina que professa, em vez de chorar por sua cunhada, tome o seu lugar ao lado da criança que está doente, precisando de calor humano. Substitua nossa irmã e exerça, assim, a fraternidade.
Chico engoliu o choro, enxugou o rosto e abraçou o sobrinho.

***

(Do livro As Vidas de Chico Xavier, de Marcel Souto Maior - Ed. Planeta)