segunda-feira, 18 de maio de 2015

Mediunidade, coisa muito antiga

Francisco Muniz


"Um jovem foi aceito no noviciado de um convento da nossa Ordem. Depois de pouco tempo, esse noviço adoeceu gravemente e chegou à beira da morte. Mas não fizera, como é de costume da nossa Ordem, uma confissão geral ao abade, porque este estava ausente. Como esperasse com grande ansiedade, mas o abade não chegasse, confessou todos os seus pecados ao prior. Assim chegou a sua última hora, antes que o abade regressasse. Mas naquela mesma noite, quando o abade dormia numa casa fora do mosteiro, apareceu diante de sua cama o espírito do falecido pedindo humildemente que lhe fosse permitido confessar-se. 
– Ouvirei com prazer – respondeu o abade ao noviço; o jovem confessou todos os seus pecados, da mesma maneira e sequência como confessara ao prior. Seu arrependimento era tão grande que as lágrimas do noviço caíram no peito do abade, pois estava debruçado sobre ele durante a confissão. Depois de tudo cumprido, disse estas palavras: – Agora vou com vossa bênção, pai; se não tivesse confessado convosco, não teria podido me salvar. 
Diante dessas palavras o abade acordou, e quis comprovar se a aparição fora real, ou, como seguidamente acontece, apenas um produto da imaginação. Apalpou o hábito no peito e viu que estava todo molhado de lágrimas. Ficou muito admirado, e quando ao regressar para casa contou tudo ao prior, este respondeu: 
– A aparição foi verdadeira, e a confissão também, palavra por palavra." 

Intitulado “A confissão no sonho”, o texto acima, constante do livro Histórias Medievais, organizado pelo escritor alemão Hermann Hesse, narra um acontecimento do século XIII da Era Cristã, época em que o contato com o mundo espiritual era mantido sob o véu do misticismo. Mostra, a despeito da ação inibitória da Igreja, que principalmente entre os religiosos católicos os fatos mediúnicos eram uma constante. Mas ainda que a Igreja não estimulasse o intercâmbio com os chamados “mortos”, por vezes, em situações especiais, solicitava de um de seus membros esse “favor”, como informa Hesse em sua obra. No entanto, em vez de espíritos os padres da Idade Média se referiam aos invisíveis sob a denominação genérica de “demônios”.
Como se percebe e os espíritas conhecemos de sobejo, Allan Kardec tinha razão ao dizer, na introdução de O Evangelho Segundo o Espiritismo, que o espiritismo é de todos os tempos. Mas é claro que o Codificador se refere aí ao espiritismo que significa simplesmente o intercâmbio com os seres invisíveis, porquanto o Espiritismo como Doutrina codificada só seria revelado aos homens seis séculos depois do episódio descrito acima. Também é fácil notar que o século XIX representava os tempos propícios preditos no Evangelho, uma vez que a mentalidade humana já se encontrava suficientemente amadurecida para recepcionar a Terceira Revelação, enquanto o psiquismo da Idade Média ainda se mostrava eivado de superstições, marcando o império da fé cega.
O contato com os Espíritos somente sofreu maior perseguição e proibição quando a Igreja decidiu combater os “hereges” albigenses, no Sul da França, conforme relata o escritor espírita Hermínio Miranda em seu livro Os Cátaros e a Heresia Católica, revelando que os papas que se sucederam na ocasião (o mesmo século XIII) iniciaram aí os horrores da Inquisição, depois que fracassaram os meios intimidatórios – dentre eles uma Cruzada armada contra pessoas que só queriam viver o Evangelho em sua essência mais pura, livre dos dogmas instituídos pelos religiosos comprometidos com o poderio de Roma. Segundo a pesquisa de Hermínio Miranda, constava da prática dos cátaros o intercâmbio espiritual, do mesmo modo como hoje o Espiritismo recomenda, ou seja, o exercício mediúnico gratuito, discreto e em ambiente privativo.
A conclusão que se tira é que, como atesta a equipe do Projeto Manoel Philomeno de Miranda no livro Estudando o Livro dos Médiuns, “durante toda a história da Humanidade a comunicação entre os Espíritos e os homens fez-se de modo corrente” e somente pela razão de que todos os homens são médiuns “em menor ou maior grau”, segundo a conceituação de Allan Kardec. De outra forma os seres incorpóreos não poderiam agir sobre a matéria, sendo os médiuns, portanto, o meio possibilitador da ação espiritual junto aos homens, ajudando-os ou, conforme a natureza inferior dos Espíritos, interferindo em nosso equilíbrio psico-físico.
Há aí, como se percebe, toda uma ciência a ser aprendida e foi a isso que Kardec dedicou seus últimos anos, convocando-nos a também debruçarmo-nos sobre a interação das duas realidades, a material, ou física, e a espiritual, como forma de compreendermos nossa dupla natureza e os processos que nos faz reconhecer como entidades trinitárias, compostas do corpo material e de um corpo espiritual, ao qual o Codificador nomeou perispírito, envoltório semi-material do Espírito. É nessa interação que se desenvolvem os processos de comunicação entre os dois mundos, promovendo fenômenos psíquicos e físicos que atestam a existência no homem de variadas faculdades mediúnicas, importando seu estudo e compreensão para o bom exercício dessas mesmas faculdades, sob a condução dos Bons Espíritos que em nome de Jesus querem nos orientar.