segunda-feira, 23 de julho de 2012

O andar de cima

Richard Simonetti

Conta-se que a mãe de São Pedro era extremamente zelosa de seus haveres. Vivia, digamos com o devido respeito, comprometida com a sovinice.
Embora se trate de um pecado capital, desses passíveis de remeter o indigitado para as caldeiras do pedro-botelho, foi piedosamente encaminhada a ameno estágio no purgatório, talvez por deferência ao seu ilustre filho.
Não obstante, o santo sofria com a situação.
Precursor do jeitinho brasileiro, apelou para Jesus, pedindo-lhe que a transferisse para o “andar de cima”. O Mestre dispôs-se a atender, mas era preciso cumprir básico requisito:
Descobrir se alguma vez, ainda que remotamente, ela “emprestara a Deus”. Traduzindo: Exercitara a fraternidade? Doara algo a alguém, ao longo da existência?
O apóstolo deu tratos à bola, na ingrata tarefa de descobrir um gesto de legítimo desprendimento por parte da querida genitora, de índole boa, mas relutante em “abrir a mão”, quando solicitada.
Espremendo os miolos, lembrou-se.
Certa feita, ajudara uma vizinha. Dera-lhe um ramo de salsa.
Era muito pouco, mas, com sua infinita generosidade, Jesus deu-se por satisfeito. Recomendou:
– Estenda-lhe esse raminho. Que ela se agarre nele.
Animado, o apóstolo cumpriu a orientação.
A matrona começou a subir…Ocorre que a planta era frágil.
Já às portas celestes, administradas pelo filho, rompeu-se a salsa, deixando-a nas adjacências.
Diria o poeta:
Livrou-se do purgatório,
Mas o Céu não alcançou,
A flutuar no espaço ficou.

***

A história inspirou um adágio popular.
Quando alguém se sente desarvorado, sem ponto de apoio, sem direção, diz-se:
Está como a mãe de São Pedro.
Pessoas assim, longe de constituir exceção, representam a maioria.
Muitos querem o céu interior – paz, saúde, alegria…Concebem conquistá-lo integrando-se em atividades religiosas, envolvendo ritos e rezas, ofícios e oficiantes.
Ocorre que esses liames com o Céu são frágeis como um ramo de salsa. Não resistem às agruras da Terra, com seu cortejo de dores e problemas.
É preciso usar material mais consistente, a partir da disposição em aderir plenamente aos princípios de sua crença, ultrapassando a débil superficialidade. Participar mais assiduamente, colaborar mais ativamente, trabalhar mais intensamente em favor da própria renovação.
Vacilam, porque isso tudo implicaria na renúncia ao imediatismo terrestre, às tendências egocêntricas, aos prazeres sensoriais, às experiências passionais e, sobretudo, ao comodismo e à indiferença que marcam o comportamento humano.
Por isso, pairam sem rumo e sem estabilidade. Rompendo-se facilmente as frágeis convicções a que se agarram, flutuam na incerteza, perdidos na vacuidade existencial.

***

Para atingir os páramos celestes, recôndita região na intimidade da consciência, onde encontramos as benesses divinas, é preciso muito mais.
Fundamental eleger o espírito de serviço como inspiração de nossas vidas, a partir da regra áurea ensinada por Jesus (Mateus, 7:12):
Tudo o que quiserdes que o próximo vos faça, fazei-o assim também a ele.
Então, sustentados por asas de virtude e merecimento, não haverá problemas.
Atingiremos, facilmente, o “andar de cima”.

Do livro "Para Rir e Refletir"

quarta-feira, 18 de julho de 2012

A experiência mediúnica do Mahatma Gandhi

(Do site Dharmalog - http://dharmalog.com)

"Mohandas Karamchand Gandhi (1869-1948), um dos maiores responsáveis pelo movimento de independência da Índiae defensor do Sathyagraha, o princípio da não-agressão, teve uma experiência aos 64 anos de idade que ele mesmo definiu como ouvir "a verdadeira voz de Deus". O relato está numa entrevista que ele concedeu a John R. Mott, Prêmio Nobel da Paz (1946), em dezembro de 1938, cinco anos após um jejum de 21 dias que ele realizou em protesto à opressão britânica na Índia. Indiscutível missionário de idéias e ações que mudaram o mundo e inspiraram outros grandes revolucionários como Martin Luther King Jr, Gandhi nasceu filho de uma mãe Vaishnava (devotos de Vishnu) e seguiu a tradição hindu até certa idade, mas trabalhou igualmente por hindus e muçulmanos na paz e igualdade entre os povos, e ele mesmo dizia que o que queria era "uma paz real baseada na liberdade e igualdade de todas as raças e nações".

O assunto é polêmico, mas o objetivo de trazer esse relato aqui não é o de criar uma discussão teológica (ou ateísta), e sim o de conhecer o testemunho de uma pessoa séria, marcante, uma uma das maiores personalidades que passou pela história recente, com influência política determinante em nível global e inspiração para diversos grandes líderes posteriores. Gandhi era um fervoroso devoto a Deus, e também era muito sensato e inteligente. Dizia que nunca havia visto ou conhecido Deus, mas que tinha mais certeza da existência dele do que de duas pessoas sentadas conversando.

Na noite do dia 28 de abril de 1933, Gandhi teve a experiência de ouvir uma voz que considerava tão real e certa que relatou da seguinte maneira:

Mott: Quando você teve a manifestação indubitável da manifestação de Deus na sua vida e experiência?

Gandhi: Tenho visto e acreditado que Deus nunca aparece pra você em pessoa, mas em ação que só pode dar conta da sua liberação na sua hora mais negra.

Mott: Você quer dizer que algumas coisas acontecem que não poderia acontecer sem Deus?

Gandhi: Sim. Elas acontecem de repente e sem aviso. Uma experiência se sobressai notavelmente na minha memória. Ela está relacionada ao meu jejum de 21 dias para a remoção da “intocabilidade”. Perto da meia-noite, alguma coisa me acorda de repente e uma voz, dentro ou fora de mim, não consigo dizer, sussura “Você deve entrar em jejum”. “Quantos dias?”, eu pergunto. “Vinte-e-um dias”. “Quando começa?”, pergunto. “Você começa amanhã”. Fui dormir tranquilamente depois de tomar a decisão. Não contei nada para meus colegas até depois da minha oração matinal do dia seguinte. Coloquei nas mãos deles um pedaço de papel anunciando minha decisão e pedindo-lhes que não argumentassem pois a decisão era irrevogável. Bem, os médicos acharam que eu não sobreviveria ao jejum. Mas algo dentro de mim disse que eu sobreviveria e que eu deveria ir em frente. Esse tipo de experiência nunca mais aconteceu na minha vida. A primeira pergunta que intriga muitos é sobre a voz de Deus. O que era? O que eu ouvi? Havia alguma pessoa que eu via? Se não, como era a voz dita a mim? Essas são perguntas pertinentes. Eu não vi forma nenhuma. Nunca pedi por isso, porque sempre acreditei num Deus sem forma. Mas o que eu realmente ouvi foi uma voz longe e ao mesmo tempo perto. Era tão inequívoca quanto a voz humana, estava definitivamente falando pra mim, e era irresistível. Eu não estava sonhando naquela hora que ouvi a voz. O ouvir da voz foi precedido por uma luta terrível dentro de mim. Repentinamente a voz veio a mim. Ouvi, me certifiquei que era a voz e a luta parou. Eu estava calmo. A determinação foi criada de acordo, a data e a hora do jejum fixados. A alegria veio a mim. Me senti revitalizado. Eu poderia dar alguma outra evidência de que era verdadeiramente uma voz que ouvi e não o eco da minha própria imaginação aquecida? Não tenho nenhuma evidência extra para convencer os céticos. Ele (ou ela) é livre para dizer que foi uma auto-ilusão. Poderia ter sido. Não posso oferecer nenhuma prova do contrário. Mas eu posso dizer isso: que o veredito unânime do mundo inteiro contra mim não poderia abalar minha certeza de que o que eu ouvi era a verdadeira Voz de Deus”.

sábado, 14 de julho de 2012

Exortação

Irmã Rafaela

Minha filha, louvemos a Deus, o Pai de infinita misericórdia, e peçamos a Jesus, o Mestre amigo de todas as horas, a orientação segura que nos permitirá atravessar os montes das dificuldades cotidianas. Agradeçamos, sobretudo, a oportunidade de vivenciar os conflitos com nossos semelhantes, especialmente no seio da família, pois é desse modo que quitamos nossos débitos para com a Suprema Lei, desde que saibamos agir com sabedoria, isto é, doando-nos sempre em benefício de todos, sendo mansos e humildes como o Cristo nos ensina.
A vida na Terra, como sabes, não é o mar de rosas que muitos desejam, mas o fogo purificador que trabalha o âmago de cada alma no sentido de alcançar os objetivos sublimes a que todos os espíritos do Senhor são chamados. Crescer - eis a finalidade do estágio no planeta. Amar - eis o caminho para esse crescimento. Ama a todos os que partilham tuas experiências, sê compassiva e justa para também receberes tua cota de compaixão e justiça, e fica certa de que o Pai cumula de bênçãos os filhos que com alegria buscam o caminho do reajuste.
Ontem foi um dia de amarguras pra quantos se veem às voltas com o sofrimento na atualidade. O passado nem sempre foi o tempo de construções elevadas que a ilusão imagina, ansiando por respostas compensadoras quando a vida exige ação responsável a todo tempo. Mas o passado ficou para trás e hoje é o dia em que todos devem estender os braços para o trabalho, sendo úteis na obra de renovação do mundo.
Trabalhadores sinceros - é do que o mundo carece, porquanto o Senhor já estabeleceu o tempo da transformação, contando com os corações sensíveis das almas de boa vontade. Tu te alistaste neste exército de colaboradores e esperamos de ti a renovação de tuas forças a fim de que possas cooperar mais estreitamente conosco. Estando a teu lado, emprestamos-te os recursos necessários à empreitada, fortalecendo teu ânimo para as tarefas que ainda virão. Tem confiança e porfia. Não te deixaremos. Coragem, filha, a luta ainda não terminou.

Dinheiro (II)

O dinheiro não é luz, mas sustenta a lâmpada.
Não é a paz, no entanto, é um companheiro para que se possa obtê-la.
Não é calor, contudo, adquire o agasalho.
Não é o poder da fé, mas alimenta a esperança.
Não é amor, entretanto, é capaz de erguer-se por valioso ingrediente na proteção afetiva.
Não é tijolo de construção, todavia, assegura as atividades que garantem o progresso.
Não é cultura, mas apoia o livro.
Não é visão, contudo, ampara o encontro de instrumentos que ampliam a capacidade dos olhos.
Não é a base da cura, no entanto, favorece a aquisição do remédio.
Em suma, o dinheiro associado à consciência tranquila, é alavanca do trabalho e fonte da beneficência, apoio da educação e alicerce da alegria, é uma benção do céu que, de modo imediato, nem sempre faz felicidade, mas sempre faz falta.

Bezzerra de Menezes - Espírito
Francisco Cândido Xavier - Médium

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Retrato físico e psicológico de Allan Kardec

Anna Blackwell

Narrativa da inglesa que traduziu para o inglês vários livros de Kardec, que conheceu pessoalmente o Codificador em Paris e fez a descrição do retrato do mestre lionês, conforme publicado no livro “História do Espiritismo”, de autoria de Sir Arthur Conan Doyle.
“Pessoalmente Allan Kardec era de estatura média. Compleição forte, com uma cabeça grande, redonda, maciça, feições bem marcadas, olhos pardos, claros, mais se assemelhando a um alemão do que a um francês. Enérgico e perseverante, mas de temperamento calmo, cauteloso e não imaginoso até a frieza, incrédulo por natureza e educação, pensador seguro e lógico, e eminentemente prático no pensamento e na ação. Era igualmente emancipado do misticismo e do entusiasmo... Grave, lento no falar, modesto nas maneiras, embora não lhe faltasse uma certa calma e dignidade, resultante da seriedade e da segurança mental, que eram traços distintos de seu caráter. Nem provocava nem evitava a discussão mas nunca fazia voluntariamente observações sobre o assunto a que havia devotado toda sua vida, recebia com afabilidade os inúmeros visitantes de toda parte do mundo que vinham conversar com ele a respeito dos pontos de vista nos quais o reconheciam um expoente, respondendo a perguntas e objeções, explanando as dificuldades, e dando informações a todos os investigadores sérios, com os quais falava com liberdade e animação, de rosto ocasionalmente iluminado por um sorriso genial e agradável, conquanto tal fosse a sua habitual seriedade de conduta que nunca se lhe ouvia uma gargalhada. Entre as milhares de pessoas por quem era visitado, estavam inúmeras pessoas de alta posição social, literária, artística e científica. O imperador Napoleão III, cujo interesse pelos fenômenos espíritas não era mistério pra ninguém, procurou-o várias vezes e teve longas palestras com ele nas Tuileries, sobre a doutrina de O Livro dos Espíritos.”

quinta-feira, 5 de julho de 2012

O jumento



Um jumentinho, todo alegrinho, voltando para sua casa, contente, fala para sua mãe:

- Fui a uma cidade, e quando lá cheguei, fui aplaudido, a multidão gritava alegre, estendia seus mantos pelo chão... Todos, estavam contentes com minha presença.

Sua mãe questionou se ele estava só... E o burrinho disse:

- Não, estava levando um homem com o nome de Jesus.

Então, sua mãe falou:

- Filho, volte a essa cidade, mas agora sozinho.

Quando retornou a essa cidade sozinho, todos que passavam por ele, fizeram o inverso: maltratavam, xingavam e até mesmo batiam nele. Voltando para sua casa, disse para sua mãe:

- Estou triste, pois nada aconteceu comigo. Nem palmas, nem mantos, nem honra... Só apanhei, fui xingado e maltratado. Eles não me reconheceram, mamãe...

Indignado, o burrinho perguntou a sua mãe:

- Por que isso aconteceu comigo?

Sua mãe respondeu:

- Meu filho querido, você, sem Jesus, é só um jumento. Lembre-se sempre disso!


(autor desconhecido)