domingo, 31 de março de 2013

Música e religião


Na manhã deste domingo, saindo para cumprir mais uma tarefa de exposição da mensagem espírita, observo pessoas que, como eu mesmo, também se dirigem ao compromisso religioso, seja nos templos católicos, seja nos protestantes, e me recordo da Feira de Santana de minha infância. Na rua onde minha família morava, no bairro do Ponto Central, havia uma igreja batista que mantinha, acima do púlpito, uma grande banheira de vidro para a realização das cerimônias de batismo, coisa que nós, crianças, gostávamos de observar, do lado de fora da porta de entrada. Mas o que mais me agradava era a música tocada no alto falante, para toda a rua ouvir: "Desperta, Brasil, Braaaasiiiil! / Está na hora de orar / que Jesus vai libertar / todo aquele que nele creeeeê". Toda semana eu ansiava ouvir esse hino... 
Antes de irmos morar nessa rua, habitamos uma casa num bairro mais distante dali e, impossibilitados de continuar na mesma Escola Agostinho Fróes da Mota, fomos, meus irmãos e eu, matriculados na escolinha mantida por uma outra igreja batista, esta já próxima da antiga estação de trem. Um dia, essa escola - cujo nome homenageava a autora do hino de Feira, Profa. Georgina Erismann -, melhor dizendo, a igreja realizou uma festividade num domingo e os alunos foram convidados a participar. Foi nessa ocasião que ouvi a filhinha do pastor, também diretor da escola, cantar o hino mais bonito que já ouvi, talvez por causa da voz infantil, que entoava assim: "Três palavrinhas só / eu aprendi de cor / Deus é amor! / Oh, que maravilhas Deus criou!".
Depois disso, já no Ponto Central, Mãinha nos matriculou nas aulas de catecismo de Irmã Freitas, uma freira bastante conceituada na cidade que eu pensava, por causa do sobrenome, ser parente de nossa família. Mas não me lembro de aí termos, alguma vez, sido apresentados à musicalidade tão própria da Igreja Católica. O fato é que não tínhamos qualquer vocação para seguir o Cristo por esse caminho e o certo é que íamos à casa de Irmã Freitas para observar as meninas, e Mãinha talvez tivesse se contentado em não lhe darmos despesa na improvável festa da tal primeira comunhão... Muitos anos depois, agora convertido à Doutrina dos Espíritos, ingressei numa casa espírita numa época em que os cânticos ainda faziam parte das atividades doutrinárias, motivo mais que suficiente para desenvolver a paixão de apreciador da boa música...

sexta-feira, 22 de março de 2013

O Espiritismo e a saudade

Morel Felipe Wilkon
(recolhido do blog Espírito Imortal - http://www.espiritoimortal.com.br)


O espiritismo é uma doutrina consoladora, por nos demonstrar a continuidade da vida após a separação terrena. Mas nós devemos reconhecer que o fato de sabermos que a vida continua não ameniza a saudade, pois é difícil superar o silêncio. Esse silêncio que dói e que não é preenchido por nada.Talvez se tivéssemos em mente, se nos lembrássemos com frequência, que todos aqueles que amamos um dia vão partir da matéria, muitos deles antes de nós, talvez então os valorizássemos mais, talvez então notássemos mais as suas virtudes e menos os seus defeitos.
Mas isso também vale para quem, por algum motivo, esteja afastado dos seus. É claro que então a saudade ainda dói, mas ao mesmo tempo alenta, porque o reencontro não depende de que todas as pessoas estejam novamente no mesmo plano… Sem contar que hoje temos o auxílio inestimável da tecnologia. Não é a mesma coisa? Claro que não, mas pouco tempo atrás não existia, não havia esse consolo. Algum tempo atrás, quem imaginaria ver suas pessoas queridas pelo webcam, estando em praticamente qualquer lugar do mundo?
Uma coisa a ser evitada nos momentos de saudade é justamente pensar nela. Antes de deprimir-se, é melhor se manter ocupado com coisas úteis. Não há um monte de coisas que deixamos pra fazer quando tivermos tempo? Pois que se aproveite o espaço vazio deixado pela saudade para ocupar-se com essas coisas.
A palavra saudade só existe na língua portuguesa, e sua etimologia é a mesma da palavra solidão. E são realmente sentimentos que se confundem. Pois a solidão também pode ser aproveitada para coisas que em outras ocasiões e circunstâncias não seriam possíveis. É na solidão que entramos em contato com nós mesmos, com nosso universo interior. Na solidão podemos encontrar respostas seguras para as incertezas que alimentamos, e esse contato com nosso íntimo é que nos dá coragem para enfrentar as dificuldades da passagem pela Terra.
Quando estiver de braços com a saudade, não permita que ela se transforme numa prisão emocional, impedindo que você saiba aproveitar os dias que de repente ficaram mais compridos, impedindo que você domine o seu pensamento, que você domine as lágrimas, que você domine o desânimo que bate à porta ameaçadoramente.
Não! Todos os períodos da vida são importantes, nenhum se repete, com toda a certeza um dia a oportunidade de aprendizado e vivência desse momento da sua vida lhe será cobrado, e é bom que você tenha aproveitado. Seja útil, seja útil aos outros, aos que ficaram, seja útil a você!
E quando puder estar novamente ao lado das pessoas que ama, aproveite ao máximo, viva cada detalhe, cada momento; sabe-se lá quando terá outro abraço como esse? É triste? Talvez. Seria pior se não houvesse o reencontro nesta vida; pior ainda se não houvesse amanhã. Mas a vida é um dia depois do outro, cada um deve ser aproveitado ao máximo, com saudade ou sem saudade. Quanta oportunidade um dia nos oferece! Que o vazio da ausência seja preenchido com bons pensamentos e atividades construtivas.
E que se aproveite essa oportunidade de aprendizado para, no decorrer dessa vida e pela eternidade, darmos o devido valor às coisas simples, que não exigem nada de extravagante para serem feitas, basta a presença daqueles que amamos.

segunda-feira, 18 de março de 2013

Procura

Irmã Rafaela

Andássemos todo o tempo à procura de algo e saberíamos o que encontrar, quando encontrássemos? Saberíamos de antemão o que procurar? É necessário ter esse prévio conhecimento para que a busca resulte proveitosa e assim ganhe real valor o que se encontre. O Cristo vem ao teu encontro nesse trabalho da busca pelo melhor apontando-te o caminho e a verdade, conforme suas palavras pronunciadas há tanto tempo, as quais até hoje ecoam nos ouvidos de quem quer ouvir, tanto quanto nos escaninhos secretos de quem ainda se mantém alheio à verdade. Ecoam no tempo esses ensinamentos e é hora, agora, de cada vez mais cristãos procurarem compreender o sentido das lições de Jesus para a consequente vivência desses postulados, manifestando o quanto possível a disposição de viver a verdadeira Vida, com a consciência desperta para as responsabilidades que cada um deve exercer nas mínimas atividades perante a grande família humana, até que um dia essa mesma consciência, devidamente iluminada, viva na dimensão da grande família universal, na comunhão dos Espíritos, do Senhor, daqueles que fazem a vontade de Deus, cumprindo as doces recomendações do meigo Rabi da Galileia...

Reflexos de um seminário

Francisco Muniz

A música pop em inglês em volume relativamente alto costuma ser o fundo das sessões de psicopictografia (leia-se pintura mediúnica) protagonizadas por médiuns como José Medrado (Bahia) e Valdelice Sallum (São Paulo), por exemplo, conforme já tivemos ocasião de observar, pelo que pensamos poder tirar algumas conclusões, a partir do aprendizado feito no campo da mediunidade.
O volume alto é quase sempre alto, isto é, mais alto que o burburinho dos comentários que possam ser suscitados na assistência durante a realização de tais fenômenos, com a finalidade de anular o quanto possível a interferência energética conduzida por pensamentos e palavras, posto que esses comentários são por vezes inferiores, graças à invigilância de alguns assistentes, que não percebem ou simplesmente não sabem que seu comportamento pode gerar uma frequência energética contrária àquela de que os Espíritos manifestantes se utilizam para sua atividade através do médium.
Desse modo, nós, os assistentes, mais podemos atrapalhar que auxiliar no processo, embora queiramos participar muitas vezes com o propósito de colaborar, dados nosso desconhecimento quanto aos mecanismos da mediunidade e nossa invigilância quanto às necessidades dos Espíritos.
Na última participação de Medrado, realizada neste domingo no C. E. Deus, Luz e Verdade, alguém me perguntou por que esse tipo de música é usado para embalar essas manifestações. A esse respeito podemos dizer que o importante não é propriamente o tipo de música, mas a música em si mesma. Poderia, assim, ser a música clássica, erudita, aquela dita sacra, um canto orfeônico ou gregoriano... mas estas, pelo caráter marcadamente religioso, preso a determinado pensamento, vai condicionar uma postura possivelmente incompatível com as necessidades do momento.
A música que se toca, portanto, sendo de certa forma anódina (lembremos do muzak), facilitaria a postura dos assistentes porque, sendo em inglês (no domingo, ouvimos de Lionel Ritchie a ABBA, passando por uma série de vozes não reconhecíveis), geralmente, um idioma que poucos dominam por aqui, faz com que direcionemos as atenções para o acontecimento psicopictográfico, sem imaginar que algumas das letras dessas canções podem veicular mensagens talvez repreeensíveis ou desconfortantes...

Diálogos possíveis: mediunidade e obsessão - saber viver

Francisco Muniz
(retirado do informativo Mediunato, do C. E. Deus, Luz e Verdade, de 4 de outubro de 2003)

Amigos, o infinito amor nos envolva a todos, neste momento em que procuramos nos aproximar ainda mais do Cristo pela compreensão e prática de seus ensinamentos, no trabalho santificado. Nesta edição do Mediunato abrimos espaço para abordar a temática do seminário "Saber viver", que lança o novo livro da querida dupla Irmão Jerônimo-Bernadete Santana, que tem o mesmo título. Como o seminário aprofundará questões em torno da mediunidade e da obsessão, cremos ser proveitoso considerar alguns aspectos desses temas e por isso imaginamos esta entrevista com vultos importantes do Espiritismo que muito contribuem para nossos estudos.

Mediunato - Caríssimo Allan Kardec, parabenizando-o, mais uma vez, pela passagem de seu aniversário, no dia 3 de outubro, queremos que nos diga o que é, pra o homem a mediunidade.
Allan Kardec - Para conhecer as coisas do mundo visível e descobrir os segredos da natureza material, outorgou Deus ao homem a vista corpórea, os sentidos e instrumentos especiais. Com o telescópio, ele mergulha o olhar nas profundezas do espaço e, como microscópio, descobriu o mundo dos infinitamente pequenos. Para penetrar no mundo invisível, deu-lhe a mediunidade.

M - Nobre Emmanuel, você, que tantas preciosas lições nos deu através de nosso querido Chico Xavier, que definição nos oferece quanto à faculdade mediúnica?
Emmanuel - A mediunidade é aquela luz que seria derramada sobre toda a carne e prometida pelo Divino Mestre aos tempos do Consolador, atualmente em curso na Terra. Sendo luz que brilha na carne, a mediunidade é atributo do espírito, patrimônio da alma imortal, elemento renovador da posição moral da criatura terrena, enriquecendo todos os seus valores no capítulo da virtude e da inteligência, sempre que se encontre ligada aos princípios evangélicos na sua trajetória pela face do mundo.

M - Nesse aspecto, qual é a maior necessidade do médium?
E - A primeira necessidade do médium é evangelizar-se a si mesmo antes de se entregar às grandes tarefas doutrinárias, pois de outro modo poderá esbarrar sempre com o fantasma do personalismo, em detrimento de sua missão.

M - Podemos, Irmão Jerônimo, ouvir o digno mentor do CEDLV sobre os percalços que o médium pode encontrar na conquista de méritos?
Irmão Jerônimo - O mérito não é patrimônio e sim esforço de cada caminheiro da vida em busca da elevação. A oportunidade e a sabedoria são para todos. Saibamos aproveitar a programação de vida que nos foi confiada, exercitando o bem a cada instante no trabalho edificante para a própria ascensão. Nesse sentido, é importante refrear as emoções, porque elas são prejudiciais ao desenvolvimento espiritual. Criando a confiança em Deus e em nós mesmos, nada teremos a temer.

M - E a veneranda Joanna de Ângelis, que pode nos dizer no sentido de exercitarmos a mediunidade de maneira mais proveitosa para nós mesmos?
Joanna de Ângelis - A mediunidade, para ser dignificada, necessita das luzes da consciência enobrecida. Quanto maior o discernimento da consciência, tanto mais amplas serão as possibilidades do intercâmbio mediúnico.

M - Algum de vocês quer, ao encerrarmos estes tópicos sobre a mediunidade, dizer algumas palavras de estímulo aos trabalhadores do CEDLV?
Emmanuel - Sim, com muita alegria. A missão mediúnica, se tem os seus percalços e as suas lutas dolorosas, é uma das mais belas oportunidades de progresso e de redenção concedidos por Deus aos seus filhos misérrimos.

INSTRUTORES ALERTAM PARA O ESCOLHO OBSESSIVO

A fim de desatarmos os nós da obsessão, é imprescindível conhecermos seu mecanismo, através da análise das causas e do processo de vitimização dos seres. Essas informações serão (foram) melhor vistas no seminário do dia 5 de outubro (de 2003) e não nos convém atropelar as coisas. Assim, voltamos nossa atenção para os ensinamentos dos amigos instrutores, a fim de aprendermos um pouco mais e, com esse subsídio, inquirirmos melhor as facilitadoras do seminário, nossas irmãs Bernadete Santana e Graça Leite.

Mediunato - Prezado Codificador, dentre os empecilhos que os médiuns enfrentam na educação de suas faculdades, como considerar a obsessão?
Allan Kardec - No número de escolhos que apresenta a prática do Espiritismo, é preciso colocar, em primeira linha, a obsessão, quer dizer, o império que alguns Espíritos sabem tomar sobre certas pessoas. Ela não ocorre senão pelos Espíritos inferiores que procuram dominar; os bons Espíritos não impõem nenhum constrangimento; eles aconselham, combatem a influência dos maus, e se não os escutam se retiram. Os maus, ao contrário, se agarram àqueles sobre os quais fazem suas presas; se chegam a imperar sobre alguém, se identificam com seu próprio espírito e o conduzem como uma verdadeira criança.

M - Você, Emmanuel, naturalmente concorda com o sábio lionês, não é?
Emmanuel - Sim, mas é preciso estudar a questão mais a fundo. A obsessão é sempre uma prova, nunca um acontecimento eventual. No seu exame, contudo, precisamos considerar os méritos da vítima e a dispensa de misericórdia divina a todos os que sofrem.

M - No prefácio do precioso livro "Desobsessão" - que, a propósito, já utilizamos em nossos estudos mediúnicos aqui no CEDLV -, de nosso caro André Luiz, ditado ao saudoso Chico Xavier e Waldo Vieira, você diz que o obsessor é principalmente um Espírito enfermo. Entendendo assim podemos nos ajudar melhor, não?
E - Nada mais oportuno e mais justo, de vez que, se a ignorância reclama o devotamento de professores na escola e a psicopatologia espera pela abnegação dos médicos que usam a palavra equilibrante nos gabinetes de análise psicológica, a alienação mental dos Espíritos desencarnados exige o concurso fraterno de corações amigos, com bastante entendimento e bastante amor para auxiliar nos templos espíritas, atualmente dedicados à recuperação do Cristianismo, em sua feição clara e simples.

M - Diga-nos, por favor, Irmão Jerônimo: por que os médiuns, que se dedicam ao serviço do Cristo, são tão visados pelos obsessores? Por que nossos mentores deixam que isso aconteça?
Irmão Jerônimo - Quando os bons Espíritos permitem seja um médium enganado, é para que ele aprenda a discernir o verdadeiro do falso, compreendendo que nenhum médium é tão perfeito que não possa ser atacado. O importante é ter confiança absoluta em Deus e não tomar por mal a crítica construtiva. Agir assim é característica dos médiuns vaidosos e orgulhosos, que se aborrecem com a menor observação feita em seu próprio benefício, chegando a alimentar ódio contra a pessoa que os alertou.

M - Como, então, pode o médium se precaver dessas influências nefastas?
IJ - Como vemos, as causas do fracasso residem dentro do próprio médium. É necessária a vigilância, não deixando que efeitos maléficos se produzam. É preciso rogar a Deus em constante oração.

M - André Luiz, na qualidade de estudioso, na Erraticidade, dos temas que aqui tratamos tão apressadamente, você pode nos orientar quanto à importância dos trabalhos de desobsessão nas casas espíritas?
André Luiz - Nenhuma instituição do Espiritismo pode, a rigor, desinteressar-se desse trabalho imprescindível à higiene, harmonia, amparo ou restauração da mente humana, traçando esclarecimento justo, seja aos desencarnados sofredores, seja aos encarnados desprovidos de educação íntima que lhes sofram a atuação deprimente, conquanto, às vezes, involuntárias. Cada templo espírita deve e precisa possuir a sua equipe de servidores da desobsessão, quando não seja destinada a socorrer as vítimas da desorientação espiritual que lhe rondam as portas, pra defesa e conservação de si mesma.

Bibliografia:

Santana, Bernadete - Aprimoramento Mediúnico, pelo Espírito Irmão Jerônimo.
Projeto Manoel Philomeno de Miranda - Consciência e Mediunidade.
Xavier, Francisco C. e Vieira, Waldo - Desobsessão, pelo Espírito André Luiz.
Xavier, Francisco C. - O Consolador, pelo Espírito Emmanuel.
Kardec, Allan - O Livro dos Médiuns.

domingo, 17 de março de 2013

Amizades espirituais

Francisco Muniz

Diz Allan Kardec, em O Livro dos Médiuns, que os melhores medianeiros são aqueles que se enganam menos, por simpatizarem mais com os bons espíritos. Tal simpatia, parece óbvio, é ao mesmo tempo semente e fruto de verdadeiras amizades que se espraiam nos dois lados da vida. Por isso, merece especial atenção a relação entre os médiuns e os espíritos elevados, qual a que envolveu a médium Yvonne do Amaral Pereira e o Espírito Adolfo Bezerra de Menezes, cujo aniversário de renascimento na carne, ocorrido em 1831, no Ceará, comemora-se no dia 29 de agosto. Eis uma razão para prestarmos uma humilde homenagem a esse valoroso trabalhador do Bem, que na Terra é reverenciado tanto como "o Kardec brasileiro", pelo muito que fez em prol da Doutrina Espírita, quanto "o médico dos pobres", por motivos evidentes.
Do ponto de vista do exercício mediúnico, a parceria entre Yvonne e Bezerra produziu valiosos exemplares da literatura espírita, que em muito enriqueceram o panorama intelectual do movimento espírita brasileiro, tanto pela beleza da expressão literária de cada obra quanto por seu conteúdo doutrinário. Pelas mãos da médium fluminense, nascida no município de Valença (RJ), hoje rebatizado como Rio das Flores, e desencarnada no Rio de Janeiro, em 1984, surgiram preciosos trabalhos da lavra do prestimoso instrutor espiritual, a exemplo de Dramas da Obsessão, A Tragédia de Santa Maria e Nas Telas do Infinito - este, em conjunto com o Espírito Camilo Castelo Branco, também autor do clássico Memórias de um Suicida. Mas, além de ditar essas obras, Bezerra colaborou com Yvonne supervisionando vários trabalhos psicográficos, como os livros Devassando o Invisível (assistência do Espírito Charles, mentor da médium), A Família Espírita, Evangelho aos Simples, A Lei de Deus, Contos Amigos e O Livro de Eneida (assistência de Charles e Léon Tolstoi).
Talvez tenha sido o nome venerando de Bezerra de Menezes o facilitador da carreira literária espírita de Yvonne, uma vez que Nas Telas do Infinito foi seu primeiro livro publicado pela Federação Espírita Brasileira - editora de todas as suas obras -, antes de Memórias de um Suicida e Amor e Ódio. Conforme a médium relata nas páginas de abertura de À Luz do Consolador, sua submissão à FEB deveu-se a conselhos de "meus amados Guias Espirituais Bezerra de Menezes e Charles". Tais Espíritos, conta Yvonne, lhe diziam: "Somente à Federação Espírita Brasileira confia tuas produções literárias mediúnicas. Se, um dia, alguma delas for rejeitada, submete-te: guarda-a, a fim de refazê-la mais tarde, ou destrói-a. Mas, não a confies a outrem". Por tal razão, Yvonne jamais doou nenhum livro que tenha psicografado às editoras que lhe solicitaram publicações, até porque, conforme relata no livro, ela amava e respeitava a Casa-Máter do Espiritismo no Brasil "desde a minha infância".
Não era por acaso o conselho espiritual, uma vez que Bezerra de Menezes havia sido, quando encarnado, presidente da FEB em duas gestões diferentes, em 1889 e 1895, havendo desencarnado em pleno exercício do cargo. Em seu livro Lindos Casos de Bezerra de Menezes (Ed. LAKE), o autor Ramiro Gama registra uma mensagem de nosso homenageado recebida através de Chico Xavier, outro médium que soube honrar suia amizade com os Espíritos. A mensagem, dirigida aos medianeiros, é uma verdadeira receita de estreitamento dos laços de amizade, pela prática da caridade. Nela, o "médico dos pobres" recomenda: "Quem deseja a verdadeira felicidade, há de improvisar a felicidade dos outros; quem procura a consolação, para encontrá-la, deverá reconfortar os mais desditosos da humana experiência". Assim se acumularão tesouros  no céu da consciência, consoante a lição de Jesus, o Amigo Maior".

quarta-feira, 13 de março de 2013

Prece

Irmã Rafaela


Amado Jesus,

O teu amor nos favoreça no encaminhamento desta prece, nosso pedido em favor não de nós mesmos, embora muito necessitemos de teus préstimos, mas por aqueles que sofrem e não se lembram de Ti; pelos que estão ao desamparo de si mesmos, sem saberem como cuidar do corpo e da alma, equilibrando a mente e pacificando o coração; pelos que se encontram perdidos nos descaminhos do mundo, julgando reais as ilusões da matéria, esquecidos de que representas tudo quanto é real.
Pedimos, Senhor, especialmente pelo amigo que se confundo no cipoal dos vícios, comprazendo-se nos pântanos sombrios em que se movimenta presentemente. Não nos sentimos capacitados para auxiliá-lo: nossas palavras não o alcançam; nossos apelos não penetram seu coração; nossos exemplos não o comovem.
Por isso, Jesus amigo, recorremos a Ti. Tu és o médico de nossas almas e em Ti buscamos a cura de nossos males; és o consolo de nossas aflições e imploramos tuas bênçãos; és a resposta às nossas dúvidas e em Ti temos a certeza de encontrar o esclarecimento, a luz da Verdade que arrancará as vendas de nossos olhos a fim de enxergarmos a nós mesmos como filhos do Altíssimo e, como o filho pródigo da parábola, retomarmos o caminho de volta à casa paterna.
Auxilia-nos, Senhor, pois sem Ti nada podemos. Conduz, pois, nosso amigo de volta ao teu aprisco, ovelha desgarrada como tantas outras e para as quais derramas de teu amor sobre os homens. Tem compaixão de nossas fraquezas, Jesus, envolve-nos em tua paz a fim de conseguirmos corrigir nossos passos e caminhar com segurança na trilha da renovação.
E assim, agradecidos pelo que constantemente recebemos da Divina Misericórdia, ajoelhamo-nos perante tua solicitude e dizemos, repetindo nossa Mãe Santíssima, a tua Mãe querida: “Faça-se em nós segundo a vontade de Deus”. Muito obrigado, Senhor.

Apelo

Irmã Rafaela
Atende a teus deveres com alegria, com o coração purificado de toda intenção contrária ao Bem, o quanto possível, para que realmente tenhas condição de realizar as tarefas a que és chamado. Alegria é o otimismo esperançoso manifestado em meio aos torvelinhos da vida de relação, posto não ser fácil te apresentares como auxiliar junto a quem não te preza os préstimos.
O Cristo, contudo, ensina-nos a servir e passar e este serviço é muitas vezes executado em silêncio e à distância, procurando nada impor ao outro que sofre as agruras da própria condição infeliz.
Repara, sobretudo, que o trabalho que és chamado a corresponder não é teu, mas do Amigo Divino, que te requer as mãos e te oferece os recursos necessários ao socorro que se deve levar aos desafortunados.
Assim, importa deixar a tua dádiva de desapego e renúncia no altar da Caridade abnegada, como forma de melhor atenderes aos apelos de Jesus. Com isso, nós, que em seu nome nos colocamos ao teu lado, teremos a ocasião de coadjuvarmos teus esforços, a fim de que o Bem prepondere hoje e sempre, na Terra como em toda parte.

Experiências singulares

Francisco Muniz

Temos aprendido, em nossa jornada de crescimento pelo Espiritismo, que é, muitas vezes, pela obsessão que atingimos o caminho de nosso aperfeiçoamento. Melhor dizendo, é através do processo obsessivo – claro, involuntário – que frequentemente somos levados a conhecer os meandros da mediunidade e nossa relação com a Espiritualidade.
Desse modo, vemos a obsessão não como o resultado de influenciações maléficas, mas algo realmente benéfico para nós e também para o obsessor, que em suma é um verdadeiro amigo a conduzir-nos à busca da Verdade. Há casos vários de obsessores – e disso a literatura espírita é pródiga – que não raro se tornaram mentores de seus antigos obsidiados, os quais se perdoaram mutuamente de passados erros reencarnatórios.
Dissemos acima que o processo obsessivo é involuntário, porquanto em verdade não o buscamos ou queremos. Apesar disso, é pelo que fizemos no passado que atraímos os obsessores, os quais, por vezes, nos acompanham por encarnações sucessivas. É comum até mesmo os encarnados nos obsidiarmos uns aos outros, embora só atentemos para a questão quando envolve espíritos desencarnados. O que é um inimigo que nos persegue – ou a quem perseguimos – implacavelmente senão nosso obsessor – e nós o dele?
Também temos aprendido na Doutrina dos Espíritos que o remédio contra a obsessão é mesmo a oração e o sincero desejo de que nosso obsessor nos perdoe pelos males que lhes causamos no ontem de nossa existência.
Em “Devassando o invisível”, a médium Yvonne Pereira, já desencarnada, questiona a Espiritualidade com a seguinte indagação, referindo-se aos obsessores: “E não existirá um meio de retirar tais entidades do seio da sociedade, para que nós, humanos, obtenhamos um pouco mais de serenidade para viver e trabalhar, cuidando do nosso progresso?”. O bom Espírito que assistia à médium deu-lhe a explicação:
“Sim, existe, e muito eficiente! Que o homem se reeduque, transformando-se sob as inspirações do dever, praticando atos justos todos os dias de sua vida! Que se conduza guiado por mente sadia e honesta! Que se torne respeitoso e submisso à ideia de Deus, dispondo-se a observar Suas leis... e tais falanges desertarão dos ambientes terrenos... Aliás, os próprios homens obsidiam esses tais, visto que frequentemente os atraem com pensamentos, vícios e ações idênticos aos deles, incitando-os a imitá-los, em vez de procurarem instruí-los com exemplos bons...”.

A ciência pesquisa a fé... e o espírito

Francisco Muniz
(Matéria extraída da revista Visão Espírita n. 26, de 2001.)


No mês de outubro do ano 2000 cientistas de várias partes do mundo desembarcaram em Brasília para participarem do I Fórum Mundial de Transcomunicação, trazendo os mais sofisticados equipamentos para comunicação com os Espíritos. Entre eles estava o pesquisador Roberto Andersen (foto), que esteve em junho daquele ano em Salvador, proferindo conferência sobre o tema “A ciência na trilogia do ser (corpo, mente e espírito)”, antecipando alguns dos estudos que aproximam a ciência da espiritualidade. Andersen, bacharel em ciência e doutor em educação, é um apaixonado estudioso da transcomunicação e outros temas que discutem a interação dessas duas áreas do conhecimento. Ele acredita que a união entre a ciência e a espiritualidade vai tornar mais rápido o desenvolvimento da raça humana.
“O grande problema da ciência está em ignorar as verdades espirituais”, diz o pesquisador. “Quando essas verdades forem vistas pelos cientistas através de um outro prisma, um grande passo será dado em relação a nossa evolução, permitindo a revelação dos grandes enigmas", completa. Isso já vem sendo feito, embora aos poucos. Nos Estados Unidos, por exemplo, algumas empresas já estão apostando nas aparentemente ilimitadas capacidades do lado espiritual do ser humano. Lá, a Psytech – uma dessas empresas – tem mesmo bancado o treinamento de egressos do exército americano para missões as mais fantásticas, sob a condução de Ingo Swann. Na condição de remote viwer mais conhecido do mundo, Swann é capaz de projetar sua consciência para qualquer parte do planeta e também no tempo – passado ou futuro.
Essa informação vem do escritor e pesquisador francês Patrick Drouot, em seu livro “O físico, o xamã e o místico”, no qual relata ter conhecido um dos membros das equipes treinadas por Swann. O informante de Drouot contou-lhe que, por ocasião da Guerra do Golfo, entre os EUA e o Iraque, ele e outros se projetaram até a sala de mapas de Saddam Hussein, a fim de antecipar suas estratégias. Segundo Drouot, jornais americanos teriam relatado o fato de modo irônico, zombando da Organização das Nações Unidas (ONU) por recorrer a médiuns para vencer o Iraque.
Voltando a Roberto Andersen, ele diz que, sob esse ponto de vista, todas as teorias, mesmo as mais firmes, estão ameaçadas, posto que passíveis de revisão. Os mais recentes (em 2001) avanços da ciência genética, a título de ilustração, põem em xeque a teoria evolucionista de Charles Darwin. Os cientistas que pesquisam a origem do homem no planeta se inclinam para a defesa da “Eva mitocondrial”, diz o especialista. Essa vertente científica considera a evolução a partir de uma única mulher e um único homem, que teriam se originado, por sua vez, na África.
“As pesquisas cromossômicas que pretendem chegar ao elo perdido (o ponto exato, a partir da divisão de cromossomos, onde se iniciaram as primeiras divisões celulares) apontam para o continente africano”, ressalta Andersen. De lá, assegura, uma “Eva” e um “Adão” – e não macacos – teriam iniciado a geração primordial que originou os atuais (à época) seis bilhões de habitantes da Terra. E isso há muito menos tempo do que se considerava como início do surgimento dos seres humanos, de acordo com Roberto Andersen.
O pesquisador acredita que à ciência não resta outra alternativa senão abordar as manifestações místicas. Assim sendo, celebridades do panorama científico mundial, como o físico Stephen Hawking,a teu confesso e cético dos mais assumidos, terão que se basear no misticismo para elaborar sua contraposição, considera Andersen.

Música e mensagem

Francisco Muniz 

Coração tranquilo 
(Walter Franco) 

“Tudo é uma questão de manter 
A mente quieta 
A espinha ereta 
E o coração tranquilo” 

Esse mantra do compositor Walter Franco exprime com exatidão o modo como o espírito encarnado terá sucesso em sua tarefa de reeducação, de acordo com sua programação reencarnatória. Primeiramente, devemos dizer que não há receitas prontas e que cada um logrará êxito próprio de acordo com a forma de comportamento que julgar mais conveniente. Ademais, se há fórmulas preconcebidas elas estão em cada lição que Jesus nos legou, através das páginas do Evangelho. Ainda assim, sempre vale a pena lançarmos mão do que esteja ao alcance para facilitar ainda mais nossa jornada pela estrada do auto aperfeiçoamento, por entendermos que o Universo colabora, sim, para nosso engrandecimento nos mais imperceptíveis detalhes.
Voltemos, pois, ao mantra e ao modo como ele pode colaborar nesse processo. Tenhamos em conta, sobretudo, que esse é um trabalho que precisa ser realizado com disciplina, empenho e muita abnegação, para que seja bem sucedido. Se “tudo é uma questão de manter a mente quieta”, imperioso se faz entender que, sendo a mente a expressão do espírito encarnado em sua manifestação na matéria, é por ela que começa a tarefa do autoconhecimento e, consequentemente, de auto aperfeiçoamento.
Uma mente equilibrada é aquela que seleciona o pensamento e sintoniza com as frequências superiores da Espiritualidade. Em decorrência, o ser que assim se comporta aprende a melhor se conhecer e, principalmente, a se cuidar, tratando o corpo físico com a importância que ele merece, por ser o instrumento de manifestação do espírito. Assim, “manter a espinha ereta” é não atrair para si processos doentios decorrentes da invigilância, das paixões e dos vícios, numa palavra, das mais tendências que nos inferiorizam. Esse cuidado se dá através da alimentação equilibrada, sem excessos, dos exercícios físicos e da necessária higiene corporal.
Por fim, o “coração tranquilo” leva-nos à questão do equilíbrio das emoções, compreendendo que são os sentimentos mais nobres que devem prevalecer sobre aqueles de natureza inferior, ainda identificados com o instinto, ou seja, o domínio da matéria sobre a natureza espiritual. Um coração tranquilo, pacificado, é próprio daqueles que entendem seu papel na vida, tanto a presente quanto a futura, que constrói a cada instante, em conformidade com as palavras de Jesus: “Não se turbe vosso coração”, porque “a cada dia basta seu cuidado”. O aviso do Mestre, repetido em tantas outras diferentes culturas, diz-nos apenas da inutilidade de desesperarmos ante as conquistas que queremos fazer no mundo, posto que a conquista mais importante é a de nós próprios.

Espírito e matéria

Francisco Muniz 

Comentamos, nesta oportunidade, o segundo tópico do capítulo II (Livro I) de O Livro dos Espíritos, referente aos “Elementos gerais do Universo”, especificamente as questões 21 a 22-a, que enfocam a compreensão quanto ao princípio material. Allan Kardec, com seu espírito arguto, indaga dos Espíritos Superiores se “a matéria existe de toda a eternidade, como Deus, ou foi criada por Ele num certo momento?”, recebendo em troca a resposta que já imaginamos: “Só Deus o sabe”. (É, pois, um daqueles segredos – ou mistérios – cujo véu ainda não temos condições de descerrar.) Os Espíritos continuam a resposta: “Há, entretanto, uma coisa que a vossa razão vos deve indicar: é que Deus, modelo de amor e de caridade, jamais esteve inativo. Qualquer que seja a distância a que possais imaginar o início de sua ação, podereis compreendê-lo um segundo na ociosidade?”.
Na questão 22, Kardec já nos coloca num plano mais objetivo: “Define-se geralmente como aquilo que tem extensão, pode impressionar os sentidos e é impenetrável. Essa definição é exata?”. Recordemos, entretanto, que o Codificador faz a pergunta em meados do século XIX, quando a ciência moderna dava seus primeiros passos. Assim, conheçamos a resposta dos mentores espirituais: “Do vosso ponto de vista, sim, porque só falais daquilo que conheceis, mas a matéria existe em estados que não percebeis. Ela pode ser, por exemplo, tão etérea e sutil que não produza nenhuma impressão nos vossos sentidos: entretanto, será sempre matéria, embora não o seja para vós”.
Não nos parece que os instrutores da Espiritualidade prenunciam a descoberta do plasma, o quinto estado da matéria, no século XX? Com a fotografia Kirlian descobriu-se o duplo etérico e estamos a um passo de comprovar cientificamente a existência do perispírito, a partir dos estudos sobe o modelo organizador biológico – “campos mórficos” – iniciados na Rússia (antiga União Soviética).
Kardec, por fim, em vista do pouco que sabemos, ainda hoje, sobre o que seja exatamente a matéria, questiona incisivamente os Espíritos: “Que definição podeis dar da matéria?”. A resposta oferece margem a uma série de outras reflexões: “A matéria é o liame que escraviza o espírito; é o instrumento que ele usa, e sobre o qual, ao mesmo tempo, exerce sua ação”. Escraviza e ao mesmo tempo é instrumento, auxiliar da ação, da manifestação do espírito... Isto nos leva a ponderar acerca da questão da posição do espírito perante o corpo físico. Não estando encerrado na matéria, mas atuando sobre ela, dela o espírito não pode desembaraçar-se senão ao fim de sua experiência de encarnado, com o esgotamento natural dos órgãos físicos. E não sendo o mundo físico o ambiente natural, original dos espíritos, é mesmo um sacrifício para eles o submeterem-se às provas da carne. A escravização que a matéria lhes impõe, portanto, é de ordem moral, tanto que, para certos espíritos, é como se estivessem mesmo introduzidos no arcabouço físico, tão identificados estão com a matéria.
Mas o corpo material é ainda instrumento da ação do espírito e para melhor refletirmos acerca desse ponto reportemo-nos à observação de Kardec quanto á resposta dos Espíritos Superiores a seu questionamento: “De acordo com isto, pode-se dizer que a matéria é o agente, o intermediário com a ajuda do qual o espírito atua”. Imaginemos um manipulador de teatro de bonecos e teremos uma vaga ideia dessa relação espírito-corpo, na qual o primeiro tem o domínio intelectual, mas sofre do outro certas influências materiais, as quais deve superar no processo de reeducação que experimenta.

segunda-feira, 11 de março de 2013

Disciplina e responsabilidade na atuação mediúnica


Francisco Muniz


Recapitulamos aqui as noções de responsabilidade que devem nortear o médium para o bom exercício de suas faculdades psíquicas. Em nossos estudos , até aqui, temos analisado a importância de aspectos como o estudo, a meditação, o compromisso e a vivência evangélica, como fatores decorrentes da conscientização de nosso papel de instrumentos da Espiritualidade. Tudo isso nos remete à necessidade de se estabelecer uma disciplina no sentido de fortalecermos a responsabilidade frente aos serviços mediúnicos que abraçamos e sobretudo em nossas atividades rotineiras, fora da Casa Espírita. Como sabemos, somos médiuns 24 horas ao dia e, como tal, é imperioso desenvolvermos e acalentarmos princípios éticos que nos vão conduzir à prática da mediunidade com Jesus.
Não basta apenas sermos capazes de produzir fenômenos – é preciso sermos cada vez mais bons instrumentos a serviço dos Espíritos Superiores. No prefácio do livro “Nos domínios da mediunidade”, o guia espiritual Emmanuel fala sobre a necessidade de asilarmos o Cristo no coração e na consciência, sob pena de ficarmos desorientados ao toque dos fenômenos. Segundo ele, “sem noção de responsabilidade, sem devoção à prática do bem, sem amor ao estudo e sem esforço perseverante em nosso próprio burilamento moral, é impraticável a peregrinação libertadora para os Cimos da Vida”. Se nossa real intenção é a de sermos bons médiuns, importa entendermos com clareza as noções de responsabilidade e disciplina.
Longe de divisar, para o medianeiro, falsas ideias de missões de avultada transcendência – somos, ainda, médiuns de prova, certo? –, a responsabilidade de que falamos deve fazer reconhecermo-nos “humildes portadores de tarefas comuns, conquanto graves e importantes como as de qualquer outra pessoa”. Isto é o que nos diz André Luiz, em “Conduta espírita”, acrescentando que “o seareiro do Cristo é sempre servo, e servo do amor”. Nesse aspecto, é de grande relevância a necessidade de auto evangelização: sem a vivência evangélica, aprendendo e praticando as lições de doação abnegada deixadas por Jesus, nossa atuação medianímica será como a de uma máquina que ao primeiro sinal de esgotamento será substituída.
Tratamos como seres tão carentes como nós mesmos – na verdade, somos até mais necessitados, uma vez que os Espíritos sofredores que ajudamos a atender vêm nos auxiliar em nosso trabalho de aperfeiçoamento, a dizer-nos com seus exemplos que é preciso transformarmo-nos para melhor. Temos, pois, necessidades a considerar e a primeira delas, conforme Emmanuel, em “O Consolador”, é a de evangelizarmo-nos a nós mesmos antes de nos entregarmos às grandes tarefas doutrinárias, quais as reuniões mediúnicas. Porque de outro modo, pondera o nobre Espírito, poderemos nos esbarrar sempre com o fantasma do personalismo, em detrimento de nossa missão.

Vivência evangélica e moralidade
Bem se vê – pelo que se disse mais atrás – que tal vivência implica no cultivo da moralidade, pois pouco nos adianta conhecer a fundo o texto evangélico e nos comportarmos como os “sepulcros caiados” que o Cristo criticou há dois mil anos, porquanto irrepreensíveis na aparência e conspurcados na intimidade... “O primeiro inimigo do médium reside dentro dele mesmo, reforça-nos Emmanuel.
Tal inimigo, diz o Mentor, apresenta-se frequentemente como o personalismo, a ambição, a ignorância ou a rebeldia no voluntário desconhecimento de nossos deveres à luz do Evangelho, fatores de inferioridade moral que, não raro, nos conduzem à invigilância, à leviandade e à confusão dos campos produtivos.
Mas há meio de nos safarmos: “Contra esse inimigo é preciso movimentar as energias íntimas pelo estudo, pelo cultivo da humildade, pela boa vontade, com o melhor esforço de auto educação, à claridade do Evangelho”.
No capítulo XVI de “O livro dos médiuns”, Allan Kardec, devidamente assessorado pelos Espíritos Superiores, tece considerações acerca dos bons médiuns, classificando-os como sérios, modestos, devotados e seguros. Assim como podemos encontrar todas essas características em um só medianeiro, é possível também só observarmos algumas delas, em se tratando daqueles militantes nas hostes espíritas.
O Codificador, porém, traça aqueles caracteres hierarquicamente, ponto o aspecto da seriedade no início da escala. Para Kardec, os médiuns sérios, pois, são “os que não se servem de sua faculdade senão para o bem e para as coisas verdadeiramente úteis; creem profana-la fazendo-a servir à satisfação de curiosos e de indiferentes, ou para futilidades”.
Entendemos que alguém nessas condições estará apto à modéstia, à devoção à causa abraçada e principalmente à segurança no exercício de suas faculdades medianímicas.
De modo que “além da facilidade de execução”, pondera o Codificador, “merecem plena confiança, por seu próprio caráter, a natureza elevada dos Espíritos que os assistem, e que são menos expostos a serem enganados”.
Assim, convém estarmos atentos ao trabalho disciplinado e responsável, conscientes de que, como nos alertam os Emissários do Cristo em O Livro dos Espíritos, “não fazer o bem já é fazer o mal”.

Sugestões de leitura:
Franco, Divaldo P. e Teixeira, J. Raul – Diretrizes de Segurança (Ed. Fráter).
Kardec, Allan – O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. XVIII, itens 10 a 12.
_________ – O Livro dos Espíritos.
_________ – O Livro dos Médiuns.
Vieira, Waldo / André Luiz – Conduta Espírita (FEB).
Xavier, Francisco Cândido / Emmanuel – O Consolador (FEB). 

Necessidade da meditação para o médium


Francisco Muniz 

A prática mediúnica exige uma preparação acurada do médium trabalhador, para que sua atuação apresente cada vez mais qualidade, no sentido de não apenas proporcionar boas comunicações dos espíritos – sejam eles sofredores ou já esclarecidos – mas com o fim de se obter progresso no próprio trabalho de aperfeiçoamento do seareiro, do ponto de vista ético-moral, dentro e fora da Casa Espírita. Não podemos esquecer, desse modo, que a tarefa do Espiritismo é iluminar consciências, promovendo a elevação espiritual dos homens.
Nesse sentido, para que a atuação dos médiuns, especificamente na sala mediúnica, se dê com proveito para a reunião de que ele participa, faz-se necessário conhecer e utilizar as quatro pontes que permitirão ao trabalhador mediúnico melhorar seu contato com a própria consciência de serviço.
Essas quatro pontes são definidas pela equipe do Projeto Manoel Philomeno de Miranda (PMPM) como a oração, a meditação, e ação no bem e o estudo, conforme é explicitado no mais recente livro do Projeto – Consciência e Mediunidade –, apresentado ao público espírita durante seminário realizado na Federação Espírita do Estado da Bahia (FEEB) no dia 14 de setembro de 2003.
No seminário, a equipe do PMPM mostrou como o médium pode reconhecer seu nível de consciência, que é o pensamento identificador do Ser, através da prática da oração, da meditação, da ação e do estudo, de modo a obter a perfeita integração entre o saber e o fazer. Aqui abordaremos a ponte da meditação, uma vez reconhecida sua importância no intercâmbio mediúnico e o pouco que ela é utilizada, porque ainda incompreendida, nas hostes espíritas, embora facilite em muito a concentração do medianeiro durante as reuniões de trabalho.

Impurezas da personalidade

Segundo Divaldo Franco – conforme nos relata o PMPM –, “enquanto o sensitivo não se habituar às disciplinas da meditação, seus registros passarão pelo seu inconsciente, como uma corrente de água circulando num tubo em forma de “U” e se contaminando, ao passo que se ele estiver harmonizado pelo hábito da meditação, seus registros transitarão pelo superconsciente, apresentando-se escoimados das impurezas de sua personalidade”.
Pela meditação, pois, adquire-se a expansão da consciência e o “eu” transcende o consciente inferior além do mundo objetivo (material), até alcançar o nível superconsciente, que é a instância capaz de tirar as “cores anímicas” do exercício mediúnico.
Se a oração na prática mediúnica (antes, durante e depois) serve tanto como preparação, invocação e terapia, a meditação facilita ainda mais o intercâmbio com os Espíritos amigos e o processo de atendimento às entidades carentes, pois “quem ora fala e quem medita ouve”, conforme assegura o Espírito Joanna de Ângelis.
A meditação, assim, reflete positivamente na atuação do médium, uma vez que “no silêncio, teu espírito se torna mais livre e pode entrar em contato conosco”, salienta a Benfeitora, revelando ainda que essa prática constitui um meio valioso de autoconhecimento e “quem se conhece identifica melhor o pensamento alheio”.
A meditação, facilitadora da concentração, tanto acalma quanto permite ao médium acessar as fibras mais íntimas de si mesmo, ampliando os sentimentos elevados em direção ao Plano Superior. “A concentração nas reuniões mediúnicas deve ser dinâmica, centrada na compaixão pelos que sofrem” – informa o Projeto Manoel Philomeno de Miranda.
Isso é exigido do médium porque “somente uma lâmina d’água tranquila e límpida transmite bem as imagens nela incidentes”, posto que o médium, “abrindo-se para os ideais superiores, fecha a chave de transmissão pelo inconsciente e aciona a transmissão superconsciente”.

Noções técnicas sobre meditação

As informações que aqui apresentamos são ensinamentos da benfeitora Joanna de Ângelis, contidos nos livros “Momentos de meditação”, “Alegria de viver”, “Vida: desafios e soluções” e “O homem integral”, citados na obra de Manoel Philomeno de Miranda ora em estudo (“Consciência e mediunidade”).
Para se iniciar na arte da meditação, ao médium sem conhecimentos dessa prática é recomendado se fixar num pensamento do Cristo, repetindo-o e aplicando-o diariamente na conduta através da ação, ou seja, vivenciar uma pequena lição evangélica, aumentando a pouco e pouco o tempo de dedicação, “treinando o inquieto corcel mental e aquietando o corpo desacostumado”.
Nesse trabalho poderão surgir sensações e comichões que devem ser atendidos, com calma, mantendo-se a mente ligada à ideia central, até que os incômodos sejam superados, pois “a meditação deve ser atenta, mas não tensa, rígida”.
O praticante precisa escolher, de preferência em casa ou num local mais compatível, um lugar asseado, agradável (se possível) e torna-lo habitual, de forma que sua psicosfera seja enriquecida com a qualidade superior dos pensamentos do meditante.
Para essa tarefa importa reservar uma hora calma do dia, durante a qual o praticante esteja repousado. Caso prefira exercitar-se em grupo, é imperioso procurar a companhia de pessoas moralmente sadias e sábias, que primem pela harmonização.
Para meditar, no entanto, não é necessário fugir do contato com a sociedade, nem é preciso buscar fórmulas ou práticas místicas, impor-se novos hábitos em substituição aos anteriores, a fim de se obter um estado de paz, decorrente da meditação.
A “reoxigenação” das “células da alma”, revigorando as disposições otimistas para a ação do progresso espiritual, começa preponderantemente com a respiração calma, em ritmo tranquilo e profundo. Em seguida vem o relaxamento muscular, eliminando-se pontos de tensão física e mental, a partir do afastamento da ansiedade e da falta de confiança.
Então, resta manter-se sereno, imóvel o quanto possível, com a mente fixada “em algo belo, superior e dinâmico, qual o ideal de felicidade, além dos limites e das impressões objetivas”.
Quem medita está necessariamente num processo de silêncio mental, procurando não fugir da realidade objetiva, mas superá-la. A ideia não é perseguir um alvo à frente, mas buscar harmonizar-se no todo.
Com o passar do tempo, o praticante já mais familiarizado com essas técnicas poderá exercitar-se também fora do ambiente escolhido. Por isso é que é possível praticar a meditação enquanto se executa um trabalho rotineiro, como a faxina doméstica ou banho, por exemplo.