terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Mortes coletivas

Francisco Muniz

Em razão do processo de transição planetária, as mortes coletivas estão acontecendo com maior intensidade. Em 1998, dois episódios acontecidos no Brasil contribuíram para uma matéria que fiz para a revista Visão Espírita, a qual transcrevo aqui.

Pessoas morrem todos os dias, individualmente ou em grupo. Evidentemente, as mortes coletivas chocam muito mais porque trazem sempre a conotação de tragédia. Ultimamente, essas tragédias têm se repetido com muita frequência. Em menos de quinze dias, para se ter uma ideia, três desastres de grandes proporções aconteceram no mundo e dois deles tiveram lugar aqui no Brasil - em São Paulo, mais propriamente. O drama internacional foi a queda do avião da empresa Swissair, no Canadá, com mais de 200 pessoas a bordo. Em nosso País, o choque ficou por conta do desabamento do telhado de um dos maiores templos da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) em Osasco e da colisão seguida de incêndio que envolveu uma carreta de combustível e dois ônibus cheios de romeiros.
Nesses dois casos, em particular, notamos uma coincidência: tratava-se de dois grupos religiosos. Ora, religiosos também morrem todos os dias, mas quando essas mortes são coletivas, fatalmente as pessoas são levadas a pensar, desavisadamente, que Deus deixou de olhar pelos "desafortunados", os quais, por se dedicarem a uma religião, não mereciam morrer de forma tão trágica. A raciocinar assim, somente aqueles que confessada ou sabidamente de desvinculam das diversas correntes religiosas deveriam sofrer mortes violentas. No entanto, vemos que raras são as pessoas que partem para o "outro mundo" de forma realmente branda, posto que em geral são as doenças as causas mais comuns de mortes não-violentas.
Allan Kardec também preocupou-se em indagar dos Espíritos Superiores a razão das mortes coletivas, principalmente aquelas provocadas pelos grandes abalos naturais, como terremotos e epidemias. A resposta foi que Deus promove tais "flagelos destruidores" com o fim de fazer a Humanidade avançar mais depressa. Segundo os Espíritos, esses flagelos decorrem do cumprimento da Lei de Destruição, que é uma das leis da Natureza: "É necessário que tudo se destrua para renascer e se regenerar, porque isso a que chamar destruição não é mais que transformação, cujo objetivo é a renovação e o melhoramento dos seres vivos".
É preciso, assim, ver todos os fatos da vida como cumprimento das leis de Deus. Isso não significa que devamos por na conta de Deus o que seja apenas fruto da incúria dos homens. No caso do desabamento do telhado do templo da IURD, por exemplo, especialistas afirmaram que a estrutura do teto do prédio não oferecia boas condições. Esse prédio abrigava, além do templo, outros locais de aglomeração de pessoas, a exemplo de cinemas. A contante trepidação provocada pelo movimento dos frequentadores em trânsito é suficiente para desestruturar as construções, razão pela qual as estrutura físicas devem ser reforçadas ocasionalmente, de acordo com as normas de engenharia.
Se a morte também é transformação, uma vez também decorrente da Lei de Destruição, é necessário que entendamos que ela não é um castigo de Deus, nem acontece por acaso, atingindo quem não "merece" enquanto aquele que "certamente merecia" continua vivo. Mas, dizem os autores da Doutrina dos Espíritos, "é necessário ver o fim para apreciar os resultados. Só julgais essas coisas do vosso próprio ponto de vista, e as chamais de flagelos por causa dos prejuízos que vos causam; mas esses transtornos são frequentemente necessários para fazer com que as coisas cheguem mais prontamente a uma ordem melhor, realizando-se em alguns anos o que necessitaria de muitos séculos".
Tanto as cerca de 30 pessoas mortas em função do desabamento do teto do templo da IURD, onde havia mil e 300 pessoas reunidas, quanto as cinco dezenas de romeiros que pereceram no desastre seguinte são espíritos para os quais chegara o instante da transformação. Isso quer dizer que continuarão atuando, de acordo com as condições em que se encontrem, numa outra esfera da vida, já que em verdade a morte acomete apenas a vestimenta de carne usada pelo espírito para se manifestar no plano físico.
O choque, nessas mortes coletivas, refere-se ao fato de alcançarem tanto pessoas de bem quanto malfeitores, indiscriminadamente. Até por aí já se poderia vislumbrar a justiça divina atuante, mas por nosso orgulho nos fazemos cegos e surdos aos ditames da Lei. Kardec também perguntou aos Espíritos Superiores se Deus não poderia empregar outros meios que não os flagelos destruidores para melhorar a Humanidade. "Sim", responderam eles, acrescentando que diariamente esses meios são empregados, pois Deus "deu a cada um os meios de progredir pelo conhecimento do bem e do mal. É o homem que não os aproveita; então, é necessário castigá-lo em seu orgulho e fazê-lo sentir a própria fraqueza".

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Chico Xavier, uma lição de amor


Francisco Muniz


Ninguém morre. E quem quer que pense que a vida do médium mineiro Francisco Cândido Xavier chegou ao fim no último domingo, no mínimo está desinformado quanto às verdades da Vida. Maior expressão do Espiritismo em terras brasileiras, Chico Xavier começou aos quatro anos de idade a perceber a realidade da vida após a morte, quando, órfão de mãe e sofrendo a perseguição de sua madrinha, vivenciou os contatos com sua genitora desencarnada, que lhe pedia paciência ante o rigor do tratamento que lhe impunham. Treze anos depois, o jovem médium finalmente rendeu-se às evidências, que jamais refutara, e começou a se dedicar integralmente ao serviço com o Mundo Espiritual, dispondo-se a trabalhar com seu mentor, Emmanuel, e demais Espíritos Superiores, na tarefa de complementação doutrinária iniciada por Allan Kardec no século XIX.
Com Chico Xavier, a Doutrina Espírita, através dos livros ditados por Espíritos como André Luiz, que fora médico no Brasil e em livros como “Nosso Lar”, “Os Mensageiros” e “Missionários da Luz”, dentre muitos outros, enriqueceu-se sobremaneira e alcançou maior representatividade até mesmo no exterior. As obras recebidas do Plano Espiritual por Chico somaram 412 livros e já venderam pelo menos 25 milhões de exemplares, sendo traduzidas para vários idiomas. Esses livros retratam com fidelidade a natureza do Espiritismo, ciência filosófica de cunho moralizante que os Espíritos revelaram à Humanidade a partir do século XIX e que Allan Kardec – codinome do pedagogo francês Hippolyte Léon Denizard Rivail – codificou em cinco obras básicas: “O Livro dos Espíritos”, “O Livro dos Médiuns”, “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, “O Céu e o Inferno” e “A Gênese”.
Mas não é somente a produção literária psicográfica que dá expressão a Chico Xavier. Mais que isso, sua vida marcada por exemplos de abnegação é que o fazem ser reverenciado, desde sempre, como um verdadeiro apóstolo do Cristo, sob cujas ordens o médium servia aos Espíritos Superiores. Durante 75 anos – que se completariam no dia 8 deste mês -, Chico viveu exclusivamente para tornar seus dons mediúnicos um instrumento principalmente de consolo a milhares de pessoas angustiadas e inconsoláveis pelo que consideravam “perda” de entes queridos. Centenas de espíritos que partiram prematuramente, muitas vezes vítimas de acidentes e tragédias como o incêndio do Edifício Joelma, em São Paulo, voltaram, através da psicografia de Chico, para confortar seus familiares, dizendo que tivessem confiança na bondade divina porque efetivamente a vida não acaba e aqueles que se separaram voltarão a estar juntos um dia.
A abnegação de Chico e seus exemplos de caridosa atividade em prol dos materialmente desafortunados se estendia além de seus dons mediúnicos. Os direitos autorais dos livros eram doados às editoras e a inúmeras entidades assistenciais, porque o médium entendia que não lhe pertenciam, uma vez que eram os Espíritos que escreviam e ela não passava de um instrumento - “imperfeito”, segundo dizia. Em Uberaba (MG), cidade que escolheu para viver por recomendação de Emmanuel, seu mentor, Chico tinha no Centro Espírita Casa da Prece a reedição da Casa do Caminho dos primeiros cristão e lá atendia diariamente centenas de pessoas carentes do corpo e da alma, às quais recebia pessoalmente, a despeito, muitas vezes, de suas condições de saúde.

Disciplina e humildade

Quase centenário, Chico Xavier preferiu desencarnar quando todos os brasileiros estivessem felizes e não por coincidência – que isso não existe num universo controlado por leis tão sábias quão perfeitas – o fato se deu no dia da conquista do pentacampeonato pela Seleção Brasileira de Futebol. Consta que Chico não quis ver o jogo, mas procurou saber do resultado. Algumas horas depois, enquanto o Brasil inteiro vibrava alegremente, o coração nonagenário do médium nascido em Pedro Leopoldo (MG) em abril de 1910 parava de bater, naturalmente, “sem aviso prévio”, como disse seu médico.
Esse comportamento ressalta o nível de humildade que caracteriza esse Espírito abnegado, que jamais quis elevar-se acima de ninguém, mesmo possuindo méritos para tal. Um dos muitos casos contados a respeito de sua vida plena de exemplificações benemerentes relata uma conversa com uma mulher que o procurara para informar-se quanto à reencarnação. Parece que ela havia se submetido a uma sessão de regressão de memória e assim tivera acesso a informe de alguma experiência anterior na Terra e confidenciou: “Chico, gostei de saber que eu fui uma dos cristãos sacrificados aos leões na velha Roma. E você?” Chico, mansamente, respondeu: “Ah, minha filha eu era a pulga do leão”.
Além da humildade, outra característica de Chico Xavier é a disciplina com que pautava sua atuação mediúnica e mesmo pessoal, em atenção às orientações de Emmanuel. Conforme relato do próprio Chico, quando seu mentor espiritual especificou-lhe a natureza e a importância do trabalho que desempenhariam juntos, impôs-lhe três condições: “Qual a primeira?”, quis saber Chico, ouvindo de Emmanuel a palavra “disciplina”. “E a segunda?” – “Disciplina”. “E a terceira?” – “Disciplina”. Desde então, Chico se tornou o homem que foi/é, o instrumento de que a Espiritualidade se serviu para espalhar na Terra a luz do esclarecimento de acordo com as propostas de libertação que o Espiritismo anuncia.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Notícias de Raul Seixas

Copiado do site Pedaço de Estrela (http://www.tvpaz.tv.br/0001/cronicas/entrevista.htm)

Quando encarnada, em uma entrevista concedida ao jornalista Francisco Muniz, publicada na revista Visão Espírita n. 17, Dona Maria Eugênia, mãe de Raul Seixas, afirmou reconhecer no espírito Zílio as características de Raulzito, e disse: "O mais interessante é que muita coisa dita no livro nunca tinha sido publicada", afirmou ainda que o livro, Um Roqueiro no Além, se transformou no seu livro preferido.

Segundo ela, o mesmo Raul que se drogava era o mesmo Raul que combatia o vício, principalmente nos outros, conforme recorda, ela conta que seu filho fora procurado por um fã de Salvador, que se identificou como usuário e traficante de drogas, recebendo de Raul o conselho de trocar essa vida tão improdutiva quanto prejudicial por algo realmente útil; que se matriculasse numa escola e, estudando, construísse um futuro mais promissor. Os acontecimentos se sucederam na estrada do tempo e certo dia, quando se encontrava no leito de doente de seu marido, cerca de uns quatro anos atrás, D. Maria Eugênia viu entrar no quarto do Hospital Português, em Salvador, um homem negro, com os cabelos à moda rastafari. Era aquele a quem Raulzito aconselhara, a lhe dizer que realmente havia deixado as drogas e optara pelo estudo e hoje é proprietário de uma lanchonete no centro de Salvador. Era mais um a se deixar influenciar pelas mensagens construtivas de seu filho, nesse momento da entrevista se emociona.
Ainda emocionada, afirma: "Ele foi um pecador como todos nós e talvez um pouquinho mais. Ele sai um pouco das normas da sociedade atual, ele ultrapassou, fez coisas erradas, na nossa concepção, mas, para um artista... eu penso que um artista tem o espírito, a alma muito sensível, à flor da pele: qualquer coisa para ele é mais do que para nós."


***


Para quem não está familiarizado, o Espírito Zílio é personagem cuja história é contada no livro Um Roqueiro no Além, do médium Nelson Moraes. Pela leitura, reconhece-se em Zílio a personalidade de Raul Seixas.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Atrás do trio elétrico também vai quem já morreu

Francisco Muniz
(publicado originalmente na revista Visão Espírita, no ano de 2000)
Uma reflexão acerca do Carnaval

“Atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu...” – Caetano Veloso

Ao contrário do que reza o frevo de Caetano Veloso, não são somente os “vivos” que formam a multidão de foliões que se aglomera nas ruas das grandes cidades brasileiras ou de outras plagas onde se comemore o Carnaval. O Espiritismo nos esclarece que estamos o tempo todo em companhia de uma inumerável legião de seres invisíveis, recebendo deles boas e más influências a depender da faixa de sintonia em que nos encontremos. Essa massa de espíritos cresce sobremaneira nos dias de realização de festas pagãs, como é o Carnaval. Nessas ocasiões, como grande parte das pessoas se dá aos exageros de toda sorte, as influências nefastas se intensificam  e muitos dos encarnados se deixam dominar por espíritos maléficos, ocasionando os tristes casos de violência criminosa, como os homicídios e suicídios, além dos desvarios sexuais que levam à paternidade e maternidade irresponsáveis. Se antes de compor sua famosa canção o filho de Dona Canô tivesse conhecido o livro “Nas Fronteiras da Loucura”, ditado ao médium Divaldo Pereira Franco pelo Espírito Manoel Philomeno de Miranda, talvez fizesse uma letra diferente e, sensível como o poeta que é, cuidaria de exortar os foliões “pipoca” e aqueles que engrossam os blocos a cada ano contra os excessos de toda ordem. Mas como o tempo é o senhor de todo entendimento, hoje Caetano é um dos muitos artistas que pregam a paz no Carnaval, denunciando, do alto do trio elétrico, as manifestações de violência que consegue flagrar na multidão.
No livro citado, Manoel Philomeno, que quando encarnado desempenhou atividades espiritistas em Salvador, relata episódios protagonizados pelo venerando Espírito Bezerra de Menezes, na condução de equipes socorristas junto a encarnados em desequilíbrios.
Philomeno registra, dentre outros pontos de relevante interesse, o encontro com um certo sambista desencarnado, o qual não é difícil identificar como Noel Rosa, o poeta do bairro boêmio de Vila Isabel, no Rio de Janeiro, muito a propósito, integrava uma dessas equipes socorristas encarregadas de prestar atendimento espiritual durante os dias de Carnaval. Interessado em colher informações para a aprendizagem própria (e nossa também!), Philomeno inquiriu Noel sobre como este conciliava sua anterior condição de “sambista vinculado às ações do Carnaval com a atual, longe do bulício festivo, em trabalhos de socorro ao próximo”. Com tranqüilidade, o autor de “Camisa listrada” respondeu que em suas canções traduzia as dores e aspirações do povo, relatando os dramas, angústias e tragédias amorosas do submundo carioca, mas compreendeu seu fracasso ao desencarnar, despertando “sob maior soma de amarguras, com fortes vinculações aos ambientes sórdidos, pelos quais transitara em largas aflições”.
No entanto, a obra musical de Noel Rosa cativara tantos corações que os bons sentimentos despertados nas pessoas atuaram em seu favor no plano espiritual; “Embora eu não fosse um herói, nem mesmo um homem que se desincumbira corretamente do dever, minha memória gerou simpatias e a mensagem das musicas provocou amizades, graças a cujo recurso fui alcançado pela Misericórdia Divina, que me recambiou para outros sítios de tratamento e renovação, onde despertei para realidades novas”. Como acontece com todo espírito calceta que por fim se rende aos imperativos das sábias leis, Noel conseguiu, pois, descobrir “que é sempre tempo de recomeçar e de agir” e assim ele iniciou a composição de novos sambas, “ao compasso do bem, com as melodias da esperança e os ritmos da paz, numa Vila de amor infinito...”.
Entre os anos 60 e 70, Noel Rosa integrava a plêiade de espíritos que ditaram ao médium, jornalista e escritor espírita Jorge Rizzini a série de composições que resultou em dois discos e apresentações em festivais de músicas mediúnicas em São Paulo. O entendimento do Poeta da Vila quanto às ebulições momescas, é claro, também mudou: “O Carnaval para mim, é passado de dor e a caridade, hoje, é-me festa de todo, dia, qual primavera que surge após inverno demorado, sombrio”.

“A carne nada vale”. O Carnaval, conforme os conceitos de Bezerra de Menezes, é festa que ainda guarda vestígios da barbárie e do primitivismo que ainda reina entre os encarnados, marcado pelas paixões do prazer violento. Como nosso imperativo maior é a Lei de Evolução, um dia tudo isso, todas essas manifestações ruidosas que marcam nosso estágio de inferioridade desaparecerão da Terra. Em seu lugar, então, predominarão a alegria pura, a jovialidade, a satisfação, o júbilo real, com o homem despertando para a beleza e a arte, sem agressão nem promiscuidade. A folia em que pontifica o Rei Momo já foi um dia a comemoração dos povos guerreiros, festejando vitórias; foi reverência coletiva ao deus Dionísio, na Grécia clássica, quando a festa se chamava bacanalia; na velha Roma dos césares, fortemente marcada pelo aspecto pagão, chamou-se saturnalia e nessas ocasiões se imolava uma vítima humana.
Na Idade Média, entretanto, é que a festividade adquiriu o conceito que hoje apresenta, o de uma vez por ano é lícito enlouquecer, em homenagem aos falsos deuses do vinho, das orgias, dos desvarios e dos excessos, em suma.
Bezerra cita os estudiosos do comportamento e da psique da atualidade, “sinceramente convencidos da necessidade de descarregarem-se as tensões e recalques nesses dias em que a carne nada vale, cuja primeira silaba de cada palavra compõe o verbete carnaval”. Assim, em três ou mais dias de verdadeira loucura, as pessoas desavisadas, se entregam ao descompromisso, exagerando nas atitudes, ao compasso de sons febris e vapores alucinantes. Está no materialismo, que vê o corpo, a matéria, como inicio e fim em si mesmo, a causa de tal desregramento. Esse comportamento afeta inclusive aqueles que se dizem religiosos, mas não têm, em verdade, a necessária compreensão da vida espiritual, deixando-se também enlouquecer uma vez por ano.

Processo de loucura e obsessão. As pessoas que se animam para a festa carnavalesca e fazem preparativos organizando fantasias e demais apetrechos para o que consideram um simples e sadio aproveitamento das alegrias e dos prazeres da vida, não imaginam que, muitas vezes, estão sendo inspiradas por entidades vinculadas às sombras. Tais espíritos, como informa Manoel Philomeno, buscam vitimas em potencial “para alijá-las do equilíbrio, dando inicio a processos nefandos de obsessões demoradas”. Isso acontece tanto com aqueles que se afinizam com os seres perturbadores, adotando comportamento vicioso, quanto com criaturas cujas atitudes as identificam como pessoas respeitáveis, embora sujeitas às tentações que os prazeres mundanos representam, por também acreditarem que seja lícito enlouquecer uma vez por ano.
Esse processo sutil de aliciamento esclarece o autor espiritual, dá-se durante o sono, quando os encarnados, desprendidos parcialmente do corpo físico, fazem incursões às regiões de baixo teor vibratório, próprias das entidades vinculadas às tramas de desespero e loucura. Os homens que assim procedem não o fazem simplesmente atendendo aos apelos magnéticos que atrai os espíritos desequilibrados e desses seres, mas porque a eles se ligam pelo pensamento, “em razão das preferências que acolhem e dos prazeres que se facultam no mundo íntimo”. Ou seja, as tendências de cada um, e a correspondente impotência ou apatia em vencê-las, são o imã que atrai os espíritos desequilibrados e fomentadores do desequilíbrio, o qual, em suma, não existiria se os homens se mantivessem no firme propósito de educar as paixões instintivas que os animalizam.

Há dois mil anos. Tal situação não difere muito dos episódios de possessão demoníaca aos quais o Mestre Jesus era chamado a atender, promovendo as curas “milagrosas” de que se ocupam os evangelhos. Atualmente, temos, graças ao Espiritismo, a explicação das causas e conseqüências desses fatos, desde que Allan Kardec fora convocado à tarefa de codificar a Doutrina dos Espíritos. Conforme configurado na primeira obra da Codificação – O Livro dos Espíritos -, estamos, na Terra, quase que sob a direção das entidades invisíveis: “Os espíritos influem sobre nossos pensamentos e ações?”, pergunta o Codificador, para ser informado de que “a esse respeito sua (dos espíritos) influência é maior do que credes porque, freqüentemente, são eles que vos dirigem”. Pode parecer assustador, ainda mais que se tem os espíritos ainda inferiorizados à conta de demônios.
Mas, do mesmo modo como somos facilmente dominados pelos maus espíritos, quando, como já dito, sintonizamos na mesma freqüência de pensamento, também obtemos, pelo mesmo processo, o concurso dos bons, aqueles que agem a nosso favor em nome de Jesus. Basta, para tanto, estarmos predispostos a suas orientações, atentos ao aviso de “orar e vigiar” que o Cristo nos deu há dois mil anos, através do cultivo de atitudes salutares, como a prece e a prática da caridade desinteressada. Esta última é a característica de espíritos como Bezerra de Menezes, que em sua última encarnação fora alcunhado de “o médico dos pobres” e hoje é reverenciado no meio espírita como “o apostolo da caridade no Brasil”.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Bom humor espírita

Geziel Andrade


Henri Sausse registrou na biografia de Allan Kardec que, embora o Codificador do Espiritismo fosse digno e sóbrio e se ocupasse com assuntos elevados, “gostava de rir com esse belo riso franco, largo e comunicativo, e possuía um talento todo particular em fazer os outros partilharem do seu bom humor”.
Aqui no Brasil, nós tivemos, no meio espírita, os bons exemplos de Chico Xavier. Narram os seus biógrafos que embora ele estivesse sempre ocupado com as suas atividades mediúnicas nobres, sabia conservar a gentileza, esbanjar simpatia e manter o bom humor com todas as pessoas que o procuravam ou o cercavam. Assim, melhorava a confiança, a esperança e a alegria na alma das pessoas que se achegavam ao seu amor e carinho.
Fora do meio espírita, talvez o exemplo mais relevante do valor do bom humor esteja nas ações dos “Doutores do Riso”. Estimulando-o, conseguem despertar a alegria para que pessoas doentes melhorem o sistema imunológico, superem estados depressivos, elevem os sentimentos, as emoções e os pensamentos favorecendo a recuperação da saúde física e mental e da qualidade de vida.
Dessa forma, o bom humor, acompanhado sempre do equilíbrio e do bom senso, deve ser exteriorizado por nós no lar, no ambiente de trabalho e no convívio e no relacionamento com as pessoas que nos cercam, inclusive nas atividades do Centro Espírita.
Quem de nós não conhece alguns espíritas que souberam ou sabem fazer preleções doutrinárias ou evangélicas com notável senso de humor, tornando-as descontraídas, agradáveis, proveitosas e inesquecíveis? Que ante a situações constrangedoras, superam-nas com extraordinário bom humor? Que no atendimento às pessoas enfermas, tristes ou depressivas, usam doses certas de bom humor, para aconselhar, dissipar as trevas na mente e recuperar o ânimo, a alegria, o sorriso, a saúde espiritual e o bem-estar?
Portanto, o bom humor deve estar em nosso estado da alma e entre as nossas atitudes mentais elevadas. Assim, o trabalho rende mais; a prática da caridade e do bem frutifica melhor; os deveres morais são cumpridos com descontração; e a convivência com os semelhantes fica mais amena e saudável.
E quanto às manifestações humorísticas dos semelhantes, lembremo-nos sempre da lição do Espírito Mariano José Pereira da Fonseca, psico-grafada por Chico Xavier e contida no Capítulo “Reflexões”, do livro “Falando à Terra”: “Não arruínes o bom humor de quem segue ao teu lado, porque a alegria é sempre um medicamento de Deus”.

“Que suas mãos estejam prontas...”

Francisco Muniz (publicado originalmente no jornal Tribuna Espírita de Salvador - http://tribunaespiritadesalvador.blogspot.com/)


Em sua saudação aos médiuns no primeiro dia do ano de 2008, o mentor espiritual do Centro Espírita Deus, Luz e Verdade, Irmão Jerônimo, fez, mais uma vez, uma conclamação no sentido de se observar com mais consciência os ensinamentos de Jesus. Tais recomendações são atualíssimas e por isso as relembramos aqui. É preciso, disse ele, “deixar brilhar a luz interior, como o sol que cada um possui e deve irradiar todos os dias”. Se o homem, ponderou o Mentor, “deseja o crescimento da vida externa apenas, esquecendo as conquistas espirituais, Jesus mostra, com seus exemplos de vida, como é preciso proceder. O verdadeiro caminho é um só: a via estreita”.
Segundo Irmão Jerônimo, é preciso refletir acerca da vida espiritual e para tanto todos têm capacidade, bastando confiar mais no Cristo: “Jesus está mais forte do que quando aqui passou”, ressaltou. Depois de comparar o Mestre com um rio caudaloso para o qual devem convergir os pequenos regatos que somos nós, o Mentor perguntou: “Por que o homem não corre em direção ao oceano maior, que é o amor de Deus onipotente?”
Mas apesar das palavras do Cristo, voltadas para o exercício da caridade incondi-cionalmente, “o homem se sente perdido, demora a abrir a porta para os pequeninos e, quando a abre, diz não”. No entanto, não há tempo a perder e o Mentor enfatiza: “Adiante os passos, se você vive bem neste planeta. Deixe o que ficou para trás. Que suas mãos estejam prontas para estendê-las aos caídos. Que sua boca esteja pronta para falar as palavras de encorajamento e verdade. Que seus pés estejam prontos para seguir adiante e conduzir os irmãos da retaguarda”.
É desejo do Irmão Jerônimo que nós, os médiuns trabalhadores do CEDLV, encaremos a tarefa com toda seriedade, para que assim, humilde responsavelmente, estejamos integrados à obra comum, “pois ninguém faz nada sozinho”. De acordo com o Mentor, “aquele que diz ‘eu faço’, ‘eu sou’, que acha que faz tudo, nada faz”. E o propósito de todos, disse, é um só: crescer para Deus. Nesse sentido, pede-nos ele que não troquemos os trabalhos espirituais por nada do mundo: “Médium, enfrente a vida de cabeça erguida, você não sabe a hora em que seu corpo tombará!”
O tempo urge, avisou o amigo espiritual, ressaltando que Jesus não perdia tempo, pois sabia o quanto ficaria com seus discípulos. Devemos, aconselhou Irmão Jerônimo, aprender a meditar: “Isolem-se alguns minutos, não importa quanto tempo, mas o necessário para o encontro consigo mesmo na comunhão com o Mestre”.
É preciso, também, que estejamos atentos à condição de detentores de faculdades mediúnicas. Segundo o Mentor, poucos compreenderam, no planeta, o papel da mediunidade: “O sucesso de sua vida só depende de você; a saúde de seu corpo, a paz de seu lar, só dependem de você”. Assim sendo, apego à família, a dinheiro, não é atitude cristã, ponderou Irmão Jerônimo, assegurando que, como homens virtuosos, devemos seguir o caminho do bem.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

O repórter Manoel Philomeno

Manoel Philomeno de Miranda era um cético em relação ao Espiritismo até 1914, quando o médium Saturnino Favila o curou de grave enfermidade, na cidade de Alagoinhas. Convertido à Doutrina dos Espíritos, teve oportunidade de conhecer José Petitinga, em Salvador, e começou a frequentar as sessões da União Espírita Bahiana, fundada em 1915. Na entidade máxima dos espíritas da Bahia de então, Philomeno exerceu diversos cargos até ser eleito presidente pela Assembleia Geral, em virtude da desencarnação de Petitinga.
Na União, suas atividades doutrinárias foram direcionadas para as questões da obsessão e desobsessão, tarefa a que se dedicou no Além, após sua partida do mundo material. Utilizando a mediunidade psicográfica de Divaldo Franco, Philomeno tem se dedicado a orientar os lidadores da terapêutica espiritual quanto aos processos obsessivos.
Através de verdadeiras reportagens sobre a ação que os espíritos ainda ignorantes do Bem exercem sobre os encarnados, mercê da invigilância destes, o Instrutor Amigo vem fornecendo vasto material d exame em obras detentoras de qualidade literária e profundidade doutrinária.
Tal produção faz dele uma espécie de sucessor do Espírito André Luiz, que durante muitos anos e apresentou, pelos médiuns Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira, como um autêntico repórter do Além.
Segundo Philomeno, "auto-obsessões, obsessões, subjugações são capítulos que merecem da Paologia Médica estudo simultâneo, á base dos postulados do Espiritismo", conforme expressa na introdução do livro "Tramas do destino" (FEB, 1987).
Philomeno recomenda, então, que "ao lado das terapêuticas valiosas, ora aplicadas nos obsessos de vário porte, impõem-se os recursos valiosos e salutares da fluidoterapia e das expressivas contribuições doutrinárias da Terceira Revelação, que traz de volta os insuperáveis métodos evangélico de que se fez expoente máximo Jesus, o Divino Médico de todos nós".
Baiano do município de Conde, Manoel Philomeno de Miranda nasceu aos quatorze dias do mês de novembro de 1876, no distrito de Jangada, sendo seus pais Manoel Batista de Miranda e Umbelina Maria da Conceição.
Sua inestimável contribuição aos estudos da mediunidade e distúrbios espirituais o elevaram à condição de patrono do projeto que leva seu nome criado no Centro Espírita Caminho da Redenção, de Salvador, cujas atividades são chanceladas pela Federação Espírita do Estado da Bahia e reconhecidas no Brasil inteiro através de seminários.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Da natureza dos espíritos

Francisco Muniz



"Que é o espírito?", pergunta (q. 23 de O Livro dos Espíritos) Allan Kardec aos Espíritos Superiores. Àquela época - meados do século XIX -, do ponto de vista filosófico, o espírito era tomado como a vivacidade do indivíduo, ao passo que, religiosamente, equivalia à alma. Intrinsecamente, era (é) um completo desconhecido até a codificação do Espiritismo. Por esta doutrina somos informados de que o espírito é o "princípio inteligente do universo". Se tal definição não satisfaz, a princípio, a sede de saber, sigamos adiante.
Kardec desdobra essa questão perguntando qual é a natureza íntima do espírito (do que ele é constituído, como ele é em essência). Os autores da Doutrina nos dizem apenas que "não é fácil analisar o espírito em vossa linguagem. Para vós, ele não é nada, porque não é coisa palpável; mas, para nós, é alguma coisa". E passam-nos uma advertência: "Ficai sabendo: nenhuma coisa é o nada e o nada não existe". Por tais palavras entendemos que o espírito tem alguma substância, mesmo que esta fuja aos sentidos humanos.
A questão 24, Kardec a formula com bastante tirocínio, ainda assim recebendo dos Espíritos Superiores a necessária correção: "Espírito é sinônimo de inteligência?" - "A inteligência é um atributo essencial do espírito; mas um e outro se confudem num princípio comum, de maneira que, para nós, são uma e a mesma coisa." Com efeito, tomando-se, com o se tomava, o espírito pela vivacidade do indivíduo, essa resposta tem a coerência que Kardec esperava.
Mas aprofundemos um pouco o problema recorrendo a André Luiz. Em "Evolução em dois mundo", o distinto morador de Nosso Lar informa: "(...) Além da ciência que estuda a gênese das formas, há também uma genealogia do espírito. Com a Supervisão Celeste, o princípio inteligente gastou, desde os vírus e as bactérias das primeiras horas do protoplasma na Terra, mais ou menos quinze milhões de séculos, a fim de que pudesse, como ser pensante, embora em fase embrionária da razão, lançar suas primeiras emissões de pensamento contínuo para os Espaços Cósmicos".
Por André Luiz talvez seja fácil compreender a questão 25 de O Livro dos Espíritos, na qual o Codificador inquire se "o espírito é independe da matéria, ou não é mais do que uma propriedade desta, como as cores são propriedades da luz e o som uma propriedade do ar?"
Ora, a pergunta faz sentido, já que se pensava que o espírito era tão somente a vivacidade individual e, tal fosse o sujeito, tal seria o espírito. Mas os Superiores esclarecem: "Um e outro são distintos, mas é necessária a união do espírito e da matéria, para dar inteligência a esta".
Desdobrando a pergunta, Kardec retoma seu pensamento: "Essa união é igualmente necessária para a manifestação do espírito? (Por espírito, entendemos aqui o princípio da inteligência, abstração feita das individualidades designadas por este nome)". Veem? Com tal adendo o mestre lionês deixa claro o entendimento da época. "Ela é necessária para vós, porque não estais organizados para perceber o espírito sem a matéria; vossos sentidos não foram feitos para isso", respondem os Mensageiros.
Vamos concluir este artigo com a questão 26, uma das mais interessantes d'O Livro dos Espíritos: "Pode conceber-se o espírito sem a matéria e a matéria sem o espírito?" Bem entendido, Kardec cita o termo matéria referindo-se seguramente ao corpo humano. Assim, a resposta: "Pode-se, sem dúvida, pelo pensamento".
O problema, no entanto, parece se aprofundar, uma vez que o pensamento, no tocante à imaginação, pode nos pregar peças ao construir fantasias sobre tema tão palpitante. Mas a inteligência guarda um recurso capaz de solver tais enigmas. Pelo uso da razão, pode-se chegar ao conhecimento das coisas, discernindo entre o que é e o que somente parece ser.
Assim, abstraindo toda fantasia mental, provocada por preconceitos e pelo verniz cultural, entenderemos que, no caso em questão, a realidade do espírito, o que fica é a luz da verdade, pois os espíritos, em essência, não são mais do que centelhas... divinas!

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Morrer e desencarnar

Os espíritas dizemos haver uma diferença muito acentuada entre morrer e desencarnar. Em tese, dá tudo na mesma se o ponto de vista é daqui para lá, mas analisando a coisa de um ponto mais alto, isto é, pela ótica do espírito imortal - de lá para cá, portanto -, a situação muda de figura. Desse modo, conceitualmente, morrer é o que todo mundo diz: esticar as canelas; abotoar o paletó de madeira; passar para o andar de cima; ir ver Jesus; atender ao chamado de Deus; voltar para casa; bater as botas... Mas quanto a desencarnar, somente uma das expressões populares pode ser adequada: passar desta para melhor. Porque, dizemos, se muitos morrem, poucos desencarnam efetivamente, ficando por aqui ainda, dando trabalho e atrapalhando os "vivos". Sendo assim, vem bem a calhar neste início de ano a lembrança de um antigo sucesso de Belchior, "Sujeito de sorte" ("Ano passado eu morri, mas este ano eu não morro..."), em que o compositor cearense parece refletir o pensamento de que, com o aprendizado da Vida, já não é mais possível continuar indiferente às sábias leis, sendo imperioso despertar do longo sono em que muitos ainda se encontram.