sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Distúrbios da mediunidade

Francisco Muniz

Nos primórdios dos estudos sobre a mediunidade, pensava-se e dizia-se que o exercício dessa faculdade poderia causar perturbações à saúde física e mental do médium. As pesquisas sérias realizadas por homens criteriosos, espíritas ou não, mostraram exatamente o contrário. Entretanto, a ignorância quanto a tais resultados faz com que pessoas desavisadas se mantenham acreditando e repetindo essas informações equivocadas. Em O Livro dos Médiuns, Allan Kardec aborda a questão, no capítulo referente aos inconvenientes e perigos da mediunidade. O Codificador interroga, possivelmente, o Espírito São Luiz e recebe dele noções esclarecedoras quanto ás relações entre mediunidade e (falta de) saúde. De acordo com o mentor espiritual, a faculdade mediúnica é indício, algumas vezes, de um estado anormal, mas não patológico. Ele ajunta que há médiuns de saúde bastante vigorosa como há também os que são doentes, mas cuja enfermidade se deve a outras causas.
Há ocasiões em que é prudente - diz São Luiz - e necessário o médium se abster ou moderar o uso de sua faculdade, embora isso dependa do estado físico e moral do sensitivo. Cremos que tal conselho se prenda apropriadamente a mulheres no período menstrual, principalmente aquelas sobre as quais o descontrole hormonal é mais acentuado, provocando o que hoje se chama de tensão pré-menstrual (TPM). Também há casos em que o médium - não importando o sexo - se sente extenuado e por isso deve impor alguma restrição ao exercício mediúnico. Nesses momentos, o médium sente quais são sus condições físicas e mentais, geralmente, e deve abster-se da faculdade, conforme avisa São Luiz.
Há quem abrigue a ideia de que o contato com as entidade espirituais desencarnadas sofredoras pode causar psicoses nos médiuns. Procurando rebater tal equívoco, o Projeto Manoel Philomeno de Miranda (PMPM) esclarece que não têm razão os que assim pensam nem os que assim procedem. O médium espiritista - informa o PMPM - tem conhecimento, através da doutrina que professa, dos antídotos e dos medicamentos para manutenção do próprio equilíbrio. O projeto chama a atenção, porém, para o fato de que há médiuns em desalinho mental em todos os departamentos humanos, inclusive nos arraiais do Espiritismo. A diferença, pondera, é que nas células espiritistas de socorro eles aparecem na condição de enfermos em tratamentos especiais e demorados, pois já vieram em tormentos e se demoram sem qualquer esforço de renovação íntima.
Em Médiuns e Mediunidades, o espírito Vianna de Carvalho informa, pela pena de Divaldo Franco, que a suposta geração de enfermidades pelo exercício mediúnico não tem qualquer legitimidade. "Quem afirme em contrário apenas repetirá chavões que a experiência dos fatos demonstrou ultrapassados", revela o instrutor espiritual. Segundo Vianna de Carvalho, a mediunidade, como qualquer outra faculdade orgânica, exige cuidados específicos para um desempenho eficaz quão tranquilo. É forçoso entender, então, que os distúrbios atribuídos ao exercício mediúnico decorrem das distonias emocionais do médium que, espírito endividado, reencarna enredado no cipoal das próprias imperfeições, das quais derivam seus conflitos, suas perturbações, sua intranquilidade.
O Espírito André Luiz, por sua vez, ressalta que, uma vez sabendo que todo sofrimento orgânico é uma prova espiritual, dentro das leis cármicas, o médium, especialmente se matriculado nas hostes espíritas, jamais deverá recear a dor, mas aceitá-la e compreendê-la com desassombro e conformação. É extremamente valioso, diz ainda esse amigo espiritual, que médium aproveite a moléstia como período de lições, sobretudo como tempo de aplicação dos valores alusivos à convicção religiosa. Porque a enfermidade pode ser considerada por termômetro da fé, completa André Luiz.

Referências

Franco, Divaldo P. - Médiuns e Mediunidades, pelo Espírito Vianna de Carvalho. 5.ª ed. LEAL, Salvador, 1999.
Kardec, Allan - O Livro dos Médiuns. 68.ª ed. IDE, Araras (SP), 2004.
Projeto Manoel Philomeno de Miranda - Qualidade na Prática Mediúnica. 2a. ed. LEAL, Salvador, 2000.
Vieira, Waldo - Conduta Espírita, pelo Espírito André Luiz. 17.ª ed. FEB, Brasília, 1994.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Muito se pedirá a quem muito recebeu

Francisco Muniz

Todo mundo sempre recebeu e continua recebendo um tanto da misericórdia divina, a começar da oportunidade da reencarnação. Quando se trata das lições do Cristo, são os cristãos que primeiro devem se sensibilizar ante esse ensinamento - "muito se pedirá a quem muito recebeu" -, principalmente se não o põem em prática. Mas levando-se em consideração que nem todo mundo é cristão, embora todos sejamos espíritos reencarnados, há que notarmos que toda a população mundial tem a assistência dos Espíritos. A todo instante estamos recebendo conselhos e orientações que nos indicam o caminho a seguir, embora o respeito a nosso livre arbítrio. É que o ensinamento dos Espíritos se propaga por todos os cantos do planeta e retem, na linguagem que cada um pode entender, todas as máximas do Cristo, verdadeiramente o governador da Terra e pastor deste imenso rebanho que é a Humanidade inteira. Assim, é dever de todos nós partilharmos o que possuímos a fim de quitar nossos débitos contraídos perante as sábias leis, conforme o princípio da contabilidade entre nós: quem recebe, deve; quem paga, tem haver (crédito).

Soberanas leis

Francisco Muniz

A Vida pulsa vibrantemente em tudo, em toda parte. Tudo é criação divina e o homem ora é simples partícipe, ora é um grande colaborador. E é um simples partícipe quando não atua diretamente desse trabalho de cocriação, se por sua ignorância apenas põe entraves à marcha do progresso. Sim, pois Deus quis que tudo que fez caminhasse sempre na trilha da perfeição. O homem, pois, é e será um grande auxiliar da Divindade se se põe a favor das leis que regem a vida nas duas direções, atuando em benefício das construções meramente humanas, no plano da vida material, ou cooperando estreitamente com o trabalho em prol das grandes realizações espirituais, que se espraiam além dos panoramas da vida física.
Sim, Deus quis que tudo - cada pensamento e cada ato de seus filhos, encarnados ou não - contribuísse para um fim comum, qual seja o de aperfeiçoar ou complementar sua Criação. Para tanto, pôs em funcionamento as soberanas leis, garantidoras da Vontade suprema de nosso Criador. Tudo, portanto, em a Natureza e em todo o Universo caminha em obediência a tais leis, que vibram incessantemente na consciência dos homens - mesmo quando se mostrem aparentemente ignorantes -, e na experiência sensória dos vegetais e animais, quanto na semi imobilidade dos minerais, em latência.
São as mesmas leis, regendo os fenômenos da vida material e controlando as relações entre as almas. A lei que condiciona a aglutinação das moléculas, permitindo a expansão da vida nos reinos inferiores, é a mesma, guardadas as proporções, que suscita a atração entre os espíritos, levando aos encontros felizes ou infelizes, a depender do grau de amadurecimento de cada um deles.
No capítulo referente aos seres inteligentes da Criação - os Espíritos - em O Livro dos Espíritos, essas leis Allan Kardec as classificou como "as leis morais da vida", em contraposição às leis que regem a matéria. As leis morais são estas que nos possibilitam viver e conviver bem uns com os outros, tanto no mundo visível quando no chamado mundo invisível, a verdadeira realidade da Vida, de onde procedemos e para onde retornaremos ao fim de nosso estágio supervisionado na Terra.
Para cá somos trazidos para a prática dessas leis, trabalhando por nossa elevação espiritual e auxiliando os demais, na medida de nossas possibilidades, sendo solidários e promovendo  a igualdade de tratamento com base nas lições de tolerância e abnegação do Cristo Jesus, que nos convida a sermos fraternos, fazendo ao próximo o que gostaríamos que ele nos fizesse.
Essas leis divinas, dizem-nos os Espíritos Superiores nas obras da Codificação espírita, nós as temos inscritas na consciência. Para segui-las obedientemente, a fim de vivermos verdadeiros momentos felizes, importa conhecermo-nos, consultando a própria consciência, que nos revela nossas potencialidades e limitações.

Todo Mundo e Ninguém

Francisco Muniz

"Todo Mundo e Ninguém" é um auto famoso do escritor satírico português Gil Vicente, recriado aqui sob a inspiração espírita, para uma apresentação especial na comemoração do aniversário do C. E. Deus, Luz e Verdade, em Salvador (BA), no ano de 2005. Como no texto de Gil Vicente, este esquete também tem apenas um ato e uma cena na qual aparecem quatro personagens: Todo Mundo, um homem orgulhoso e pedante, daqueles que "se acham"; Ninguém, um representante do povo cujas características são o oposto do primeiro; o Diabo, aqui renomeado simplesmente Observador, por razões óbvias; e o Secretário, aquele que toma nota das observações do anterior, seu senhor. A cena registra a conversa entre Todo Mundo e Ninguém, que se encontram "por acaso" na Casa Espírita e começam a entreter uma conversa, sendo observados a distância pelos outros dois.

Todo Mundo e Ninguém - Espetáculo em um ato, no qual dois personagens, Todo Mundo e Ninguém, dialogam sobre aspectos da vida de cada um, manifestando desejos e aspirações, e sendo observados criticamente por dois outros, que dão lições de moral ao público.

Cena única - Todo Mundo e Ninguém sobem ao palco, onde já se encontra o Observador, andando de um lado pra o outro. Quando os dois se posicionam, o Observador chama alguém da plateia.

Observador - Ei! Venha cá! É, você mesmo! Venha cá! (pausa, enquanto o outro se encaminha para o palco) Muito bem! Você vai me ajudar a botar os pingos nos is. Tem algum pingo sobrando aí? Brincadeirinha! Tome este caderno e esta caneta e vamos ouvir o que esses dois estão falando!

De frente um para o outro, Todo Mundo e Ninguém iniciam o diálogo:

Ninguém - Olá, que faz você aqui no "Deus, Luz e Verdade"?
Todo Mundo - Vim conhecer Bernadete, porque quero ser espírita.
Ninguém - Que beleza! Eu gosto muito daqui e quero fazer minha reforma íntima.

Observador (para o Secretário) - Isso é coisa para se anotar! Escreva aí, secretário: todo mundo quer ser espírita e ninguém busca se reformar!

Todo Mundo - Como espírita, vou estudar bastante, pois quero conhecer tudo, de Kardec a Irmão Jerônimo!
Ninguém - Se eu puder ajudar um pouquinho aqui no Centro, já vai ser bom demais!

Observador - Coisa estranha ouvi agora. Merece total registro. Conhecimento deseja todo mundo, mas ninguém quer ajudar!

Todo Mundo - É bom ser espírita, sabe? A gente obtém um monte de regalias, tanto agora como depois e é isso que eu procuro.
Ninguém - Não sei se é assim mesmo, mas estudando Irmão Jerônimo o que quero é ser virtuoso.

Observador - Que coisa louca, meu chapa! Anote aí nesse caderno: todo mundo quer regalias e ninguém busca a virtude!

Todo Mundo - Ah! na vida o que mais quero é a felicidade total!
Ninguém - Eu divido a minha, quer?

Observador - Isto é muito interessante, é coisa bem rara de ouvir: todo mundo quer felicidade e ninguém divide a sua!

Todo Mundo - Um dia eu vou ser rico e com meus milhões vou ajudar este Centro!
Ninguém - Eu estou desempregado, mas desejo muito trabalhar. Eu tenho uma família grande, sabe?

Observador - Eita! que o forró vai ficar gostoso! Anote aí, seu moço: todo mundo sonha em ficar rico e ninguém quer trabalhar pela família!

Todo Mundo - Vi um cartaz, no mural, lá fora, e decidi fazer um curso de expositor espírita. Serei um novo Divaldo Franco!
Ninguém - Vou demorar muito para isso ainda. Primeiro quero aprender a Doutrina num grupo de estudo...

Observador - Estamos indo bem! Esses dois são uma graça: todo mundo quer falar como Divaldo e ninguém que se doutrinar!

Todo Mundo - Mas vou dar um prazo, sabe? Se em dois meses o negócio não ficar bom, adeus, Bernadete!
Ninguém - Ah! de minha parte, vou aproveitar cada minuto que passar aqui. Sei que o processo é lento, mas é assim que se faz o progresso.

Observador - Agora é que são elas! Meu amigo, escreva aí: todo mundo está com pressa, mas ninguém aproveita o tempo!

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Uma "senhora" palestra

Francisco Muniz

De todas as palestras e conferências ministradas durante o 12.º Congresso Espírita da Bahia, realizado de 27 a 30 de outubro de 2005, no Centro de Convenções, a de Roberto Crema foi das mais impactantes. Pensa ele, como é o caso dos grandes homens preocupados com a situação da humana presença no planeta, que já passa da hora de cada um de nós tomar medidas drásticas voltadas para a percepção de seu papel na Terra. O Homem continua a agir irresponsavelmente, tanto no nível particular quanto no geral, e são poucos os exemplos de atitudes comprometidas com o bem estar coletivo, disse ele.
"Não sou otimista", considerou Crema, um dos fundadores, junto com Pierre Weil, da Universidade da Paz, em Brasília. "Não tenho o otimismo das pessoas ingênuas e seu que é preciso fazer esforços pra que haja condições de melhoramento. Mas não sou pessimista. Se o homem é o problema, pode ser a solução." Crema, que, segundo se sabe, não é espírita, entende que é preciso se dar mais atenção ao que o Homem traz de transcendente em si - não importa o nome que lhe deem - capaz de promover sua integração cósmica.
Enquanto ele falava, eloquente e simples, com sua voz baixa, deixava-se penetrar por uma energia desconhecida que o quase transfigurava e devolvia essa energia transformada por seu amor - energia essa que, impregnada da força singela de suas palavras, invadia corações e mentes sensíveis da plateia presente ao Teatro Yemanjá, onde mais tarde Raul Teixeira falaria sobre o desenvolvimento da consciência espiritual.
Ao final de sua preleção, e reunindo em torno de si aquela poderosa energia decorrente de sua humilde condição de um dos líderes morais da Humanidade, Roberto Crema foi aplaudido. Era, sabemos, a forma como o público costuma demonstrar sua satisfação, mas os aplausos quebraram todo o ritmo energético que se experimentava ali. Compreensivo, o médico conferencista fez uma silenciosa reverência às pessoas que o aplaudiam, felizes e já esquecidas das palavras ouvidas - e se retirou. As pessoas, por sua vez, foram saciar o estômago...

"Sou contra endeusarem Raul"

Francisco Muniz

Esta entrevista com a a mãe do cantor e compositor baiano Raul Seixas, D. Maria Eugênia Seixas, foi realizada no final dos anos 1990 para a revista Visão Espírita, a propósito da repercussão alcançada pelo livro Um Roqueiro no Além, ditado ao médium psicógrafo Nelson Moraes, de São Paulo, pelo Espírito Zílio, identificado por muita gente com o autor de "Ouro de tolo".

Quando a Sra. leu o livro "Um roqueiro no Além", que sensação teve?
Eu gostei imensamente e achei que tinha ali, realmente, muita coisa característica do Raul, muita coisa que podia ser ele mesmo falando. O mais interessante é que muita coisa dita ali nunca tinha sido publicada. Eu recebi dois exemplares do livro: um, do fã-clube do Raul em São Paulo, e, o outro, do autor, Nelson Moraes, com uma dedicatória muito gentil. O do Nelson veio primeiro e o li com mita alegria. Quando chegou o segundo, eu reli a história.

Então a Sra. reconheceu Raul naquela história.
É como disse: muita coisa que está ali é muito característica dele, do Raul.

A Sra. tinha, antes, alguma noção de vida após a morte ou esse tipo de relato causou alguma surpresa?
Eu sou uma pessoa já idosa. Já tenho muita vivência, já ouvi falar muito sobre essas coisas. Não condeno ninguém. Acho que não há o que falar. Ao meu ver, o que vale é a fé naquilo que você acredita e professa. Senão, o que seria dos japoneses e chineses, que acreditam em Buda e COnfúcio? Ia tudo para o inferno...

E quanto à história do livro, ao fato de Raul já estar adaptado? Como recebeu isso?
Adaptado a quê?

À nova realidade.
À realidade em que ele está hoje. Acredito. Às vezes, fico pensando comigo: será que essas manifestações todas que fazem para Raulzito não o perturbam, ele que está lá, quieto, sossegado, na outra vida? O pessoal fica a fazer essa euforia toda, fazendo dele um deus... eu sou contra isso. Mas não posso falar, não posso divulgar isso em revistas comuns, dizer às pessoas que endeusam Raul que eu sou contra isso. Acho que tais manifestações têm muito de exagero, capaz de perturbar o pobre do espírito que está lá, coitado, sossegado, que deve ter, pelo tempo, já deve ter pago os pecados cometidos aqui.

A Sra. se recorda, na história do livro, da perturbação de que diz ter sofrido após o desenlace?
É lógico! Ele foi um pecador como todos nós e talvez um pouquinho mais. Não sei se devemos dizer assim... Ele saiu um pouco das normas de nossa sociedade atual. Ele ultrapassou, fez coisas erradas, na nossa concepção, mas, para um artista... Eu penso que um artista tem o espírito, a alma muito sensível, à flor da pele. Qualquer coisa, para ele, é mais do que para nós. Você vê na história dos compositores clássicos - Strauss, Schubert, Chopin, essa cambada velha, antiga -, todos eles tiveram problemas com a sociedade, com reis, impérios... foram presos... há tanta história sobre eles... Com Raul foi a mesma coisa. É tudo a mesma coisa. Eu, uma vez, falei com ele sobre isso e disse assim: por que você está parado aí, olhando aquela cadeira? Ele disse: "Não, estou estudando como é aquele pé". Uma bobagem, né? Para  nós, uma bobagem; para ele, é muita coisa. Ele era um artista, nsceu com esse dom e nisso eu creio. Porque o acompanhei desde menino, desde quando ele começou a se entender como gente. Com seus sete, oito anos, ele gastava inúmeros cadernos fazendo histórias e, sabido como era, vendia ao irmão mais novo.

O Raul tinha uma inclinação muito forte para as coisas ocultas. A Sra. percebia isso nele?
Ele dizia muitas vezes... ele falava muito assim: cada um de nós tem um deus em seu coração, que cada um pensasse da forma como quisesse - tudo valia. Não tem aquela música que ele fez, que diz que vale tudo? (Ela se refere à composição "Sociedade alternativa", feita por Raul em parceria com Paulo Coelho.)

Como a Sra. vê as manifestações espirituais?
Acredito, elas existem, realmente, têm que existir, porque a própria religião católica é, de certa forma, espírita, porque Deus é espírito. Os santos - por que acreditam nos santos? As almas que andaram aqui no mundo, que fizeram algum benefícios... todos eles são espíritos.

Então, para a Sra. não é nenhuma fantasia o relato do livro.
Não, não... eu já tenho muita vivência. Setenta e oito anos são um caminho comprido.

Raul está completando agora 10 anos de desencarnado. Alguma vez a Sra. sentiu a "presença" dele aqui [a entrevista foi realizada na casa de D. Maria Eugênia, em Salvador]?
Sempre, mas no sonho. Eu sonho muito com ele e são sonhos muito nítidos, muito perfeitos: com Raul, com meu marido, também chamado Raul (igualmente desencarnado), minha mãe... eu só posso sonhar com gente do passado, né?

Como são esses sonhos com Raul?
Agradáveis. Em geral, eu sonho com eles lá em nossa chácara (na cidade de Dias D´Ávila), onde Raul gostava muito de ir. Quando ele vinha a Salvador e queria fugir do assédio da mídia, pedia logo para ir para a chácara. Os sonhos, então, são diversos, diferentes, mas muito nítidos.

A Sra. já sabe que Nelson Moraes está recebendo novas mensagens do Raul/Zílio? Qual sua expectativa quanto a elas?
Nelson me falou qualquer coisa a esse respeito. Espero que sejam mensagens agradáveis. Ele, Nelson, falou que o Raul disse, no livro, que eu ia ficar doente, qualquer coisa assim. E, realmente, agora, de dois anos pra cá, estou diabética e tive uma isquemia cardíaca. Por isso não viajo mais, para não me arriscar fora da Bahia.

Espera reencontrar Raul um dia?
Gostaria, e são só a ele, mas a meu marido, minha mãe, meu pessoal todo, todos os meus entes queridos.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Despertamento

Francisco Muniz

Foram as mulheres que deram o alarme. Saíram correndo à procura dos homens, que se encontravam cuidando de seus interesses, e bradaram alto:
- O Cristo dorme sozinho na casa e precisa ser acordado!
E era atribuição dos homens manter o Cristo desperto, pois não éramos os discípulos? Corremos então, nós, os homens, para acordar o Cristo.
Chegando a casa, acudimos o Cristo que dormia sobre o chão mesmo, e o despertamos.
Então refeito,o Cristo amorosamente nos repreendeu dizendo que não o deixássemos só, pois do contrário adormeceria e de nada nos valeria. E, para que não dormisse, era preciso que estivéssemos sempre com ele, nós, os homens.

Essa narrativa resulta de um sonho e penso que ela pode nos facilitar a compreensão de certas coisas afeitas à nossa alma, ao modo como lidamos com nosso Cristo interno.
O Cristo interno pode ser entendido como a condição do Espírito consciente de si mesmo e desperto para sua realidade íntima, que o faz ligar-se holisticamente a toda a obra da Criação Divina.
Para facilitar ainda mais essa compreensão, tome-se como metáfora de nossa experiência espiritual a própria vida do Cristo Jesus, que não precisa ser aqui recontada.
Numa interpretação grosso modo do sonho relatado acima, e já consignado que quem dorme à distância dos homens e desperta à sua aproximação é o Cristo interno, vemos que o chão sobre o qual ele dorme é o plano físico, terreno, material.
Quando encarnado, esquecido de sua realidade espiritual, o homem/espírito dedica-se, qual criança, a assuntos que o prendem à satisfação dos sentidos. Somente mais tarde é que as necessidades espirituais parecem lhe falar mais alto e ele então se volta aos cuidados da ala.
Entretanto, o Cristo interno, que lhe dorme em latência, está constantemente alertando-o para o despertamento. É que efetivamente estamos "dormindo" quando nos demoramos no gozo do que é essencialmente material. Há quem diga que essa é uma condição de loucura, porque, nesse caso, não estamos realmente lúcidos a respeito de nossa realidade íntima, que é maior e mais verdadeira que a ilusão dos sentidos.

A matéria

Francisco Muniz

De acordo com a definição dos Espíritos autores da Codificação, matéria "é o liame que escraviza o espírito; é o instrumento que ele usa e sobre o qual, ao mesmo tempo, exerce a sua ação". Dizem eles, também, que a matéria existe em estados que não são ainda conhecidos da ciência da Terra. "Ela pode ser, por exemplo, tão etérea e sutil, que não produza nenhuma impressão nos vossos sentidos..." Isso porque Allan Kardec lhes havia colocado a definição de matéria segundo o entendimento científico da época (século XIX): aquilo que tem extensão; pode impressionar os nossos sentidos; que é impenetrável.
Joanna de Ângelis vai mais longe nessas definições e diz que matéria é a "aglutinação de moléculas - orgânicas ou inorgânicas - que modelam formas animadas ou não, ao impulso de princípios vitais, anímicos e espirituais". É, também, segundo a Benfeitora, "estágio físico por onde transita o elemento anímico na longa jornada em que colima a perfeição, na qualidade de espírito puro..." Joanna se prende enfaticamente à noção de matéria aplicando-a ao corpo somático, do qual o Espírito se serve para realizar seu aprendizado, uma vez criado simples e ignorante.
Essa serventia decorre das inúmeras mutações, transformações, adaptações que o corpo humano vem sofrendo, ao longo dos evos, pelos condicionamentos filogenéticos e mesológicos. "Alto empréstimo divino, é o instrumento da evolução espiritual na Terra, cujas condições próprias para suas necessidades fazem que a pouco e pouco abandone as construções groseiras e se sutilize, conseguindo plasmar futuros contornos e funções futuras, mediante o comportamento a que vai submetido no suceder dos tempos".

(A análise de Joanna de Ângelis estão ampliadas no livro Estudos Espíritas.)

A individualização do princípio inteligente

Francisco Muniz

De acordo com as elucidações da Benfeitora Joanna de Ângelis, Espírito é uma individualidade inteligente e incorpórea, criada por Deus, que povoa o Universo e é independente da matéria. Porque prescinde do mundo corporal, o Espírito age sobre ele e, corporificando-se através da carne, recebe estímulos, transmitindo impressões, em intercâmbio expressivo e contínuo. Com a chegada do Consolador, pondera Joanna, o Espírito voltou a ser conceituado e tido na sua legítima acepção, demonstrando, pela insofismável linguagem dos fatos, sua realidade, em vigoroso apelo ao pensamento e á razão, no sentido de fazer ressurgir a ética religiosa do Cristianismo.
Ela, a Benfeitora espiritual, fala assim porque na tentativa de resolver os mistérios da existência, filósofos e religiosos de todos os tempos criaram doutrinas e teorias para explicar o Espírito e tudo que lhe diz respeito. Não foi bastante que Jesus tenha vindo dizer "meu reino não é deste mundo"; era preciso que o Espiritismo - o Consolador prometido - viesse restaurar todas as coisas. Assim, Joanna enfatiza: "Através desse renascimento cristão, opõe-se uma barreira ao materialismo e aponta-se ao que sofre o infinito horizonte do amanhã ditoso que o espera, após vencidas as dificuldades do momento, superadas as limitações, Espírito que é, em marcha na direção da Verdade".
Àqueles, pois, que põem em dúvida a existência dos Espíritos, ofereçamos estes argumentos de Allan Kardec: "Ao mesmo tempo que criou, desde toda a eternidade, mundos materiais, Deus há criado, desde toda a eternidade,s eres espirituais. Se assim não fora, os m,undos materiais careceriam de finalidade. Mais fácil seria conceberem-se os seres espirituais sem os mundos materiais, do que estes últimos sem aqueles. Os mundos materiais é que teriam de fornecer aos seres espirituais elementos de atividade pra o desenvolvimento de suas inteligências".

Fluido, espírito e matéria

Francisco Muniz

"Haveria dois elementos gerais do universo, a matéria e o espírito?" A esta pergunta de Allan Kardec - a 27.ª de O Livro dos Espíritos -, os Espíritos Superiores respondem que "sim, e acima de ambos Deus, o criador, o pai de todas as coisas. Essas três coisas são o princípio de tudo o que existe, a trindade universal". Mas, acentuam os autores da Codificação, "ao elemento material é necessário ajuntar o fluido universal, que exerce o papel de intermediário entre o espírito e a matéria propriamente dita, demasiado grosseira para que o espírito possa exercer alguma ação sobre ela..."
A respeito da natureza desse fluido, os Espíritos Superiores, ainda respondendo a Kardec, informam o seguinte: "Se ele fosse simplesmente matéria (de certo modo, dizem os Espíritos, é possível considerar o fluido como elemento material, embora ele se distinga por propriedades especiais), não haveria razão para que o espírito não o fosse também". Ele, o fluido, está colocado entre o espírito e a matéria; é fluido, como a matéria é matéria; suscetível, em suas inumeráveis combinações com esta, e sob a ação do espírito, de produzir infinita variedade de coisas, das quais não se conhece mais do que uma ínfima parte. Sendo o agente de que o espírito se serve, esse fluido universal, ou primitivo, ou elementar, é o princípio sem o qual a matéria permaneceria em perpétuo estado de dispersão, e não adquiriria jamais as propriedades que a gravidade lhe dá.
Kardec aprofunda essas noções em O Livro dos Médiuns e A Gênese, esclarecendo-nos, através das respostas dos Espíritos Superiores, que o fluido universal não é uma emanação da Divindade, embora seja criação de Deus. É, também, o princípio elementar de todas as coisas, sem ser a fonte da inteligência, não animando, por isso mesmo, a não ser a matéria. Assim, para a produção dos fenômenos físicos, é preciso aliarem-se duas forças: o espírito, que lhes dará causa, e o fluido, que será seu instrumento.
Como exemplo, o Codificador cita "um fato bem conhecido em magnetismo, mas até o momento inexplicado, que é o da mudança das propriedades da água pela vontade. O espírito atuante é o do magnetizador, o mais comumente assistido por um espírito estranho; ele opera uma transformação com a ajuda do fluido magnético que, como se disse, é a substância que mais se aproxima da matéria cósmica".
Ainda segundo Allan Kardec, no estado de eterização o fluido cósmico não é uniforme; sem cessar de ser etéreo, passa por modificações tão variadas em seu gênero, e mais numerosas talvez, do que no estado de matéria tangível. "Tais modificações constituem fluidos distintos que, se bem sejam procedentes do mesmo princípio, são dotados de propriedades especiais, e dão lugar aos fenômenos particulares do mundo invisível".
O pesquisador espírita cearense Luiz Gonzaga Pinheiro é um dos que colaboram para o desenvolvimento das teses da Codificação. Diz ele que "servem-se desse fluido não somente os Espíritos Superiores, ms todos os espíritos, que com ele fabricam os objetos que lhes são íntimos e habituais, por vezes até sem se aperceberem, dando-lhes existência enquanto perdure o pensamento, agente materializante, dirigido a tais objetos".
Pinheiro ressalta que as combinações do fluido dão nascimento até mesmo à "força gravítica suportável pela vida, que aguarda o momento de palpitar em qualquer mundo, refletindo as vibrações que lhes serão próprias". Ele conclui dizendo que "assim falando temos um fluido com poderes quase de um Deus", salientando porém que importa saber que foi Deus quem criou o fluido com essas atribuições, "o que reflete sua suprema inteligência".

Referências

Franco, Divaldo P. - Estudos Espíritas, pelo Espírito Joanna de Ângelis. FEB, 6.ª ed. Rio de Janeiro, 1995.
Kardec, Allan - O Livro dos Médiuns. IDE, 34.ª ed. Araras (SP), 1995.
___________ - A Gênese. LAKE, 17.ª ed. São Paulo, 1994.
___________ - O Livro dos Espíritos. LAKE, ed. especial. São Paulo, 1957.
Pinheiro, Luiz Gonzaga - O Perispírito e suas Modelações. EME, 1.ª ed. Capivari (SP), 2000.

Necessidade da meditação para o médium

Francisco Muniz

A prática da mediunidade exige uma preparação acurada por parte do médium, para que sua atuação apresente cada vez mais qualidade, no sentido de não apenas proporcionar boas comunicações dos Espíritos - sejam eles sofredores ou já esclarecidos -, mas com o fim de se obter progresso no próprio trabalho de aperfeiçoamento do seareiro, do ponto de vista ético-moral, dentro e fora da Casa Espírita. Não podemos esquecer, desse modo, que a tarefa do Espiritismo é iluminar consciências, promovendo a elevação espiritual dos homens.
Nesse aspecto, para que a atuação do médium, especificamente na sala mediúnica, se dê com proveito para a reunião de que ele participa, faz-se necessário conhecer e utilizar as quatro pontes que permitirão ao médium melhor contato com a própria consciência de serviço. Essas quatro pontes são definidas pela equipe do Projeto Manoel Philomeno de Miranda como a oração, a meditação, a ação no bem e o estudo, conforme é abordado no mais recente livro do PMPM - Consciência e Mediunidade.
A propósito, aqui enfatizaremos o tópico relativo à meditação, uma vez reconhecida sua importância no intercâmbio mediúnico e o pouco que ela é utilizada, porque ainda incompreendida, nas hostes espíritas, embora facilite muito a concentração. Segundo o médium e tribuno Divaldo Franco, "enquanto o sensitivo não se habituar às disciplinas da meditação, os seus registros mediúnicos passarão pelo seu inconsciente, como uma corrente de água circulando num tubo em forma de "U" e se contaminando (...), ao passo que, se ele estiver harmonizado pelo hábito da meditação, os seus registros transitarão pelo superconsciente, apresentando-se escoimados das impurezas de sua personalidade".
Segundo o PMPM, "a ponte meditação tem sido pouco examinada em nossos arraiais espíritas e menos ainda praticada. De um certo modo, participamos dessa inércia do Ocidente com relação ao tema, preferindo as lutas nervosas da exterioridade, o intérmino passeio pela superfície de nós mesmos, identificados como estamos com as exigências da personalidade - o ego - desprovidos de coragem para a viagem interior propiciatória do auto encontro desvelador do Si, por receio de enfrentarmos a sombra, diluindo-a até a sua completa extinção. Essa luta que terá de ser travada em campo aberto, na consciência, em vez de evitada, deverá ser intensificada corajosamente, impedindo que as ciladas ilusórias do tempo procurem adiá-la, dificultando a fruição da paz anelada pelo ser real".
As informações que ora apresentamos são ensinamentos da benfeitora Joanna de Ângelis, contidos nos livros Momentos de Meditação, Alegria de Viver, Vida: Desafios e Soluções e O Homem Integral, citados na obra Consciência e Mediunidade, nos quais o leitor interessado poderá encontrar conceitos mais dilatados.

domingo, 26 de janeiro de 2014

O jugo leve

Francisco Muniz

(Conforme o primeiro tópico do Capítulo VI de O Evangelho Segundo o Espiritismo)

Sofremos bem mais quando causamos mal a outrem do que a nós mesmos.
Nós não sabemos sofrer. Acreditamos que ou estamos na Terra para pagar pelos erros cometidos no passado ou para ser felizes. Nem uma coisa nem outra. Estamos aqui para aprender e esse aprendizado, para a maioria, é feito com dor, porque no passado desprezamos oportunidades valiosas do ponto de vista de nosso processo educativo. Somos, pois, alunos repetentes na escola da Vida.
Devemos aprender que o sofrimento não é mau e nem é algo de que nos devamos livrar. Se temos a dor, não adianta ignorá-la ou evitá-la. Mas será bastante útil se soubermos viver com ela. "Se não ode vencê-los, junte-se a eles", diz o axioma, mas é com sabedoria que devemos encarar o sofrimento. Torne-o seu aliado e aprenderá com ele. Entenda-o, assimilando-o, e sofrerá menos. Veja-o como o amigo que em verdade é. Mais que motivo de lamentação, ele é estímulo de crescimento, como as crises, em geral, são o mecanismo de solução para muitos problemas, nos vários aspectos da vida.
Jesus nos faculta esse entendimento ao dizer que seu jugo é leve, porque Ele nos veio dar lições do mais puro amor. Todo nosso sofrimento decorre do fato de durante mito tempo termos palmilhado caminhos tortuosos, longe da senda amorosa que é a própria Criação divina. Criamos nosso próprio mundo - de trevas, desespero e sofrimento. Colhemos, agora, o que plantamos, ms o Senhor da seara, ou da Vinha, nos quer bons jardineiros e pede que plantemos a boa semente...

O advento do Espírito de Verdade

Francisco Muniz

(Conforme o item 5 do sexto capítulo de O Evangelho Segundo o Espiritismo)

1 - O Espírito de Verdade, que é o próprio Cristo, retorna para novamente apelar aos endurecidos corações humanos, de novo pastoreando essas ovelhas perdidas com o fito de conduzi-las para o divino aprisco.

2 - Reforça os princípios básicos da nova doutrina, que há havia propugnado havia dois mil anos, quais sejam a existência de Deus, a sobrevivência e comunicabilidade dos espíritos, revelando as leis de amor, justiça e caridade através das quais todos nós - mortos (segundo a carne) e vivos - caminharemos para a salvação.

3 - Traz o entendimento de que só o Espiritismo oferece a luz da Verdade que é ele próprio, facultando melhor visualização do caminho a seguir na direção da verdadeira vida, a vida real do Espírito.

4 - Sua mensagem, essencialmente consoladora, é para os sofredores cansados de trilhar a senda do erro e, quais filhos pródigos, anseiam por voltar à casa paterna, aqueles que, transviados, vendo o céu tombam no abismo dos equívocos.

5 - Indica-nos o modo como devemos proceder, amando-nos e instruindo-nos, mostrando que é pelo estudo e pela prática das virtudes que obteremos vitória sobre nós mesmos, procurando conhecer nossas imperfeições e corrigi-las, através do exercício de disciplinadora solidariedade, pois "fora da caridade não há salvação".

6 - Como antigamente, veio para os pobres e deserdados, para os doentes e aflitos - e não para os poderosos do mundo; porquanto estes ainda hoje se mantêm encastelados em seu orgulho, embora vejam que os muros de ilusão com que pensam se proteger começam a desmoronar por efeito da luz da Verdade...  

"Ouvistes..."

Francisco Muniz

No Evangelho observa-se que nos momentos todos de explicitar um ensinamento, o Cristo Jesus começava assim: "Ouvistes o que foi dito aos antigos, eu porém vos digo...", como a deixar claro que os "antigos" tiveram a vez deles, mas que os novos tempos exigiam nova mentalidade para a devida compreensão dos fatos. Só assim, através da superação das ideias tradicionalistas, será possível ao homem construir e se pautar pelos verdadeiros ideais, aqueles capazes de libertá-lo de si mesmo, naquilo que tem, ainda, de pequeno e tíbio, quando lhe compete crescer sempre, com coragem e determinação, para os destinos grandiosos que o esperam no futuro. 

Lições do Evangelho para a vida prática

Francisco Muniz

(Este deveria ter sido o texto de introdução de meu livro...)

Este livro resulta tanto de um pouco de presunção quanto de um sincero desejo de colaborar para maior esclarecimento de quem ainda se debate entre os espinhos da dor e não enxerga que tais acicates são necessários ao trabalho de reajustamento que deve fazer em si mesmo, porque educativo. É presunção porque nos reconhecemos ainda muito distantes da condição do conselheiro e só temos a dar unicamente nossa pouca experiência, acumulada ao longo de poucos anos de conhecimento e estudo das sábias leis divinas através das lições do Espiritismo, o Cristianismo Redivivo que nos vem esclarecer sobre nós mesmos e revelar os pelos pelos quais atingiremos um melhor posicionamento no patamar da evolução, desde já.
Trata-se de entendermos a natureza desse trabalho auto educativo, sem o que seremos como as folhas ao sabor do vento, sendo jogadas daqui para lá sem forças para vencer a procela. No entanto, somos essa força, verdadeiramente, e  importa sabermos fazer bom uso dela - para tanto, impõe-se a necessidade do autoconhecimento e da instrução quanto às leis divinas, que só nos acicatam porque as transgredimos. Vivemos presos a uma fala ideia de nós mesmos e assim nos distanciamos da verdade que nós somos.
Buscamos, mesmo inconscientemente, libertar-nos dos processos dolorosos, mas tal só acontecerá quando procurarmos entender a verdade escondida em nós mesmos. "Conhecereis a verdade e ela vos libertará", conforme disse Jesus, implica olharmos para dentro de si mesmo, em recordando as palavras do Oráculo de Delfos, na distante Grécia dos tempos socráticos: "Homem, conhece-te a ti mesmo". Somente assim, fazendo esse mergulho interno, íntimo, o homem que sofre entenderá sua dor e transformá-la-á em meio de aperfeiçoamento, que em verdade ela é.

Mediunidade e obsessão: saber viver

Francisco Muniz

Por ocasião (circa 2004) do seminário que marcou o lançamento do livro Saber Viver, de autoria do Espírito Irmão Jerônimo, mentor do C. E. Deus, Luz e Verdade, no qual militamos, e da médium Bernadete de Oliveira Santana, imaginamos o seguinte diálogo com o Mentor e Allan Kardec, codificador da Doutrina Espírita, numa entrevista que teve a participação também dos Espíritos Emmanuel, André Luiz e Joanna de Ângelis. Essa entrevista  foi publicada no jornalzinho Mediunato, utilizado naquela Casa Espírita nas atividades do Aprimoramento Mediúnico, realizado duas vezes por mês. Como o seminário abordaria - como abordou - questões aprofundadas em torno da mediunidade e da obsessão, cremos proveitoso considerar alguns aspectos relacionados a esses temas a partir das recomendações desses importantes vultos do Espiritismo, que muito contribuem para nossos estudos, com vista ao aperfeiçoamento moral de todo trabalhador do Cristo na seara espírita.

Mediunato - Meu caríssimo Allan Kardec, que, para o homem, a mediunidade?
Allan Kardec - Para conhecer as coisas do mundo visível e descobrir os segredos da natureza material, outorgou Deus ao homem a vista corpórea, os sentidos e instrumentos especiais. Com o telescópio, ele mergulha o olhar nas profundezas do espaço e, com o microscópio, descobriu o mundo dos infinitamente pequenos. Para penetrar no mundo invisível, deu-lhe a mediunidade.

M - Nobre Emmanuel, você, que tantas lições nos deu através de nosso querido Chico Xavier, que definição nos dá quanto à mediunidade?
Emmanuel - A mediunidade é aquela luz que seria derramada sobre toda carne e prometida pelo Divino Mestre aos tempos do Consolador, atualmente em curso na Terra. Sendo luz que brilha na carne, a mediunidade é atributo do Espírito, patrimônio da alma imortal, elemento renovador da posição moral da criatura terrena, enriquecendo todos os seus valores no capítulo da virtude e da inteligência, sempre que se encontre ligada aos princípios evangélicos na sua trajetória pela face do mundo.

M - Muito obrigado, Emmanuel. Mas gostaríamos de saber, então, qual é a maior necessidade do médium.
E - A primeira necessidade do médium é evangelizar-se a si mesmo antes de se entregar às grandes tarefas doutrinárias, pois, de outro modo, poderá esbarrar sempre com o fantasma do personalismo, em detrimento de sua missão.

M - Podemos, Irmão Jerônimo, ouvir o digno mentor do CEDLV sobre os percalços que o médium pode encontrar na conquista de méritos?
Irmão Jerônimo - O mérito não é patrimônio e sim esforço de cada caminheiro da vida em busca da elevação. A oportunidade e a sabedoria são para todos. Saibamos aproveitar a programação de vida que nos foi confiada, exercitando o bem a cada instante no trabalho edificante para a própria ascensão. Nesse sentido, é importante refrear as emoções, porque elas são prejudiciais ao desenvolvimento espiritual. Criando a confiança em Deus e em nós mesmos, nada teremos a temer.

M - E a venerável Joanna de Ângelis, que pode nos dizer no sentido de exercitarmos a mediundiade da maneira mais proveitosa para nós mesmos?
Joanna de Ângelis - A mediunidade, para ser dignificada, necessita das luzes da consciência enobrecida. Quanto maior o discernimento da consciência, tanto mais amplas serão as possibilidades do intercâmbio mediúnico.

M - Algum de vocês quer, ao encerrarmos estes tópicos sobre a mediunidade, dizer algumas palavras de estímulo aos trabalhadores do CEDLV?
Emmanuel - Sim. A missão mediúnica, se tem os seus percalços e as suas lutas dolorosas, é uma das mais belas oportunidades de progresso e de redenção concedidas por Deus aos seus filhos misérrimos.

M - Kardec, dentre os empecilhos que os médiuns enfrentam na educação de suas faculdades psíquicas, como considerar a obsessão?
Kardec - No número de escolhos que apresenta a prática do Espiritismo, é preciso colocar, em primeira linha, a obsessão, quer dizer, o império que alguns Espíritos sabem tomar sobre certas pessoas. Ela não ocorre senão pelos Espíritos inferiores que procuram dominar; os bons Espíritos não impõem nenhum constrangimento; eles aconselham, combatem a influência dos maus, e se não os escutam se retiram. Os maus, ao contrário, se agarram àqueles sobre os quais fazem suas presas; se chegam a imperar sobre alguém, se identificam com seu próprio Espírito e o conduzem como uma verdadeira criança.

M - Você, Emmanuel, naturalmente concorda com o Codificador, não é?
Emmanuel - A obsessão é sempre uma prova, nunca um acontecimento eventual. No seu exame, contudo, precisamos considerar os méritos da vítima e a dispensa da misericórdia divina a todos os que sofrem.

M - No prefácio do livro Desobsessão, de nosso caro André Luiz, através da mediunidade do saudoso Chico Xavier e de Waldo Vieira, você diz que o obsessor é principalmente um Espírito enfermo. Entendendo assim, podemos nos ajudar melhor, não?
E - Nada mais oportuno e mais justo, de vez que, se a ignorância reclama o devotamento de professores na escola e a psicopatologia espera pela abnegação dos médicos que usam a palavra equilibrante nos gabinetes de análise psicológica, a alienação mental dos Espíritos desencarnados exige o concurso fraterno de corações amigos com bastante entendimento e bastante amor para auxiliar nos templos espíritas, atualmente dedicados à recuperação do Cristianismo, em sua feição clara e simples.

M - Diga-nos, Irmão Jerônimo: por que os médiuns, que se dedicam ao serviço do Cristo, são tão visados pelos obsessores? Por que nossos mentores deixam que isso aconteça?
Irmão Jerônimo - Quando os bons Espíritos permitem seja um médium enganado, é para que ele aprenda a discernir o verdadeiro do falso, compreendendo que nenhum médium é tão perfeito que não possa ser atacado. O importante é ter confiança absoluta em Deus e não tomar por mal a crítica construtiva. Agir assim é característica dos médiuns vaidosos e orgulhosos, que se aborrecem com a menor observação feita em seu próprio benefício, chegando a alimentar ódio contra a pessoa que o alertou.

M - Como pode o médium se precaver dessas influenciações nefastas?
IJ - Como vemos, as causas do fracasso residem dentro do próprio médium. É necessário a vigilância, não deixando que efeitos maléficos se produzam. É preciso rogar a Deus em constante oração.

M - André Luiz, na qualidade de estudioso, na Espiritualidade, dos tema que aqui tratamos, você pode nos orientar quanto à importância dos trabalhos de desobsessão nas casas espíritas?
André Luiz - Nenhuma instituição do Espiritismo pode, a rigor, desinteressar-se desse trabalho imprescindível à higiene, harmonia, amparo ou restauração da mente humana, traçando esclarecimento justo, seja aos desencarnados sofredores, seja aos encarnados desprovidos de educação íntima que lhes sofram a atuação deprimente, conquanto, às vezes, involuntária. Cada templo espírita deve e precisa possuir a sua equipe de servidores da desobsessão, quando não seja destinada a socorrer as vítimas da desorientação espiritual que lhe rondam as portas, para defesa e conservação de si mesma.

***

Referências

Xavier, Francisco Cândido e Vieira, Waldo - Desobsessão, pelo Espírito André Luiz, FEB.
Xavier, Francisco Cândido - O Consolador, pelo Espírito Emmanuel, FEB.
Santana, Bernadete de Oliveira - Aprimoramento Mediúnico, pelo Espírito Irmão Jerônimo.
Projeto Manoel Philomeno de Miranda - Consciência e Mediunidade, LEAL.
Kardec, Allan - O Livro dos Médiuns, FEB.

sábado, 25 de janeiro de 2014

Sobre orar e vigiar

Francisco Muniz

Num de seus livros (possivelmente Obras Póstumas), Allan Kardec diz que, se houvesse um centro espírita em cada esquina, haveria menos prisões e hospitais na Terra. Por aí se depreende que uma casa espírita é, como apregoa a pedagogia inaugurada pelo Espiritismo, uma escola para as almas, sendo também uma oficina de trabalho onde essas almas se educam nas atividades beneméritas, transformando-se a pouco e pouco. E porque a missão do Espiritismo é justamente promover a renovação moral da humanidade, essa conquista é ameaçada pelos opositores da Luz, que teimam em obstaculizar as ações da Casa Espírita e as sinceras pretensões de seus frequentadores e trabalhadores. Daí a importância de o espírita suficientemente esclarecido tomar a sério a recomendação de Jesus - "orai e vigiai pra não cairdes em tentação". Afinal, os Espíritos Superiores revelaram que os homens somos influenciados de tal modo pelas inteligências desencarnadas que, a rigor, são elas que nos conduzem. Mas como é processada essa influenciação?
Em Aconteceu na Casa Espírita, o Espírito Nora relata, através do médium Emanuel Cristiano, um desses ataques orquestrados pelas trevas sobre uma instituição espírita de médio porte. O que tais espírito pretendem não é demolir o centro espírita, posto que uma organização desse tipo não é simplesmente a construção de cimento e tijolos. É, antes de mais nada, o conjunto das propostas e realizações de um grupamento humano na direção dos objetivos primordiais da Doutrina Espírita, sob a condução dos Espíritos Superiores. Assim, todas as intenções e pretensões dos trabalhadores de uma casa espírita séria (e não se pode exigir o mesmo dos simples frequentadores) precisam casar com os objetivos exarados nas obras da Codificação, atentando-se para a máxima "Fora da caridade não há salvação".
É sabido que os Espíritos endurecidos e ainda aferrados ao mal atuam sobre as fraquezas humanas, naquilo que os encarnados se identificam com esses seres trevosos. É o que o Espírito Nora observa em seu livro, chamando nossa atenção também para o aviso de Allan Kardec em O Livro dos Médiuns, na lição intitulada "Das reuniões e das sociedades espíritas". Ali, o Codificador esclarece que os perturbadores das reuniões mediúnicas tanto podem ser os médiuns deseducados quanto, principalmente, os habitantes do mundo invisível. "Assim como há espíritos protetores das associações, das cidades e dos povos, Espíritos malfeitores se ligam as grupos, do mesmo modo que aos indivíduos", diz Kardec, acrescentando em seguida que tais Espíritos "ligam-se, primeiramente, aos mais fracos, aos mais acessíveis, procurando fazê-los seus instrumentos e gradativamente vão envolvendo os conjuntos, por isso que tanto mais prazer maligno experimentam, quanto maior é o número dos que lhes caem sob o jugo".
Nora se estende mais sobre esse tópico, mostrando em detalhes a fascinação que as legiões das Trevas exerce sobre as almas invigilantes, de tal modo que interferem no trabalho dos médiuns sinceros e produtivos, comprometendo as atividades da Casa Espírita. Essa ação trevosa é silenciosa, "no campo dos sentimentos, sugerindo pensamentos, estimulando as irritações, o ciúme, a fofoca, a indignação, os melindres, a disputa de cargos, funções, tarefas etc." A autora espiritual diz que há um vasto campo de atuação dessas legiões junto às inferioridades humanas, aproveitando-se das brechas deixadas por muitos trabalhadores do bem. O obsessor-chefe, no livro, ressalta, muito a propósito, que "esse é o único modo de penetrarmos na instituição, a única forma de não sermos barrados pelas correntes protetoras, pois que os mensageiros do bem não podem violar o livre arbítrio dos adeptos do Cristo".
Nesse trabalho de fascinação, os irmãos equivocados se valem até mesmo da situação conjuntural do País, valorizando as dificuldades econômicas, sociais e políticas, intensificando os problemas materiais dos encarnados sob sua mira. Com isso, os médiuns se esquecem de vigiar pensamentos e emoções, cultivando o pessimismo, a irritação e as palavras menos felizes, entrando naturalmente na faixa vibratória inferior, como que autorizando o processo de influenciação, posto que, muitas vezes, nem mesmo se lembram da oração, que poderia afastar completamente esses obsessores, rompendo-lhes os propósitos.
Não se pense, porém, que tais médiuns estejam totalmente entregues à ação nefasta dos opositores da Luz. Há um trecho do livro em que os dirigentes espirituais do Centro ameaçado dizem: "Esta será uma batalha que competirá aos encarnados vencerem; nós, porém, nos limitaremos a protegê-los, vigiando o orando fervorosamente". Como se vê, a misericórdia divina a ninguém abandona; no entanto, os amigos espirituais revelam: "É certo que alguns, pelos sentimentos que nutrem, não mereceriam sequer nosso concurso; entretanto, as tarefas que realizam promovem o bem comum e, pelo trabalho bem feito que executam, ainda que o realizem como "profissionais espíritas" e não como verdadeiros idealistas, nossa proteção se faz sentir pensando no todo da Casa".
Mas se não podem atingir diretamente alguns médiuns, principalmente aqueles que não prescindem da oração e da vigilância, os Espíritos trevosos atuam sobre seus familiares ou sobre os assistidos na própria Casa Espírita. Nora é quem avisa, falando ao dirigente do Centro em questão: "Mesmo que não entres na faixa vibratória dos inimigos do bem, eles desejarão te atingir através dos cooperadores e frequentadores invigilantes, que te endereçarão palavras duras a fim de cortar-te, qual navalha afiada, o coração generoso".
O antídoto para esse veneno, portanto, é o fortalecimento do compromisso através do zelo pela pureza doutrinária, intensificando o estudo em cursos sistematizados, "preparando doutrinariamente quantos desejarem servir na seara de Jesus". Nora ainda ressalta: "Com o estudo doutrinário constante, os trabalhadores do Espiritismo têm as atividades disciplinadas. Graças à possibilidade de trabalho que os centros espíritas oferecem, muitas pessoas deixam de se perder no mundo; vários cooperadores, encarnados, encontram aí o sustentáculo para vencer na jornada terrena".

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Suicídio

Francisco Muniz

Dizem os Espíritos Superiores, nas obras da Codificação e nas que lhe deram seguimento, que o suicídio é afronta às sábias leis divinas, pondo-o na mesma condição do assassinato. É que a ninguém é dado o direito de tirar a própria vida, tanto quanto a de outrem. Quem assim procede malbarata as oportunidades de renovação que recebeu da Providência Divina, pela bênção da reencarnação, e se infelicita ainda mais, tendo de despender enorme esforço até sua reabilitação completa perante o Criador. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a cada 40 segundos uma pessoa tira a própria vida no mundo, o que representa uma média anual de 815 mil casos de suicídio motivados por causas diversas, dentre as quais o desemprego, a solidão, os desajustes sociais e afetivos, os distúrbios sexuais e a miséria socioeconômica.
Embora possamos dizer que o suicida é levado ao ato extremo pelo paroxismo do desespero, por ver-se sem saída ante os angustiosos problemas que enfrenta, fazendo-o perder qualquer resquício de fé em Deus ou num futuro melhor, o fato é que, em suma, é o apego à vida material que move o responsável por esse gesto tresloucado. Em O Céu e o Inferno, Allan Kardec traça, no capítulo V, o perfil de vários suicidas conscientes - pois que os há inconscientes, e estes o são em maioria sobre aqueles -, interrogando-os após evocá-los. Dessas comunicações, o Codificador retira valiosas lições para o estudante do Espiritismo, especialmente os médiuns trabalhadores.
Cabe aos espíritas, de modo especial, o trabalharem intimamente para vencer os arrastamentos do materialismo, que são o maior empecilho ao aperfeiçoamento moral. É que também contam-se entre os espíritas os casos de suicídio, geralmente os do tipo inconsciente. O caso do Espírito André Luiz é o mais citado nesse aspecto, embora ele não fosse espírita em sua última encarnação na Terra. Entre os suicídios inconscientes alinham-se também aqueles que não culpabilizam o Espírito, que se vê mais vítima que algoz de si próprio, por circunstâncias que fogem a seu controle. É o caso dos homens tomados pela loucura ou pela doença - ou mesmo pela obsessão, embora, conforme alertam os Instrutores Espirituais, os espíritos tenham sempre o poder de usar o livre arbítrio, resistindo às influenciações.
O autor italiano Ernesto Bozzano descreve, em seu livro A Crise da Morte, um desses casos de suicídio em que o Espírito despertou no plano espiritual sem as agruras de que se veem presas os suicidas conscientes. Tratava-se de um médico inglês que "voltou da guerra em estado de esgotamento nervoso, agravado pelo fato de haver na sua família uma forma hereditária e deprimente de hipocondria (spleen). Daí resultou que um dia doutor Scoott se suicidou, ingerindo uma dose de ácido prússico".
Por comunicações dadas através da mediunidade da viúva desse médico, o Espírito revelou sua condição de relativo bem estar após o despertamento. O fato chamou a atenção de Bozzano, uma vez que a maioria dos relatos de suicidas aponta para um ponto em comum, o da dor moral que advém para esses espíritos, que permanecem por longo tempo rememorando dolorosamente o momento da morte do corpo, sentindo que a pretendida aniquilação não veio.
Bozzano, ante a contradição entre o caso que registrara e a unanimidade dos relatos desse gênero, diz, após a explicação dada pelo Espírito do médico, que este "se encontrou num meio de luz, não obstante o seu suicídio, foi por não lhe caber a responsabilidade da ação insensata que praticara, a qual resultou de uma enfermidade psíquica hereditária, conhecida em psiquiatria sob o nome de "melancolia" e que muito frequentemente termina por um acesso de loucura do suicídio". É bom anotar que as observações do pesquisador italiano passaram ao livro no ano de 1926.
Podem ficar também nesse gênero os casos de suicídios induzidos, nos quais a pessoa, a tal ponto pressionada, não vê alternativa senão dar cado de sua vida. A esse respeito, Allan Kardec diz, no capítulo VII de O Céu e o Inferno, que "ninguém é responsável senão pelas suas faltas pessoais; ninguém sofrerá as penas das faltas dos outros, a menos que lhes haja dado lugar, seja em provocando-as com o seu exemplo, seja em não as impedindo quando tinha esse poder. Assim é que, por exemplo, o suicida é sempre punido; mas aquele que , pela sua dureza, leva um indivíduo ao desespero, e daí a se destruir, sofre uma pena ainda maior".
O jornalista Altamirando Carneiro, de São Paulo, ressalta, repetindo Kardec, que as doutrinas materialistas são as maiores incentivadoras do suicídio, razão pela qual os maiores índices de casos assim estão nos países ateus, tais a Rússia, Cuba, Lituânia, China, Letônia e Estônia. Já os números mais baixos ocorrem em países islâmicos, hinduístas, cristãos e budistas. É que, ante o desespero, aquele que nada espera de seu futuro julga que com o fim da vida tudo termina. A hipótese do suicídio lhe parece, assim, uma solução natural, até mesmo lógica. No entanto, já no século XVIII o escritor inglês Samuel Johnson já dizia: "Quem nunca viu a adversidade conhece apenas um lado da vida".
As ideias materialistas atormentam o raciocínio daqueles que já sofrem com a desesperança. Os cientistas dizem que o pensamento é fruto do cérebro e se extingue com a morte do corpo, nada se tendo a esperar depois da vida. Por seu lado, os filósofos modernos pregam o niilismo: viemos do nada e o nada é nosso destino. Como, então, o indivíduo sem esperança pode encontrar motivos para continuar vivendo? "A propagação das doutrinas materialistas é, pois, o veneno que inocula a ideia do suicídio na maioria dos que se suicidam, e os que se constituem apóstolos de semelhantes doutrinas assumem tremenda responsabilidade" - eis o que ensina-nos O Evangelho Segundo o Espiritismo.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Música & mensagem: Cajuína

Francisco Muniz


Cajuína 
(Caetano Veloso)


Existirmos, a que será 
que se destina?
Pois quando tu me deste
a rosa pequenina
vi que és um homem lindo
e que se acaso a sina
do menino infeliz não se
nos ilumina
tampouco turva-se
a lágrima nordestina
apenas a matéria vida
era tão fina
e éramos olharmo-nos
intacta retina
a cajuína cristalina em Terezina

***

Há nessa composição de Caetano Veloso um questionamento que se enquadra nos postulados do Espiritismo, doutrina que melhor explica alguns, senão todos, os cometimentos da vida humana, pela coerência lógica de seus argumentos. "Existirmos, a que será que se destina?", assim, equivale a perguntar qual o sentido da vida, por que estamos aqui, qual a razão de nossas dores, por que uns sofrem enquanto outros aparentam ser felizes - e todas as indagações que faz\em os filósofos e poetas gastarem rios de tinta na tentativa de apresentar uma noção convincente do que seja a vida física e levar alguma consolação a quem se debate nas aflições da dúvida.
Mas de que modo o Espiritismo explica a existência  (do Homem) e sua finalidade? Antes de passarmos, porém, aos argumentos espíritas, talvez seja útil citarmos as palavras de Mário Sérgio Cortella, professor de Filosofia na PUC-SP. Em artigo publicado (há alguns anos) no suplemento Folha Equilíbrio do jornal Folha de S. Paulo, o filósofo afirma que "não nascemos prontos", posto que são as experiências adquiridas, as vivências, o aprendizado constante que nos condicionam o aproveitamento desta vida.
Isso implica dizer que o sentido da vida é nosso aperfeiçoamento, o preenchimento do vaso vazio que seríamos com uma série de acontecimentos positivos e negativos, construídos por nós ou por nós mesmos atraídos. O pensamento de Cortella, entretanto, só é aceitável se não levarmos em conta a preexistência do espírito. Aceitando tal verdade, porém, entendemos que o professor paulista só em parte resolveu o enigma.
Ao renascer na carne, o ser espiritual traz consigo a soma dos conhecimentos acumulados em suas jornadas pregressas e, malgrado o esquecimento de seu passado, lampejos dessas experiências vêm à tona da consciência quando o Espírito tem a necessidade de revivê-los. Outras vezes, mais raras, o novo ser renascido recorda-se dos conhecimentos adquiridos anteriormente e os expressa naturalmente - e eis a explicação para o fenômeno das crianças superdotadas, ainda que os materialistas argumentem, erroneamente, que tudo se deva aos estímulos cerebrais.
De volta ao nosso tema, o sentido da existência, então, é o cumprimento da lei de evolução, explicitado nas ações humanas que levam ao progresso intelectual e, principalmente, ao aprimoramento moral. Nesse aspecto, o Homem pode mesmo, como quer o professor Cortella, ser considerado uma pedra bruta que se vai lapidando a si próprio até apresentar-se um translúcido diamante, revelando toda sua essência espiritual, de origem divina.
Neste ponto abrimos espaço pra as palavras de Léon Denis, o grande pensador espírita, que em seu livro "O problema do ser, do destino e da dor" esclarece-nos muito bem a respeito desta questão. Tratando da reencarnação, Denis diz que "graças a ela, cada qual aprende a vigiar-se a si mesmo, a acautelar-se a preparar cuidadoso o seu futuro".
Com isso podemos compreender e responder à indagação do compositor baiano, novamente fazendo eco às palavras de Léon Denis: "Tal o destino da alma humana, nascida na fraqueza, na penúria das faculdades e dos meios de ação, mas chamada, elevando-se, a realizar a vida em si mesma, em toda a plenitude; a alcançar todas as riquezas da inteligência, todas as delicadezas do sentimento, tornando-se um dia colaboradora de Deus. Essa a missão do ser e seu grandioso objetivo: colaborador de Deus, isto é,m destinado a realizar em torno de si, em missões cada vez mais grandiosas, a ordem, a justiça, a harmonia; a atrair seus irmãos inferiores, a conduzi-los às divinas eminências, a subir com eles, de esfera em esfera, para o supremo objetivo, para Deus - o Ser perfeito, lei viva e consciente do Universo, eterno foco de vida e de amor".

Se quisésseis...

Irmã Rafaela

Os bons espíritos que, em nome do Senhor, vos vêm orientar o fazem, como sabeis, com grande alegria, por serem úteis à tarefa do Cristo. E essa alegria, meus amigos, será tanto maior quanto seja vossa receptividade, vossa atenção sincera às recomendações que fazemos proclamando, mais uma vez, as verdades do Evangelho. Compreendemos que por vezes vos deixeis levar por certas dificuldades, mas quão salutar seria que desprezásseis os apelos do mundo em razão do intercâmbio conosco!
Lastimamos assim porque poderíeis, se quisésseis, estar em condições diversas das que apresentais na atualidade se simplesmente vos désseis à meditação e assim ouvir melhor nossa voz, inaudível aos ouvidos materiais. Compreendei que é pela divina misericórdia que nos aproximamos de vós e solicitamos vosso empenho na luta pela disseminação da verdade, pelo esclarecimento das consciências e pela assistência aos necessitados, aos famintos do corpo e da alma.
Queremos caminhar junto convosco e esperamos apenas vossa mais estreita participação na grande obra de renovação da Humanidade, pela transformação de vós mesmos, com a qual estamos todos identificados. Vinde, pois!

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Doutrinação: ato de amor

Francisco Muniz

Muito se tem propalado, nas lides da mediunidade com Jesus, que a primeira terapia aplicada aos espíritos sofredores é o choque anímico, ou seja, quando o médium psicofônico, ao emprestar o veículo carnal para a "incorporação", atua como um mata-borrão, sugando as energias deletérias do comunicante. É, mesmo, um grande bem que se presta, nas salas mediúnicas, a dezenas e dezenas de irmãos em infortúnio no "lado de lá" da vida. Mas é preciso convir que também para os espíritos que só venham tomar o "banho" renovador do choque anímico a terapia da palavra é recursos que não deve ser desprezado pelos médiuns esclarecedores, ainda que os necessitados do plano espiritual prefiram se manter em silêncio. Respeitando a condição e a escolha de cada um, o doutrinador deve aliar sua boa vontade a uma grande dose de compaixão sincera e dar de si mesmo em favor daqueles que buscam preencher suas carências morais. Deve, o médium esclarecedor, antes de mais nada, ter em mente que aquele a quem presta atendimento, pode ser um antigo companheiro do passado que está ali mais auxiliando que sendo auxiliado, malgrado sua condição infeliz no momento.
Diz-nos Divaldo Franco que não é necessário ser um técnico, um especialista, para desempenhar a função de doutrinador. É importante, contudo, utilizar sempre o bom senso, ouvindo atentamente as ponderações do comunicante antes de dirigir-lhe a palavra orientadora. Não vale despejar termos que indiquem retomada do bom caminho se não se chegou ao conhecimento da problemática do visitante. O médium doutrinador deve, portanto, educar-se nas técnicas psicológicas do bom relacionamento, de modo a estar confiante e atrair a confiança daquele de que depende de suas orientações. Deve estar equilibrado para assegurar o equilíbrio da atividade que desempenha, sem pôr em risco todo o serviço de atendimento espiritual de que participa.
Ainda é Divaldo a informar: " O médium doutrinador, que é também um indivíduo suscetível à influência dos Espíritos, pode desajustar-se no momento da doutrinação, passando a sintonizar com a Entidade Comunicante e não com o seu Mentor e, ao perturbar-se, perde a boa direção mental, ficando a dizer palavras a esmo". Em vista disso, impõe-se ao esclarecedor a adoção de padrões de qualidade, para que possa cumprir suas tarefas condignamente, sendo um fiel instrumento da equipe espiritual diretora dos trabalhos na sala mediúnica.
"O médium doutrinador tem um perfil próprio que o deve caracterizar e a tônica dentro desse perfil deverá ser a racionalidade, o que não significa frieza, ms a base onde vai apoiá-ser no campo das ideias, para expressar seu trabalho num clima de segurança e estabilidade emocional capaz de infundir confiança naqueles que atende". Tais palavras são da equipe integrante do Projeto Manoel Philomeno de Miranda, que enfatiza a condição de amorosidade e boa disposição do doutrinador, embora deva este manter-se emocionalmente firme, sem dar-se a oscilações ou excitamentos.
Doutrinar, esclarecer, é como educar, ou seja, propiciar-se a si mesmo primeiro a oportunidade de aperfeiçoar-se moral e intelectualmente, ao tempo em que colabora para o entendimento do outro em relação a ele próprio, através da simples e sincera doação. Quando o tarefeiro compreende que não é ele, mas os emissários do Cristo que atuam através dele, e se oferece conscientemente como um bom canal para esse intercâmbio, então sua atividade se revestirá de sucesso, não apenas na sala mediúnica, mas em todos os aspectos de sua vida moral, pois entenderá que é também um médium atuando 24 horas por dia.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Mandato mediúnico

Francisco Muniz
A médium Bernadete Santana é detentora de um mandato mediúnico.

Como estamos falando bastante sobre a questão da consciência e do compromisso mediúnico, convém enfatizarmos nossas preocupações quanto ao mandato mediúnico, que deve ser entendido como acréscimo de misericórdia, desde quando procuramos primeiramente o reino de Deus e sua justiça, conforme as palavras do Divino Mestre Jesus. Sabemos que todos os dias, a cada instante, os céus nos renovam as oportunidades de crescimento, através do trabalho nobilitante junto ao próximo. A esse respeito, nosso Mentor, Irmão Jerônimo, diz-nos que "de oportunidade todos gozam. Responsabilidade assumem os que preferem seguir o dever da harmonia na viagem evolutiva, na condição de aluno da abençoada escola da vida" (1).
O médium de prova, segundo definição de Hermínio Correia de Miranda (2), "foi distinguido com o recurso da mediunidade, para produzir mais, para apressar ou abreviar o resgate de suas faltas passadas. Não se trata de um ser aureolado pelo dom divino, mas depositário desse dom, que lhe é concedido em confiança, para uso adequado". Como se vê, o exercício dessa função exige responsabilidade e se o médium a executa segundo as luzes da Doutrina Espírita, necessita estar imbuído do compromisso assumido com a própria consciência. "Não se trata de compromisso vulgar para exibicionismo barato ou promoção pessoal, porém para, através do intercâmbio com os Espíritos nobres, serem as criaturas arrancadas do lamaçal dos vícios, ao invés de se tornarem campo para as paixões vis", orienta-nos o Projeto Manoel Philomeno de Miranda (3), citando o Espírito Vianna de Carvalho.

Natureza do mandato mediúnico

O capítulo 16 do livro "Nos domínios da mediunidade" é todo ele dedicado ao tema "mandato mediúnico", no qual os Espíritos André Luiz e Hilário recebem a orientação de Áulus quanto à atividade da médium Ambrosina, portadora desse mandato. Nela, Áulus ressalta uma qualidade importante para o exercício mediúnico, nestes termos: "Por amor ao ideal que nos orienta, renunciou á mais singela das alegrias do mundo (...)". E Áulus diz mais: "Pelo tempo de atividade a que se consagrou, Ambrosina recebeu do Plano Superior um mandato de serviço mediúnico, merecendo, por isso, a responsabilidade de mais íntima associação com o instrutor que lhe preside às tarefas". Tais palavras nos remetem de imediato a Allan Kardec, quando nos afirma que os melhores médiuns são aqueles que se fazem simpáticos aos bons espíritos.
Com efeito, Ambrosina vivia em estreita cooperação com seu mentor, Gabriel, e era pra ele o fiel instrumento para o trabalho de socorro a que ele se candidatava, de modo que todo entendimento mantido com ela dava-se também com ele, e vice-versa, em perfeita sintonia, evidenciando a disciplina a que Ambrosina se submetia na tarefa. Isso porque "um mandato mediúnico reclama ordem, segurança, eficiência", segundo informa o assistente Áulus, ressaltando os compromissos assumidos previamente, ainda no plano espiritual, entre a médium e o amigo invisível com quem atua.
Tal condição, porém, não garante infalibilidade a médium algum, uma vez que "um mandato (mediúnico) é uma delegação de poder obtida pelo crédito moral, sem ser um atestado de santificação", salienta o orientador de André Luiz, que quis saber se o detentor do mediunato poderia vir a falir. De acordo com Áulus, se o médium também age de conformidade com seu livre arbítrio, cada um deve a si próprio a derrota ou a vitória: "Assim considerando, vemos no Planeta milhões de criaturas sob as teias da mediunidade torturante, milhares detendo possibilidades psíquicas apreciáveis, muitos tentando o desenvolvimento dos recursos dessa natureza e raras obtendo um mandato mediúnico pra o trabalho da fraternidade e da luz".

Referências:

(1) - Aprimoramento Mediúnico (Bernadete Santana/Irmão Jerônimo)
(2) - Diálogo com as Sombras (Hermínio Miranda)
(3) - Consciência e Mediunidade (Projeto Manoel Philomeno de Miranda)
(4) - Nos Domínios da Mediunidade (F. C. Xavier/André Luiz) 

domingo, 19 de janeiro de 2014

Ninguém é profeta em sua terra

Elsie Dubugras
(recolhido da Revista Internacional de Espiritismo n.º 4 (Ano L), de maio de 1975)

Kardec não foi nenhuma exceção, pois, na França, o Espiritismo, depois de um século de ensinamentos, ainda gatinha e a casa que abrigou o Espiritismo nascente - a famosa Maison des Spirites - não encontrou um grupo de pessoas suficientemente interessadas em conservá-la. Ela desapareceu e a Sociedade dos Amigos da "Maison des Spirites" foi dissolvida. Isto aconteceu há cerca de três anos, após uma lenta agonia, durante a qual o então diretor, Hubert Forestier, lutou com dificuldades financeiras e outras. Finalmente, com seu desencarne, a "Maison" também fechou os olhos para o mundo e aquilo que deveria ter sido conservado como um museu espírita, um monumento vivo ao Codificador, desapareceu...
A "Maison" foi fundada em 1923. A casa foi doada ao Espiritismo francês pelo seu grande admirador, Jean Meyer, o vice-presidente da Federação Internacional Espiritualista, que a usou, primeiramente, como um centro de pesquisas. Durante a ocupação de Paris pelas tropas alemãs, na 2.ª Guerra Mundial, a casa não só sofreu grandes danos como também foi saqueada e grande parte de seu importante arquivo, destruída ou dispersa. Felizmente para o mundo espírita, uma parte desse precioso acervo caiu nas mãos de um brasileiro espírita - o Dr. Canuto de Abreu - que trouxe tudo que conseguiu para o Brasil, onde ainda se encontra.
Terminada a Grande Guerra, o governo francês concedeu um pequeno auxílio para a reconstrução da "Maison des Spirites". Era insuficiente, mas os leitores da "Revue Spirite" reuniram-se e conseguiram os fundos que precisavam para restaurá-la, regendo o modelo espírita.
Durante minha estadia em Londres, tive em mãos uns velhos números do "Psychic News" e, com grande curiosidade, li sobre a visita de um membro da equipe desse importante jornal espiritualista à "Maison", antes de seu fechamento. Diz ele que estava em Paris e resolveu conhecer o quase berço do Espiritismo, visitando a "Maison" na Rue Copernic n.º 8. Encontrou a antiga casa de cinco andares, numa bela localização - uma avenida elegante e arborizada. Mas a casa nada tinha de elegante. A porta da frente consistia de dois portões de ferro e ao lado via-se uma velha tábua pintada avisando que este era um Centro Espírita para Estudos e Conhecimentos. A porta dava acesso a uma imponente escadaria, mas o interior do prédio cheirava a mofo, o teto estava descascando e a decoração das paredes consistia de grande espelhos com molduras douradas. Felizmente, não esqueceram o Codificador. Na lareira via-se um busco de Kardec, em mármore negro, e, bem no alto da parede, um retrato, também de Kardec. O salão de conferências era espaçoso, com cerca de 250 lugares, mas só entrava quem pagava 7 francos (pelo câmbio de hoje [1975], cerca de Cr$7,00).
O repórter, que queria presenciar uma "sessão" naquele histórico lugar, comprou seu bilhete e aguardou os acontecimentos. Diz ele que na sala só se viam pessoas idosas - nenhum jovem apareceu! Afinal chegou a grande hora. Subiu à tribuna uma senhora que dissertou durante uma hora sobre a ciência de ler a vida e o caráter das pessoas pelas linhas das mãos! Desenhou a Linha da Vida, do Coração, etc. etc. no quadro negro. Isto durante uma hora... Ansioso, o repórter esperou pela segunda parte da sessão que seria um "show" de clarividência. O médium que subiu à tribuna era a "clarividente". Ela começou por tocar uma sineta, explicando à assistência e ao atônito repórter que era sua forma de conseguir uma "melhor ligação com os Mentores, os grandes e iluminados espíritos que se encontravam no salão"...
A clarividência foi, primeiramente, bastante banal mas melhorou quando o médium descreveu o desencarne de um operário que havia perecido num acidente rodoviário, pessoa conhecida de um dos assistentes. Mas o que mais surpreendeu o repórter foi que ela falou de futilidades, sem pausa, durante noventa minutos e nem sequer tomou um gole de água!!!
Não é com o espírito de crítica que transcrevemos as impressões desse repórter espiritualista que foi lá para conhecer como o Espiritismo é praticado na França. Mas suas impressões nos ajudam a compreender porque a "Maison des Spirites" não encontrou cobertura espiritual para continuar suas atividades. Aceitemos isto como uma lição para nós mesmos...
Londres, março de 1975.

Essa tal felicidade

Francisco Muniz

Em seu livro "Hei de vencer" (Ed. Pensamento), Arthur Riedel(*) conta uma história bastante interessante sobre sua meninice em São Paulo que serve de reflexão para todos aqueles que se encontram no afã de buscar a felicidade. Leiam e tirem suas conclusões:

"Quando eu era menino, existia no Largo da Sé, no velhíssimo Largo da Sé, hoje Praça da Sé, um café na esquina da Rua 15 de Novembro, chamado Café dos Girondinos. Os de mais de meio século devem lembrar-se dele. Eu ia para a escola ali na velha Rua da Boa Morte, hoje Rua do Carmo; passava pelo Café Girondino e ouvia sempre o garção gritar lá dentro: "Sai um pingado!".
Aquele "pingado" que o garção servia me dava então ideia de ser uma coisa grande, deliciosa, e eu, impressionado, não fazia oura coisa senão passar o dia inteiro desejando tomar um "pingado". Mas o empregado que me acompanhava ao colégio não me permitia nunca que eu entrasse no café para tomar o tal "pingado".
O "pingado" era a minha alucinação, o meu sonho, o meu desejo. À noite, sonhava com ele. Uma manhã, quando ia para o colégio, avisaram-me, em casa: "Você hoje tem que ir sozinho; o empregado não pode acompanhá-lo". Que alegria, que satisfação! Iria tomar um "pingado"!
Corri ao meu cofre, daqueles antigos, feitos de barro, quebrei-o, peguei as moedas, enchi o bolso enquanto pensava comigo mesmo: "Será que isto chega para um "pingado"? Entrei no Café, e sentei-me. Nem um rei era tão feliz quanto eu, nem uma noiva no dia do seu noivado! Quando o garção chegou, pedi-lhe, com voz emocionada, um "pingado".
Esperava uma coisa maravilhosa; não sabia o que era, mas a minha imaginação havia criado tal forma, que devia ser uma coisa maravilhosa. O garção gritou lá para dentro, com voz aportuguesada: "Um pingado!" Fiquei esperando. De repente veio o garção e colocou na minha frente um como de leite com um pingo de café: a mesma coisa que eu bebia todas as manhãs em minha casa era o tal "pingado"!
Vieram-me lágrimas aos olhos, joguei um níquel sobre o balcão e saí de lá soluçando. Esta lição ficou-me pela vida afora. Daí em diante, quando me vinha um sonho de glória, um sonho de amor, uma ambição, um desejo, algo que queria muito, eu pensava: Não será um "pingado"? Posso-lhe afirmar que nas poucas coisas pelas quais lutei e venci, alcancei sempre um "pingado". Encontrei um "pingado" em todos os meus sonhos."

Meditemos, pois.

-------
(*) Arthur Riedel foi um mestre da vida, conforme se lê na orelha da 11.ª edição de seu livro. Professor, articulista e palestrante de dotes inigualáveis, "ensinou milhares de pessoas a serem donas de si mesmas", através de comentários otimistas de cunho espiritualista que podem ser resumidos na frase que dá título a sua obra: hei de vencer! Nesse livro, que reúne algumas das conferências que ele proferiu lá pelos anos 40 do século passado, Riedel, citando um outro autor, dá-nos um mantra com o qual podemos observar e garantir nosso bem estar permanentemente: "Todos os dias, sob todos os aspectos, sinto-me cada vez melhor!" E é verdade.

sábado, 18 de janeiro de 2014

As intenções e o mal

Francisco Muniz

"Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração", diz-nos o Cristo em seu Evangelho, levando-nos a pensar que esse é o padrão comportamental que o homem deve adotar em suas relações no mundo. Fugir desse padrão, então, é entregar-se ao desequilíbrio. Conviver com o outro é um aprendizado nem sempre muito fácil e pode-se dizer que é mesmo muito difícil encontrar um ponto de relacionamento sempre harmonioso se não soubermos abrir mão de muitas facetas de nossa personalidade em formação.
Assim é que, em face de nossa momentânea imperfeição, podemos, a qualquer tempo, pensar, sentir, falar e fazer algo contrário ao bem estar de alguém e, como os pensamentos e sentimentos são comunicados ao outro mesmo imperceptivelmente, tanto quanto as palavras e os atos são facilmente assimilados, o resultado são as desavenças ou rusgas que por vezes experimentamos sem saber por que aconteceram.
Então, em tais momentos não agimos com mansidão e humildade, manifestando pensamentos, palavras, sentimentos e atitudes desabonadores, havemos de convir. E quando o conflite se estabelece, estamos mais propensos à reação desequilibrada que à ação que leve ao (re)equilíbrio. O circo pega fogo, pois.
Mas se entendêssemos  que, conforme ensina Jesus, devemos agir sempre com mansidão e humildade, não haveria espaço para a reações, posto que esse comportamento induz a experiências violentas dentro e fora de nós mesmos. Ora, de acordo com o que Os Espíritos Superiores informaram a Allan Kardec, "o mal não está na coisa em si, mas na consequência dessa coisa".
Isso quer dizer que as ameaças à nossa tranquilidade não são nenhum mal, embora o modo como recepcionamos essas ameaças possam se constituir no mal, posto que, também em razão do que se lê em O Livro dos Espíritos, "Deus julga mais as intenções do que os atos", de modo que a intenção de retaliar as ameaças recebidas será o mal a cometermos... 

"Não julgueis..."

Francisco Muniz

Ainda hoje não compreendemos bem o que Jesus quis dizer quando nos ensinou a não julgar. "Não julgueis para não serdes julgados", disse o Mestre, "pois com a mesma medida que medirdes, sereis também medidos". Mas nós fazemos julgamentos o tempo todo. Estamos todo o tempo criticando os outros, apontando o comportamento alheio e quase sempre nos surpreendemos agindo do mesmo modo que condenamos, apesar de sabermos de sobejo que "quem tem telhado de vidro não joga pedra no do vizinho". Por que julgamos?
Julgamos por dois motivos: porque nos sentimos inferiores aos outros e/ou porque nos acreditamos superiores. São dois motivos equivocados. O primeiro é provocado pela inveja, pela incapacidade nossa de trabalhar por nós mesmos e atingirmos assim a condição em que o outro se encontra. O segundo é  fruto do orgulho, que nos ilude e cega nossos olhos para o fato de que todos nós somos iguais em essência, apesar das diferenças individuais.
O Evangelho nos faz entender essa verdade e, graças ao Espiritismo, aprendemos com Jesus que é preciso tolerar o que não amamos e, mais do que isso, precisamos amar o que não toleramos, porque, por nossa sabida ignorância, julgamos movidos pela aparência das coisas.

Partilha

Irmã Rafaela

O que tens não é teu e deves com isso proporcionar o bem estar daqueles que partilham tua convivência, fazendo-te responsável pelas alegrias de todos. Mas o que tens de teu é também para ser aplicado em favor de muitos. Tens o teu tempo, a tua disponibilidade, teus bons sentimentos e não deves sonegá-los a quem quer que seja. Fazer assim é agir com prudência, ponderando quanto ao dia de amanhã, que poderá surpreender-te em agonia pelo bem deixado de praticar. Cumpre, pois, a recomendação do Cristo, fazendo pelo próximo o que gostarias que este te fizesse se estivesses em outra situação. Lembra-te de que é dando que se recebe...

Reforma íntima

Francisco Muniz

Inevitável a reforma íntima, a transformação interior, naquele que já despertou para sua condição de espírito e se comprometeu com a vivência consciente de sua imortalidade. Inevitável porque não há outro caminho que não a mudança dos velhos hábitos, dos valores arcaicos, dos conceitos equivocados que distorcem a compreensão da verdade.
Em que consistirá, pois, essa reforma, essa mudança ou transformação senão na renovação dos princípios norteadores da boa caminhada?
O homem muito conhece a respeito das coisas, ms bem pouco acerca de si mesmo - e é nesse aprendizado que ele deve se especializar a fim de que consiga ter sucesso nas transformações que é chamado a fazer em sua alma.
Quando o Cristo veio convidar a todos para o conhecimento da Verdade, foi nesse sentido que falou. Conhecer a Verdade a fim de que o homem se veja livre, pois enquanto isso não acontece ele está escravizado, é escravo da própria ignorância e da matéria que o embrutece.
Urge, portanto, que se envidem os esforços em prol do autoconhecimento, para que o homem, em se encontrando, reconheça-se filho do Altíssimo e passe a se comportar de acordo com essa condição representativa da Verdade imortal e absoluta.

Um novo mundo

Irmã Rafaela

Dos escombros do velho mundo 
um novo mundo há de nascer 
- é da lei que assim seja 
e Deus assim o quer. 
O que não mais se coaduna 
com o modo novo de proceder 
logo encontra sua ruína 
para um novo renascer. 
E assim sucessivamente 
os mundos mudam de feição. 
Onde antes havia o erro 
agora vê-se a perfeição. 
A Lei do Amor Divino, 
comandando os destinos, 
faz o homem amadurecer. 
Que ele acorde, que ele enxergue 
a razão do vir a ser. 
As leis de Deus, soberanas, 
impelem o homem a caminhar 
e o sentido da vida humana 
é o constante aperfeiçoar.
A tudo o Pai está atento,
dando ao homem condição
de trabalhar pelo melhor,
completando a Criação.
Irmãos meus, eu vos convido
a conosco trabalhar
de mãos dadas, sem olvido
à lição que é caminhar.
Nada fica, pois, parado,
tudo mostra a relação
que o Universo tem com Deus
por ser obra em criação.
É da lei que as criaturas
promovam seu bem estar
obrando junto com Deus
a fim de tudo melhorar.