quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Sobre mágoas e ressentimentos

Francisco Muniz

Dada sua momentânea inferioridade, o homem - espírito encarnado - convive com as situações penosas mas importantes para sua trajetória rumo à perfeição. Muitas dessas situações ele mesmo desenvolve, por incúria ou invigilância, padecendo os efeitos de seus próprios equívocos. Mas depende dele mesmo a correção do rumo, reajustando-se perante a própria consciência.
Tal é a condição de todos, porém os médiuns trabalhadores precisam estar mais atentos, em face da especialidade das tarefas que assumiram. Para tanto, importa exercer vigilância sobre as ameaças sutis do orgulho, que nos faz presas fáceis de sentimentos contrários à noção de fraternidade e solidariedade que deve preponderar nos ambientes doutrinários. E esses ambientes devem, por seu turno, ser uma extensão do lar harmonizado de cada um - e vice-versa.
O orgulho, de acordo com o Espírito Cairbar Schutel (1), é pai de um dos maiores inimigos do médium - o melindre, ouro nome da vaidade disfarçada. O melindre, diz Schutel, "propele a criatura a situar-se acima do bem de todos. É a vaidade que se contrapõe ao interesse geral". O esclarecido instrutor espiritual ressalta que o espírita melindrado "julga-se mais importante que o Espiritismo e pretende-se melhor que a própria tarefa libertadora em que se consola e esclarece".
Assemelham-se, portanto, às pessoas que se ressentem ante a menor contrariedade, guardando mágoa e revolta por aqueles que julgam se os causadores de sua dor. Tal comportamento é descabido tanto mais por ser o médium espírita conhecedor das lições evangélicas através da Doutrina dos Espíritos, que nos orienta à compreensão das faltas alheias e à transformação de nossos sentimentos, tornando-os o menos mesquinhos possível.

PROBLEMAS AGRAVADOS

"O melindre" - reforça Cairbar Schutel - "gera a prevenção negativa, agravando problemas e acentuando dificuldades, ao invés de aboli-los. Essa alergia moral demonstra má-vontade e transpira incoerência, estabelecendo moléstias obscuras nos tecidos sutis da alma". É a vaidade que nos faz reagir face às contrariedades, acusando os outros de ingratidão, como se todos devessem pensar e sentir como nós mesmos.
O médico espírita Vítor Ronaldo Costa alerta que "a vaidade é lamentável precipício no qual os médiuns desavisados se arrojam, arruinando esperançosos propósitos, graças à invigilância costumeira" (2). Médiuns orgulhosos, segundo Allan Kardec, no mínimo "não tomam para si as lições que recebem, frequentemente, da parte dos Espíritos" (3). O Codificador cita um aviso do Espírito Erasto, para quem as reuniões que se privam de tais médiuns "não têm uma grande perda".
Para precaver-se de semelhante obstáculo, o médium deve cultivar a tolerância, sobretudo, recordando os exemplos do Mestre Jesus, que tudo suportou de seus acusadores e a todos perdoou. A tolerância, diz-nos Joanna de Ângelis, é "apanágio das almas nobres, medra em clima de elevada cultura e de sentimentos superiores, espraiando-se nas comunidades onde o progresso forja a dignidade e combate o obscurantismo". Por isso mesmo, completa a benfeitora, "a tolerância é medida de enobrecimento a revelar valores morais e ascendência espiritual" (4).
A mediunidade é instrumento de elevação de quem a detenha, desde que lhe dê um fim útil, espalhando a caridade na Terra. Mas para que a caridade seja praticada a contento, importa que o médium desenvolva em si mesmo os dermes da humildade que lhe dormem latentes. Sem ela, ressalta o Espírito Lacordaire, não se pode ser caridoso para com o próximo, "porque esse sentimento nivela os homens" (5).

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Referências:

1 - Xavier, F. C. e Vieira, Waldo - O Espírito da Verdade, por diversos Espíritos. FEB, 13.a ed. Brasília, 2002.
2 - Costa, Vítor Ronaldo - Minuto Mediúnico. SEDA, 2a. ed. Salvador, 1999.
3 - Kardec, Allan - O Livro dos Médiuns. IDE, 34a. ed. Araras, SP, 1995.
4 - Franco, Divaldo - Estudos Espíritas, por Joanna de Ângelis. FEB, 6a. ed. Brasília, 1982.
5 - Kardec, Allan - O Evangelho Segundo o Espiritismo. IDE, 249a. ed. Araras, SP, 2000.

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