quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Todo Mundo e Ninguém

Francisco Muniz

"Todo Mundo e Ninguém" é um auto famoso do escritor satírico português Gil Vicente, recriado aqui sob a inspiração espírita, para uma apresentação especial na comemoração do aniversário do C. E. Deus, Luz e Verdade, em Salvador (BA), no ano de 2005. Como no texto de Gil Vicente, este esquete também tem apenas um ato e uma cena na qual aparecem quatro personagens: Todo Mundo, um homem orgulhoso e pedante, daqueles que "se acham"; Ninguém, um representante do povo cujas características são o oposto do primeiro; o Diabo, aqui renomeado simplesmente Observador, por razões óbvias; e o Secretário, aquele que toma nota das observações do anterior, seu senhor. A cena registra a conversa entre Todo Mundo e Ninguém, que se encontram "por acaso" na Casa Espírita e começam a entreter uma conversa, sendo observados a distância pelos outros dois.

Todo Mundo e Ninguém - Espetáculo em um ato, no qual dois personagens, Todo Mundo e Ninguém, dialogam sobre aspectos da vida de cada um, manifestando desejos e aspirações, e sendo observados criticamente por dois outros, que dão lições de moral ao público.

Cena única - Todo Mundo e Ninguém sobem ao palco, onde já se encontra o Observador, andando de um lado pra o outro. Quando os dois se posicionam, o Observador chama alguém da plateia.

Observador - Ei! Venha cá! É, você mesmo! Venha cá! (pausa, enquanto o outro se encaminha para o palco) Muito bem! Você vai me ajudar a botar os pingos nos is. Tem algum pingo sobrando aí? Brincadeirinha! Tome este caderno e esta caneta e vamos ouvir o que esses dois estão falando!

De frente um para o outro, Todo Mundo e Ninguém iniciam o diálogo:

Ninguém - Olá, que faz você aqui no "Deus, Luz e Verdade"?
Todo Mundo - Vim conhecer Bernadete, porque quero ser espírita.
Ninguém - Que beleza! Eu gosto muito daqui e quero fazer minha reforma íntima.

Observador (para o Secretário) - Isso é coisa para se anotar! Escreva aí, secretário: todo mundo quer ser espírita e ninguém busca se reformar!

Todo Mundo - Como espírita, vou estudar bastante, pois quero conhecer tudo, de Kardec a Irmão Jerônimo!
Ninguém - Se eu puder ajudar um pouquinho aqui no Centro, já vai ser bom demais!

Observador - Coisa estranha ouvi agora. Merece total registro. Conhecimento deseja todo mundo, mas ninguém quer ajudar!

Todo Mundo - É bom ser espírita, sabe? A gente obtém um monte de regalias, tanto agora como depois e é isso que eu procuro.
Ninguém - Não sei se é assim mesmo, mas estudando Irmão Jerônimo o que quero é ser virtuoso.

Observador - Que coisa louca, meu chapa! Anote aí nesse caderno: todo mundo quer regalias e ninguém busca a virtude!

Todo Mundo - Ah! na vida o que mais quero é a felicidade total!
Ninguém - Eu divido a minha, quer?

Observador - Isto é muito interessante, é coisa bem rara de ouvir: todo mundo quer felicidade e ninguém divide a sua!

Todo Mundo - Um dia eu vou ser rico e com meus milhões vou ajudar este Centro!
Ninguém - Eu estou desempregado, mas desejo muito trabalhar. Eu tenho uma família grande, sabe?

Observador - Eita! que o forró vai ficar gostoso! Anote aí, seu moço: todo mundo sonha em ficar rico e ninguém quer trabalhar pela família!

Todo Mundo - Vi um cartaz, no mural, lá fora, e decidi fazer um curso de expositor espírita. Serei um novo Divaldo Franco!
Ninguém - Vou demorar muito para isso ainda. Primeiro quero aprender a Doutrina num grupo de estudo...

Observador - Estamos indo bem! Esses dois são uma graça: todo mundo quer falar como Divaldo e ninguém que se doutrinar!

Todo Mundo - Mas vou dar um prazo, sabe? Se em dois meses o negócio não ficar bom, adeus, Bernadete!
Ninguém - Ah! de minha parte, vou aproveitar cada minuto que passar aqui. Sei que o processo é lento, mas é assim que se faz o progresso.

Observador - Agora é que são elas! Meu amigo, escreva aí: todo mundo está com pressa, mas ninguém aproveita o tempo!

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