sábado, 25 de janeiro de 2014

Sobre orar e vigiar

Francisco Muniz

Num de seus livros (possivelmente Obras Póstumas), Allan Kardec diz que, se houvesse um centro espírita em cada esquina, haveria menos prisões e hospitais na Terra. Por aí se depreende que uma casa espírita é, como apregoa a pedagogia inaugurada pelo Espiritismo, uma escola para as almas, sendo também uma oficina de trabalho onde essas almas se educam nas atividades beneméritas, transformando-se a pouco e pouco. E porque a missão do Espiritismo é justamente promover a renovação moral da humanidade, essa conquista é ameaçada pelos opositores da Luz, que teimam em obstaculizar as ações da Casa Espírita e as sinceras pretensões de seus frequentadores e trabalhadores. Daí a importância de o espírita suficientemente esclarecido tomar a sério a recomendação de Jesus - "orai e vigiai pra não cairdes em tentação". Afinal, os Espíritos Superiores revelaram que os homens somos influenciados de tal modo pelas inteligências desencarnadas que, a rigor, são elas que nos conduzem. Mas como é processada essa influenciação?
Em Aconteceu na Casa Espírita, o Espírito Nora relata, através do médium Emanuel Cristiano, um desses ataques orquestrados pelas trevas sobre uma instituição espírita de médio porte. O que tais espírito pretendem não é demolir o centro espírita, posto que uma organização desse tipo não é simplesmente a construção de cimento e tijolos. É, antes de mais nada, o conjunto das propostas e realizações de um grupamento humano na direção dos objetivos primordiais da Doutrina Espírita, sob a condução dos Espíritos Superiores. Assim, todas as intenções e pretensões dos trabalhadores de uma casa espírita séria (e não se pode exigir o mesmo dos simples frequentadores) precisam casar com os objetivos exarados nas obras da Codificação, atentando-se para a máxima "Fora da caridade não há salvação".
É sabido que os Espíritos endurecidos e ainda aferrados ao mal atuam sobre as fraquezas humanas, naquilo que os encarnados se identificam com esses seres trevosos. É o que o Espírito Nora observa em seu livro, chamando nossa atenção também para o aviso de Allan Kardec em O Livro dos Médiuns, na lição intitulada "Das reuniões e das sociedades espíritas". Ali, o Codificador esclarece que os perturbadores das reuniões mediúnicas tanto podem ser os médiuns deseducados quanto, principalmente, os habitantes do mundo invisível. "Assim como há espíritos protetores das associações, das cidades e dos povos, Espíritos malfeitores se ligam as grupos, do mesmo modo que aos indivíduos", diz Kardec, acrescentando em seguida que tais Espíritos "ligam-se, primeiramente, aos mais fracos, aos mais acessíveis, procurando fazê-los seus instrumentos e gradativamente vão envolvendo os conjuntos, por isso que tanto mais prazer maligno experimentam, quanto maior é o número dos que lhes caem sob o jugo".
Nora se estende mais sobre esse tópico, mostrando em detalhes a fascinação que as legiões das Trevas exerce sobre as almas invigilantes, de tal modo que interferem no trabalho dos médiuns sinceros e produtivos, comprometendo as atividades da Casa Espírita. Essa ação trevosa é silenciosa, "no campo dos sentimentos, sugerindo pensamentos, estimulando as irritações, o ciúme, a fofoca, a indignação, os melindres, a disputa de cargos, funções, tarefas etc." A autora espiritual diz que há um vasto campo de atuação dessas legiões junto às inferioridades humanas, aproveitando-se das brechas deixadas por muitos trabalhadores do bem. O obsessor-chefe, no livro, ressalta, muito a propósito, que "esse é o único modo de penetrarmos na instituição, a única forma de não sermos barrados pelas correntes protetoras, pois que os mensageiros do bem não podem violar o livre arbítrio dos adeptos do Cristo".
Nesse trabalho de fascinação, os irmãos equivocados se valem até mesmo da situação conjuntural do País, valorizando as dificuldades econômicas, sociais e políticas, intensificando os problemas materiais dos encarnados sob sua mira. Com isso, os médiuns se esquecem de vigiar pensamentos e emoções, cultivando o pessimismo, a irritação e as palavras menos felizes, entrando naturalmente na faixa vibratória inferior, como que autorizando o processo de influenciação, posto que, muitas vezes, nem mesmo se lembram da oração, que poderia afastar completamente esses obsessores, rompendo-lhes os propósitos.
Não se pense, porém, que tais médiuns estejam totalmente entregues à ação nefasta dos opositores da Luz. Há um trecho do livro em que os dirigentes espirituais do Centro ameaçado dizem: "Esta será uma batalha que competirá aos encarnados vencerem; nós, porém, nos limitaremos a protegê-los, vigiando o orando fervorosamente". Como se vê, a misericórdia divina a ninguém abandona; no entanto, os amigos espirituais revelam: "É certo que alguns, pelos sentimentos que nutrem, não mereceriam sequer nosso concurso; entretanto, as tarefas que realizam promovem o bem comum e, pelo trabalho bem feito que executam, ainda que o realizem como "profissionais espíritas" e não como verdadeiros idealistas, nossa proteção se faz sentir pensando no todo da Casa".
Mas se não podem atingir diretamente alguns médiuns, principalmente aqueles que não prescindem da oração e da vigilância, os Espíritos trevosos atuam sobre seus familiares ou sobre os assistidos na própria Casa Espírita. Nora é quem avisa, falando ao dirigente do Centro em questão: "Mesmo que não entres na faixa vibratória dos inimigos do bem, eles desejarão te atingir através dos cooperadores e frequentadores invigilantes, que te endereçarão palavras duras a fim de cortar-te, qual navalha afiada, o coração generoso".
O antídoto para esse veneno, portanto, é o fortalecimento do compromisso através do zelo pela pureza doutrinária, intensificando o estudo em cursos sistematizados, "preparando doutrinariamente quantos desejarem servir na seara de Jesus". Nora ainda ressalta: "Com o estudo doutrinário constante, os trabalhadores do Espiritismo têm as atividades disciplinadas. Graças à possibilidade de trabalho que os centros espíritas oferecem, muitas pessoas deixam de se perder no mundo; vários cooperadores, encarnados, encontram aí o sustentáculo para vencer na jornada terrena".

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