quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Na casa de Zaqueu

Francisco Muniz

"É preciso que eu me aloje hoje em vossa casa." Essas palavras, ditas por Jesus a Zaqueu (Lucas, 19:1-10), guardam, em sua simplicidade, um ensinamento muito profundo. O Cristo não diz que precisa ele próprio adentrar a casa de Zaqueu. Pela colocação das palavras, percebe-se ser uma necessidade de Zaqueu receber essa visita - e mais: vê-se a imposição da Vida perante essa necessidade e só por isso Jesus se oferece para visitar a casa daquele homem.
Assim é conosco também. Temos necessidade da presença do Cristo em nossa casa - nossa alma - e ele vem a partir do momento em que nos dispomos a atender à imposição da Vida, vindo, como acréscimo de misericórdia, para que atuemos, mesmo inconscientemente, em favor dessa doce imposição, e então o Cristo se contextualiza em nós, tornando nossa casa mais harmoniosa, mais iluminada.
Entretanto, há uma condição a ser observada nessa visita de Jesus a nossa casa: é preciso que nos livremos dos excessos em nós para que a divina presença ganhe significado, porquanto o Cristo propõe a transformação daquele que se dispõe a receber seus benefícios. Livrar-se das impurezas, o excesso que empana o brilho próprio da alma, é uma necessidade evolutiva e Zaqueu soube ser esse exemplo, válido para todos nós ainda hoje.

Convite

Francisco Muniz

Dos escombros do velho mundo um novo mundo há de nascer - é da lei que assim seja e Deus assim o quer. O que não mais se coaduna com o modo novo de proceder logo encontra sua ruína pra um novo renascer. E assim sucessivamente os mundos mudam de feição. Onde antes havia o erro agora vê-se perfeição.
A lei do Amor Divino, comandando os destinos, faz o homem amadurecer. Que ele acorde, que ele enxergue a razão do vir-a-ser. As leis de Deus, soberanas, impelem o homem a caminhar e o sentido da vida humana é constantemente aperfeiçoar-se. A tudo o Pai está atento, dando ao homem condição de trabalhar pelo melhor, completando a Criação.
Irmãos meus, eu vos convido a conosco trabalhar, de mãos dadas, sem olvido à lição que é caminhar. Nada fica pois, parado, tudo mostra a relação que o Universo tem com Deus, por ser obra em criação. É da lei que as criaturas promovam seu bem estar obrando junto com Deus a fim de tudo melhorar.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Os Outros - análise espírita

Desde os livros de André Luiz, surgidos através de Chico Xavier nos anos 40 do século passado, a questão da (in)consciência espiritual vem sendo trazida ao conhecimento da Humanidade pela via da Doutrina Espírita, como meio de fazer com que os homens despertem com brevidade (no ritmo de cada um) para a realidade do espírito imortal. Esse filme mostra o quão ignorantes ainda nos encontramos a respeito de nossa condição espiritual, o que faz com que nos transfiramos de domicílio ainda perdidos no labirinto de nossa mente, tão grande é a recusa em nos compreendermos espíritos e a teima em ligarmo-nos tão somente à condição humana, transitória. Os Instrutores Espirituais constantemente nos dizem que a maioria de nós vem à encarnação ainda inconsciente simplesmente porque no ambiente espiritual, que nos é próprio, estamos alheios às nossas necessidades evolutivas. Do mesmo modo, deixamos a esfera física, no retorno à vida de espíritos, ainda amargando essa inconsciência, a despeito dos constantes apelos em prol de nosso despertamento.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Cidade dos Anjos - análise espírita

Os anjos desse filme não têm asas, mas são amigos das alturas e vivem sobre edifícios, antenas de TV, sinais de trânsito e demais geringonças que se elevem do chão. Pouco têm do romantismo que costumamos emprestar a essas figuras do imaginário religioso. O fato de se vestirem de negro é um choque, mas somente na literatura teológica e esotérica eles são mostrados de forma, digamos, barroca. Porém, mais do que em outros filmes sobre anjos, esta fita guarda mais semelhanças com a Doutrina Espírita, até mesmo no tocante à "música" que ouvem ao nascer e ao por do sol. Léon Denis, no livro "O grande enigma", salienta que se mesmo nossos ouvidos físicos fossem bem treinados, seríamos capazes de ouvir o som harmonioso do movimento dos astros. Ora, diriam os sábios, o som não se propaga no vácuo e o espaço é puro vácuo: de onde viria esse som, então? Ora, diremos nós, aqueles que se entregam à sabedoria das leis divinas, com total abnegação, recebe da Divindade, que é a própria Vida, todas as manifestações d que se veja merecedor. Os anjos, estamos certos, são dessas criaturas que, por estarem mais perto do Criador, podem perceber mais intimamente uma parcela maior de Seu incomensurável amor.

Da divulgação espírita

A divulgação do Espiritismo não é tarefa das mais fáceis. Não basta apenas que nos disponhamos a falar da excelência que é a Doutrina dos Espíritos; não basta que levemos a quantos necessitem ou queiram recebê-la a mensagem de consolo e esclarecimento que o próprio Jesus no-la transmite, através de abnegados companheiros da Espiritualidade. É preciso, principalmente, que tenhamos em nós a consciência de poder e saber transmitir esse conhecimento, vivenciando-o primeiro, acreditando em sua importância, para que estejamos convictos do que estamos dizendo ou fazendo. Para tanto, faz-se imprescindível estudarmos a Ciência e aprofundar-nos na Filosofia que Allan Kardec teve o mérito de codificar, há quase 155 anos.
Se apenas tratamos de ciência e filosofia superficialmente, pode ser que este ou aquele interlocutor tenha algum proveito, mas grande parte deles experimentará uma certa frustração porque certamente espera muito mais de nós. Afinal, com todo o progresso que tem havido no mundo, é inconcebível que nos mantenhamos no nível de um pré-escolar, em termos de Doutrina Espírita. Como o próprio Kardec nos esclarece, o Espiritismo deverá acompanhar o desenvolvimento da ciência. Isso quer dizer que os espíritas, precisamente os envolvidos no trabalho de levar adiante as notícias que dizem respeito à Era do Espírito, necessitam estar bem informados dos avanços científicos tanto quanto fartamente embasados no que respeita aos princípios doutrinários.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Guardar-se da avareza

Ser rico para Deus... só o é, de fato, quem apresenta o coração puro dos valores terrenos, preenchido contudo das alegrias celestiais representadas pelo cultivo das virtudes. O homem tem fome de Deus e sem ele está incompleto. Seu orgulho, porém, faz com que caminhe em sentido contrário, buscando nos prazeres mundanos o que se lhe falte, sem jamais bastar-se. Aquele, porém, que busca a Deus e nele se satisfaz encontra plenitude e, como disse o Cristo, não mais terá sede ou fome.
Guardar-se da avareza, assim, é recorrer ao amparo de Deus, procurando compreender que os bens do mundo são recursos para a elevação dos espíritos, que têm o dever de dividir o que tem com os necessitados, a fim de multiplicar em si os bens imperecíveis. O saber do homem é bem limitado e não abarca, por isso, todas as dimensões da vida, razão pela qual o avarento opera contrariamente à vontade de Deus, que quer que seus bens cheguem a todos indistintamente, na medida em que cada um possa recebê-los. Eis porque há fiéis administradores e os que açambarcam os recursos egoisticamente. Precavei-vos, pois!

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Dinheiro

Francisco Muniz
(Recolhido da revista Visão Espírita - Ano 1, n.° 12, 1999.)

O dinheiro é instrumento de elevação desde quando promova o bem-estar de quantos o necessitem. Seu mau uso, entretanto, é causa de malefícios como a miséria em que muita gente se encontra.

Fato número um - De repente alguém que só pode contar com o próprio esforço - o suor do rosto - para garantir a manutenção da família, tanto quanto de si mesmo, "acha" um monte de dinheiro e "vira" milionário. O verbo achar usado mais atrás esclarece que não se trata de dinheiro ganho com o suor do rosto, ou seja, fruto do trabalho. Quem o achou poderá estar sabendo (ou não) que vem de atividades ilícitas ou criminosas, ou mesmo ser dinheiro limpo, livre de injunções viciosas. Assim, fica a dúvida: devolvê-lo ou aproveitá-lo. Essa é a trama da novela "Pecado Capital", exibida (pela segunda vez) no início de 1999 pela Rede Globo.

Fato número dois - Há algum tempo, um telespectador do programa Espiritismo via Satélite questionou uma fala do apresentador Alamar Régis, durante entrevista com o médium baiano José Medrado. Alamar teria dito que o dinheiro deveria ser empregado em obras meritórias, não importava de onde procedesse, para estupefação do telespectador. Este, certamente influenciado pelas notícias de "lavagem" de dinheiro pelo mundo afora, entendia que o produto da desonestidade não poderia ser investido em atividades beneficentes.

Fato número três - O Brasil (só para localizarmos o problema) atravessa uma grave crise financeira a partir da desvalorização do Real frente ao Dólar, provocando o encarecimento dos preços de gêneros básicos e aumentando o desemprego a índices alarmantes. Sem dinheiro, as pessoas se desesperam e se deixam levar por sentimentos contraditórios, causadores de situações que, se enfrentadas com alguma serenidade, seriam mais facilmente assimiladas.

Esses três aspectos permitem refletir sobre a importância intrínseca do dinheiro. De acordo com a Espiritualidade que assessorou Allan Kardec, tal como mostrado em duas obras básicas da Doutrina Espírita - O Livro dos Espíritos e O Evangelho Segundo o Espiritismo -, os instrumentos do progresso humano não são bons nem maus em si mesmos, mas adquirem este ou aquele conceito em conformidade com o uso que o homem lhes dê. Assim, se usarmos o dinheiro para a promoção humana, coletivamente, ele estará sendo útil a despeito de sua origem; se, ao contrário, o usarmos egoisticamente, estaremos perpetuando as condições de miserabilidade em torno de nós e isso não é bom.
Antes de obtermos do Espiritismo a resposta para inúmeras questões que atormentam a Humanidade, costumávamos perguntar por que as riquezas não são distribuídas igualitariamente entre todas as pessoas, de maneira a se suprimir a pobreza e a exploração de uns, que muito têm, sobre outros que nada possuem. Hoje sabemos que tal "discrepância" atende aos mecanismos da divina justiça, ativados pela lei de causa e efeito, ou lei do carma, que impõe aos espíritos pagarem, "ceitil por ceitil", os débitos contraídos nas existências passadas.
No entanto, é o trato com as riquezas uma das provas mais difíceis com que o espírito se depara em suas experiências reencarnatórias. Uma das histórias do Além nos conta que dois espíritos que faliram na existência carnal cometendo suicídio confabulavam após obter abençoada oportunidade de resgate das falta através de nova reencarnação. Um deles salientara que procuraria méritos renascendo como deficiente físico e mental e indagava dou outro por que gênero de prova optara. Este, tristemente respondera: "Ah!, eu escolhi ser rico!"
Diz-se que o dinheiro não traz felicidade, porquanto é comum ver milionários insatisfeitos, enquanto pessoas muito pobres parecem gozar da vida o que há de melhor: saúde, alegria, paz de espírito, coisas que dinheiro nenhum do mundo pode comprar. Talvez porque algumas pessoas se escravizem ao dinheiro, deixando de lhe dar a utilidade necessária ao progresso de todos, porque é da lei que as riquezas devam circular, passando de mão em mão, como forma de facultar às pessoas o exercício de administração dos recursos terrenos como fiéis depositários dos tesouros divinos.
Embora houvesse uma época em que o dinheiro fosse inexistente, ele tornou-se necessário quando a Humanidade passou a progredir. O dinheiro, assim, é fruto do trabalho do homem e instrumento do progresso material. Talvez, no futuro, encontre-se uma fórmula que dispense a figura do dinheiro  nas transações entre os povos, evitando-se crises como as que o mundo enfrenta na atualidade. Mas nem mesmo as crises econômicas são produzidas pelo dinheiro e, sim, pela maneira gananciosa com que as pessoas lidam com os bens materiais.
A esse respeito, o Espírito Joanna de Ângelis ressalta, no livro Leis Morais da Vida (psicografia de Divaldo Franco), que o dinheiro, pela "aplicação que se lhe dá, torna-se agente do progresso social, do desenvolvimento técnico, do conforto físico e, às vezes, moral, ou causa de inomináveis desgraças". A benfeitora vai mais além: "Através dele irrompem o vício e a corrupção, que arrojam criaturas levianas em fundos despenhadeiros de loucura e criminalidade", desde quando incapazes de usar o dinheiro adequada e dignamente. "Sua correta aplicação impõe responsabilidade e discernimento, tornando-o fator decisivo na edificação dos alicerces das nações e estabilizando o intercâmbio entre os povos", pondera Joanna.
Segundo ela, "o dinheiro, a propriedade, a posição social relevante, a saúde, a inteligência, a mobilidade, a lucidez são bens que o espírito recebe como empréstimo divino para edificar-se e construir ventura". Assim sendo, convém sabermos usar os recursos que nos foram posto ao alcance com equilíbrio, de forma a beneficiar o possuidor e os necessitados, porque, se o sol brilha para todos e a chuva cai sobre todos, toda aquisição, portanto, deve se estender em benesses coletivas, sob pena de manter-se o concessionário nas linhas do egoísmo escravizante. Nesse ponto, Joanna de Ângelis é taxativa: "Administradores, que todos somos, transitoriamente, dos haveres, enquanto na vilegiatura carnal, seremos convocados a contas para relatórios, apresentando o que fizemos das concessões divinas que passaram pelas nossas mãos".

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Saudade de Elzio Ferreira de Souza

(Recolhido do jornal Tribuna Espírita de Salvador - n.º 15

Doutor Elzio (foto), como era mais conhecido no movimento espírita baiano, desencarnou em 2006, aos 80 anos de idade, deixando uma lacuna que dificilmente será preenchida. Para falar sobre ele, entrevistamos a médium Diana Santiago, atualmente diretora-tesoureira do Círculo Espírita da Oração, a “Casinha”, onde conviveu por mais de 20 anos com nosso homenageado, cuja memória reverenciamos neste momento. Diana é também musicista e professora universitária.

1 – Quem era de fato Elzio Ferreira de Souza?
Essa é uma pergunta difícil! No livro Nosso Lar, aprendemos que o bônus-hora "representa a possibilidade (...) de remunerar alguém que se encontre em nossas realizações, mas o critério quanto ao valor da hora pertence exclusivamente a Deus". De modo similar, penso que somente Deus sabe quem é de fato uma pessoa. Acredito, contudo, poder afirmar que, para nós do Círculo Espírita da Oração (que preferimos denominar de Casinha, como ele mesmo fazia), o irmão Elzio Ferreira de Souza foi sempre o exemplo do fiel seguidor de Jesus. Ele era sobretudo uma pessoa de profunda dedicação à oração, que conseguia estabelecer duradoura sintonia com os mentores da espiritualidade junto aos quais se comprometeu com o trabalho espírita. Era um incansável trabalhador em prol das ideias espíritas, principalmente na divulgação do livro. Mentalidade aberta, dedicada ao estudo aprofundado das obras de Kardec, trabalhar com ele na revisão dos livros e nas atividades doutrinárias da Casinha foi um aprendizado imorredouro.

2 – O Círculo Espírita da Oração, ou “a Casinha”, como ele dizia, ressente-se hoje da ausência física de Dr. Elzio?
É claro que tivemos que nos adaptar a não tê-lo fisicamente do nosso lado, mas, sua presença é percebida com frequencia na Casinha e, com certeza, ele pode agir com muito mais desenvoltura no mundo espiritual, pois, "desligado dos liames da matéria", pode decerto atuar num nível de abrangência mais amplo.

3 – Tendo convivido com o Dr. Elzio Ferreira de Souza, de que modo você prefere recordar-se dele?
Tive a oportunidade de conviver vinte e três anos no trabalho espírita com Dr. Elzio. Apesar de ser eu mesma uma acadêmica, afeita desde criança ao estudo e, por isso, tendo encontrado em Dr. Elzio desde que o conheci um estímulo para o aprimoramento intelectual, prefiro recordá-lo como o homem de profunda capacidade de oração. Há grande diferença entre um intelectual e um sábio. Considero Dr. Elzio um sábio, no sentido de "espírito de sabedoria" dado no Livro dos Espíritos, em que prevalece a moral sobre o intelecto. Mesmo se suas ideias pudessem parecer estranhas para muitos, mesmo que possa ter errado em uma ou outra avaliação e/ou decisão (só o tempo poderá dizer), sua capacidade de interpretar o legado kardequiano e, sobretudo, o Evangelho de Jesus passava sempre pelo crivo da oração. Recordo-me dele, em resumo, como o indivíduo que examinava os textos que lesse com o critério da razão, seguindo a recomendação de Kardec, mas, sobretudo, como o indivíduo que se banhava na luz da oração para nela encontrar o alimento que o sustentava e guiava em quaisquer decisões. No convívio na Terra, raramente encontramos pessoas assim, pois nosso planeta ainda é um local onde joio e trigo medram lado a lado. Agradeço a Deus poder ter convivido com ele e, espero, aprendido com ele a orar e a servir.

4 – Quatro anos após sua desencarnação, que legado Dr. Elzio deixou para o movimento espírita baiano?
Indubitavelmente, o maior legado de Dr. Elzio ao movimento espírita baiano foi aquele propiciado por sua atividade como diretor da Livraria Vinha de Luz, na Casa de Petitinga (FEEB). Se os livros de Yoguin, seu mentor, não são, penso, apreciados e valorizados o quanto deveriam - pois discorrem sobre problemas doutrinários a partir de ângulos inéditos no movimento espírita brasileiro - seu trabalho como divulgador de livros lançou raízes duradouras no movimento espírita baiano. Sua forma de atuação nesta área, sua visão doutrinária aliada à capacidade de selecionar obras que enriquecessem os horizontes dos frequentadores daquela livraria em vários aspectos (filosóficos, religiosos e científicos), sua incansável busca por novos lançamentos em várias línguas, possibilitaram a transformação de consciências, ampliando os horizontes intelectuais e espirituais de pelo menos duas gerações de espíritas. Se considerarmos que os beneficiados desta sua atuação se encontram dispersos por todo o estado e muitos deles são inclusive palestrantes e escritores, percebe-se o impacto obtido por sua tarefa.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Carlos Bernardo Loureiro, grande pesquisador do Espiritismo na Bahia

Filho de Antônio Loureiro de Souza e Elza Cajazeira Loureiro de Souza, Carlos Bernardo Loureiro de Souza era figura das mais conhecidas no meio espírita, principalmente por sua dedicação à pesquisa da fenomenologia espírita. Aprofundou ainda mais os seus estudos no campo a partir de 1986, no Círculo de Pesquisas Ambroise Parré, em Salvador, cidade onde nasceu em 16 de abril de 1942.
Publicou, por diferentes editoras, mais de 15 obras, dentre as quais: "Das profecias à premonição", "Dos raps à comunicação instrumental", "Espiritismo & magnetismo - de Paracelso à psicotrônica", "Obsessão e seus mistérios", "Perispírito - natureza, funções e propriedades", "As mulheres médiuns" e "Visão espírita do sono e dos sonhos".
Teve artigos publicados em jornais espíritas do Brasil e do exterior, mas uma de suas mais conhecidas contribuições à divulgação do Espiritismo está materializada no Teatro Espírita Leopoldo Machado (www.telma.org.br), o primeiro centro/teatro espírita do Brasil, sediado naquela capital e com capacidade para 700 pessoas, onde, além de peças teatrais, são realizadas palestras doutrinárias.
Possuía um currículo profissional extenso. Formado em Direito pela Universidade Federal da Bahia, em 1973 participou da elaboração, em Brasília, do Código de Direito do Trabalho, sob a responsabilidade da Comissão de Justiça da Câmara dos Deputados.
Exerceu por longo tempo a advocacia e ocupou o cargo de assessor jurídico da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (FIEB), onde trabalhou por 32 anos. Também lecionou Ética na Escola Superior de Advocacia da OAB/BA.
Na década de 70 passou a se dedicar ao jornalismo espírita, onde fundou periódicos como: Impacto, O Samaritano, Gazeta Espírita e Dimensões. Foi articulista, também, de diversos jornais espíritas do Brasil e Exterior.
Intelectual dos mais notáveis e representativos no meio espírita, dedicou mais de 40 anos às pesquisas, ao estudo incessante e a divulgação, preocupando-se em manter a Pureza Doutrinária do Espiritismo, tendo muitas vezes travado memoráveis polêmicas com detratores da Doutrina; sempre com veracidade e argumentações claras.
Procurou combater as interpretações e traduções deturpadas das obras de Kardec, inclusive aquelas que surgiram no seio do Movimento Espírita Brasileiro, sempre enfatizando a importância de estudar também as obras complementares de acurado conteúdo científico e filosófico do Espiritismo; especialmente as de Ernesto Bozzano, Gustavo Geley, Gabriel Delanne, Alexander Aksakof, Camille Flammarion e outros eminentes pesquisadores.
Idealizou e apresentou programas como: Conversando Sobre Espiritismo (veiculado na Rádio Clube AM, na década de 80) e Encontro com a Cultura Espírita (sendo este programa a sua última tribuna), exibido aos sábados pela TV Aratu (canal 4), alcançando sempre altos índices de audiência.
Dedicou 40 anos às pesquisas sobre a Obsessão e os trâmites do tratamento moral da desobsessão, tendo buscado ensinamentos com grandes espíritas como Aurelino Mota de Carvalho, Abel Mendonça e Josué Arapiraca, desenvolvendo a partir daí um método diferenciado no tratamento.
Incansável pesquisador da fenomenologia espírita, aprofundou os seus estudos de campo a partir de 1986, no Círculo de Pesquisas Ambroise Parré (Espírito que coordenou os seus trabalhos de pesquisa), quando conseguiu obter a materialização plena de espíritos e tantos outros fenômenos. Trabalhou com vários médiuns, entre os quais José Alberto Medrado, com o qual obteve a materialização do Espírito “Noiva”, na década de 80.
Publicou por diferentes editoras mais de 23 obras, enriquecendo o acervo bibliográfico e dando sua contribuição à Doutrina Espírita.
Possui, também, diversas monografias e artigos publicados (dando aos temas profundidade e sempre apoiado em bases doutrinárias fortes), que estão disponíveis no site (http://telmaorg.spaceblog.com.br/) ou na Livraria Espírita Alfredo Miguel.
Era divorciado de Lúcia Maria Farias, com quem teve dois filhos - Sandra Maria e Marcelo Adriano Farias Loureiro de Souza -, e ao desencarnar tinha como companheira Lívia Maria Borges de Almeida.
Carlos Bernardo Loureiro desencarnou no dia 10 de agosto de 2006, vítima de hepatite. O sepultamento do seu corpo ocorreu no dia 11, no Cemitério Jardim da Saudade, bairro de Brotas, em Salvador.

(Recolhido do site http://www.autoresespiritasclassicos.com)

A reencarnação e a dactiloscopia

Carlos Bernardo Loureiro

Diz a Ciência: não há uma impressão digital igual a outra. Será? Quando um fato desse é descoberto, pode ser indicativo de um caso de reencarnação?

Em 27 de maio de 1935, publico a "Gazeta do Recife" uma reportagem impressionante segundo a qual um espírita estudioso conseguiu obter duas impressões digitais idênticas. Sabe-se que é princípio assente em dactiloscopia não existirem duas impressões papilares idênticas, princípio que, neste caso, não foi derrogado, visto não se tratar de impressões de duas pessoas vivas, mas de duas pessoas que viveram em épocas diferentes.
O colecionador de impressões digitais é o Sr. João Apolinário dos Santos, técnico em dactiloscopia. De cada pessoa levava o Sr. Apolinário a impressão do polegar direito, por ter desenho básico, e, quando possível, registrava as dez impressões, dada a possibilidade de surgir alguém a quem faltasse um dedo.
Informa a "Gazeta do Recife" que, certo dia, João Apolinário, tendo visitado um amigo, o Sr. Manoel do Nascimento, pediu-lhe consentimento para realizar pesquisas dactiloscópicas com seus filhos e netos. Entre as crianças, figurava o menino José Odon, conhecido na família por Pipiu. O Sr. Apolinário começou a confrontar as impressões das crianças com as de pessoas falecidas. Foi então que descobriu perfeita igualdade entre os desenhos digitais do pequeno Pipiu e os de um velho amigo da família da criança, Pedro Guedes de Oliveira, morto havia cerca de 10 anos, em idade avançada.
Aquela extraordinária constatação evidenciava, a olhos visto, um processo palingenésico, levando-se em conta as relações de sincera amizade entre o "de cujus" e a família Nascimento. Satisfeito com sua importante descoberta, o Sr. Apolinário, no dia seguinte, foi até a residência do Sr. Manoel do Nascimento comunicar-lhe o que ocorrera, deixando em poder da família duas fichas dactiloscópicas, para que todos pudessem verificar sua igualdade absoluta.
A "Gazeta do Recife" levou o caso ao conhecimento do Instituto de Identificação de Pernambuco, que designou o técnico em dactiloscopia Estanislau Pereira de Souza, que emitiu, após acurados exames, o seguinte parecer:
"Não há dúvidas. Estou diante de um fato inédito. Há anos que examino fichas, na crença de que uma igualdade jamais seria verificada. São perfeitamente iguais os dois desenhos, apesar da diferença dos tamanhos. Ambos caracterizam por um verticilo espiralóide, com os mesmos dedos, que também se distanciam por igual número de linhas papilares. Aliás, segundo a ciência, 12 pontos bastariam para se atestar a igualdade de duas impressões. No entanto, no caso vertente, todos os pontos são perfeitamente iguais."
O jornal "Mundo Espírita", que então se editava no Rio de Janeiro, referiu-se largamente a esse mais do que sugestivo caso de reencarnação, em seu número 164, de 17 de junho de 1935.

Proteção

Francisco Muniz

Em agosto de 1998 uma explosão no interior de uma estrela a 20 mil anos-luz de distância da Terra liberou tanta energia que a radiação chegou até aqui. "Se tivesse sido mais perto, os oceanos teriam fervido e as montanhas se derreteriam", disse o astrofísico japonês Michio Kaku. 
A Humanidade, segundo cremos, ainda não terminou sua missão evolutiva na Terra, por isso está naturalmente protegida das ameaças que porventura pairem sobre ela e sobre o planeta. Tudo que venhamos a sofrer, como os desastres telúricos e as epidemias, virá sempre na medida de nossas forças, jamais como cargas insuportáveis, por uma razão bem simples: fugiria à justiça divina.
A Terra tem seus mecanismos de defesa contra os ataques provenientes do espaço, a exemplo das chuvas de meteoros: somente atingem o planeta aqueles que escapam da barreira lunar e mesmo assim são "dissolvidos" na atmosfera. Os raros meteoritos que logram atravessar esses obstáculos caem em zonas despovoadas, razão pela qual acreditamos que a proteção da Humanidade vem mesmo da Alta Espiritualidade.
Por outro lado, "tudo tem uma razão de ser e nada acontece sem a permissão de Deus", conforme nos esclarece Allan Kardec em O Livro dos Espíritos (questão 536).

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

A guerra e os sinais de evolução

Francisco Muniz

A guerra é um desses flagelos destruidores com que Deus provê o melhoramento da humanidade, através de uma seleção natural dos espíritos. Mas se perguntaria: que seleção é essa, se tanto espíritos bons quanto maus sucumbem nesses conflitos? Para responder, recorremos a O Livro dos Espíritos que, na questão 737 e seguintes, esclarece-nos quanto a esse problema. Aqueles espíritos considerados bons desencarnam em decorrência desses flagelos para adquirir mais méritos para o futuro, nas experiências no mundo espiritual. É necessário, porém, encarar tais fatos longe do ponto de vista material, posto que os julgamentos pela aparência, não raro, são falhos.
Ainda segundo O Livro dos Espíritos, a guerra se justifica pela predominância da natureza animal do homem sobre seu componente espiritual; seu propósito é tão somente a satisfação das paixões. Ms "à medida que o homem progride, ela (a guerra) se torna menos frequente, porque ele evita as causas, e quando ela se faz necessária, ele sabe adicionar-lhe humanidade". Quanto a esse ponto, observe-se que a mente belicosa dos cientistas tem se ocupado em criar equipamentos mortais cada vez mais sofisticados. Mísseis "inteligentes" foram usados na guerra civil da extinta Iugoslávia (em 1999) e um deles, programado para atingir uma ponte, destruiu também um trem de passageiros, matando mais de dez pessoas.
Entretanto, a guerra é necessária, no atual estágio evolutivo do homem, e atende aos impositivos da Providência quanto à liberdade e ao progresso da Humanidade. Liberdade, porque, confundindo-se com a paz e a superação do domínio dos fortes sobre os fracos, é sempre esse, de alguma forma, o motivo das guerras. Progresso, porque ao final desses conflitos, que são sempre processos de transformação, alcança-se o objetivo, com a consequente reflexão sobre os fatos, o que leva o homem a ponderar melhor seus atos. Há, então, um crescimento moral, espiritual, que se reflete também no aspecto material, a exemplo do que se observou no mundo após a Segunda Grande Guerra.
Sendo, então, necessária a guerra, não há culpados entre os homens nela envolvidos? Os Espíritos Superiores, que nos revelaram a Doutrina Espírita, salientam que é verdadeiramente culpado aquele que fomenta a guerra em proveito próprio. Esse, acrescentam, "necessitará de muitas existências para expiar todos os assassínios de que foi causa, porque responderá por cada homem cuja morte tenha causado, para satisfazer sua ambição". Essas palavras reforçam, pois, o ensino do Cristo, segundo quem "o escândalo é necessário, mas ai de quem escandalizar".
Mas não é construtivo ficarmos tecendo comentários, pertinentes ou não, acerca de fatos como esses, porque podemos fazer muito para superar esses conflitos, começando por transformar em nós mesmos as tendências belicosas, eliminando de uma vez por todas nossa natureza animal. Fazendo isso, estaremos colaborando para a pacificação do mundo, uma vez que todo esforço individual se multiplica. "Um mais um é sempre mais que dois", disse o poeta. Muitas pessoas, principalmente as do meio artístico, comprometidas em exaltar a paz, estão usando (em 1999) uma fita branca presa à roupa, indicando essa intenção. Quem não se afeiçoa a símbolos e rituais pode se integrar às vibrações que diversas instituições, inclusive espíritas, fazem toda noite em benefício da paz na Terra. Em tudo e por tudo, lembremo-nos sempre da oferta de Jesus: "Eu vos dou a minha paz!" e lutemos contra nossas imperfeições, e construamos esse mundo de paz com que tanto sonhamos!

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Pela obra se conhece o autor

Francisco Muniz

(Extraído da revista Visão Espírita - n. 18 - Ano 2 - 1999.)

Questão 9 de O Livro dos Espíritos: "Onde se pode ver, na causa primária, uma inteligência suprema, superior a todas as outras?", pergunta Allan Kardec à plêiade do Espírito de Verdade, obtendo a resposta que segue: "Tendes um provérbio que diz o seguinte: pela obra se conhece o autor. Pois bem: vede a obra e procurai o autor! É o orgulho do que gera a incredulidade. O homem orgulhoso nada admite acima de si, e é por isso que se considera um espírito forte. Pobre ser, que um sopro de Deus pode abater!"
Em seguida a tal resposta, o Codificador pondera nestes termos: "Julga-se o poder de uma inteligência por suas obras. Nenhum ser humano, podendo criar o que a natureza produz, a causa primária está, portanto, uma inteligência superior à humanidade. Sejam quais forem os prodígios realizados pela inteligência humana, esta inteligência tem também uma causa, e quanto maior for o que ela realizar, maior deve ser sua causa primária. É esta inteligência superior a causa primária de todas as coisas, qualquer que seja o nome pelo qual o homem a designe".
Mesmo para o entendimento limitado dos homens, nada há que supere a criação divina, que tem nos mistérios da Natureza a própria essência da divindade, isto é: as leis naturais que regulam a constante manutenção da vida. Essas leis aos poucos vão se revelando aos homens através do estudo das ciências e também da religião, que se poderia traduzir como o conhecimento dos desígnios de Deus. Assim, aos poucos o homem vai descortinando os véus que o separam das verdades eternas e, procurando descobrir-se, descobre a potência divina em si mesmo e no que o cerca. Vendo-se criatura, compreende-se co-criador e, entendendo-se parte da grandiosa obra, reconhece que, estando no todo, o todo também está nele próprio.
Onde, porém, encontrar a fonte primeira dos princípios que animam a matéria senão no motor que impulsiona os corpos celestes, conforme a explicação do sábio francês Bulliot, citado por Léon Denis em O Grande Enigma? Nessa obra, Denis, repetindo Bulliot, indaga: "De onde vem essa força centrífuga? Unicamente de um impulso primitivo, dado, de uma vez por todas, ao planeta, na origem de suas revoluções, por uma causa estranha. Esse impulso é perfeitamente análogo ao que uma criança comunica a uma pedra, fazendo-a girar por meio de uma funda. Nenhuma força natural poderia dar a explicação do fato".
E é ainda na contemplação das maravilhas da Terra, da natureza que preside ao engrandecimento espiritual do Homem, que este se encontra frente a frente com o Criador. É, pois, em homenagem a tal arrebatamento transcendente que Léon Denis dedica estas linhas, também inscritas n'O Grande Enigma: "Ó alma humana! torna a descer à Terra, recolhe-te; vira as páginas do grande livro aberto a todos os olhares; lê, nas camadas do solo em que pisas, a história da lenta formação dos mundos, a ação das forças imensas preparando o globo para a vida das sociedades. Depois, escuta. Escuta as harmonias da Natureza, os ruídos misteriosos das florestas, os ecos dos montes e dos vales, o hino que a torrente murmura no silêncio da noite. Escuta a grande voz do mar! Por toda parte retine o cântico dos seres e das coisas, a vida ruidosa, o queixume das Almas que sofrem ainda, qual se permanecessem aqui, e fazem esforços para se libertar da ganga material que as estreita".

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Formação das coisas

Francisco Muniz

(Extraído da edição 17 - Ano 2 (1999) - da revista Visão Espírita.)

Allan Kardec, na questão 7 de O Livro dos Espíritos, especula: "Poder-se-ia descobrir a causa primária da formação das coisas nas propriedades íntimas da matéria?" Os Espíritos Superiores respondem com outra pergunta: "Mas então qual seira a causa dessas propriedades? É sempre necessária uma causa primeira", dizem, levando-nos sempre ao encontro de Deus, criador de tudo que existe. É então que o Codificador pondera: "Atribuir a formação primária das coisas às propriedades íntimas da matéria seria tomar o efeito pela causa, pois as mesmas propriedades são um efeito que deve ter uma causa". Mais adiante, na questão 8, Kardec interroga a equipe do Espírito de Verdade sobre a opinião que atribui a formação primária a uma fortuita combinação da matéria, ou por outra, ao acaso. "Outro absurdo!", respondem os Espíritos Superiores, questionando, por sua vez, "qual a criatura sensata que iria considerar o acaso com o um ser inteligente? E depois, que é o acaso? Nada!"
Ora, sabendo-se que Deus existe de todo o sempre e que é a fonte de onde tudo se origina, é insensato e falsa ciência especular sobre outras causas que expliquem a existência física. Num de seus números publicados em 1998, a revista Ciência Hoje, editada pela Sociedade Brasileira para o progresso da Ciência (SBPC), tratava num artigo sobre o surgimento da vida na Terra e dizia que a reunião de condições favoráveis permitiu o aparecimento da vida no planeta. Parava por aí. O autor do artigo, um cientista identificado com as correntes de pensamento que não admitem a causalidade espiritual, no máximo especulou que aquelas condições favoráveis foram reunidas por pura sorte. Eis aí, então, uma nova definição para Deus: "pura sorte". Mas leiamos, mais uma vez, as palavras do Codificador no comentário à questão 8: "A harmonia que rege o mecanismo do universo revela combinações e desígnios determinados e, por isso mesmo, um poder inteligente. Atribuir ao acaso a formação primária seria insensatez, pois o acaso é cego e não pode produzir efeitos da inteligência. Um caso inteligente deixaria de ser acaso".
Caímos nesse erro ao querer reduzir tudo à condição material da existência, a qual o estudante do Espiritismo sabe ser transitória, ou ilusória, como dizem os filósofos orientais. De acordo com Léon Denis, um dos grandes pensadores da Doutrina Espírita, " o Universo vive e respira, animado por duas correntes poderosas: a absorção e a difusão". É assim que Deus promove a criação: "As vibrações de seu pensamento e de sua vontade, fontes primeiras de todas as forças cósmicas, movem o Universo e geram a vida". Assim, a matéria, diz Denis, é um modo, uma forma transitória da substância universal. "Ela escapa à análise e desaparece sob a objetiva dos microscópios, para se transmudar em radiações sutis. Não tem existência própria; as filosofias, que a tomam por base, repousam sobre uma aparência, uma espécie de ilusão". O próprio William Crookes, o grande metapsiquista dos primeiros tempos do Espiritismo, físico de renome mundial, já havia declarado que a matéria é "um modo do movimento" e foi a partir de suas investigações que mais tarde Roentgen chegou aos raios-X.
"Tudo se encadeia no Universo. Tudo é regulado pela lei do número, da medida, da harmonia", salienta Léon Denis, estabelecendo que "as manifestações mais elevadas de energia confinam com a inteligência". A energia, segundo Denis, "parece ser a substância única, universal. No estado compacto, ela reveste as aparências a que chamamos - matéria sólida, líquida, gasosa; sob um modo mais sutil, constitui os fenômenos de luz, calor, eletricidade, magnetismo, afinidade química. Estudando a ação da vontade, sobre os eflúvios e as irradiações, poderíamos, talvez, entrever o ponto, o vértice em que a força se torna inteligente, em que Lei se manifesta, em que o Pensamento se transforma em vida".

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Tributo a Raul Seixas

Francisco Muniz

(Matéria publicada no número 17 - Ano 2 (1999) - da revista Visão Espírita.)

Os negócios iam mal para aquele comerciante goiano no decorrer de 1995. As dívidas aumentavam, os credores não davam trégua e a falência de seu estabelecimento era iminente. A esperança em que as coisas melhorassem aos poucos se esvaía até que, tom ado de maus pensamentos, ele revolveu dar cabo da própria vida, acreditando que, assim, eliminaria seus problemas de uma vez por todas. Decidido, fez toda a preparação de seus últimos momentos: deixou bilhetes para os familiares explicando as razões de seu gesto extremo e, à maneira de uma cerimônia qualquer, carregou o revólver, depositou-o sobre a mesa, fechou as cortinas e, para que ninguém ouvisse o estampido, resolveu por uma música para tocar. Escolheu um disco aleatoriamente e ligou a vitrola. Os sons da melodia invadiram a sala, enquanto o homem se entregava a seus pensamentos destrutivos... De repente, a letra da música o tomou de assalto: "...Não diga que a vitória está perdida, pois é de batalhas que se vive a vida - tente outra vez!"
O comerciante subitamente retomou a razão e viu o absurdo que estava prestes a cometer. Prestando melhor atenção na música que tocava, reconheceu a voz e a composição de Raul Seixas, desencarnado seis anos antes, e então o homem chorou. Em meio ao pranto, os pensamentos surgiam descontrolados, mas uma coisa ele parecia ter certeza: a bondade divina certamente utilizou a mensagem de Raul Seixas para fazê-lo mudar de ideia quanto a dar fim à própria vida. Entendeu que devia isso a Deus e a Raul e que das formas de agradecer seria externar sua história à mãe do compositor baiano...

Maria Eugênia Seixas conta essa e outras histórias com a voz embargada pela emoção. São tantos os depoimentos de pessoas que têm o que contar sobre o que seu filho representou e ainda representa para elas que esta mãe, embora tenha se contentado, não se surpreendeu com a narrativa do livro Um roqueiro no Além, obra mediúnica ditada ao escritor Nelson Moraes pelo Espírito Zìlio, identificado como o compositor de "Ouro de tolo". O volume, recebido com um autógrafo de autor, transformou-se num dos livros preferidos de Maria Eugênia, que reconheceu em Zílio muitas características de seu filho Raulzito, assim chamado para se estabelecer uma diferenciação, já que o artista tinha o mesmo nome do pai e do avô. "O mais interessante é que muita coisa dita no livro nunca tinha sido publicada", disse a mãe ainda saudosa, passados dez anos da desencarnação de Raul.
Quem também se emocionou coim os relatos do Espírito Zílio foi Thildo Gama, amigo de infância de Raul Seixas e um de seus primeiros companheiros de lides musicais. Thildo, hoje presidente em Salvador de um dos muitos fã-clubes do compositor espalhado por este Brasil, diz estar convicto de que Zílio é a personalidade espiritual que revestiu a forma de Raul em sua última encarnação. Espírita nascido em berço espírita, Thildo revela que sua convicção cresceu em função de duas mensagens mediúnicas que ele recebera em junho e julho de 1997, através de um outro médium paulista. Numa delas, Raul pede que o amigo continue fazendo o trabalho de divulgação de sua obra artística. Não por acaso, essa é a atividade a que Thilde se propôs desde que abandonou o segundo grupo criado por Raul, o "Raulzito e seus Panteras", tendo publicado dois livros sobre a carreira do amigo e ídolo que já venderam 25 mil exemplares.
Na outra mensagem, segundo Thildo, Raul se dirige também á própria mãe, a quem pede desculpas por ter sido um filho tão "desastrado" a ponto de se perder no turbilhão do vício, principalmente o alcoolismo. Esse aspecto da vida de Raul é que leva Thildo a fazer uma - e apenas uma - restrição ao livro Um roqueiro no Além. Ele acha que Sílio pode ter mentido quando diz que Raul, em seus últimos dias, estava se drogando nos pés. Com a autoridade de um amigo de longas datas, Thildo afirma que Raul tinha horror a injeção e jamais tomou drogas injetáveis. Inclusive, acredita, esse medo pode ter sido uma das causas da morte de Raul, que, diabético, nem mesmo se aplicava a insulina necessária ao bom funcionamento do organismo físico.
Mas o mesmo Raul que se drogava era o Raul que combatia o vício, principalmente nos outros, conforme se recorda Maria Eugênia. Ela conta que seu filho fora procurado uma vez por um fã de Salvador, que se identificou como usuário e traficante de drogas, recebendo de Raul o conselho de trocar essa vida tão improdutiva quanto prejudicial por algo realmente útil: que ele se matriculasse numa escola e, estudando, construísse um futuro mais promissor. Os acontecimentos se sucederam na estrada do tempo e certo dia, quando se encontrava no leito de doente de seu marido, cerca de quatro anos atrás, Maria Eugênia viu entrar no quarto do Hospital Português, em Salvador, um homem negro, com os cabelos á moda rastafari. Era aquele a quem Raulzito aconselhara, a lhe dizer que realmente havia deixado as drogas e optara pelo mestudo e hoje é proprietário de uma lanchonete no centro de Salvador. Era mais um a se deixar influenciar pelas mensagens construtivas de seu filho, emociona-se.
Católica, Maria Eugênia Seixas diz acreditar que seu filho esteja plenamente adaptado à nova realidade espiritual, mas se incomoda um pouco com o comportamento dos fãs de Raul: "Às vezes, fico pensando comigo: será que essas manifestações todas que fazem para Raulzito não o perturbam, ele que está lá, quieto, sossegado, na outra vida? O pessoal fica a fazer essa euforia toda, fazendo dele um deus... eu sou contra isso, mas não posso falar, não posso divulgar isso em revistas comuns, dizer às pessoas que endeusam Raul que sou contra isso. Acho que tais manifestações têm muito de exagero capaz de perturbar o pobre do espírito que está lá, coitado, sossegado, que já deve ter, pelo tempo, pago os pecados cometidos aqui". Que pecados seriam esses? Ela explica: "Ele foi um pecador como todos nós e talvez um pouquinho mais. Ele saiu um pouco das normas de nossa sociedade atual, ele ultrapassou, fez coisas erradas, na nossa concepção, mas, para um artista... eu penso que um artista tem o espírito, a alma muito sensível, à flor da pele: qualquer coisa para ele é mais do que para nós".
Foi o livre arbítrio que fez Raul se desviar da rota, salienta Thildo Gama, acrescentando que Paulo Coelho, antigo parceiro de Raulzito, teve alguma participação nesse desvio, por tê-lo encaminhado no interesse por magia negra, sociedades herméticas etc. "Raul não soube administrar isso", diz Thildo, revelando que vem daí a crença de seu amigo na "sociedade alternativa" que deu nome a uma de suas composições mais famosas. Paulo Coelho, segundo Thildo, declararia depois que a sociedade alternativa, onde se poderia fazer tudoi que se quisesse porque tudo era "da lei" - conforme reza a letra da canção -, era uma utopia. "Mas Raul acreditou nisso até o fim e pretendia fundar uma certa Cidade da Luz em Minas Gerais", revela o amigo baiano do cantor.
Como mãe, Maria Eugênia Seixas percebia em Raul essas inquietações metafísicas e às vezes se preocupava, embora procurasse sempre respeitar o que chama de "loucuras" de seu filho. "Ele falava que cada um de nós tem um deus em seu coração e que cada um pensasse da forma que quisesse, que tudo valia, como naquela música que ele fez", diz ela, referindo-se à mesma "Sociedade alternativa". Essas ideias ainda impressionam e cativam uma legião de fãs cada vez maior, principalmente junto á camada mais jovem da população brasileira, levando Thildo Gama a acreditar que haja pelo menos um milhão de pessoas no País que consomem tudo relacionado a Raul Seixas à disposição no mercado.
Essa febre em torno do nome Raul Seixas representa, segundo o ex-músico, "a decodificação da mensagem de Raulzito".Até mesmo o senador Antonio Carlos Magalhães, presidente do Senado, declarou-se "fã ardoroso" do maluco Beleza. ACM, diz Thildo, teria se comprometido a instalar no Pelourinho um museu homenageando Raul. A efervescência cada vez mais crescente que mitifica Raul Seixas faz surgir também muito folclore envolvendo a figura do ídolo. Todo fã que se sinta mais identificado com Raul tem uma história "diferente" para contar, principalmente em função da composição "Tente outra vez", que é, segundo Thildo, uma "música de auto-ajuda" contida no mais místico dos discos de Raul, intitulado "Novo aeon".
Raul era, ainda, um filantropo, um homem que, se não inteiramente comprometido com a caridade, era capaz de gestos desprendidos em favor do próximo, como atesta Thildo Gama: "Raul era altruísta; uma vez tirou do corpo um casaco de US$800 para cobrir um mendigo numa rua de São Paulo, ante a revolta de sua mulher". PAra Raul isso não era nada, porque poderia comprar outro blusão igual ou mais caro, diz o amigo. "Agora, na Espiritualidade, ele está no caminho certo, ajudando as pessoas, assim como ajudou e ajuda, ainda, aqui na Terra, com suas mensagens", acredita Thildo Gama.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Provas da existência de Deus

Francisco Muniz

Como o anterior ("Um livro para o futuro"), este artigo também foi publicado originalmente na revista Visão Espírita (edição 15, Ano 2 - 1999), na coluna "Na mira dos Espíritos".

Questão 4 de O Livro dos Espíritos: "Onde se pode encontrar a aprova da existência de Deus?" A esta pergunta de Allan Kardec, os Espíritos Superiores indicam que essa prova está "num axioma que aplicais às vossas ciências: não há efeito sem causa. Procurai a causa de tudo o que não é obra do Homem, e vossa razão vos responderá". Em complemento à resposta da Espiritualidade, o Codificador ressalta que, "para crer em Deus, é suficiente lançar os olhos às obras da criação. O universo existe; ele tem, portanto, uma causa. Duvidar da existência de Deus seria negar que todo efeito tem uma causa, e afiançar que o nada pode fazer alguma coisa".
Com efeito, aprendemos, desde crianças, que Deus está presente em tudo, desde o vírus até a mais íngreme e elevada montanha, do grão de areia à mais distante estrela; Deus está fora, manifestando-se em todos os aspectos da natureza, quanto dentro do homem, único ser pensante que pode concebê-lo. Parafraseando Descartes, poderíamos dizer assim: "sou, logo Deus existe". Ora, uma das maiores, senão a maior prova da existência de Deus é a própria inteligência humana, como pondera Léon Denis em O Grande Enigma.Ali, Denis pondera que, se a inteligência existe no homem, deve encontrar-se nesse universo de que é parte integrante, posto que o que existe na parte deve encontrar-se no todo.
"Entretanto, a inteligência humana não é, por si só, sua própria causa. Se o homem fosse sua própria causa, poderia manter e conservar o poder da vida que está em si; mas, em verdade, esse poder, sujeito a variações, a desfalecimentos, excede da vontade humana", diz ainda Léon Denis em O Grande Enigma. Com isso o grande pensador do Espiritismo alude à grande inteligência que governa os mundos, entretendo forças vitais que movem e modificam a matéria, através de leis perfeitas e imutáveis. "Todas as pesquisas, todos os trabalhos da ciência contemporânea, concorrem para demonstrar a ação das leis naturais, que uma Lei suprema liga, abraça, para constituir a universal harmonia. Por essa lei, uma inteligência soberana se revela a razão mesma das coisas..."
Essa inteligência soberana é Deus, "Razão consciente, Unidade universal para onde convergem, ligando-se e fundindo-se, todas as relações, onde todos os seres vêm haurir a força, a luz e a vida; Ser absoluto e perfeito, fundamentalmente imutável e fonte eterna de toda a ciência, de toda a verdade, de toda a sabedoria, de todo o amor". E o mesmo Denis nos lembra que, em nossos momentos mais dolorosos, em todos os tempos e em todos os meios, nós elevamos nossas queixas a esse Espírito divino: "É a Ti, ó Potência Suprema! Qualquer que seja o nome que te deem e por mais imperfeitamente que sejas compreendida; é a ti, fonte eterna da vida, da beleza, da harmonia, que se elevam nossas aspirações, nossa confiança, nosso amor".
"A linguagem humana é,m entretanto, impotente para exprimir a ideia do Ser infinito", ressalta o autor de O Problema do Ser, do Destino e da Dor, que nos exorta: "Não procures Deus nos templos de pedra e de mármore, ó homem que o queres conhecer, e sim no templo eterno da natureza, no espetáculo dos mundos a  percorrer o infinito, nos esplendores da vida que se expande em sua superfície, na vista dos horizontes variados (...) Deus está, assim, em cada um de nós, no templo vivo da consciência. É aquele o lugar sagrado, o santuário em que se encontra a divina centelha".

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Um livro para o futuro


Francisco Muniz

Apesar do número graúdo, as 1.019 (algumas edições apresentam apenas 1.018) questões contidas em O Livro dos Espíritos não pretendem apresentar a solução de todos os problemas com que a Humanidade se debate desde muito tempo, apenas apontar suas causas e consequências, para a conscientização dos homens. O livro base da Doutrina dos Espíritos, que este mês (abril de 1999) completa 142 anos de existência, é tão somente o preâmbulo de uma obra que prossegue nos outros quatro volumes da Codificação e não se esgota em si mesma. Lúcido quanto às verdades que ajudava a descortinar, Allan Kardec sabia que apenas dava os primeiros passos na trilha gloriosa do Espiritismo, uma ciência que nos revela o outro lado da vida - o verdadeiro lado da vida, do qual a existência física é uma pálida cópia.
É um livro, assim, para todas as épocas da Humanidade. Neste abril, portanto, começamos a dar ênfase a cada uma das perguntas de Kardec respondidas pelos Espíritos Superiores, sob a égide do Espírito de Verdade, que outro não é senão o próprio Jesus, dando cumprimento às palavras pronunciadas pouco antes de perecer no sacrifício da cruz: "Se me pedirdes algo em meu nome, eu o farei. Se me amais, observareis meus mandamentos, e rogarei ao pai e ele vos dará outro Paráclito, para que convosco permaneça para sempre, o Espírito da Verdade, que o mundo não pode acolher, porque não o vê nem o conhece. Vó o conhecereis, porque permanece convosco. Não vos deixarei órfãos. Eu virei a vós." (João, 14:12-18)
As primeiras questões
Durante algum tempo Kardec ficou embatucado quanto a como iniciar O Livro dos Espíritos, até que, por inspiração, resolveu abordar o princípio das coisas, ou seja, a ideia de Deus e do infinito. Ei-las:

1. Que é Deus?
R - Deus é a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas.

2. O que se pode entender por infinito?
R - Aquilo que não tem começo nem fim: o desconhecido; todo o desconhecido é infinito.

3. Poderíamos dizer que Deus é o infinito?
R - Definição incompleta. Pobreza da linguagem dos homens, insuficiente para definir as coisas que estão além de sua inteligência.

Essa última questão mereceu de Kardec este comentário: "Deus é infinito em suas perfeições, mas o infinito é uma abstração; dizer que Deus é o infinito é tomar o atributo de uma coisa por ela mesma, definir uma coisa, ainda não conehcida, por outra que também não o é".