quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Dinheiro

Francisco Muniz
(Recolhido da revista Visão Espírita - Ano 1, n.° 12, 1999.)

O dinheiro é instrumento de elevação desde quando promova o bem-estar de quantos o necessitem. Seu mau uso, entretanto, é causa de malefícios como a miséria em que muita gente se encontra.

Fato número um - De repente alguém que só pode contar com o próprio esforço - o suor do rosto - para garantir a manutenção da família, tanto quanto de si mesmo, "acha" um monte de dinheiro e "vira" milionário. O verbo achar usado mais atrás esclarece que não se trata de dinheiro ganho com o suor do rosto, ou seja, fruto do trabalho. Quem o achou poderá estar sabendo (ou não) que vem de atividades ilícitas ou criminosas, ou mesmo ser dinheiro limpo, livre de injunções viciosas. Assim, fica a dúvida: devolvê-lo ou aproveitá-lo. Essa é a trama da novela "Pecado Capital", exibida (pela segunda vez) no início de 1999 pela Rede Globo.

Fato número dois - Há algum tempo, um telespectador do programa Espiritismo via Satélite questionou uma fala do apresentador Alamar Régis, durante entrevista com o médium baiano José Medrado. Alamar teria dito que o dinheiro deveria ser empregado em obras meritórias, não importava de onde procedesse, para estupefação do telespectador. Este, certamente influenciado pelas notícias de "lavagem" de dinheiro pelo mundo afora, entendia que o produto da desonestidade não poderia ser investido em atividades beneficentes.

Fato número três - O Brasil (só para localizarmos o problema) atravessa uma grave crise financeira a partir da desvalorização do Real frente ao Dólar, provocando o encarecimento dos preços de gêneros básicos e aumentando o desemprego a índices alarmantes. Sem dinheiro, as pessoas se desesperam e se deixam levar por sentimentos contraditórios, causadores de situações que, se enfrentadas com alguma serenidade, seriam mais facilmente assimiladas.

Esses três aspectos permitem refletir sobre a importância intrínseca do dinheiro. De acordo com a Espiritualidade que assessorou Allan Kardec, tal como mostrado em duas obras básicas da Doutrina Espírita - O Livro dos Espíritos e O Evangelho Segundo o Espiritismo -, os instrumentos do progresso humano não são bons nem maus em si mesmos, mas adquirem este ou aquele conceito em conformidade com o uso que o homem lhes dê. Assim, se usarmos o dinheiro para a promoção humana, coletivamente, ele estará sendo útil a despeito de sua origem; se, ao contrário, o usarmos egoisticamente, estaremos perpetuando as condições de miserabilidade em torno de nós e isso não é bom.
Antes de obtermos do Espiritismo a resposta para inúmeras questões que atormentam a Humanidade, costumávamos perguntar por que as riquezas não são distribuídas igualitariamente entre todas as pessoas, de maneira a se suprimir a pobreza e a exploração de uns, que muito têm, sobre outros que nada possuem. Hoje sabemos que tal "discrepância" atende aos mecanismos da divina justiça, ativados pela lei de causa e efeito, ou lei do carma, que impõe aos espíritos pagarem, "ceitil por ceitil", os débitos contraídos nas existências passadas.
No entanto, é o trato com as riquezas uma das provas mais difíceis com que o espírito se depara em suas experiências reencarnatórias. Uma das histórias do Além nos conta que dois espíritos que faliram na existência carnal cometendo suicídio confabulavam após obter abençoada oportunidade de resgate das falta através de nova reencarnação. Um deles salientara que procuraria méritos renascendo como deficiente físico e mental e indagava dou outro por que gênero de prova optara. Este, tristemente respondera: "Ah!, eu escolhi ser rico!"
Diz-se que o dinheiro não traz felicidade, porquanto é comum ver milionários insatisfeitos, enquanto pessoas muito pobres parecem gozar da vida o que há de melhor: saúde, alegria, paz de espírito, coisas que dinheiro nenhum do mundo pode comprar. Talvez porque algumas pessoas se escravizem ao dinheiro, deixando de lhe dar a utilidade necessária ao progresso de todos, porque é da lei que as riquezas devam circular, passando de mão em mão, como forma de facultar às pessoas o exercício de administração dos recursos terrenos como fiéis depositários dos tesouros divinos.
Embora houvesse uma época em que o dinheiro fosse inexistente, ele tornou-se necessário quando a Humanidade passou a progredir. O dinheiro, assim, é fruto do trabalho do homem e instrumento do progresso material. Talvez, no futuro, encontre-se uma fórmula que dispense a figura do dinheiro  nas transações entre os povos, evitando-se crises como as que o mundo enfrenta na atualidade. Mas nem mesmo as crises econômicas são produzidas pelo dinheiro e, sim, pela maneira gananciosa com que as pessoas lidam com os bens materiais.
A esse respeito, o Espírito Joanna de Ângelis ressalta, no livro Leis Morais da Vida (psicografia de Divaldo Franco), que o dinheiro, pela "aplicação que se lhe dá, torna-se agente do progresso social, do desenvolvimento técnico, do conforto físico e, às vezes, moral, ou causa de inomináveis desgraças". A benfeitora vai mais além: "Através dele irrompem o vício e a corrupção, que arrojam criaturas levianas em fundos despenhadeiros de loucura e criminalidade", desde quando incapazes de usar o dinheiro adequada e dignamente. "Sua correta aplicação impõe responsabilidade e discernimento, tornando-o fator decisivo na edificação dos alicerces das nações e estabilizando o intercâmbio entre os povos", pondera Joanna.
Segundo ela, "o dinheiro, a propriedade, a posição social relevante, a saúde, a inteligência, a mobilidade, a lucidez são bens que o espírito recebe como empréstimo divino para edificar-se e construir ventura". Assim sendo, convém sabermos usar os recursos que nos foram posto ao alcance com equilíbrio, de forma a beneficiar o possuidor e os necessitados, porque, se o sol brilha para todos e a chuva cai sobre todos, toda aquisição, portanto, deve se estender em benesses coletivas, sob pena de manter-se o concessionário nas linhas do egoísmo escravizante. Nesse ponto, Joanna de Ângelis é taxativa: "Administradores, que todos somos, transitoriamente, dos haveres, enquanto na vilegiatura carnal, seremos convocados a contas para relatórios, apresentando o que fizemos das concessões divinas que passaram pelas nossas mãos".

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