domingo, 17 de julho de 2016

O vinho bom

Francisco Muniz



“Meus amigos, agradecei a Deus o haver permitido que pudésseis gozar a luz do Espiritismo. Não é que somente os que a possuem hajam de ser salvos; é que, ajudando-vos a compreender os ensinos do Cristo, ela vos faz melhores cristãos. Esforçai-vos, pois, para que os vossos irmãos, observando-vos, sejam induzidos a reconhecer que verdadeiro espírita e verdadeiro cristão são uma só e a mesma coisa, dado que todos quantos praticam a caridade são discípulos de Jesus, sem embargo da seita a que pertençam.
(Paulo, o apóstolo, ESE, cap. XV, item 10)

Convém que primeiro eu me apresente, antes de contar minha história. Eu sou Joaquim, filho de Zacarias e moro em Caná da Galileia desde que nasci. Fui um dos garçons que serviram na festa das bodas de Samuel e Ruth, durante a qual deu-se o prodígio que nos espantou a todos. Ainda hoje não entendo o que aconteceu. Bastou a mãe daquele homem dizer-nos que fizéssemos como ele ordenasse e a festa, que praticamente havia acabado, junto com o vinho, tomou outra dimensão, recomeçando com inusitado encanto, porquanto os convidados exultaram ao experimentar o vinho novo que saía das ânforas onde antes havia apenas água. A mesma água com que aquele Jesus mandou-nos encher as talhas.
Como ele fez aquilo? Como a água se transformou em vinho? E por que jamais se provou vinho igual? – sim, pergunto isso porque também eu bebi um pouco desse vinho e afirmo que nenhum dos que provei após aquela festa apresentou qualidade ao menos parecida. Era um vinho tão bom que por mais que o bebêssemos não nos embriagávamos! Fiquei intrigado e resolvi seguir aquele homem, para de alguma forma compreender sua magia, pois só pode ter sido mágica aquela façanha. Quem era aquele homem, aquele Jesus capaz de realizar o que somente nosso pai Moisés fez, para libertar nossos antepassados da escravidão no Egito? Resolvi que eu iria descobrir. E é aqui que começa minha história, a história de um seguidor desconfiado que depois...
Bem, eu o segui, como disse, depois de me despedir de meus pais e meus irmãos, levando apenas alguns poucos suprimentos. Quando Ele e seu pequeno grupo deixaram Caná, vi que sua mãe os acompanhava e deduzi que fossem seus familiares. Concluí que estivessem voltando à não muito distante Nazaré e isto me contentou, pois não teria de andar em demasia. Mantive-me a certa distância deles, mas observei que em determinado momento um rapazinho ao lado de Jesus virou-se e apontou para mim, certamente denunciando-me. No entanto, nada aconteceu, ninguém se importou com o fato de que eu estivesse caminhando atrás deles e durante todo o trajeto até Nazaré nenhum outro olhar se virou em minha direção.
Já na pequena cidade, mantive-me nas proximidades da casa onde se refugiaram e não precisei esperar muito até que Jesus saiu, dirigindo-se à Sinagoga, levando com ele um grupo bem menor. Postei-me à porta e o vi dirigir-se ao púlpito para ler nas Escrituras os vaticínios do Profeta Isaías sobre a vinda do tão aguardado Messias, que viria libertar Israel do domínio dos conquistadores estrangeiros e dar ao nosso povo a condução do mundo, pois sabíamos ser, desde muito tempo, os escolhidos por Deus para disseminar Seu santo nome pelas eras a fora, como Ele dissera ao nosso Pai Abraão. Então Jesus leu a profecia e fechou o Livro, dizendo com toda naturalidade que naquele dia se cumpriam aquelas palavras.
Como?
Sim, do mesmo modo que eu não entendi, os homens ali presentes, os próprios concidadãos de Jesus ficaram perplexos e começaram a discutir uns com os outros até que por fim se indispuseram com o filho daquela gentil Maria, porque não aceitaram o que ouviram de seus lábios. Falavam alto, gesticulavam, com raiva e violência, apontando para aquele homem corajoso que se manteve calmo e com toda a tranquilidade do mundo passou em meio à turba exaltada, deixando a Sinagoga com seu pequeno séquito e tomando o rumo da saída de Nazaré, recebendo os impropérios e mesmo algumas pedras que atiraram contra Ele. Quando o furor se dissipou, corri para alcançar Jesus e seus seguidores, encontrando-os não muito distantes. Na verdade, andavam tão devagar que era como se me esperassem chegar.
Ele me dirigiu a palavra:
– Demoraste, Joaquim. Se queres, de fato, aprender de mim, que sou manso e humilde de coração, convém te aproximes mais um pouco. Vem conosco, para que teus olhos vejam a Verdade do Reino dos Céus e tua boca a pronuncie no momento certo.
Juntei-me, assombrado, ao grupo dos discípulos e pude assim observar o que Jesus, autonomeando-se o Filho do Homem, realizava em nome de Deus, o Deus de Isaac e Jacó que agora Ele chamava de Pai, propositalmente ignorando que para nós, desde Moisés, esse Deus era o Senhor cruel e vingativo que nos impelia ao extermínio dos inimigos de nossa raça e certamente nos faria expulsar os romanos invasores que nos escravizavam em nossas próprias terras. No entanto, Jesus pregava, em nome desse Deus-Pai, o perdão aos inimigos, que devíamos ter para com eles amor e misericórdia... e eu ainda não entendia.
Eu estava com eles no dia em que Jesus viu-se rodeado por uma grande multidão e, após ter-lhes falado palavras belíssimas do alto de um monte durante várias horas, propôs alimentar aquelas pessoas. Mas quem tinha algo para comer tinha apenas pouca coisa e então prontifiquei-me, oferecendo os dois pães que me restavam. Um dos companheiros de Jesus que era pescador apresentou-lhe três peixes cozidos e conservados para grandes viagens e foi só. Mas aquele homem enigmático aceitou aquelas oferendas e pediu-nos que juntássemos alguns cestos, nos quais ele quebrava os pães e os peixes em pedacinhos e, acreditem!, os cestos ficaram cheios e do conteúdo todo mundo comeu, ficando saciados – eram milhares de pessoas!
De outra feita, caminhava com eles quando um homem cego – de nascença, segundo disseram – foi apresentado a Jesus para que o curasse e ele visse a luz do dia pela primeira vez em sua vida. Sabem o que Ele fez? Cuspiu no chão e depois tomou a terra cuspida nas mãos, misturou-a com um dedo e aplicou a mistura sobre os olhos sem vida daquele cego, mandando-o em seguida que os abrisse. Feito isso, o cego – Bartimeu era seu nome, soube depois – sorriu e chorou, pois via tudo em volta, e assim prostrou-se aos pés de Jesus, agradecido. Quando ele se foi, levando consigo a alegria daquele momento sublime, os companheiros do Rabi – agora eu já podia chamá-lo assim! – o questionaram, perguntando se aquele homem ou seus pais haviam pecado para que ele nascesse cego. Entretanto, Jesus disse apenas que não havia pecado na história, porquanto Bartimeu tinha nascido somente para dar testemunho do Reino dos Céus.
Eu não compreendi essa explicação, mas observei, durante o tempo que caminhei ao Seu lado, que Jesus não perdia ocasião para ensinar, doando-se de boa vontade a quem o procurasse, até mesmo àqueles fariseus pomposos que não gostavam dele e o confrontavam com as tradições de nosso povo, as quais o dito Filho do Homem procurava renovar com o ensinamento do que Ele dizia ser a Verdade: “Ouvistes o que foi dito, eu porém vos digo...” Então não eram verdadeiras as lições e as leis de Moisés e dos antigos profetas de nossa gente? Mas era assim que Jesus ensinava e desejava que entendêssemos. Mas como entender o que ele dizia e fazia? Eram coisas assombrosas, pois até mesmo os mortos ele trazia de volta, como vi com meus próprios olhos em duas oportunidades!
Eu pensava nessas coisas todas, certa noite, meditando nas contradições entre os ensinos novos e antigos, bem como nos prodígios realizados por esse Jesus e naqueles narrados nas Escrituras e protagonizados por Elias e Moisés, quando o Rabi, parecendo ler meus pensamentos, aproximou-se de mim e falou:

– Ainda não compreendes, Joaquim? E, no entanto, tu bebeste daquele vinho em Caná. Aprende que foi para isto que vim ao mundo, por ordem de meu Pai, para dispensar um vinho mais saboroso a todos os homens, a fim de que despertem para o sentido da vida em razão do futuro que os aguarda como filhos bem amados de Deus. Vê bem, Joaquim: os homens vivem perdidos nas trevas da própria ignorância, pois não compreendem o que veem e o que escutam, negando a verdade diante de seus olhos pelo costume do passado. Dia virá em que maldirão terem desprezado estes momentos preciosos de minha presença junto a eles. Mas é necessário que assim seja, para que se cumpram as profecias e todos entendam, enfim, que eu venho da parte de meu Pai para oferecer mão segura àqueles que, vendo a luz do Alto, teimam em permanecer no abismo das sombras. Aprende, ainda, que eu vim trazer a água viva que dessedenta por completo, para que os homens, insaciáveis, possam por si mesmos transformá-la no vinho bom que tornará mais saborosos os relacionamentos, fortalecendo-os no poder do amor que liberta e conclama à união das almas em torno da Vontade do Altíssimo...

domingo, 3 de julho de 2016

Tudo bem?

Francisco Muniz



Então pergunto, ao pessoal da Casa Espírita:
- Vocês estão bem?
A resposta vem positiva: "Sim!"
Estimulado, volto a inquirir:
- E está tudo bem com vocês?
Novamente a confirmação: "Sim!"
É o momento de expor minha curiosidade:
- Por quê?
Sim, por qual razão nos sentimos bem e percebemos que tudo está bem conosco?
Notemos que faço duas perguntas distintas, embora muito semelhantes, posto que podemos nos sentir bem mesmo quando tudo em volta parece desmoronar.
Mas em geral as pessoas não sabem responder a esse por quê e então recordo de um mantra aproveitado por Arthur Riedel e colocado em seu livro "Hei de Vencer": "Todos os dias, sob todos os aspectos, sinto-me cada vez melhor."
Assim, quanto repito as perguntas iniciais, todos já sabem o que responder e citam o mantra, o que me deixa à vontade para interrogá-los:
- Por quê?
Novo silêncio se faz e digo que não temos motivo algum para nos sentir mal, nem ver que as coisas em volta estão desmoronando, porque estamos amparados por Deus a todo momento, recebendo continuamente Suas bênçãos - e a resposta a esse por quê passa a ser um outro mantra aprendido na Casa Espírita:
- O poder de Deus flui sobre mim!
É preciso não só compreender essa verdade, mas estarmos convencidos dela, porquanto somos filhos bem-amados do Pai Criador que nos oferece a todo instante os recursos de que nos devemos servir para socorrer misericordiosamente o próximo e assim sentirmo-nos em completo bem-estar.
"O que você quer para si mesmo faça-o primeiramente ao próximo" - ensinou-nos o Cristo.

sábado, 2 de julho de 2016

A alegria do pastor

Francisco Muniz

“Se me amais, guardai meus mandamentos. E eu rogarei ao Pai, e Ele vos dará outro Consolador, para que fique eternamente convosco.” 
(João, 14:15 a 17 e 26)


Ele se recordava... Fazia, sim, muito tempo, desde que era um rapazote e pastoreava ovelhas nas cercanias pedregosas de Belém. Vivia despreocupado então, atento unicamente ao cuidado que devia ter para com o pequeno rebanho de seu pai, do qual provinha o sustento da família. Sim, muito tempo se passou. Hoje ele tinha sua própria família: tivera mulher que lhe dera três filhos e agora também se alegrava com a companhia serena dos dois netinhos que eram a razão de sua viuvez. Deus achara por bem lhe tirar a esposa, vitimada por uma doença estranha que nem mesmo os feiticeiros conseguiram debelar, mas o premiara com o encanto do sorriso de duas lindas crianças que a todo momento o solicitavam chamando-o de “vovô”, principalmente quando queriam ouvir histórias antigas. E ele então recordava...
Naquela noite, os animais pareciam indóceis, agitados por algum motivo que ele não compreendia. Já deveriam estar dormindo, como de costume, mas algo os inquietava e, percebendo que os balidos não cessavam, ele dirigiu-se ao redil e espantou-se vendo que as ovelhas olhavam para o alto. Ele fez o mesmo e, coisa estranha!, havia no céu uma como estrela diferente das outras: seu brilho parecia escorrer na direção da terra; reparando bem, era como se ela apontasse para algum lugar na terra que era ali mesmo, em Belém. O que significaria tudo aquilo? Assim como os animais, ele também se assustara e instintivamente abriu a portinhola do cercado e as ovelhas de seu pai precipitaram-se para a frente, num movimento que o fez despertar de seu breve torpor, seguindo atrás delas, que não poderiam perder-se ou ele sofreria a fúria de seu pai.
Os animais só pararam na estrebaria do velho Joaquim, um homem bondoso que a todos tratava com gentileza. Ali, ao lado de alguns jumentos, bois e vacas, suas ovelhas reuniam-se em torno de uma das manjedouras e ele aproximou-se, curioso, tanto mais porque um homem e uma mulher se ajoelhavam ao lado de um recém-nascido que dormia placidamente no cocho improvisado como berço. Uma força inexplicável o fez ajoelhar-se também e ele orou a Deus, o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó, os pais espirituais de seu povo. Ele recordava esse episódio com a mesma emoção experimentada naquela noite e seus netinhos viam as lágrimas caírem de seus olhos e, a cada vez que isso acontecia, eles faziam a mesma pergunta:
– Vovô, você está chorando com saudade de Jesus?
“Sim”, ele respondia, acrescentando ter sido dos primeiros a testemunhar o nascimento do Messias, uma vez que, morando muito perto da estrebaria, pôde oferecer alguma colaboração aos pais do menino, Maria e o carpinteiro José, e até mesmo observou os três visitantes estrangeiros que também foram prestar homenagem ao Salvador do mundo.
– Naquela noite, meus filhos – ele voltava a confidenciar às crianças muito amadas –, a Terra inteira se iluminou quando nosso Deus derramou a expressão mais eloquente de seu amor por cada um de seus filhos rebeldes, que somos todos nós, porquanto pudemos ouvir, os que estávamos lá, vinda das esferas celestiais, a voz que até hoje ecoa não nos meus ouvidos, mas na região mais profunda de minha consciência: “Glória a Deus nas alturas e paz na Terra aos homens de boa vontade”...
– Mas por que Ele morreu, vovô? – as crianças se referiam a Jesus, sobre quem o ancião falava e que havia sido crucificado alguns anos antes.
– Não é só saudade desse bondoso Amigo, meus queridos filhos – tentava explicar o velhinho. – Choro principalmente condoído de nossa condição moral, pois fomos, aqueles de nós que O expulsamos daqui, incapazes tanto de ver a grande Luz que Ele nos trazia, compadecido, por Sua vez, de nossa cegueira espiritual, quanto de reconhecermos a mensagem de paz de que era portador, da parte do Deus infinitamente grande em seu amor pelos homens.
– E agora, vovô, o que será de nós? – voltavam a questionar os pequenos, demonstrando receio pelos dias que viriam.
– Confiemos, meus filhos, pois Jesus nos deixou a esperança ao dizer que não ficaríamos órfãos após Sua partida. Haveremos de ser consolados um dia, conforme Ele nos prometeu. E enquanto esse dia não chega para a redenção de nossas almas sofredoras, direcionemos a Deus o apelo em favor de nós mesmos e de todos os nossos irmãos, através da prece que Ele nos ensinou.
E assim, contritos, avô e netos rezaram em voz alta o “Pai nosso”, sem se aperceberem de que suas palavras, singelamente pronunciadas, ressoavam no espaço como música cariciosa que se elevava aos Céus:
– Senhor Deus, nosso Pai que estais em toda parte, seja vosso nome reverenciado em todo o Universo que criastes; que a vossa santa vontade faça-se em nós, conduzindo-nos pelos caminhos do mundo, tanto quanto nos amparando quando daqui partirmos; que o vosso Reino de amor e justiça acerque-se de nós e cresça em nossos corações ansiosos de paz; dai-nos o pão da vida e ensina-nos, Senhor, a perdoar aos homens que nos ofenderem como desejamos que Vós nos perdoeis os pecados; mas não permitais, Senhor, que novamente cedamos à tentação dos erros, para que não nos aconteça o pior. Assim seja!