quinta-feira, 6 de abril de 2017

“Eu quero!”

Francisco Muniz


“Quantos vivem na terra que algum dia, em trevas, maldirão haverem visto a luz! Ah, bem felizes sim, esses que, na expiação, foram privados da vista.”
(Vianney, cura d’Ars, ESE, cap. VIII, item 20)

Naqueles tempos, Jerusalém e a Palestina inteira, por assim dizer, regurgitavam de seres enfermos a aguardarem pacientemente o lenitivo que só o tempo lhes traria, mercê da divina Providência, uma vez que os homens versados na prática médica de então ainda não conseguiam atender a contento às especificidades de cada mazela, tornando impossível a cura de leprosos, aleijados, cegos, como os coxos e estropiados de toda sorte.
E todos lamentavam o sofrimento atroz de que se viam presas, especialmente os que padeciam da lepra, porquanto obrigados a viver longe das comunidades urbanas e de seus entes amados, para não contaminá-los com a doença que os execrava aos olhos alheios.
Dentre esses enfermos do corpo, um havia que parecia não reclamar como os demais. Ao contrário, ele se apresentava resignado e era visto muitas vezes em silêncio, a cismar possivelmente sobre as circunstâncias da vida naquelas paragens e naqueles dias difíceis para a alma humana. Era o cego Simeão.
Cego de nascença, Simeão acostumara-se a viver no escuro, mas sentia, no fundo de seu ser, que essa não era sua condição própria, pois algo no íntimo lhe dizia que ele poderia ver a luz do sol e, como tantos de seus concidadãos, alegrar-se enxergando a paisagem, as cores, a face e o riso das pessoas. Simeão sonhava com esse dia e sentia que ele não estava distante, uma vez que essa ideia lhe vibrava estranhamente no peito. E Simeão se entregava a suas meditações...
Um dia vieram lhe dizer que um novo profeta realizava curas em nome de Deus, fazendo aleijados andarem, leprosos se limparem e cegos enxergarem. Cegos enxergarem? Simeão ficou curioso: quem seria esse profeta, por onde andava , haveria a possibilidade de um encontro com ele? O coração de Simeão encheu-se de felizes expectativas. Desse informante, soube também que o profeta, a quem chamavam de Jesus, ao passo que Ele próprio se identificava como “o Filho do Homem”, numa referência simbólica ao poder supremo de Deus, costumava visitar as aldeias da Palestina falando num certo Reino dos Céus, convidando os homens a construí-lo no próprio coração, embora se demorasse mais em Jerusalém e nas cercanias do mar da Galileia, de onde provinha, tendo crescido em Nazaré.
Se era assim, haveria oportunidade de estar com esse Jesus sem precisar deslocar-se para muito longe, pensou Simeão, passando a prestar mais atenção nos acontecimentos ao seu redor, a fim de estar presente à ocasião em que sua aldeia também merecesse a providencial visita do Filho de Deus.
Não demorou muito para Simeão ouvir rumores sobre a aproximação de um ruidoso grupo de homens e mulheres e animou-se a comparecer à recepção deles na entrada da aldeia. Pediu ajuda a Zacarias, o vizinho que o havia informado quanto aos prodígios operados por Jesus, e assim ambos se juntaram à turba que aguardava a chegada do Nazareno e seus seguidores.
– Onde está ele, Zacarias, onde está esse Jesus que minh’alma aguarda desde sempre? – a voz de Simeão estava estranhamente embargada e Zacarias assustou-se:
– Ali! – disse ele apontando, esquecido de que Simeão não podia ver o que ele pretendia mostrar, mas o cego, por alguma razão, percebia a direção da voz de seu amigo e caminhou para lá. Era como se estivesse sendo atraído, mas ele não se importava por não poder resistir, porque simplesmente não o queria. Algo em seu íntimo lhe dizia para seguir em frente, que aquele era seu grande momento.
Ao chegar diante do Senhor – Simeão o sentia –, ele parou e passou a escutar. O vozerio era intenso, todos queriam algo daquele homem especial: doentes pediam-lhe um lenitivo, viúvas solicitavam consolo, pais desesperados clamavam pelos filhos escravizados ou mortos pelos romanos invasores, famintos imploravam por pão. Eram tantas as aflições que Simeão comoveu-se: poderia o Profeta resolver todos aqueles problemas, mesmo sendo ele o Filho de Deus? E envergonhou-se de sua motivação egoística. Ia retroceder, mas sentiu a vigorosa energia da mão pousada sobre seu ombro e ouviu a voz carregada de suave autoridade:
– E tu, meu amigo, que desejas de mim?
As palavras de Jesus trouxeram Simeão à realidade e ele recordou por que estava ali, mas foi ainda tomado pela compaixão que ele dirigiu-se ao Cristo:
– Senhor, não tenho o direito de pedir-Te coisa alguma, pois sinto em minha alma que vieste por outro motivo que não satisfazer as vontades de meus irmãos presos ainda a questões tão mesquinhas. Mas, se quiseres, poderás curar-me e tomar-me a teu serviço, uma vez que sinto e ouço em minha mente um chamado para algo maior que minhas meditações.  E alguma coisa me diz, Senhor, que és Tu a razão desse chamamento. Assim, se queres...
– Eu o quero, Simeão. Fica curado e segue-me, pois o Reino dos Céus é para os que recebem aqueles que meu Pai enviou e se dispõem a modificar a própria vida em função das necessidades do próximo, conquistando as alegrias celestiais. Recupera tua visão para demonstrares assim as verdades de que sou portador em nome dAquele que é todo amor, todo justiça e todo misericórdia. Abre teus olhos para a luz e mostra a teus irmãos de caminhada a trilha que conduz à Vida, para que os homens cedo despertem da cegueira em que se encontram e se libertem das cadeias da ignorância.
Simeão abriu os olhos, com efeito, e eles estavam marejados. Através das lágrimas abundantes ele via como se jamais houvesse sido privado da visão. Ele via a face serena do Cristo, as pessoas em volta implorando assistência do Senhor, e O reconhecia como aquele ser querido que o confortava em seus sonhos; via a paisagem árida de sua aldeia banhada pela luz solar; via suas mãos e seus pés e a crueza das roupas surradas que vestia. E via mais, muito mais do que seus olhos podiam mostrar: via em tudo a grandeza de Deus convidando os homens à comunhão com aquele Pai referido por Jesus, embora seus irmãos ainda não compreendessem...
Naquele momento, Simeão abraçava o compromisso com a Verdade, sendo dali por diante um sincero discípulo do Cristo.



quinta-feira, 9 de março de 2017

Nádia, ou O noivo equivocado

Francisco Muniz


“Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim que sou manso e humilde de coração, e achareis descanso para as vossas almas.”

(Mateus, 11:28 a 30)


Eliakim, o prometido de Nádia, não via com bons olhos a mudança operada no comportamento de sua amada desde que o tal profeta nazareno aparecera em Jerusalém. A moça efetivamente não era mais a mesma, agora andava arredia, cismadora, os olhos estranhamente tristes, com um brilho diferente no olhar. Que sortilégio a transformara assim? Fora ele, esse tal Jesus de Nazaré, o responsável por isso? Tinha de ser, pensava Eliakim, pois sua Nádia, com quem se casaria tão logo ele preparasse o dote dos esponsais, era uma menina doce mas dinâmica, apaixonada e apaixonante, e ele sentia-se correspondido em seus afetos. No entanto...

Nádia era, sim, simpatizante do Nazareno e não perdia oportunidade de ouvir suas belas lições, quando o podia, despreocupando-se de todo o resto. Jovem obediente aos reclamos de seus pais, sendo cumpridora de seus deveres familiares, ainda assim entendia ser muito mais importante renovar seus sentimentos e ideais com os ensinos proporcionados por aquele Jesus que ela já amava acima de tudo, vendo nele a expressão da Divindade, reconhecendo-O de fato como o Filho de Deus. Um dia, pensava, seu amado Eliakim também se entregaria a esse amor maior que o mundo, tão grande quanto inexplicável que tomava todo seu ser, e a vida a dois seria então completa.

O que ela não sabia, porém, é que seu prometido, entregue às perturbações próprias de sua personalidade insegura, seguia-a de longe e observava, à distância, como Nádia se misturava à turba de maltrapilhos que se amontoava para ouvir e ver o tal Profeta. Eliakim não compreendia como tanta gente se deixava enfeitiçar pelas estranhas palavras daquele homem que falava de um reino que não era da Terra, mas que poderia ser construído no próprio coração dos interessados. “Como?”, ele se perguntava, em meio às angústias do ciúme e da inveja, acrescidas pela irritação e pela revolta em que se consumia.

Mas as emoções desencontradas não o deixavam raciocinar e as palavras do Nazareno não penetravam sua mente a não ser para aumentar ainda mais seu desespero, uma vez que cada palavra ouvida era como uma punhalada em seu próprio peito e nessa comoção ele pensava que sua Nádia, assim como lhe acontecia, também estava enlouquecida por causa daquele homem. Era preciso fazer algo ante tal perigo e assim Eliakim elaborou um plano: primeiro, tentaria demover sua amada quanto a continuar nessa loucura; caso não lograsse êxito, recorreria até mesmo às autoridades do Templo, buscando salvar sua noiva, uma vez que os pais dela pareciam não se importar com esse fato, pois lhe diziam que Nádia, sempre ajuizada, estava mais colaborativa, muito mais responsável que antes, aparentando ter amadurecido muito nesses últimos tempos, creditando tudo isso à proximidade do casamento e não aos estranhos ensinamentos do Profeta.

Pois bem, foi com o coração oprimido por cruéis pensamentos que Eliakim afinal procurou pela noiva amada e lhe falou, com ela altercando, presa das mais angustiosas emoções, nestes termos:

– Nádia, como futuro marido teu, não admito e mesmo te proíbo que continues ouvindo as idéias loucas desse profeta insensato. Como minha prometida e, brevemente, minha esposa, terás de me obedecer!

Nádia, contudo, apresentava-se serena e firme, confundindo Eliakim:

– Já não tens esse poder, meu querido – disse ela, demonstrando profunda compaixão por seu prometido –, pois agora compreendo a Verdade e já sirvo ao Cristo com toda a força de minha alma. E tu me darias grande alegria se compartilhasses desses santos ideais, já que tocaste neste assunto, que vejo ser unicamente da esfera pessoal de cada um. Lamento que estejas tão contrariado, mas se compreenderes do que se trata estar com Jesus, que me ensina a amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a mim mesma, certamente mudarias de idéia e, juntos, seríamos felizes em nossa união futura...

Eliakim não a deixou terminar, bradando raivoso:

– Nunca, Nádia! Não posso dividir-te com outro homem nem por pensamento! Tu és minha. Minha! Não participarei dessa loucura! Estás enfeitiçada por esse profeta que perturba nossa gente e desagrada aos nossos maiores! Ele te desgraçou! Eu te ordeno que te apartes dele o quanto antes!

Porém a moça mantinha-se serena e seu olhar tranquilo transtornava ainda mais o espírito inquieto de seu noivo, que num ímpeto violento distende os braços na direção do pescoço da moça. Seus olhos injetados deixavam transparecer um brilho estranho que lhe modificava as feições e seu rosto, então, era um misto de horror e desespero a inspirar medo e pavor. Nádia, no entanto, com sua serenidade impassível deteve-o no gesto impensado, com sua voz firme e carregada de potente magnetismo:

– Pelo Cristo, nosso Senhor, não te atrevas!

Aquelas palavras paralisaram Eliakim e suas intenções. Num gesto brusco, ele liberta-se da constrição que o retivera por um segundo e foge pelas ruelas daquela parte de Jerusalém e some na noite, enquanto Nádia, envolta em pranto, retorna à casa de seus pais.

Mas naquela noite mesmo o noivo tresvariado correu na direção do Templo, onde buscou entrevistar-se com o Sumo Sacerdote, oferecendo-se para facilitar a prisão do tal Jesus, pois sabia onde encontrá-lo. O homem poderoso à frente, contudo, disparou uma gargalhada que desconcertou Eliakim:

– Tolo! – disse ele – Tu chegas muito tarde. Já entramos em combinação com um dos seguidores desse Jesus e esta noite mesmo ele estará em nossas mãos. Vai-te!

Expulso do Templo, Eliakim deixa-se ficar nas cercanias e logo observa o movimento dos soldados que trazem o Profeta preso, que a partir daquele momento experimentaria a sanha dos homens maus e ofereceria a própria vida em sacrifício para a redenção da Humanidade.

Quanto a Nádia, ela acompanha os acontecimentos que se desdobram após a prisão do Mestre e presencia, destemida, sua morte infamante na cruz, assim como estaria, mais tarde, entre as mulheres que no terceiro dia após a crucificação foram ao sepulcro e exultaram com a notícia da ressurreição do Senhor. Nascia ali, em seu coração, a certeza quanto às palavras ouvidas de seu Mestre tão querido, pois não era somente a consolação que Ele trazia ao mundo, aos homens que se dispusessem a ouvi-lo. Era, sobretudo, a informação verdadeira acerca do Reino nos Céus, o reino de Deus que se instala na alma daquele que escuta e realmente ouve, que vê e verdadeiramente enxerga a Realidade do Espírito imortal. Nascia no coração de Nádia, portanto, seu compromisso com o Cristo, um compromisso do qual ela não se desviaria jamais e no qual incluía seu amado Eliakim, a quem, sabia no íntimo de seu ser, estava ligada pelos imponderáveis laços do amor e resgataria, um dia, dos braços da impenitência para enfim libarem a felicidade a dois, em nome daquele que é, para sempre, o Caminho, a Verdade e a Vida...