sexta-feira, 4 de agosto de 2017

O caderno de Deus

Francisco Muniz (por inspiração)



Eu ainda estava com os olhos fechados, no início do dia, mas já não dormia. Fiquei na cama, concentrado, ouvindo as conversas que normalmente se ouve nesses momentos de entressono, e entre elas distingui um relato que me chegou certamente por inspiração, falando nestes termos:

Depois que sua esposa muito amada ficou doente e tiveram a recorrer à cooperação fraterna de alguns amigos para custear as despesas médicas, certo homem combinou com a querida companheira, tão logo ela recuperou-se da enfermidade, não mais incomodarem seus bondosos amigos por conta de dinheiro. E para garantirem que teriam sucesso nessa tarefa, decidiram tomar uma providência muito simples mas eficaz: adquiriram um caderno, desses comuns, e puseram na capa esta inscrição: "Caderno de Deus".
Segundo o acordo mútuo, nesse caderno eles colocariam, entre as folhas, uma cédula de qualquer valor pensando em cobrir quaisquer despesas futuras, desde que correspondessem de fato a uma necessidade. No entanto, ele era um homem dedicado ao trabalho e ainda que ganhasse um salário modesto ocasionalmente deixava uma cédula, por menor que fosse o valor, guardada entre as folhas do caderno. Vez por outra ela recorria ao "Caderno de Deus" para retirar algum dinheiro para pagar pela substituição do botijão de gás que acabou sem aviso prévio, mas em geral nenhum dos dois tocava no caderno a não ser para incluir uma nota entre as folhas do caderno.
Com o passar do tempo, o Caderno de Deus foi sendo esquecido, pois o homem, com seu trabalho, não deixava nada faltar em casa, de modo que o dinheiro, ou sua exiguidade, deixou de ser um problema naquela casa. O caderno só era mesmo lembrado quando havia uma cédula para ser também "esquecida" ali. Principalmente, a saúde da esposa estava em ordem e as preocupações diziam respeito apenas aos pequenos detalhes da vida em comum.
Um dia, porém, um imprevisto veio modificar a rotina e a tranquilidade do lar, na forma da indesejada visita da morte: sem aviso prévio, o coração daquele homem parou de bater, abrindo portas para a tristeza e a desesperação. E eis que os amigos compareceram, trazendo o consolo e a participação nas providências para o funeral, comprometendo-se a arcar com as despesas correspondentes. Mas ela se lembra do antigo acordo e busca pelo "Caderno de Deus"; ao manuseá-lo, nota o quanto o caderno havia engordado durante os anos em que fora alimentado com as cédulas e quando, por fim, a viúva faz o balanço daquela poupança feita com tanto carinho, descobre que o valor encontrado supria o custo do velório e do sepultamento.
"E o mais?", quiseram saber os amigos, sempre solícitos.
"Quanto a tudo mais", disse ela, esperançosa e confiante, "Deus sempre ajuda!".

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