segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Campos mórficos e o mundo espiritual

João da Silva Carvalho Neto
(publicado originalmente na revista Visão Espírita n. 18 - Ano 2 - 1999)

Desde a segunda metade do século XIX, com o advendo do Espiritismo e das pesquisas da metapsíquica, da parapsicologia, da psicotrônica, que a ciência acadêmica, dita oficial, vem buscando refutar a tese da existência do "mundo espiritual" e de suas possíveis relações com o "mundo material". Quase sempre com uma vvisão preconceituosa e pouco afim com a metodologia científica, pesquisadores empreenderam exaustivas experiências que jamais puderam referendar a proposta organicista materialista. Como o tempo caminha inexoravelmente, deixando as marcas da renovação que pressagiam novas conquistas, podemos, agora, sentir a suave brisa da verdade que se descortina perante a incredulidade humana.
Em 1926, o cientista alemão Werner Heisenberg elabora o "Princípio da Incerteza", marcando irrevogavelmente a forma de percepção do mundo, ao determinar o fim de um modelo de universo determinístico, nos moldes de Laplace. Com base nesse princípio, reformulou-se a mecânica de Newton para o surgimento da mecânica quântica, introduzindo o elemento da imprevisibilidade às experiências que descrevem o universo. Ou seja, foi observado que a medição da velocidade e da posição de partículas subatômicas em sistemas semelhantes, iniciados da mesma maneira, não apresentavam um único resultado, mas uma diversidade de resultados possíveis e incapazes de ser especificados por sistema.
Tentando-se explicar esses fenômenos, surgiu a hipótese da existência de um domínio diretor, imanente à estrutura atômica, organizando-a e dando-lhe individualidade comportamental. Esse domínio não estaria presenta apenas nas subpartículas do átomo, mas na conjunção desses átomos ao formar moléculas, células, tecidos e os organismos complexos, caracterizando-se cada um com seu domínio diretor específico e individualizado.
Na edição de fevereiro de 1999 da revista Galileu, da Editora Globo, encontramos excelente entrevista com o biólogo inglês Rupert Sheldrake, da Universidade de Cambridge, que fala de sua tese sobre os campos mórficos e a ressonância mórfica. Sheldrake, autor de vários livros, conceitua campos mórficos como "estruturas que se estendem no espaço-tempo e moldam a forma e o comportamento de todos os sistemas do mundo material". À capacidade que esses campos possuem de "distribuírem-se imperceptivelmente pelo espaço-tempo, conectando todos os sistemas individuais que a eles estão associados", chama de ressonância mórfica.
Em uma proposta que vem revolucionando o pensamento científico contemporâneo, Sheldrake justifica a distribuição das células pelo modelo organizador dos campos mórficos. Diz ele que "a maneira como as proteínas se distribuem dentro das células, as células dentro dos tecidos, os tecidos nos órgãos e os órgãos nos organismos não está programada no código genético. Dadosos genes corretos, e portanto as proteínas adequadas, supõe-se que o organismo, de alguma maniera, se monte automaticamente. Isso é mais ou menos o mesmo que enviar, na ocasião certa, os materiais corretos para um local de construção e esperar que a casa se construa espontaneamente".
Por outro lado, a ressonância mórfica explicaria a evolução do ser humano, que se dá individual e coletivamente ao longo dos milênios. Conquistas adquiridas pelas gerações passadas vão sendo incorporadas ao patrimônio psíquico das ferações futuras, nos moldes dos arquétipos coletivos idealizados por Jung. Divagando um pouco na excitação de nossas expectativas, lembramo-nos das questões 84 e 85 de O Livro dos Espíritos:
84 - Os Espíritos constituem um mundo à parte, além daquele que vemos?
- Sim, o mundo dos Esspíritos ou das inteligências incorpóreas.
85 - Qual dos dois, o mundo espírita ou o mundo corpóreo, é o principal na ordem das coisas?
- O mundo espírita; ele preexiste e sobrevive a tudo.
Parece que as lutas e difamações sofridas pelos pioneiros da divulgação espírita, nos tempos difíceis de perseguições políticas e religiosas, valeram a pena. No ano de 1861, o bispo de Barcelona determinou, pelo Santo Ofício, fossem queimados mais de 300 livros espíritas, usando como argumento que "a Igreja Católica é universal e, estes livros sendo contrários à fé católica, o governo não pode consentir que sirvam a perverter a moral e a religião dos outros países".(1)
Os homens passam pela exigência da morte física, os dogmas caem sob o guante das pesquisas científicas, e as luzes do amanhã prenunciam um período de maior sabedoria. Coube ao Espiritismo descortinar esse tempo, derrubando as barreiras dos preconceitos religiosos e científicos. Cabe ainda ao Espiritismo demonstrar, com clareza, as implicações filosóficas e religiosas que as novas descobertas trarão no rumo de um futuro mais feliz para a humanidade.

(1) Moreil, André; Vida e obra de Allan Kardec, 1a. edição, Edicel, 1986, São Paulo.



sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Universidade investiga o método de Kardec

Uma defesa de mestrado realizada pelo historiador Marcelo Gulão Pimentel levou para o Programa de Pós-Graduação em Saúde Brasileira da Universidade Federal de Juiz de Fora, MG, um tema de interesse para espíritas e não espíritas, ao apresentar na academia o método utilizado por Allan Kardec para a investigação dos fenômenos mediúnicos.
A questão é de suma importância, porque toca em um dos pontos mais debatidos pelos céticos e pelos cientistas materialistas que não consideram o espiritismo ciência, muitas vezes pela falta de estudo e entendimento do método que Kardec buscou desenvolver para obter informações úteis e confiáveis sobre a dimensão espiritual do universo.
A tese teve orientação do professor dr. Alexander Moreira-Almeida e coorientação do professor dr. Klaus Chaves Alberto, respectivamente, coordenador geral e coordenador da área de ciências humanas do Núcleo de Pesquisa em Espiritualidade e Saúde, que funciona na mesma universidade desde 2006. 
Participaram da banca examinadora o professor dr. Silvio Seno Chibeni, da Universidade Estadual de Campinas, e o professor dr. Gustavo Arja Castañon, da Universidade Federal de Juiz de Fora.
Marcelo Pimentel concentrou sua pesquisa na leitura e análise de toda obra publicada por Kardec: seus livros e os doze volumes da Revue Spirite: Journal d'Études Psychologiques. 
Foram também obtidos e analisados documentos originais inéditos de Kardec, em viagem de pesquisa por um mês na França com o financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais.

Como você analisa a importância de Kardec como pesquisador?
Allan Kardec foi importante, porque desenvolveu pesquisas pioneiras sobre os fenômenos mediúnicos. Ele propôs uma abordagem abrangente das manifestações mediúnicas que ocorriam na metade do século 19. Kardec buscou analisar as principais teorias a respeito do tema e concluiu que a hipótese da existência dos espíritos era aquela que melhor explicava o conjunto dos fenômenos observados.

Em que o método de Kardec se diferencia?
Kardec foi além dos demais pesquisadores, utilizando os médiuns como modo de acesso direto a dados empíricos a respeito do mundo espiritual. Para ele, o mundo relatado pelos espíritos não era metafísico, e sim uma parte do mundo natural ainda pouco explorado. Em diversas passagens da obra de Kardec podemos vê-lo comparando o mundo espiritual com o mundo microscópico. Algumas vezes ele fazia a analogia do médium como um microscópio do mundo espiritual.
Kardec também se diferenciava pela busca ativa por informações a respeito dos princípios que integraram o espiritismo. Ele procurava ampliar sua base de dados empíricos utilizando diversos médiuns, muitas vezes desconhecidos uns dos outros. Enfatizava a descrição e a interpretação do conteúdo das mensagens obtidas durante o transe mediúnico, comparando semelhanças e diferenças entre elas em busca de informações úteis que pudessem integrar sua teoria.
Kardec dava uma grande ênfase na análise do conteúdo das informações, sendo menos relevante a autoria das mensagens. No decorrer de sua pesquisa, contou com um número cada vez maior de correspondentes que foi de grande importância para a multiplicação dos relatos mediúnicos com os quais ele criou, desenvolveu e reformulou os seus princípios acerca do mundo espiritual.
A Revista Espírita foi um espaço destacado de debates com os seus correspondentes, contribuindo para o amadurecimento das ideias a respeito do espiritismo. Pesquisador ativo, Kardec também se utilizava de casos históricos acerca dos fenômenos mediúnicos e também de pesquisas de campo, visitando médiuns e locais onde as manifestações espirituais se davam. Do conjunto de informações obtidas, ele desenvolveu a teoria espírita.

Quais as contribuições que uma melhor compreensão da metodologia do espiritismo pode trazer à ciência?

Pode contribuir para o debate acadêmico acerca dos fenômenos anômalos que envolvem experiências conhecidas como espirituais, psíquicas ou mediúnicas. Investigações históricas não só do método de Allan Kardec, mas também de outros pesquisadores que conduziram pesquisas sobre o tema poderiam retomar teorias e metodologias fomentadoras de novas abordagens empíricas, bem como tornar mais bem conhecida uma longa tradição de investigações no campo da mediunidade.
No nosso grupo temos um doutorando, Alexandre Sech Júnior, que está investigando outro pioneiro, William James. Há um crescente interesse no meio acadêmico sobre as relações entre espiritualidade e ciência.

Por quê?
Cada vez mais tem surgido em diversas partes do mundo estudos sobre os impactos positivos da espiritualidade na saúde do ser humano e as suas implicações em diversos ramos da sociedade.

Em sua dissertação, você defende o caráter progressivo da pesquisa de Kardec. Por que isso aconteceu?
Kardec via o espiritismo como uma ciência, portanto passível de ser aprimorada e modificada.
Em um primeiro momento, contava com um número restrito de médiuns (cerca de dez), contudo, à medida que esse número foi ampliado, devido à repercussão de sua obra em diversas regiões do mundo, ele passou a recolher uma base maior de dados, o que permitiu o aprofundamento de aspectos de sua teoria.
É o que se pode perceber com a leitura do 'Ensaio teórico das sensações dos espíritos', publicado na segunda edição de O livro dos espíritos. O ensaio é resultado de uma pesquisa que pode ser acompanhada desde a primeira edição de O livro dos espíritos, passando pelas edições da Revista Espírita de 1858 até o mês de dezembro, quando Kardec publica o artigo 'Sensações dos espíritos' em que apresenta suas primeiras conclusões sobre o tema. Este artigo ainda recebe algumas modificações baseadas na análise das informações dadas pelos médiuns entre 1859 e 1860 até a sua publicação na segunda edição de O livro dos espíritos, em 1860.

Você acredita ser necessário retomar os estudos sobre os aspectos históricos e filosóficos das pesquisas científicas sobre as relações entre espiritualidade e saúde?
Sim. Os estudos atuais nesse campo têm tido uma grande repercussão no meio acadêmico e na sociedade em geral. Contudo, pouco se sabe sobre a história dessas pesquisas. Estudos que busquem investigar suas tradições podem fortalecer essa área academicamente e fomentar novos trabalhos.

E na área da metodologia científica, isso poderia provocar uma revisão de teorias?
Como historiador, é difícil medir o impacto desse estudo na área de metodologia científica. Em seus aspectos históricos, acredito que sim. Apesar da repercussão que o espiritismo teve entre pesquisadores renomados da Europa na segunda metade do século 19, e na história da saúde mental no Brasil, o método de Allan Kardec é pouco conhecido. Acredito que com mais discussões e estudos acadêmicos sobre Kardec e seu método de investigação a academia possa inseri-lo como um dos pioneiros das pesquisas psíquicas, em especial, da mediunidade. O espiritismo não foi suficientemente explorado em seu aspecto metodológico de investigação. Além disso, Kardec não buscou apresentar seus estudos sobre espiritismo no ambiente acadêmico.

Uma poesia carregada de sentido e sentimento

(Por Pedro Camilo)


Alfred de Musset (1810-1857) foi considerado o "maior poeta da França" do seu tempo. Denso, romântico, boêmio e amante inveterado, seus versos são grandemente marcados pelas desilusões sofridas, sobretudo pela frustração do romance vivido com George Sand, com quem viveu um romance apaixonado e cheio de decepções.
Foi poeta festejado em seu tempo, mesmo em terras brasileiras. Castro Alves chegou a traduzi-lo e, por certo, nele se inspirou para suas aventuras poéticas.
Abaixo, apresento um dos últimos escritos dele, já no ano de seu decesso, 1857, em tradução minha, livre.


ÚLTIMOS VERSOS

A hora de morrer, depois de tantos meses
Por todos os lados soa em meus ouvidos
Depois de tantos meses pelo tempo combalido
É tudo o que sinto, é tudo o que vejo

Quanto mais luto contra minha desdita
Mais se aviva em mim o instinto do sofrer
E quando desejo pisar o chão, correr
Sinto parar no peito um coração que se agita

A coragem de lutar já se desgasta, se esvai
Então, tudo em meu descanso é combate
E como um corcel quebrado, meu corpo se debate,
Minha coragem cambaleia e cai.

(1857)

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Tens sede?

Irmã Rafaela

O deserto de tua alma encontra refrigério no oásis do amor do Cristo, onde as criaturas sedentas obtêm a água viva que se derrama sobre os corações de boa vontade, para que nunca mais tenham sede.
Mas que é a secura em que vives? Não será ela um indicativo de que deves ir à fonte? O mundo não te pode ajudar nesse procedimento, pois o que o mundo te faz é exigir que te entregues a ele irrefletidamente; mas como tal comportamento termina por cansar, faz-se necessário lembrares-te de Deus e nesse momento o Cristo se te apresenta, como o Amigo que nunca falta, posto que nunca te abandonou - tu é que te havias desviado da senda libertadora.
Reclama para ti a presença desse Amigo e, mais que isso, faze-te presença permanente junto a Ele, como forma de perceberes e receberes os benefícios da Divina Misericórdia, aplacando tua sede.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Madame Allan Kardec

Revista Reformador de fevereiro de 1983 - Homenagem ao Centenário de desencarnação de Amélie-Gabrielle Boudet -, republicado na edição de janeiro de 2003.

Catorze anos depois do decesso de H. L. D. Rivail (Allan Kardec), retornava ao Mundo dos Espíritos, não sem antes lutar denodadamente, com significativa desenvoltura e tirocínio na orientação e administração dos interesses espirituais da Doutrina, quando da inicial consolidação do Movimento Espírita, no Planeta, Amélie-Gabrielle Boudet, a viúva Allan Kardec.
Aos 31 de março de 1869, ao desencarnar subitamente, Allan Kardec parecia ter deixado um vazio no coração dos espíritas, como se tivera - além de todos os dons e virtudes que lhe ornavam o caráter de Missionário da Terceira Revelação - igualmente a marca da insubstituibilidade na fulgurante aura de luz que o identificava.
Passados, porém, os dias de impacto que se seguiram à ruptura de um aneurisma de aorta, eis que as coisas começam a retornar à normalidade habitual, embora se registrasse uma grande ausência. Mas, principiando nova tarefa missionária - que os olhos humanos nem sempre notavam - ali, diante do patrimônio - sobretudo moral e espiritual - transmitido pelo Mestre de Lyon, para todos os seres e todos os tempos, à frente da atividade humana e terrestre do Cnsolador Prometido por Jesus, velava e esmerava-se a sublime figura de Amélie Boudet.
Foi ela quem tudo proveu e invariavelmente conduziu, com rara lucidez e pertinácia, na fase duríssima das hostilidades e processos, das acusações e escândalos que a Treva promove no mundo contra o apostolado do Bem. Discípulos do Codificador quais Leymarie e Crouzet, afora outros, assessoravam a admirável Madame Kardec e dela recebiam aa tranquila palavra de ordem, para os cometimentos kardequianos durante os anos de provas e testemunhos que a história registrou.
Coroando seus cabelos brancos, aos 87 anos (1795-1883) chegou-lhe no frio inverno europeu, naquele 21 de janeiro, o diadema da vitória e glória dos justos e abnegados servidores do Cristo de Deus no sopro suave de pacífica desencarnação.
Com a volta de Amélie Boudet à vida do Infinito, teve início a transferência para estas terras da Árvore do Espiritismo, como previsto por Ismael, o Legado do Senhor, no Brasil, e isso nçao aconteceu senão através da iniciativa de Augusto Elias da Silva, que, com poucas horas de diferença, no mesmo dia 21 distribuía a primeira edição de Reformador.
Homenageamos, em espírito e verdade, Amélie Boudet a generosa individualidade do Cristianismo Redivivo, no Ano do Centenário de conclusão de sua grandiosa missão, suplicando para ela as mais sublimes bênçãos de maria de Nazaré, a Mãe Santíssima.

No caminho...

Irmã Rafaela

Marca, meu filho, a suavidade deste dia com a prece de agradecimento a Deus, tornando teu coração receptivo às renovadas bênçãos que te chegam pela oportunidade do serviço abnegado em favor de teus irmãos. A luz que do Alto te acompanha e te faz perceber as doces emanações da Providência estimula-te a prosseguir no caminho, certo de que tuas realizações são precedidas pelo amparo incessante com que os Emissários divinos te favorecem, mercê do esforço do Cristo em prol de seus servidores atentos.
Busca doares-te um pouco mais, sem cansaço, porquanto a ação benfazeja conduz-nos todos a mais remecimentos sob o olhar compassivo de nosso Pai amoroso. Segue em frente perseverando na luta pelo próprio esclarecimento e ajudando a quem ainda necessita por debater-se nas vascas da própria ignorância. O Cristo nos chama a conhecer a Verdade que liberta, sendo ela mesma a luz que vem afastar nossas trevas íntimas, fazendo brilhar nossa essência espiritual.
Eis aí o processo de nossa divinização, ou melhor, de nossa unificação com a própria dimensão de Deus, representando nosso imprescindível renascimento para a condição em que fomos criados. Sim, somos seres espirituais por excelência e, quando na carne, temos a percepção mais reduzida, perdendo de vista a verdadeira realidade. E para não nos demorarmos tanto nessa momentânea cegueira é que o Cristo veio até nós, convidando-nos ao esclarecimento e à vivência da Lei de Amor, a fim de, despertos para a luz da Verdade, sejamos úteis na obra de regeneração que começa em nós mesmos.
Assim, agradeçamos a Deus e ao Amigo de todas as horas esta oportunidade de servirmos na nobre Causa e o Criador nos cumulará com suas bênçãos, para trabalharmos em paz e com alegria.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

À guisa de esclarecimento

Francisco Muniz

Convém recordarmos sempre, em meio ao aprendizado espírita, as judiciosas ponderações de Allan Kardec acerca da diferença entre a Doutrina Espírita e as práticas mediúnicas. Não basta, segundo o Codificador, travarmos contato com os Espíritos para nos considerarmos espíritas. Espírita, na perfeita acepção do termo, é o estudante da Doutrina e, mais ainda, aquele que, em decorrência desse estudo, faz esforços em prol de sua transformação moral. Ora, médium todos o somos e os praticantes da mediunidade são incontáveis neste planeta. Serão todos espíritas? Não é possível que o sejam.
Após 150 anos de presença da Revelação Espírita na Terra, nem todos os homens tiveram notícia do ensinamento dos Espíritos, malgrado seu caráter universal, tanto quanto muitos ainda desconhecem as lições do Cristo Jesus. Mas, mesmo que seja urgente a tarefa de divulgação das verdades divinas contidas na Codificação Espírita, aqui também a pressa é inimiga da perfeição. Ademais, como frisa Humberto de Campos nos relatos evangélicos de "Boa Nova", transmitido por intermédio do lápis bendito de Chico Xavier, nossa causa não é a do número.
Não nos deve interessar o fazer prosélitos, mas auxiliar na obra da Criação através do esclarecimento dos irmãos nos quais não se acendeu no íntimo a luz do conhecimento sobre a realidade espiritual. Uma vez feito esse trabalho, os irmãos ainda ignorantes de si mesmos despertarão por si sós, conscientemente, e, praza aos céus, cerrarão fileira conosco.

Chico Xavier - mediunidade com Jesus e Kardec

Editorial da revista Reformador - órgão divulgador da Federação Espírita Brasileira (FEB) - abril de 2010 [Ano 128 - Nº. 2.173]

A mediunidade, faculdade que possibilita ao homem comunicar-se com os espíritos desencarnados, existe desde que o ser humano se encontra na Terra, tendo sido sempre instrumento da Providência Divina para a evolução da Humanidade.
A caridade, conforme a entende Jesus, ou seja, "benevolência para com todos, indulgência para as imperfeições dos outros, perdão das ofensas" (1), é, para o homem, a expressão mais elevada da Lei de Amor que emana de Deus.
A Doutrina Espírita, revelada pelos Espíritos, inserida nas obras básicas de Allan Kardec, a qual se constitui no Consolador prometido por Jesus, trouxe-nos a clara compreensão de que somos Espíritos imortais em constante processo de evolução, através de múltiplas encarnações, e que existem as leis morais regendo a nossa vida, cabendo-nos respeitá-las, em nosso próprio interesse.
Francisco Cândido Xavier, seguindo disciplinadamente os princípios da Doutrina Espírita, os quais possibilitam melhor compreensão do Evangelho de Jesus, demonstrou a todos nós que estes princípios não são apenas os mais nobres e elevados que se encontram ao alcance de todos os homens, mas, também, que é perfeitamente possível colocá-los em prática com fidelidade, sem desvios ou distorções.
Pondo a mediunidade a serviço do Evangelho, Chico Xavier possibilitou uma compreensão mais aprofundada dos ensinos que a Doutrina Espírita nos apresenta, e, tendo por diretriz de vida a prática fiel da caridade, tal como Jesus a ensinou e exemplificou, deixou um roteiro de vida que, se seguido, permitirá que saiamos, gradativa e seguramente, da faixa dos Espíritos, encarnados ou desencarnados, que vivem no círculo vicioso da dor e do engano, na faixa dos Espíritos que, pela dedicação ao bem, começam a construir uma paz interior decorrente da tranquilidade de consciência, por se esforçarem na vivência da Lei de Amor que emana do Criador e rege a nossa existência.
Sabemos, com a Doutrina Espírita, que Jesus é o Guia e Modelo da Humanidade. Agora temos, também, mais próximo de nós, o exemplo de Chico Xavier, que orienta, motiva e serve de referência para o exercício na prática do bem, que nos cabe realizar.

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(1) KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Trad. Guillon Ribeiro, 91. ed. 1. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2008. Q. 886.