domingo, 29 de novembro de 2015

Em busca da Verdade

Francisco Muniz




Um certo “koan” zen-budista narra que determinado homem, disposto a alcançar a iluminação de si mesmo, retirara-se para o alto de uma montanha e ali se dispunha a meditar, longe de tudo e de todos. O tempo foi passando e uma certa fama foi se formando e crescendo em redor desse homem. Um dia, alguém resolveu também atingir a iluminação e subiu aquela montanha desejoso de aprender com aquele homem que a fama tornara sábio.  Chegando lá, esse alguém encontrou o eremita sentado na posição de lótus, meditando de olhos fechados. Assim, sentou-se em frente a ele e aguardou que o sábio despertasse. Quando isto enfim aconteceu, o eremita pôs-se a fixar seus olhos no recém-chegado, sem nada dizer. O outro, igualmente, manteve-se em silêncio durante algum tempo até que manifestou o cansaço da impaciência e questionou:
- Então, quando é que você vai começar a me ensinar?
O eremita, nesse momento, abriu a boca e declarou:
- Eu pensei que você tivesse vindo me ensinar!



E
ssa historinha é bem representativa da dificuldade que o homem encontra em sua busca pelo conhecimento da Verdade, sendo a verdade aquilo que nos esclarece acerca de nós mesmos – daí a necessidade de se atingir a iluminação -, mostrando nossa natureza mais intrínseca, nossas origens, nossa destinação, a razão das circunstâncias felizes ou perturbadoras que enfrentamos, bem como os meios de superarmos os obstáculos, garantindo nossa perfeita felicidade, se possível vencendo o que se nos apresenta como o maior dos percalços, porquanto inevitável: a morte.
É certo que durante muito tempo essas questões tiraram e ainda tiram o sono de muita gente, e a despeito dos esforços dos filósofos, dos profetas da Antiguidade, dos gurus do Oriente e dos homens sábios de todas as cultura – muitas delas já sepultadas -, quase ninguém, isto é, bem pouca gente, na vasta floresta humana, se dispõe a mergulhar fundo nas orientações de um certo Mestre que há distantes dois mil anos proclamou ser ele mesmo a Verdade que tanto buscamos.
Será que são recebidas como presunçosas suas palavras – “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida...”? O fato é que as pessoas simples que desde o início têm ouvido a voz do Filho do Carpinteiro são vistas com reservas pelos homens “sábios e prudentes” do mundo, ainda semelhantes àqueles referidos por Jesus no Evangelho e sobre os quais deu graças ao Pai por revelar essas verdades aos pequeninos em vez de àqueloutros.
Percebe-se assim que a verdade é de fácil compreensão quando aceita com simplicidade, na pureza dos corações, e somente dessa forma é que ela será conhecida. A bem dizer, de acordo com o que se pode perceber, a Verdade não está acessível ao homem a não ser que este já esteja em condições de recepcioná-la, de modo que a Verdade é apenas revelada mediante o amadurecimento intelecto-moral das criaturas sencientes.
Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, o Espírito de Verdade – o próprio Jesus – diz-nos que “todas as verdades se encontram no Cristianismo”, avisando-nos, porém, que no corpo dessa doutrina há erros “de origem humana”, sendo portanto dever nosso separar o joio do trigo, a fim de bebermos a linfa pura dos ensinamentos do Cristo.
Por tais razões, haveremos de convir que a Verdade não pode ser ensinada, apenas buscada, sendo revelada unicamente aos homens que tenham desenvolvido “olhos de ver e ouvidos de ouvir”. O que se ensina, e isto o Cristo fez excelentemente, é o modo como se deve buscar a Verdade, ainda conforme a recomendação do Mestre: “Aprendei de Mim que sou brando e humilde de coração”. Eis aí, pois, os pré-requisitos que nos permitem alcançar o conhecimento da Verdade.
Desse modo se compreende por que motivo Jesus se calara ante a interrogação de Pilatos sobre o que seria a Verdade. O governador romano da Palestina não possuía os qualificativos morais para compreender a dimensão espiritual da verdade do Cristo – Ele mesmo! E quanto a nós? Também será necessário despojarmo-nos de toda vaidade, das ilusões do mundo, a fim de nos fazermos merecedores desse conhecimento, além do que já nos é permitido saber.
Em seu livro Buscando a Verdade, o Espírito Irmão Jerônimo, mentor do C. E. Deus, Luz e Verdade, indica várias etapas dessa busca, mostrando com isso que o alcance da Verdade é algo simples mas dispensa atitudes simplistas. Assim, o Mentor aponta para a busca concomitante de atributos como a paz, a confiança, o equilíbrio, a disciplina e diversos outros fatores que predisporão o buscador à necessária aptidão para a recepção da Verdade que lhe será então naturalmente revelada.
Vale dizer que essas diversas buscas indicadas por Irmão Jerônimo tratam unicamente dos esforços que o buscador deve fazer para o desenvolvimento das virtudes, prosseguindo no caminho do conhecimento da Verdade, para que ele viva com plenitude, despojado dos vícios e da tendência aos erros, porquanto Jesus afirmou que em conhecendo a Verdade esta nos libertará de nós mesmos, ou seja, do que trazemos de inferior na alma...

As duas faces cruéis do egoísmo


Francisco Muniz




F
oi durante uma atividade no Grupo de Autoconhecimento que surgiu a dúvida: egoísmo é não fazer nada pelos necessitados do caminho ou fazer esperando retribuição? Mas depois de um pouco de reflexão e constante meditação, a resposta veio clara como vidro translúcido: de uma forma ou de outra, será sempre egoísmo, a considerar-se o ensino de Jesus na parábola do bom samaritano e também a orientação do mentor espiritual Emmanuel, que recomenda fazermos caridade mesmo com segundas intenções, porque assim vamos nos acostumando com esse procedimento e quando menos notarmos já estaremos agindo desinteressadamente. Mas convém examinarmos mais detidamente esses dois tipos de comportamento, o da omissão e o da exploração. 
Segundo o que expõe Allan Kardec nos capítulos iniciais de O Evangelho Segundo o Espiritismo, cada geração tem seu vício que a perderá e sua virtude que a salvará, acrescentando que a virtude de nossa geração é o progresso intelectual, responsável pelo conforto material que experimentamos; em contrapartida, o vício que nos perde, desde o século XIX, é a indiferença moral. Ou seja, pouco ou nada nos interessamos pela condição sofrida dos companheiros de jornada evolutiva, principalmente se eles não fazem parte de nosso círculo mais próximo de parentes e amigos diretos. É como se transitássemos unicamente entre o lar e o ambiente de trabalho, em linha reta e de olhos fechados, como o sacerdote e o levita da parábola de Jesus. Consideremos, então, que procedendo assim o coração estará mais fechado que os olhos, voltado para si mesmo, para o ganho da própria vida. O Mestre Nazareno, no entanto, avisa-nos que aquele que quiser ganhar sua vida irá perdê-la...
Se esse posicionamento egóico já se mostra por si mesmo cruel, denotando a inferioridade moral de quem por ele se guia, o da exploração o é ainda mais, porquanto tirar vantagem da condição sofredora de alguém é afrontar sua dignidade, escravizando-o, muitas vezes, a uma situação deprimente que a caridade tem por dever minorar o quanto possível. Uma outra passagem do Evangelho chama a atenção para esse procedimento equivocado: trata-se da parábola do credor incompassivo, que teve suas dívidas perdoadas pelo Senhor mas foi incapaz de agir de igual modo para com um seu devedor, mandando-o para a cadeia embora este lhe pedisse a mesma clemência que ele pedira e tivera do Senhor, que ao saber disso o puniu severamente.

No entanto, como Deus não se empobrece de compaixão, nós somos continuamente beneficiados com a oportunidade e os recursos necessários para a renovação íntima através da dedicação às obras beneméritas que no fim das contas resultarão em crescimento espiritual. Em sua magnanimidade, o Pai amantíssimo e ainda muito pouco amado por seus filhos desatentos, prossegue convidando-nos ao complemento de sua Obra perfeita, mas inacabada, fazendo tudo a “cada um dos pequeninos de meu Pai”, conforme pede Jesus. Afinal, como bem ponderou nosso Mestre, qual é o pai que, vendo seu filho com fome, em vez de um pão lhe dá uma pedra? Aprendamos, portanto, a ver em cada um dos necessitados do caminho, sejam eles encarnados ou desencarnados, como um filho querido que precisa de nosso amparo, de nossa compaixão, exatamente como Deus procede junto a cada um de nós, uma vez que a maior dádiva que ele nos concedeu é a capacidade de doar. E doar não dói!

Uma aula de Doutrinação

Francisco Muniz


É indubitável que o escritor Hermínio Correia de Miranda deixou uma obra das mais representativas para a literatura espírita no campo da mediunidade. Seus livros oferecem precioso manancial de conhecimentos teórico-práticos para a compreensão dos tipos psicológicos dos Espíritos comunicantes, sendo, por isso mesmo, indicados para o estudo voltado para o bom exercício da doutrinação.
Se o livro Diálogo com as Sombras, publicado pela Federação Espírita Brasileira, pode ser visto como um manual dos doutrinadores, a série Histórias que os Espíritos Contaram – além do primeiro, que leva esse título, os interessados devem conhecer O Exilado, A Dama da Noite e A Filha do Vizir – constituem, a nosso ver, verdadeiras aulas de doutrinação, porquanto ali Hermínio se revela não como aquele que ensina a técnica friamente, mas como o trabalhador de boa vontade sujeito a falhas mas sobretudo disposto a ajudar os necessitados de esclarecimento e consolação, aprendendo com eles a ser melhor, como servidor consciente do Mestre Jesus nas hostes do Espiritismo. Ele é autor também de um marco da literatura espírita no Brasil, o livro Diversidade dos Carismas, em que examina com profundidade as múltiplas faculdades mediúnicas.
Além de trabalhador da mediunidade, Hermínio, desencarnado no início de 2013, foi um acurado pesquisador dos temas ligados ao espiritualismo, que explorava segundo as luzes do Consolador Prometido, deixando um legado que em muito enriquece a biblioteca espírita. São livros como, dentre vários outros, As Marcas do Cristo, que em dois volumes comparam as vidas de Paulo de Tarso e Martinho Lutero; Os Cátaros ou a Heresia Católica, no qual destrincha a perseguição que a Igreja moveu contra a seita cátara no Sul da França, no século XIII, até seu extermínio, graças à instituição da famigerada Inquisição; e Nossos Filhos São Espíritos, verdadeiro libelo contra o aborto e inteligente manual de educação baseado nas noções de reencarnação trazidas pela Doutrina Espírita.
Mas falaremos aqui preferencialmente das obras em que Hermínio coloca sua experiência e seus conhecimentos teóricos sobre a doutrinação, como a série Histórias que os Espíritos Contaram e Diálogo com as Sombras, acima citados. Nesses livros o autor define os tipos espirituais que constituem a generalidade das comunicações mediúnicas, deixando à parte a orientação dos mentores, ou dirigentes espirituais das reuniões. São eles o sofredor comum, o revoltado, o obsessor e o inimigo do Cristo ou da Doutrina. Importa analisar as comunicações para que possamos fazer tal identificação e, imbuídos de boa vontade quanto do imprescindível conhecimento doutrinário, oferecera a essas entidades o auxílio de que necessitam para melhor conduzirem seus caminhos a partir do esclarecimento.
Nunca é demais recordar que, como espírita, Hermínio Miranda era também fiel seguidor das recomendações de Allan Kardec e essa condição transparece em todos os seus escritos. Contudo, ele soube desenvolver, a partir das orientações do mestre lionês, um trabalho marcadamente centrado em seu entendimento acerca do Evangelho de Jesus, nos moldes que Emmanuel proclamara um dia a seu pupilo, Chico Xavier: ‘Se alguma vez eu lhe disser algo que contrarie Jesus e Kardec, esqueça o que eu disse e fique com Jesus e Kardec”.
Desse modo, no texto de abertura de Histórias que os Espíritos Contaram – primeira edição publicada pela Livraria Espírita Alvorada Ltda. (LEAL) em 1980 -, prefaciado por ninguém menos que a Veneranda Joanna de Ângelis, Hermínio propõe um pacto com o leitor ao alertar para a veracidade dos casos ali relatados. Segundo ele, trata-se de “um momento grave e solene que precisa ser vivido e presenciado com dignidade e respeito ao ser que ali está expondo suas feridas mais íntimas”. Com efeito, é assim que deve se comportar o doutrinador comprometido com o bem e a verdade, em nome do Cristo e da Doutrina que abraçou e lhe dá a oportunidade do serviço, na intimidade da Sala Mediúnica.
É, portanto, dever do médium esclarecedor enriquecer seus estudos e conhecimentos com a leitura dessas obras, a fim de melhor colaborar nos esforços do Cristo no resgate das ovelhas transviadas de seu rebanho, além de aproveitar essas experiências para o próprio crescimento espiritual. “É das sombras dessas tragédias e dessas dores superlativas que emergem renovadas esperanças e que se revela, em toda a sua beleza, a maravilhosa perfeição das leis universais do Amor”, ressalta Hermínio na introdução de seu trabalho, salientando que foi por isso que resolveu tornar públicas as conversas mantidas com esses nossos irmãos sofredores desencarnados.

Mediunidade nos animais: existe?


Francisco Muniz



A
 dúvida é pertinente, porquanto até mesmo Allan Kardec questionou os Espíritos Superiores acerca desse problema. A razão dessa dúvida, desses questionamentos, é o fato de que observamos em vários animais a capacidade de “ver” e “ouvir” Espíritos e mesmo de serem condicionados a obedecer a certas ordens humanas, o que faria deles médiuns. Entretanto, não é assim e, para justificar essa negação, o Codificador se vale de proveitosa análise do Espírito Erasto, que em O Livro dos Médiuns faz ponderações importantes e incontestes em prol de nosso esclarecimento a respeito desse tema.
Para começo de conversa, Erasto explica a Kardec que a condição de médium cabe exclusivamente aos homens, uma vez que os Espíritos se comunicam com seus iguais, porque encontram nos homens o material necessário a essa comunicação. Assim é que no cérebro humano estão as informações de que os Espíritos se utilizam para manifestar suas idéias, o que não pode acontecer no tocante aos animais: “Ora bem! Que elementos encontraríamos no cérebro de um animal? Tem ele ali palavras, números, letras, sinais quaisquer, semelhantes aos que existem no homem, mesmo o menos inteligente?” – questiona o instrutor espiritual.
Outra coisa que Erasto, antigo discípulo do apóstolo Paulo de Tarso, esclarece é que a mediunidade foi concedida por Deus ao homem para este avançar no rumo do progresso espiritual. Nesse sentido, compreenderemos que, conforme diz esse Espírito, os animais, estando ao nosso lado para nos secundar nas tarefas materiais, fazendo-nos companhia e nos alimentando, não estão submetidos à mesma lei de progresso que nós. É o que salienta Erasto em suas considerações na segunda obra da Codificação.
Então, o que há nos animais ao ponto de fazer alguns de nós pensarmos ainda sejam eles médiuns? Pois não percebemos neles um comportamento próprio de quem vê ou ouve espíritos? Os cães latindo para determinado ponto; os cavalos e muares empacando em certos trechos da estrada; os gatos eriçando os pelos ante algo invisível aos nossos olhos não indicam a presença de uma faculdade mediúnica neles?
A resposta é sempre não. O que parece mediunidade nos animais – informa-nos Erasto – mais não é do que manifestação dos instintos. E ainda que alguns de nossos irmãos da ordem inferior na escala evolutiva demonstrem facilidade em cumprir as ordenações humanas, não é possível magnetizá-los a fim de que executem as tarefas próprias dos médiuns, assevera Erasto: “Os fatos mediúnicos não podem dar-se sem o concurso consciente, ou inconsciente, dos médiuns; e somente entre os encarnados, Espíritos como nós, podemos encontrar os que nos sirvam de médiuns. Quanto a educar cães, pássaros, ou outros animais, para fazerem tais ou tais exercícios, é trabalho vosso e não nosso”.

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Vem!

Irmã Rafaela



Quanta beleza há nas flores, quanto perfume a inebriar os sentidos humanos. Deus, o eterno Criador e benfeitor da Humanidade nos vários mundos deste imenso Universo, proporciona esses estados d'alma a partir dos contatos físicos com o belo, representativo da Divina Grandeza, expressada pela Verdade e pela Justiça a favor das criaturas.
Tu te sentes bem? Agradece a Deus. Não estás tão bem quanto gostarias? Agradece ainda e trabalha por melhorares, porquanto os recursos o Pai Magnânimo os dispensa a todos os seus filhos necessitados. Anda, sê mais diligente e busca os meios à tua disposição a fim de estares realmente bem pelo modo como serves a teus irmãos de caminhada.
A alegria que experimentas com as companhias espirituais deve ser a mesma em relação a teus iguais aí mesmo, principalmente junto àqueles que mais esperam de ti e até mesmo te exigem maior dose de devotamento. Podes contá-los onde te encontras, pois os conheces muito bem. Ama-os servindo, jamais reclamando. Lembra-te de que um dia já procedeste assim, como um filho rebelde, e a Misericórdia do Pai amantíssimo te socorreu, reerguendo-te às dimensões do trabalho renovador.
Alegra-te! Vem para nosso lado que o ensolarado nos convida à constante comunhão com o Alto. Vem para junto de nós que é próximo o dia do reencontro e novo Sol brilhará nas almas - e a tua, querido filho, terá mais luz e calor. Vem!

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

A base das civilizações

No livro Palavras do Infinito (Ed. LAKE, 4ª ed., 1973), que reúne pequena mas interessantíssima produção do Espírito Humberto de Campos através de Francisco Cândido Xavier, encontramos também algumas preciosas ponderações de Emmanuel, mentor espiritual do médium mineiro, como as que seguem, enfatizando a importância do sentimento religioso para o progresso da humanidade.



O
 sentimento religioso é a base de todas as civilizações. Preconiza-se uma educação pela inteligência, concedendo-se liberdade aos impulsos naturais do homem. A experiência fracassaria. No dia em que a evolução dispensar o concurso religioso, a humanidade estará unida a Deus pela ciência e pela fé então irmanadas.
Em cada século o progresso científico renova sua concepção acerca dos mais importantes problemas da vida.
Raramente os verdadeiros sábios são compreendidos por seus contemporâneos. Se as contradições dos estudiosos são o sinal de que a ciência progride sempre, elas atestam igualmente a falibilidade humana e a fraqueza e inconsistência dos seus conhecimentos.
Diz-se que o pensamento religioso é uma ilusão. Tal afirmativa carece de fundamento. Nenhuma teoria científica, nenhum sistema político, nenhum programa de reeducação podem roubar do mundo a idéia de Deus e da imortalidade do ser, inata no coração do homem.
As ideologias novas não conseguirão eliminá-la também.
A religião viverá entre as criaturas, instruindo e consolando, como um sublime legado.
O que se faz preciso, em vossa época (esta mensagem chegou em meados dos anos 30!), é estabelecerdes a diferença entre religião e religiões.
A religião é o sentimento divino que prende o homem ao Criador.
As religiões são as organizações dos homens, falíveis, imperfeitas como eles próprios; dignas de todo o acatamento pelo sopro de inspiração superior que as fez surgir, são como gotas de orvalho celeste misturadas com os elementos da terra em que caíram. Muitas delas, porém, estão desviadas do bom caminho pelo interesse criminoso e pela ambição lamentável dos seus expositores; mas a verdade um dia brilhará para todos, sem necessitar da cooperação de nenhum homem.
Cabe-nos pois, aos que depois da morte já não seguirem qualquer ação para o afastamento de dúvida, exclamar para os que creem e esperam:
“Ó irmãos nossos que confiais na Providência, dentro da escuridão do mundo!... Do portal de claridades do Além-Túmulo, nós vos estendemos as mãos fraternas!... Nossa palavra corre sobre o mundo como um poderoso sopro de verdades! Dentro do Universo mil laços nos unem. Sobre as ruínas, sobre os escombros das civilizações mortas
E dos templos desmoronados, nós viveremos eternamente. Uma justiça soberana, íntegra e misericordiosa preside aos nossos esforços pelo bem coletivo.
“Guardai convosco o sagrado patrimônio das crenças, porque acima das cousas transitórias do mundo há uma Sabedoria Integral, uma Ordem Inviolável. Lutemos pois, com destemor e coragem, porque Deus é justo e a alma é imortal”.

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Um livro de mistério

Francisco Muniz

Há alguns anos, quando meu amigo Cláudio Emanuel Abdala pediu-me para revisar os originais de seu livro Mubzi, fiquei de escrever algumas palavras à guisa de prefácio, o que realmente fiz, mas o texto se extraviou entre meus papéis e o livro foi publicado sem minha participação. Faço agora o devido reparo, pedindo mais desculpas ao autor. Eis o texto:

Ao povo baiano, especialmente o que nasceu e habita Salvador, credita-se, tradicionalmente, um quê de misticismo que vem ser o resultado de uma fusão cultural como não há igual em outra parte do mundo - podemos dizer.
O índio que aqui já vivia à chegada dos portugueses empresta suas crenças anímicas à riqueza desta cultura, somadas sobretudo às manifestações religiosas da raça africana, para cá atraída à força da escravidão.
A própria religiosidade do europeu deu novas cores à formação cultural do baiano, sofrendo e fazendo sofrer os efeitos pertinentes à necessária mistura de pensamentos e sentimentos tão distintos, mistura essa que encontra sua real expressão no que se convencional chamar baianidade.
Tal é o pano de fundo da obra idealizada por Cláudio Abdala neste livro, de cujo conteúdo nos absteremos de comentar, respeitando o tom de mistério que o autor lhe imprimiu, a partir do próprio título.
Em Mubzi Cláudio capta a alma mística do baiano, num trabalho que, como ele nos confidenciou, surgiu alheio a suas ocupações e preocupações. Veio-lhe a história praticamente completa, em jatos de inspiração, e em pouco tempo, questão de dias, o livro estava pronto.
Uma psicografia? O autor recusa o termo, por não ser médium de efeitos mecânicos, digamos assim, por sabermos que a psicografia é, no contexto do Espiritismo, manifestação de efeito inteligente, tal como a Designou Allan Kardec.
Assim, fica o convite para conhecermos e desvendarmos o mistério de Mubzi.

Pai Nosso

Monsenhor José Silvério Horta, Espírito; Chico Xavier, médium; do livro À Luz da Oração


Pai Nosso, que estás nos Céus,
Na luz dos sóis infinitos,
Pai de todos os aflitos
Deste mundo de escarcéus.

Santificado, Senhor,
Seja o Teu nome sublime,
Que em todo o Universo exprime
Concórdia, ternura e amor.

Venha ao nosso coração
O Teu reino de bondade,
De paz e de claridade
Na estrada da redenção.

Cumpra-se Teu mandamento
Que não vacila nem erra,
Nos Céus, como em toda a Terra
De luta e de sofrimento.

Evita-nos todo o mal,
Dá-nos o pão do caminho
Feito da luz, no carinho
Do pão espiritual.

Perdoa-nos, meu Senhor,
Da iniquidade e da dor
Os débitos tenebrosos,
De passados escabrosos.

Auxilia-nos também,
Nos sentimentos cristãos,
A amar nossos irmãos
Que vivem longe do bem.

Com a proteção de Jesus,
Livra a nossa alma do erro,
Sobre o mundo de desterro
Distante da Tua luz.

Que Tua ideal igreja
Seja o altar da Caridade
Onde se faça a vontade
De Teu amor...
Assim seja,

Você e os outros

(Texto atribuído à Madre Tereza de Calcutá)


Muitas vezes as pessoas são egocêntricas, ilógicas e insensatas.
Perdoe-as assim mesmo.
Se você é gentil, as pessoas podem acusá-lo de egoísta, interesseiro.
Seja gentil assim mesmo.
Se você é um vencedor, terá alguns falsos amigos e alguns inimigos verdadeiros.
Vença assim mesmo.
Se você é honesto e franco, as pessoas podem enganá-lo.
Seja honesto assim mesmo.
O que você levou anos para construir, alguém pode destruir de uma hora para outra.
Construa assim mesmo.
Se você tem paz, é feliz, as pessoas podem sentir inveja.
Seja feliz assim mesmo.
Dê ao mundo o melhor de você, mas isso pode nunca ser o bastante.
Dê o melhor de você assim mesmo.
Veja você que, no final das contas, é entre você e Deus.
Nunca foi entre você e as outras pessoas.

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Segundo o Espiritismo

Francisco Muniz

Segundo o Espiritismo, a vida na Terra é apenas uma estação de aprendizado para os Espíritos aqui estacionados momentaneamente. Que esse aprendizado é, por assim dizer, infinito, porquanto todo o conhecimento reside em Deus e este o parâmetro inalcançável de nosso processo de aperfeiçoamento.
Segundo o Espiritismo, a Terra é só um dos muitos bilhões de mundos habitados neste imenso Universo criado por Deus e mantido em funcionamento através de leis sábias e perfeitas e, por isso mesmo, imutáveis.
Segundo o Espiritismo, Deus é a causalidade de tudo que chamamos vida em todas as partes do Universo, sendo também a soberana justiça e bondade, porquanto reúne a absoluta Perfeição.
Segundo o Espiritismo, o Espírito e a matéria, ao lado de Deus, são os elementos constitutivos de tudo que existe. Ao lado deles há um elemento aglutinador chamado fluido universal, que pode ser entendido como a matéria primordial da qual tudo se forma pela divina Vontade.
Segundo o Espiritismo, os Espíritos influenciam a vida dos homens sutil ou ostensivamente. Essa influência se deve à existência, no homem, de um sentido extra chamado mediunidade, responsável pelo intercâmbio constante entre os seres dos mundos físico e extrafísico.
Segundo o Espiritismo, o homem é um Espírito encarnado cuja presença no planeta é sempre renovada numa sucessão de mortes e renascimentos, configurando a reencarnação, parte da lei de Evolução que garante o melhoramento dos seres espirituais e de tudo que se apresente como Criação Divina.



segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Não perdoar

 Hilário Silva, Espírito - Chico Xavier, médium, do livro Almas em Desfile


Bezerra de Menezes, já devotado à Doutrina Espírita, almoçava, certa feita, em casa de Quintino Bocaiúva, o grande republicano, e o assunto era o Espiritismo, pelo qual o distinto jornalista passara a se interessar.
Em meio da conversa, aproxima-se um serviçal e comunica ao dono da casa:
- Doutor, o rapaz do acidente está aí com um policial.
Quintino, que fora surpreendido no gabinete de trabalho com um tido de raspão que, por pouco, não lhe atingiu a cabeça, estava indignado com o servidor que inadvertidamente fizera o disparo.
- Manda-o entrar - ordenou o político.
- Doutor - roga o moço preso, em lágrimas -, perdoe o meu erro! Sou pai de dois filhos... Compadeça-se! Não tinha qualquer má intenção... Se o senhor me processar, que será de mim? Sua desculpa me livrará! Prometo não mais brincar com armas de fogo! Mudarei de bairro, não incomodarei o senhor...
O notável político, cioso da própria tranquilidade, respondeu:
- De modo algum. Mesmo que o seu ato tenha sido de mera imprudência, não ficará sem punição.
Percebendo que Bezerra se sentia mal, vendo-o assim encolerizado, considerou, à guisa de resposta indireta:
- Bezerra, eu não perdoo, definitivamente não perdoo...
Chamado nominalmente à questão, o amigo exclamou desapontado:
- Ah! você não perdoa!
Sentindo-se intimamente desaprovado, Quintino falou, irritado:
- Não perdoo erro. E você acha que estou fora do meu direito?
O Dr. Bezerra cruzou os braços com humildade e respondeu:
- Meu amigo, você tem plenamente o direito de não perdoar, contanto que você não erre...
A observação penetrou Quintino como um raio.
O grande político tomou um lenço, enxugou o suor que lhe caía em bagas, tornou à cor natural e, após refletir alguns momentos, disse ao policial:
- Solte o homem, o caso está liquidado.
E para o moço que mostrava profundo agradecimento:
- Volte ao serviço hoje mesmo, e ajude na copa.
Em seguida, lançou inteligente olhar para Bezerra e continuou a conversação no ponto em que haviam ficado.

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

O Espirito de Verdade

Francisco Muniz
(Artigo publicado originalmente na revista Visão Espírita - Ano 2, n.º 19 - Dez. 1999)


Quando, numa das primeiras edições de Visão Espírita, externei minha ignorância a respeito do Espírito de Verdade, respondendo insuficientemente a uma leitora na seção Tire suas dúvidas, a amiga Maria Antonio Castilho da Silveira, de Maceió (AL), tomou a sábia decisão de puxar-me a orelha, repreendendo minha preguiça em procurar esclarecer-me convenientemente. Primeiro, por telefonema à redação da revista e, depois, a pedido meu, numa simpática e documentada cartinha, a qual utilizo para fundamentar estas linhas, ao tempo em que registro, assim, minha gratidão à veneranda amiga que, do alto de seus 80 anos, soube exemplificar as lições do Evangelho ao jogar luzes sobre as trevas da ignorância, fonte de muitos de nossos males, senão todos.
Com a boa orientação de Maria Antonia, minha confusão a respeito do Espírito de Verdade por fim evanesceu e em seu lugar surgiu o Cristo Jesus, a luz de todo entendimento espiritual. O mais impressionante é que, mesmo perpassando os olhos pelas página de O Evangelho Segundo o Espiritismo, onde o Espírito de Verdade se revela inteiramente, sem dar margem a dúvidas (só depois admiti!), ainda assim a venda continuou tapando minha vista, porque evidentemente eu anda lia. É que até então eu me prendia à "letra que mata", em detrimento do "espírito que vivifica", ao ter em mente que o Espírito de Verdade era tão-somente o Consolador prometido por Jesus.
No entanto, no próprio O Evangelho Segundo o Espiritismo, nas "instruções dos Espíritos" referentes ao capítulo VI (O Cristo Consolador), tudo se esclarece em definitivo e somente os corações ainda endurecidos não se darão conta disso. Ali, no tópico intitulado "Advento do Espírito de Verdade", eis que este, sem se nomear, revela-se como o Messias que pisou o chão do mundo há dois mil anos: "Venho, como outrora, entre os filhos desgarrados de Israel, trazer a verdade e dissipar as trevas. Escutai-me. O Espiritismo, como outrora a minha palavra, deve lembrar aos incrédulos que acima deles reina a verdade imutável: o Deus bom, o Deus grande, que faz germinar as plantas e que levanta as ondas. Eu revelei a doutrina divina; e, como um segador, liguei em feixes o bem esparso pela humanidade, e disse: "Vinde a mim, todos vós que sofreis!" (início da mensagem recebida em Paris, em 1860).
Consubstanciando sua carta, Maria Antonia refere-se a um artigo de Kleber Halfeld, citando por sua vez mensagem do Espírito Erasto na Revista Espírita de fevereiro de 1868: "MArchai, pois, imperturbavelmente em vossa estrada, sem vos preocupar com as troças de uns e o amor-próprio  ferido de outros. Estamos e ficaremos convosco, sob a égide do Espírito de Verdade, nosso e vosso Mestre". Ela cita, ainda, passagem do livro Missionários da Luz (André Luiz/Francisco C. Xavier), à página 99 do capítulo 9, na qual o mentor Alexandre, nimbado de "fios irisados de brilhante luz", conduzia uma palestra: "Mediunidade - prosseguiu ele, arrebatando-nos os corações - constitui 'meio de comunicação' e o próprio Jesus nos afirma: 'Eu sou a porta... se alguém entrar por mim será salvo e entrará, sairá e achará pastagens'! Por que audácia incompreensível imaginais a realização sublime sem vos afeiçoardes ao Espírito de Verdade, que é o próprio Senhor?"
É bom recordar, como bem orienta Maria Antonia, que o próprio Cristo deixou patente que nunca nos deixaria órfãos, posto que recebeu do Pai todo o poder sobre o céu e a Terra e que assim cuida de nós desde todos os tempos, do mesmo modo como coordenou o aparecimento de seu Consolador prometido. "Ah! Este assunto... Como é bom conhecer melhor nosso Senhor Jesus-Cristo!", pondera a amiga alagoana, acrescentando que aqueles desejosos de se aprofundarem no estudo devem meditar sobre o que se encontra em João 14, versículos 16 a 18 (os grifos são meus).

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Vozes do Brasil: o médium espírita(*)

(*) Esse foi o título que o jornalista inglês Gibby Zobel, integrante da equipe do jornal The Guardian, deu à entrevista feita em 2013 (provavelmente) com o médium baiano Divaldo Pereira Franco, matéria essa republicada pela revista Presença Espírita em sua edição do bimestre julho-agosto de 2014 e reproduzida abaixo. O vídeo traz uma interessante palestra proferida pelo médium baiano, sobre o tema "Quem é você?".



Aos oitenta e seis anos e com uma aparência que não chega aos 60, Divaldo Franco é o médium espírita mais importante do Brasil, tendo vendido mais de 10 milhões de livros mundialmente. Seu lar fica na periferia de Salvador, no bairro de Pau da Lima, onde é considerável o índice de criminalidade e violência. Mas o mundo de Divaldo é sereno e pacífico.
Encontra-se inserido na concretização física da obra de toda sua vida, a Mansão do Caminho - uma instituição que proporciona alojamento, educação e cuidados para crianças e jovens. Localizado onde antes havia um grande depósito de lixo, a Mansão é um vasto e ultramoderno complexo comunitário. O edifício é tido como intocável pelos traficantes de drogas, uma vez que muitos deles, ou suas famílias, fazem uso de seus serviços.
Centenas de mães deixam seus filhos diariamente na creche gratuita. Calcula-se que mais de 30.000 crianças tenham passado pela Mansão durante os últimos 60 anos. Grande parte dessa obra é financiada pela venda dos livros de Divaldo. Ele afirma que se comunica com os Espíritos, e que transcreve suas palavras através de um método chamado "psicografia".
Tudo isso resultou de uma visão que ele teve em 1948, aos 21 anos de idade. "Vi grande número de crianças e um senhor idoso", ele lembra. "Dirigi-me ao senhor idoso. Ele se voltou para mim, e me dei conta de que era eu na velhice. E uma voz me disse: 'Isto será o que você fará de sua vida'".
Mais tarde ele foi apresentado à Doutrina Espírita, codificada pelo sábio e educador francês Allan Kardec, em 1857, que crê na existência e comunicabilidade dos Espíritos através de médiuns. "O Espiritismo está crescendo no Brasil porque atende às necessidades culturais, emocionais e espirituais da sociedade", diz o médium Divaldo.
Com o passar dos anos, Divaldo adotou mais de 600 crianças abandonadas, muitas das quais agora têm seus próprios filhos e netos, e o médium está otimista em relação a essa geração mais nova.
"Vivemos em tempos notáveis", diz ele. "O país acordou para suas responsabilidades, e as pessoas aos poucos estão conquistando seus direitos de cidadãos, movimentando-se na direção das liberdades democráticas e da justiça social. O país tem se preparado de maneira consciente para 2014, quando o mundo inteiro estará acompanhando o futebol, para mostrar que o país tem valores que vão além do carnaval ou mesmo do futebol, e que é uma nação forte, pronta para lidar com o aqui e o agora".
Apesar da idade, o resistente Divaldo ainda apronta sua própria mala e viaja pelo mundo sozinho, assim como tem feito há décadas, proferindo centenas de palestras. "Estas viagens abrem as portas para aqueles que virão no futuro", diz ele. "A minha mensagem é de amor, esperança e caridade. De dizer às pessoas que nossas vidas têm significado, e que não estamos na Terra para sofrer".

domingo, 9 de agosto de 2015

Surpresas e ensinamentos de uma reunião mediúnica

Edilton Costa Silva

 

Aquela comunicação mediúnica chamou-nos particularmente a atenção. O Espírito comunicante se expressava como alguém que, na condição humana, tornara-se um assassino frio, endurecido e indiferente em relação ao valor da vida. A médium, uma jovem que durante o transe transfigurara-se parcialmente, externando expressões verbais e aspectos faciais assustadores e vulgares durante o diálogo com o encarregado do atendimento, que se pode resumir mais ou menos assim:
- Me paguem qualquer coisa que eu mato qualquer um.
- Mas você sabe que matar o semelhante é crime. É erro grave perante as leis dos homens e, pior ainda, perante as leis de Deus.
- Que é que tem? Eu já matei minha mãe, quanto mais os outros que nem conheço.
- Você sabe para que foi trazido aqui?
- Não me interessa. Eu vim porque quis. Ninguém me leva aonde eu não quero ir.
- Você se engana, meu irmão. A vinda até aqui se deu pela misericórdia divina, para mudar sua forma de pensar e de agir, para você respeitar a sua vida e a dos seus semelhantes...
A esta altura, o doutrinador percebia o evidente endurecimento emocional daquela entidade que parecia impermeável a qualquer tentativa de sensibilização para as verdades divinas, no que diz respeito à valorização da vida humana, o que se confirmou com as afirmações intimidatórias e, por que não dizer, ameaçadoras:
- Você tem sorte porque está falando em nome de Deus e tem muita gente aqui observando...
A seguir, o dialogador começou a aplicar a bioenergia ou passes e, à medida que o processo tinha sequência, o ser espiritual passou a reclamar de dores no corpo e externar certa preocupação com a morte que se aproximava.
Foi o único momento durante o contato entre o Espírito e o dialogador em que este percebeu algo de mais humano naquele que procurava bloquear completamente suas emoções, seus sentimentos.
Pergunta-se: o que teria acontecido em um passado distante com aquele nosso irmão para levá-lo a tamanha condição de insensibilidade, transformando-se num criminoso frio a ponto de assassinar a própria mãe? Não nos foi permitido saber.
O doutrinador, por sua vez, sentiu-se um tanto quanto frustrado por não ter alcançado, na sua avaliação, um resultado satisfatório que despertasse aquele irmão para uma realidade melhor do que aquela em que ele se fixava e, conversando com companheiros mais experientes e com a médium, instrumento daquela manifestação, obteve explicações, informações e reflexões altamente significativas.
Em primeiro lugar, mesmo com o desinteresse pelo diálogo, o choque anímico experimentado pelo Espírito comunicante, quando seu perispírito está sintonizado com o do médium, produz nele algum efeito terapêutico associado ao início de seu despertar espiritual...
A referência à mãe e depois a Deus funcionou também como valores que estavam abafados e que, implicitamente, podem ser interpretados como indícios de alguém dando os primeiros passos para sair da sua carapaça e, aos poucos, recuperar a sua condição de humanidade esquecida.
A médium informou que durante a aplicação do passe, enquanto a entidade era atendida, conseguiu sentir e perceber as diferenças vibratórias emanadas do ser espiritual (densas e escuras) e do doutrinador (suaves e luminosas), notando que algo de bom foi assimilado pelo irmão desencarnado infeliz.
Vale a pena ressaltar ainda que as sensações de dor e a preocupação com a morte levam-nos a concluir pelo total desconhecimento a respeito da sua realidade espiritual, portanto, acreditando-se ainda vivo no corpo físico. Certamente a equipe espiritual providenciará os recursos para, no momento próprio, oferecer-lhe o necessário esclarecimento.
Na avaliação de todos, qualquer entidade trazida à comunicação em uma reunião mediúnica séria, com demandas, conflitos, sofrimentos, culpas, remorsos, mesmo que não demonstre, obtém algum benefício, retirando-se do ambiente numa condição melhor do que a em que se encontrava.
Bem-aventurados aqueles que sabem aproveitar os ensinamentos proporcionados pelo Espiritismo, seguro roteiro de luz para a Humanidade.

sábado, 8 de agosto de 2015

Peculiaridades do verbo amar

Francisco Muniz

No primeiro culto doméstico do Evangelho de agosto em nossa residência, com a participação dos netinhos, perguntei a Pedro e a Laura o que é Evangelho. A resposta oferecida correspondeu ao que eles observam semanalmente nesse momento sagrado em que a família se reúne em torno de O Evangelho Segundo o Espiritismo para louvar a Deus e pedir amparo e proteção ao Cristo Jesus: "Evangelho é rezar!"
A resposta não é estranhável, porquanto muitos de nós ainda nos prendemos a conceitos primários do religiosismo que nos identifica. Entretanto, o conhecimento espírita que nos atesta o amadurecimento psicológico exige de nossa parte um entendimento compatível com esse aprendizado, a fim de adotarmos o comportamento consequente às lições de Jesus.
Eis que lemos nas páginas da terceira obra da Codificação o Espírito João Evangelista proclamar que a Doutrina Espírita vem nos exortar à ação viril, uma vez chegados os tempos de cumprimento das promessas do Senhor. A conclamação do Apóstolo inserida na obra de Allan Kardec reafirma a madureza ao menos intelectual da Humanidade, preparada para recepcionar a Terceira Revelação das Leis de Deus.
É oportuno recordar que o grande objetivo do Espiritismo, revivendo a pureza da doutrina de Jesus, é o melhoramento moral da Humanidade, o que se conseguirá pelo desenvolvimento das virtudes que jazem latentes em cada ser humano. Fica subentendido que esse objetivo será alcançado mediante os esforços que cada um saiba empreender no sentido da auto-superação e no da dedicação à tarefa da caridade, no cumprimento das ordenações do Cristo: amar ao próximo como a si mesmo, incondicionalmente, e fazer ao outro o que se gostaria que este lhe fizesse.
Desse modo entenderemos que Evangelho tanto pode significar rezar, ou seja, dirigirmo-nos em pensamento amoroso ao Deus além dos homens, quanto significa amar, isto é, correspondermos à ação concreta de amar a Deus em meio aos nossos semelhantes. É dessa maneira que o Cristo nos ensina, em seu roteiro de felicidade a nós dirigido, a viver sua proposta de reintegração ao Pensamento Divino, numa retomada do endereço do Pai Supremo, que havíamos perdido ao longo de nossa jornada multimilenar através do tempo e do espaço.
Essa longa trajetória espiritual está perto de ser comprovada pela Ciência materialista da Terra, que já admite ser nosso DNA muito mais antigo que o próprio planeta, ao ponto de um cientista declarar, num desses documentários exibidos pela TV fechada, que "somos gerados pelas estrelas". Assim sendo, nossa origem também é nossa destinação. Em O Livro dos Espíritos, lemos que a jornada evolutiva dos seres criados por Deus é feita nos diversos mundos que povoam o Universo, iniciando-se naqueles mais primitivos e prosseguindo nos mais adiantados conforme se dê o aprendizado do princípio espiritual.
Perguntando-se qual a finalidade desse aprendizado, chegaremos à conclusão de que por ele é que nos especializaremos na prática do amor. E será somente por esse comportamento, nos moldes do ensinamento do Cristo, que reencetaremos nossa caminhada de volta para casa, qual seja nossa reunificação em Deus, consoante as palavras de Jesus: "Estais na Terra mas não pertenceis a ela" e "Eu e o Pai somos um". Haveremos de também ser um com esse Pai amoroso, tão logo procedamos de acordo com a crística recomendação: "Meus discípulos serão conhecidos por muito se amarem".

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Amor imenso

Francisco Muniz


O título fala de uma canção homônima do cantor e compositor pernambucano Nando Cordel (vide letra abaixo), que fala de nossa necessidade de deixar o amor inundar, invadir o mundo a fim de vivenciarmos a paz, essa mesma paz capaz de tornar imenso o amor que queremos a todo tempo experimentar.
Na verdade, a canção é uma carta que o poeta escreve ao Cristo, sem cuja presença é mesmo difícil viver por aqui, neste mundo onde os homens parecem ter perdido o endereço de Deus por desconhecerem a si mesmos.
Com o Cristo o mundo fica colorido, nós somos felizes e o coração já não reconhece incertezas. Mas é preciso que nos esforcemos, fazendo nossa parte purificando nossas almas através da mudança de pensamento e de atitudes ainda contrários ao estado de harmonioso bem-estar que tanto ansiamos.
Esse esforço é imprescindível porque somos nós, cada um de nós, os braços e pernas do Cristo, que precisa de nossa colaboração para levar aos quatro cantos do planeta a mensagem libertadora do Evangelho, esclarecendo as consciências e consolando corações aflitos.

Amor imenso 
(Nando Cordel)

Vem, tá difícil viver sem você por aqui
Vem colorir nosso mundo
e me fazer feliz
Traz teu amor, que é tão
forte e de muita beleza
Meu coração não consegue
viver na incerteza
Abre a porta e deixa entrar
essa paz que faz o amor imenso
imenso
Vamos deixar o amor enramar essa terra
Vamos deixar essa paz enraizar todo o mundo
Vamos deixar a pureza invadir nossos corações
Se transformar em corrente,
em busca de soluções
Abre a porta e deixa entrar
essa paz que faz o amor
imenso, imenso...




quarta-feira, 29 de julho de 2015

"Muquerela" - vc é um?

Um indivíduo "muquerela", conforme conceituou o médico espírita José Henrique Rubim de Carvalho, durante recente seminário no C. E. Deus, Luz e Verdade, é aquele que se habituou a sempre MUrmurar, QUEixar-se, REclamar e LAmentar, assumindo e mantendo uma postura tanto pessimista quando negativa perante a vida, sendo, por isso, um candidato natural à depressão, doença que se apresenta hoje como um verdadeiro flagelo da humanidade, aumentando em muito os índices de suicídio em todo o mundo.

 

É um problema e, como todo problema, tem solução. O primeiro passo é deixar de reclamar, de culpar os outros pelas dificuldades que enfrenta, de culpar a si mesmos pelos próprios fracassos, e ver as situações adversas com positividade, como lições a ser aprendidas, desafios a ser vencidos, estímulos à vitória sobre si mesmo. Otimismo é um hábito que deve ser cultivado com bom humor e a mais inteligente manifestação de bom humor é rir de si mesmo, das bobagens que fazemos com frequência. É não ser um "muquerela".

Voltar para casa


É certo que não sabemos o dia em que o corpo que ocupamos não mais nos reterá e assim teremos de voltar para nossa verdadeira casa, através da desencarnação, ou morte física. De certo, mesmo, é que para lá voltaremos, ao fim de nosso estágio terreno, para o qual chegamos com a passagem de volta comprada, faltando apenas marcar a data do retorno. Qual seria, então, a melhor ocasião?
A esse espeito, o Espírito Irmão X, isto é, Humberto de Campos utilizando um pseudônimo, dá-nos algumas recomendações em sua crônica "Carta de um morto", inserida em seu livro "Cartas e crônicas", psicografado por Chico Xavier e publicado pela Federação Espírita Brasileira (FEB).
Eis o que ele diz:
"Peça a Jesus para que você não venha para cá num dia dois de novembro. Qualquer outra data pode ser útil e valiosa, desde que se desgarre daí, naturalmente, sem qualquer insulto à lei. Rogue também ao Senhor que, se possível, possa você viajar ao nosso encontro, num dia nublado e chuvoso, porque, em se tratando de sua paz, quanto mais reduzido o séquito no enterro será melhor."

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Maria Dolores

 

Maria Dolores veio ao mundo como Maria de Carvalho Leite, na cidade sertaneja de Bonfim de Feira (BA), no dia 10 de setembro de 1900, filha de Hermenegildo Leite, escrivão da Prefeitura, e da doméstica Balbina de Carvalho Leite. Em Bonfim passou a infância. Do casal Hermenegildo e Balbina nasceram, com Dolores, três homens e duas mulheres. Os biógrafos, sem exceção, desconheceram o fato de que a grande poetisa baiana possuía dotes mediúnicos.
Em 1916, diplomou-se professora pelo Educandário dos Perdões, considerada pelas colegas e professores como adolescente prodígio, graças à rara inteligência.
A poesia, Dolores começou a senti-la na cidade natal, ainda quase criança, a transformar-se, mais tarde, na poetisa de bons versos que todos conhecemos.
Lecionou no Educandário dos Perdões e no Ginásio Carneiro Ribeiro, em Salvador. Além disso, também ministrava aulas particulares. Daí por que entendemos seu modo todo especial de ensinar, por meio dos versos, às almas aflitas.
Seu Espírito não se limitou somente aos versos. Ela tocava piano, pintava, gostava da costura e da arte culinária. Humana por excelência, viveu desenvolvendo em si qualidades inatas.
Sua vida não poderia, porém, ser somente flores: estava-lhe reservada uma prova de sofrimentos morais.
Casada com o médico Odilon Machado, suportou o infeliz consórcio durante alguns anos, o qual se interrompeu finalmente pela solução do desquite. Não houve filhos dessa união, como nunca os teria Maria Dolores.
Em sua peregrinação, morou em várias cidades da Bahia e foi em Itabuna que conheceu Carlos Carmine Larocca, italiano radicado no Brasil, de quem se tornou companheira ajudando-o, ombro a ombro, em suas atividades como proprietário do Café Baiano e de uma tipografia denominada A Época. Por ocasião da II Guerra Mundial, o Sr. Larocca foi prisioneiro político devido à sua nacionalidade. Em 1947, mudou-se para Salvador, onde Maria Dolores continuou com suas sessões mediúnicas.
Notamos em seus versos o quanto sofrera, buscando algo que não encontrava: a sua complementação afetiva, tal como fora planejado pela Providência, para que buscasse o Amor Maior, que ela soube encontrar um dia: Jesus! Tanto sofrimento, contudo, não foi capaz de torná-la indiferente ao sofrimento humano.
Na imprensa, falava dos direitos humanos e do sofrimento dos menos felizes. Não foi compreendida: tacharam-na de "comunista", pelo que teve de responder às acusações que lhe faziam, pois fora a isso intimada.
Em menina, fora católica; em adulta, o sofrimento fizera-lhe conhecer a Doutrina de Allan Kardec e veio a consolação, a aceitação do sofrimento.
A dor que suportou a fez conhecer o então combatido Espiritismo. De alma caridosa integrou-se à Legião da Boa Vontade, fundada pelo saudoso Alziro Zarur. Era frequente ver-se Maria Dolores dedicando-se aos sofredores dos bairros pobres da cidade de Salvador. Afastando-se das lides literárias, Maria Dolores dedica-se, então, à caridade infatigável, criando meninas, sonhando edificar o Lar das Meninas sem Lar.
Receando a apreciação da crítica especializada, guardou para si sua obra poética durante muito tempo, segundo confessa no prefácio do livro Ciranda da Vida, cuja renda possibilitou a realização de seu antigo desejo. Com isso, Maria Dolores, que não fora mãe biológica, tornava-se mãe espiritual de várias meninas, abrigando em seu próprio lar crianças desvalidas, orientando e assistindo-as.
Sendo reconhecida na Capital pela sua arte, passou a escrever nos jornais Diário de Notícias e O Imparcial sendo, neste último, redatora-chefe da Página Feminina. Durante 13 anos, escreveu nos jornais citados, mostrando o mundo de ternura que trazia dentro de si, com o pseudônimo de Maria Dolores.
Apelidada pelos amigos e familiares de Madô e Mariinha, era reconhecida pela simpatia e bondade com que a todos cativava.
Fazia campanhas, prendas para os bazares realizados em sua própria casa. Fundou um grupo que se reunia em sua residência todas as semanas, quando saíam para distribuir, nos bairros carentes escolhidos, farnéis, roupas, remédios... Chamavam-se As Mensageiras do Bem. No Natal, faziam campanhas e distribuíam donativos assim como no Dia das Mães.
Dolores costurava enxovais, vendia o que era seu ou os empenhava e, às vezes, contraía dívidas para desse modo ajudar alguém. Uma de suas filhas adotivas relatou certa vez que, quando ela desencarnou, alguém viera com joias que lhe pertenceram, as quais foram dadas por ela para que se tornasse viável uma das campanhas que então se fazia.
No trabalho do Senhor, na dedicação à causa evangélica, foi desenvolvendo diversas faculdades mediúnicas. Isso a ajudou a suportar injúrias, como quando fora acusada de "comunista", e outros sofrimentos que, em vez de abaterem-na, elevavam-na.
Perdoando sempre por cima de suas lágrimas, qual ensinou Jesus, trazia em si um grande sentido maternal e, como não lhe foi dado o direito da maternidade, adotou seis meninas.
Carlos (o esposo) estava na Itália quando Dolores adoeceu. A pneumonia a atacara de forma violenta. Antonieta Bastos foi visitá-la com José e Faustino e, vendo seu estado dispneico e de real abatimento, providenciaram o internamento no Hospital Português. Inúteis foram, porém, os esforços médicos. Poucos dias depois, quatro ou cinco dias, em 27 de agosto de 1959, partiu de volta à Pátria Espiritual. Era 1h40 min. E, como disse Mara, em sua crônica, Partiu-se o Guizo de Cristal. Nilza foi avisar, imediatamente, Antonieta e Maria Alice. Levaram o corpo para a Casa de Tia Sara − sede da LBV − e de lá partiu, com grande acompanhamento, para o Campo Santo.
Numa carta escrita a Maria Alice, Francisco Cândido Xavier narra o seguinte: Maria Dolores lhe aparecera no dia 29 de março de 1964, bela e remoçada. As lágrimas vieram-me aos olhos, de vê-la tão claramente junto a mim. Que emoção!
Dolores era alva, de cabelos e olhos pretos, alegre e brincalhona, de estatura mediana e robusta de físico. Desencarnara aos 59 anos, mas a sua lira continuou vibrando em benefício do amor, da caridade e do perdão, o seu hino ao Senhor, não diferente dos hinos que tocava e cantava cheia da alegria de servir.
Perguntaram a Chico Xavier qual o primeiro poema que Maria Dolores escreveu por seu intermédio, e ele disse ser o belíssimo Anseio de Amor, inserido nas páginas de Antologia da Espiritualidade.
Desde então, ela nos envia, antes pelas mãos abençoadas do médium mineiro e ainda por intermédio de Divaldo Franco, suas páginas normalmente em forma de poesia e rimas, sendo muito comum enviar as tradicionais mensagens das mães e do Natal, por ocasião dessas comemorações.
Maria Dolores, a poetisa que ressurgiu pelas mãos abnegadas de Francisco Cândido Xavier, quando encarnada quase sempre engavetava os seus poemas. Em seu livro Ciranda da Vida ela diz o porquê: O pavor à crítica, cujos apupos são uma das formas mais comuns em que se extravasa a vaidade humana, tem-me feito recuar ante a possibilidade de publicar os meus versos simplórios e passadistas. E, por isso, foi-se a mocidade, chegou a velhice, e eles continuam a entulhar o fundo de velha gaveta. Nunca tive jeito para versejá-lo moderno, atualizado até por alguns poetas da velha guarda. Nem mesmo cheguei a tentá-lo. Agora, porém, com a reforma espiritual que traçou um novo caminho para este meu fim de vida, sinto-me disposta e capaz de enfrentar a crítica, porque este livro se destina, com sua venda, a oferecer pequena ajuda a algumas instituições de caridade. Despretensiosa a minha atitude. Mas sincera. Bem intencionada.
Não tardou, porém, e a poetisa reaparece com seu iniludível estilo depois de uma existência inteira consagrada ao próximo, compondo, sobretudo para os leitores espíritas, os mais belos poemas de encorajamento e reconhecimento da excelsitude de Jesus.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Mediunidade e mistificação

Emmanuel
(Relativamente à questão 303 de O Livro dos Médiuns (A. Kardec), no livro Opinião Espírita, por Chico Xavier e Waldo Vieira, com a participação de André Luiz, Espírito.)


Compreendendo-se que na experiência humana enxameiam espíritos desencarnados de todos os estalões, seja lícito comparar os médiuns, tão-somente médiuns, aos instrumentos de comunicação usados pelos homens, no trato com os próprios homens.

Médiuns de transporte.

Vejamos o guindaste que opera por muitos estivadores.
Tanto pode manejá-lo um chefe culto, quanto o subordinado irresponsável.

Médiuns falantes.

Observemos o aparelho de gravação.
O microfone que transmitiu a mensagem edificante assinala com a mesma precisão um recado indesejável.

Médiuns escreventes.

Analisemos o apetrecho de escrita.
O mesmo lápis que atendeu à feitura de um poema serve à fixação de anedota infeliz.

Médiuns sonâmbulos.

Estudemos a hipnose.
Na orientação de um paciente, tanto consegue estar um magnetizador digno que o sugestiona para a verdade, quanto outro, de formação moral diferente, que o induza à paródia.

***

A força mediúnica, como acontece à energia elétrica, é neutra em si,
A produção mediúnica resulta sempre das companhias espirituais a que o médium se afeiçoe.
Evidentemente, o médium é chamado a garantir-se na sinceridade com que se conduza e na abnegação com que se entregue ao trabalho dos Bons Espíritos que, em nome do Senhor, se encarregam do bem de todos.
Em tais condições, nada pode o médium temer, em matéria de embustes, porque todos aqueles que se consagram e se sacrificam pelo bem dos semelhantes jamais mistificam, por se resguardarem na tranquilidade da consciência, convictos de que não lhes compete outra atitude senão a de perseverar no bem, acolhendo quaisquer embaraços por lições, a fim de aprenderem a servir ao bem com mais segurança, já que o merecimento do bem cabe ao Senhor e não a nós.
Fácil reconhecer, assim, que não se carece tanto de ação da mediunidade no Espiritismo, mas em toda parte e com qualquer pessoa, todos temos necessidade urgente do Espiritismo na ação da mediunidade.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Ah, o amor!...

Francisco Muniz


O amor gruda em seu calcanhar tão logo você acorda; aliás, ele já está com você enquanto você dorme, entranhado em seus pensamentos. Ele não é o que você pensa, mas o que você sente quando está pensando. O amor está além de seus pensamentos.
Ele não é o caminho que você trilha e lhe leva onde você quer ir, mas os passos que você dá para chegar ao caminho; ele é cada pedra que machuca seus pés na caminhada, e é também as meias que suavizam seus pés mesmo quando os sapatos estão apertados.
O amor não é a lenha que fará sua fogueira na noite fria, mas o fogo que queimará sua fogueira e a manterá ardendo durante todo o inverno.
O amor chega antes de você em qualquer lugar e mesmo assim ele é sua principal companhia na jornada.
O amor não é a paisagem que adorna seu caminho, mas o modo como você vê a paisagem. O amor, portanto, está em seus olhos e também além de seu olhar.
O amor é tão grande e abrangente que toma todo seu ser e ainda assim você não o percebe...

O sofrimento humano e a hora do Evangelho

(Irmã Rafaela)


Filho meu, filho querido, a ti as bênçãos do Céu.
O Deus bom e misericordioso, pai amoroso de todos os seus filhos, quer que nos reunamos, encarnados e desencarnados, para o concerto sublime das bem-aventuranças. Por intermédio do Cristo Jesus e de sua imensa legião de emissários, dentre os quais também me inscrevo, o Pai Altíssimo manifesta sua soberana vontade para com toda a Humanidade sofredora, ainda padecendo sob os golpes da própria incúria, da própria ignorância.
Os homens sofrem a dor de não saberem que são esses filhos bem-amados do Criador de tudo. Eles precisam ser esclarecidos e para tanto os esforços do Alto são sempre incessantes. Cada vez mais os prepostos do Senhor têm se esmerado nesse mister, a fim de fazerem com que a luz que o meigo Rabi da Galileia espalhou sobre a superfície escura do planeta continue a brilhar.
É sempre hora, portanto, do Evangelho, embora uma parte da Humanidade lhe dê as costas, mesmo sentindo-lhe a necessidade, mesmo antevendo-lhe a presença, mesmo entreouvindo-lhe os apelos libertadores. O homem, incauto qual se encontra, teima em manter-se cativo de si mesmo, desatento quanto às próprias responsabilidades e, por isso, distante da tão almejada felicidade.
Compete aos devotados cooperadores do Cristo a tarefa de esclarecê-los, através do verbo lúcido e comprometido com os sagrados ideais, para que a grande massa dos desvalidos encontre não só o lenitivo para as dores imediatas, mas principalmente o remédio que lhes trará a cura definitiva dos grandes males que encarceram a alma nos resvaladouros do crime e da loucura, prisões essas que, pela imensa bondade do Senhor, já deveriam ter desaparecido da Terra.
É preciso que cada vez mais irmãos nossos despertem - com alguma urgência - para a realidade que lhes é própria e, vivendo a condição de espíritos imortais, passem a cantar conosco o doce hino do compromisso com aquele que é o Caminho, a Verdade e a Vida e nos convida para o grande banquete da vida eterna...

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Aprender a ler

Francisco Muniz

O apóstolo Paulo nos ensina, há dois mil anos, a examinarmos que nos chega ao conheccimento e assim retermos somente o que seja bom, porquanto "tudo me é lícito, mas nem tudo me convém", como bem ele próprio salientou. Desse modo, o aprendiz do Espiritismo deve também aprender a selecionar suas leituras, mas sem desprezar o que ainda não conhece, para que possa separar, depois, o joio do trigo, como ensina-nos o Mestre de Nazaré. Assim veremos, portanto, que há livros e livros; há livros aproveitáveis e livros dispensáveis. E para bem fazermos essa seleção, talvez baste ouvirmos a recomendação de Emmanuel a Chico Xavier:
- Se algum dia eu lhe disser algo que contrarie Jesus ou Kardec, esqueça o que eu disse e fique com Jesus e Kardec.
Eis, então, uma boa régua para medirmos nosso aprendizado espírita.
Mas digo isso para referir-me a um livro famoso de um autor norte-americano famoso, um médium como o é James Van Praagh. Em seu livro, intitulado "Falando com os Espíritos", ele ensina, lá pelo final, um recurso para contatar os invisíveis. É assim: para saber se há a presença de uma entidade no ambiente, deve-se pedir que ela faça ouvir uma batida; se não houver, que faça duas batidas...
Não é ridículo?

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Mediunidade, coisa muito antiga

Francisco Muniz


"Um jovem foi aceito no noviciado de um convento da nossa Ordem. Depois de pouco tempo, esse noviço adoeceu gravemente e chegou à beira da morte. Mas não fizera, como é de costume da nossa Ordem, uma confissão geral ao abade, porque este estava ausente. Como esperasse com grande ansiedade, mas o abade não chegasse, confessou todos os seus pecados ao prior. Assim chegou a sua última hora, antes que o abade regressasse. Mas naquela mesma noite, quando o abade dormia numa casa fora do mosteiro, apareceu diante de sua cama o espírito do falecido pedindo humildemente que lhe fosse permitido confessar-se. 
– Ouvirei com prazer – respondeu o abade ao noviço; o jovem confessou todos os seus pecados, da mesma maneira e sequência como confessara ao prior. Seu arrependimento era tão grande que as lágrimas do noviço caíram no peito do abade, pois estava debruçado sobre ele durante a confissão. Depois de tudo cumprido, disse estas palavras: – Agora vou com vossa bênção, pai; se não tivesse confessado convosco, não teria podido me salvar. 
Diante dessas palavras o abade acordou, e quis comprovar se a aparição fora real, ou, como seguidamente acontece, apenas um produto da imaginação. Apalpou o hábito no peito e viu que estava todo molhado de lágrimas. Ficou muito admirado, e quando ao regressar para casa contou tudo ao prior, este respondeu: 
– A aparição foi verdadeira, e a confissão também, palavra por palavra." 

Intitulado “A confissão no sonho”, o texto acima, constante do livro Histórias Medievais, organizado pelo escritor alemão Hermann Hesse, narra um acontecimento do século XIII da Era Cristã, época em que o contato com o mundo espiritual era mantido sob o véu do misticismo. Mostra, a despeito da ação inibitória da Igreja, que principalmente entre os religiosos católicos os fatos mediúnicos eram uma constante. Mas ainda que a Igreja não estimulasse o intercâmbio com os chamados “mortos”, por vezes, em situações especiais, solicitava de um de seus membros esse “favor”, como informa Hesse em sua obra. No entanto, em vez de espíritos os padres da Idade Média se referiam aos invisíveis sob a denominação genérica de “demônios”.
Como se percebe e os espíritas conhecemos de sobejo, Allan Kardec tinha razão ao dizer, na introdução de O Evangelho Segundo o Espiritismo, que o espiritismo é de todos os tempos. Mas é claro que o Codificador se refere aí ao espiritismo que significa simplesmente o intercâmbio com os seres invisíveis, porquanto o Espiritismo como Doutrina codificada só seria revelado aos homens seis séculos depois do episódio descrito acima. Também é fácil notar que o século XIX representava os tempos propícios preditos no Evangelho, uma vez que a mentalidade humana já se encontrava suficientemente amadurecida para recepcionar a Terceira Revelação, enquanto o psiquismo da Idade Média ainda se mostrava eivado de superstições, marcando o império da fé cega.
O contato com os Espíritos somente sofreu maior perseguição e proibição quando a Igreja decidiu combater os “hereges” albigenses, no Sul da França, conforme relata o escritor espírita Hermínio Miranda em seu livro Os Cátaros e a Heresia Católica, revelando que os papas que se sucederam na ocasião (o mesmo século XIII) iniciaram aí os horrores da Inquisição, depois que fracassaram os meios intimidatórios – dentre eles uma Cruzada armada contra pessoas que só queriam viver o Evangelho em sua essência mais pura, livre dos dogmas instituídos pelos religiosos comprometidos com o poderio de Roma. Segundo a pesquisa de Hermínio Miranda, constava da prática dos cátaros o intercâmbio espiritual, do mesmo modo como hoje o Espiritismo recomenda, ou seja, o exercício mediúnico gratuito, discreto e em ambiente privativo.
A conclusão que se tira é que, como atesta a equipe do Projeto Manoel Philomeno de Miranda no livro Estudando o Livro dos Médiuns, “durante toda a história da Humanidade a comunicação entre os Espíritos e os homens fez-se de modo corrente” e somente pela razão de que todos os homens são médiuns “em menor ou maior grau”, segundo a conceituação de Allan Kardec. De outra forma os seres incorpóreos não poderiam agir sobre a matéria, sendo os médiuns, portanto, o meio possibilitador da ação espiritual junto aos homens, ajudando-os ou, conforme a natureza inferior dos Espíritos, interferindo em nosso equilíbrio psico-físico.
Há aí, como se percebe, toda uma ciência a ser aprendida e foi a isso que Kardec dedicou seus últimos anos, convocando-nos a também debruçarmo-nos sobre a interação das duas realidades, a material, ou física, e a espiritual, como forma de compreendermos nossa dupla natureza e os processos que nos faz reconhecer como entidades trinitárias, compostas do corpo material e de um corpo espiritual, ao qual o Codificador nomeou perispírito, envoltório semi-material do Espírito. É nessa interação que se desenvolvem os processos de comunicação entre os dois mundos, promovendo fenômenos psíquicos e físicos que atestam a existência no homem de variadas faculdades mediúnicas, importando seu estudo e compreensão para o bom exercício dessas mesmas faculdades, sob a condução dos Bons Espíritos que em nome de Jesus querem nos orientar.