terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Ajuda!

Irmã Rafaela

Ajuda a teu irmão. Ele sofre; as trevas da ignorância o sufocam; as dores do corpo e da alma o torturam; as dificuldades das relações assoberbam-lhe o coração... Tens, portanto, um vasto campo a trabalhar, tu, que já recebeste muito da solicitude da Divina Providência. Importa, contudo, compreenderes que há mais a receberes e para isso é imprescindível espalhar os benefícios de que te fazes merecedor, auxiliando a quantos se apresentem com necessidades em teu caminho.
Como um dos obreiros do imenso exército do Cristo, também és chamado à cooperação, fazendo o melhor pelos "pequeninos do Pai". Tua cota de trabalho ainda não é grande e longe está de acabar, posto que incessante: é trabalho de todas as horas, de todos os instantes. Age, pois, com coragem e devotamento, confiante na bondade de Deus, em cujo nome o Cristo realiza a bela missão transformadora da Terra, iluminando a faze sombria do planeta para que os homens compreendam a razão de sua marcha pelo mundo e passem a se comportar de modo mais compatível com as divinas determinações.
Vamos, assim, ao trabalho.
Ajudemos!

Calma

Irmã Rafaela

"Calma, Deus existe! Confie em Deus."

Quantas pessoas efetivamente confiam em Deus quando em meio às provações que experimentam ao longo da vida, evitando murmurar e, resignadas, esperam que os momento afligentes passem? Bem poucas, sabemos. E no entanto essas pessoas dizem ter fé em Deus; mas que é essa fé quando sobrevêm os instantes de turbulência? em que ela se torna se a esperança logo se desvanece? A vida na Terra não oferece apenas as alegrias com que o corpo se satisfaz, embora insaciável, porquanto a jornada planetária do espírito encarnado é marcada pela dor que burila, posto ser o homem um ser em tarefa de aperfeiçoamento e, por isso, necessitado dos testes que a vida de relação proporciona a todos, indistintamente.
No entanto, a maioria dos homens desconhece tais verdades, mesmo que elas se apresentem escancaradamente ao exame de quantos queiram se esclarecer. Assim, perdidos em meio à própria ignorância, eles padecem ante o aguilhão retificador e reagem contra ele: reclamam, queixam-se da dor que lacera-lhes a lama e sofrem atormentadamente. Impacientes, almejam o fim do processo purificar, mas esse fim está na aceitação consciente e consequente abandono em Deus.
Paciência!, clamam os céus pela voz dos abnegados instrutores espirituais que em nome do Cristo vêm orientar a Humanidade sofredora, com a finalidade de deixarmos o conforto das sombras densas que ainda nos sufocam e passarmos com urgência aos domínio benfazejo da luz. Paciência!, repetem, mostrando que o Divino Amigo espera século após século o nosso concurso para o apaziguamento das tormentas dolorosas que assolam a Terra e combalem o ser. Assim como a Divindade tem infinita paciência para conosco, seus filhos transviados do caminho da salvação. Paciência!, insistem, anunciando que a vida no mundo é um breve período de tempo convidando a todos para a tarefa do autoaprimoramento, afirmando que a dor é necessidade dos seres que faliram no passado mas que estão destinados à vitória no futuro promissor se bem souberem se portar no presente.
Paciência requer coragem,e sta virtude máscula capaz de afrontar os revezes da vida e proporcionar o sucesso almejado pelas almas determinadas. Se tudo passa com o tempo e se o tempo na matéria é breve, o que se haverá de lamentar senão o tempo que se perde na lamentação, na revolta ou na ociosidade indiferente? A tarefa é urgente, dizem-nos os amigos espirituais, acrescentando que esse trabalho não pode ser feito com pressa.
Tenhamos calma e e trabalhemos um dia de cada vez, a cada vez fazendo mais um pouco, colocando em nossa construção íntima um tijolo após outro, a fim de que o edifício representativo de nossa futura condição de homens de bem seja realmente sólido, sem possibilidade de desabar ante os vendavais tempestuosos da vida material. Portanto, calma, confiemos em Deus e caminhemos tranquilamente para a frente e para o alto, marchando junto com os companheiros de jornada evolutiva, com a certeza de que todos chegaremos ao objetivo comum.


terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Equilíbrio

Irmã Rafaela

Tudo à tua volta vibra pelo amor com que Deus marcou Sua criação. Os ares oferecem o alimento da alma e do corpo pela respiração; a terra fornece o sustento orgânico com sua produção vegetal e mineral; plantas e animais se sacrificam para proporcionar vitalidade aos homens; estes, contudo, desconhecem a riqueza de que desfrutam e malbaratam os recursos da Natureza, verdadeira mãe que em nome do Amor se derrama integralmente a benefício de seus filhos, sem lhes exigir reciprocidade.
No entanto, as divinas leis nos compelem à cooperação a fim de que os recursos disponíveis se renovem, em prol das gerações futuras. Agindo solidariamente, observando que não deve ambicionar tudo unicamente para si próprio, o homem terá cada vez mais, em abundância, ao passo que operando egoisticamente experimentará, mais cedo ou mais tarde, as agruras da escassez.
É preciso, pois, atuar sempre inteligentemente e, sendo o Espírito o ser inteligente da Criação, deve manifestar em si mesmo em torno de si essa condição, usando a razão e o discernimento como condutores de suas ações com vistas ao equilíbrio e à harmonia gerais.

sábado, 12 de janeiro de 2013

Despertamento

Irmã Rafaela

Enquanto muitos ainda dormem para a realidade imortal que diz respeito a toda a Humanidade, o plano dos espíritos, convém chamá-los, o quanto possível, ao necessário despertamento. Sem violentar consciências, é esse teu dever, uma vez que já te encontras atento aos apelos do Alto, deixando tua alma sensível ao trabalho a que o Cristo de chama, a fim de obteres dias melhores na Terra e após findares teu percurso pelo planeta.
Atende a teus irmãos! Como médico, és chamado a pensar suas dores; como educador, deves orientá-los no caminho da Verdade; como sacerdote, convida-os à devoção a Deus; como irmão, exemplifica junto a eles a lição da fraternidade. Anima-te a esta obra que apresenta alguma dificuldade, mas que ao final se revelará dignificante para ti mesmo.
Sê tu as mãos, a mente, a boca e o coração do Cristo junto a teus irmãos, e o Divino Amigo te cumulará de bênçãos por teres sido o dócil instrumento de atração das ovelhas desgarradas de Seu rebanho...

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Ecologia mental

Francisco Muniz
(publicado na revista Além da Vida n.° 12)

Os acidentes costumam acontecer quase sempre por imperícia humana ou devido a circunstância que os homens não podem prever ou evitar. Tanto num como noutro caso se cumprem as leis de Deus, posto que não cai uma folha de árvore sem o divino consentimento. E Deus permite, em sua bondade e justiça, que se nos aconteçam determinados episódios, mesmo aqueles tidos como dolorosos ou desagradáveis, seja para nos corrigir erros do passado, seja para provar nossa força e merecimento da divina misericórdia. Somos nos, em suma, os autores das venturas ou desditas que por vezes se nos acontecem.
Ultimamente, o mundo tem presenciado uma sorte incontável de acidentes seguidos de mortes coletivas, aí incluídas até mesmo as guerras. São aviões despencando dos céus com dezenas de passageiros, prédios que desabam com seus moradores, veículos que colidem vitimando ocupantes, trens que descarrilam... e isso quando não se trata dos fenômenos naturais, como os furacões, os grandes incêndios, as nevascas e as ondas de calor, que têm feio vítimas principalmente no hemisfério norte do planeta.
Um dos últimos acidentes que mais causou comoção junto à opinião pública mundial foi o naufrágio do submarino "Kursk", que provocou a desencarnação de 118 (número oficial) tripulantes e um drama de consequências até mesmo políticas na Rússia. O conflito entre palestinos e judeus, em Israel, e a guerra dos Estados Unidos contra o Iraque também seguem ceifando muitas vidas, embora os combates em território iraquiano já tenham oficialmente se encerrado. Na África, diversos países ainda se encontram em guerra civil...
É preciso que se esclareça, mais uma vez, que o mundo passa por um processo de seleção espiritual. Chegamos ao final de um período de mil anos durante o qual vimos o Homem proceder na Terra de acordo com os impositivos primários da paixão e dos instintos, agredindo-se a si mesmo e aos outros seres da Criação, como se não tivesse que prestar contas de seus atos, como se o planeta não devesse ter resguardadas suas condições de habitabilidade.
Poluindo-se a si mesmo, o homem sujou também o chão onde pisa e o ar que respira. E tudo isso apesar dos constantes avisos do Céus, que se intensificam à medida que nós nos pomos mais céticos, como a fazer-nos ver que quanto mais elevamos a cerviz, orgulhosamente, sobre aqueles que acreditamos subalternos, mais depressa somos confrontados com a realidade verdadeira - aquela que nos põe em pé de igualdade com todos e tudo que nos cerca e nos conscientiza de que há poderes que não podem ser desconsiderados.
Em Ação e Reação (psicografia de Chico Xavier), o Espírito André Luiz cita, no capítulo 18, a questão dos resgates coletivos, estabelecendo os meandros da misericórdia divina atuando sobre bons e maus. Nessa leitura é possível aferir que, mesmo desencarnando em igual situação, cada um terá o gênero de morte que fizer por merecer. Há, nessas como em outras circunstâncias, equipes espirituais de auxílio que intercedem em benefício dos desencarnados, mas mesmo esse socorro decorre ainda da aplicação das leis de justiça e haverá, assim, aqueles a quem o auxílio será tão mais demorado quanto deixe a desejar seu grau de elevação espiritual. Isto é, quanto menos materializado ou apegado à vida material for o espírito, mais depressa ele será atendido na retirada do corpo físico.
Isso quer dizer que, entre os marinheiros do submarino, como em vários casos de naufrágio, é possível que alguns se demorem presos aos despojos se ainda não adquiriram a necessária compreensão acerca da realidade espiritual, indicada precisamente pelo progresso moral e intelectual que tenham feito enquanto encarnados. Será, para eles, um castigo que se auto-aplicaram por se terem devotado em demasia às questões meramente materiais, enquanto observam, se é que têm condições para isso, seus amigos e colegas partirem, cercados de seres luminosos, em demanda das esferas mais felizes.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Às margens do Ipiranga

Francisco Muniz
(publicado originalmente na revista Além da Vida n.° 13 - SP - s.d.)

Corria o ano de 1822. Havia no Brasil, entre as gentes de todas as províncias, circulando nas mentes e corações qual mosca especulando a qualidade dos alimentos expostos, uma ideia de liberdade que absolutamente não era nova. Há quase um século tal era o ideal do povo brasileiro, que soube refrear seus impulsos desde que o Alferes havia pago com a vida a ousadia de desafiar Portugal. Entretanto, viviam-se tempos novos em todo o território americano. A febre de liberdade espalhava-se qual rastilho de pólvora, e mesmo o príncipe regente não estava imune a ela.
D. Pedro, porém, era um filho fiel e um administrador ciente de suas funções, e sabia o papel que desempenhava no brasil, como representante da Coroa portuguesa. Mas o príncipe amava esta terra, amava o povo, apaixonado e ainda desconhecedor do futuro grandioso que apenas se pressentia para a pátria adotada havia 300 anos. Para Pedro, portanto, o Brasil não era o "quinto dos infernos" detestado  por sua mãe, a rainha Carlota Joaquina, mas, comungando com o sentimento dos brasileiros, via no torrão sul-americano um pedaço do paraíso despegado do próprio Céu. Era assim, com o pensamento e o coração inebriados, que Pedro se deixava preencher de amor pela terra que o acolheu, aproveitando as delícias oferecidas a mão cheia, até mesmo as que exerciam um forte apelo a seus instintos mais primários.
Adorado pelo povo, nem por isso o príncipe deixava de ser exigido na correspondência desse amor através de atos que tornassem patente, de alguma forma, sua preferência pelo Brasil em relação a Portugal, que lhe dera o berço. A fidelidade, principalmente ao pai, - o velho rei D. João, com quem recusara seguir de volta à Europa, em atendimento aos apelos do povo para que ficasse no Brasil -, e a sincera afeição a sua nova pátria eram para ele, Pedro, fontes de terríveis dramas conscienciais. Se, por um lado, devia obrigações à Coroa portuguesa, por outro, seus deveres para com o Brasil falavam-lhe bem forte à razão e ao sentimento.
Foi num desses estados de angústia que, na manhã daquele 7 de setembro, Pedro acordou sobressaltado. Tivera uma noite difícil em meio à viagem a São Paulo. Um sonho do qual não consegui lembrar-se ocupava ainda sua mente. Na verdade, toda sua alma agitava-se em estranha perturbação que chegava aos poros. Pedro suava como se em febre, e ele levantou-se do leito improvisado à beira da estrada em demanda do riacho que serpenteava ali perto. À volta, todos dormiam.
A fonte rumorejava docemente, e o visitante atirou-se a ela com sofreguidão, não tanto para saciar a sede que abrasava sua garganta, mas para afastar de si a sensação incômoda de que se via possuído. Molhou o rosto várias vezes e quando, por fim, abriu os olhos viu a rosa, imóvel sobre o cristal das águas. O Sol ainda não havia despontado, mas à visão de Pedro a flor era como se estivesse nimbada de luz, como em verdade tivesse luz própria, um pequeno astro fulgurante a pairar ante o príncipe atônito. Ele nem sequer ouviu que o chamavam, e foi preciso mesmo tocá-lo para que despertasse do torpor. Antes, porém, de dar atenção a quem insistia em lhe falar, Pedro arrebatou a rosa, num ímpeto, e só então procurou saber o que queriam com tanta insistência.
Tratava-se do emissário da Sede do reino, a mando do conselheiro José Bonifácio, com a mensagem segundo a qual a Coroa exigia a volta definitiva de Pedro a Portugal. Informado das razão da matriz portuguesa, o príncipe regente teve um breve acesso de raiva, esbravejou e decidiu retornar ao Rio de Janeiro, para protestar contra os desejos do rei. A essa altura, seus companheiros de viagem já haviam levantado e começavam a preparar os cavalos, intentando seguir rumo a São Paulo antes que o calor do Sol tornasse insuportável a cavalgada. Assim, à ordem do príncipe, todos montaram e se dispuseram a tomar o caminho de volta. Mas, nem bem haviam galopado meia hora, margeando o riacho que lhes garantia frescor e saciedade inclusive aos cavalos, foram interceptados por tropas de soldados portugueses, chegados à Colônia para fazer cumprir - à força, se preciso - as determinações reais.
Nesse momento, a exaltação mental de Pedro, que já era grande, tomou proporções ainda maiores, e o príncipe parecia mesmo fora de si, após ouvir as admoestações dos patrícios. Era, pois, chegado o momento da decisão. Pedro havia de escolher o lado para o qual mais fortemente pendia seu coração. E então deu-se o prodígio. Pedro ergueu o braço e deixou que a voz explodisse num brado, jogando no ar toda a angústia que oprimia seu peito. Nesse instante, no alto de seu braço erguido, na mão fechada como se empunhasse um sabre, um imenso facho de luz brotava, ofuscando a quantos ali se encontravam. Era a rosa, que Pedro não mais largara desde seu encontro na fonte. À luz do Sol que começava a despontar, o brilho da flor ganhava maior intensidade, figurando como um pequeno sol sustentado pela mão do príncipe. Mas a rosa não era percebida pelos cavaleiros, agora dominados pela perturbação proporcionada pelo brilho que os ofuscava, tanto quanto se assustaram ante a vociferação que escapara da garganta de Pedro.
Que ouviram? Sim, em meio aos sons de desabafo que irrompera da laringe do príncipe, palavras muito bem articuladas foram ouvidas. Palavras que em verdade não era Pedro quem pronunciava, mas que pareciam vir do próprio Céu, tão tonitruantes ecoavam. Aos homens em volta, entretanto, era mesmo o príncipe que, espada em punho, bradava contra a tirania portuguesa, revoltado ante a imposição da Coroa e tomando definitivamente o partido dos brasileiros em suas intenções separatistas. Naquele momento, pois, o Brasil já se consideraria de uma vez por todas livre do jugo de Portugal, a quem dera, por tês séculos, todas as satisfações da vassalagem. No entanto, as palavras que da boca do príncipe jorravam aos borbotões não tinham o ímpeto da simples revolta, da pueril indignação de quem por anos cansara de cumprir tarefas para um soberano usurpador.
Não. Pelo contrário, eram palavras de candentes ensinamentos, revelações acerca do futuro inevitável quanto á grandeza do Brasil no concerto das nações da Terra, porquanto o próprio Cristo comandava os destinos desta plagas, que nos planos siderais se elevam como a "pátria do Cruzeiro". Eram palavras que diziam um hino em louvor ao Criador de todas as coisas e ao Cordeiro, sob cujas ordens se ensejaram aquelas revelações, bendizendo a terra nova e glorificando-a na posteridade desde 300 anos antes, quando fora "descoberta" para o mundo de então.
Eram, afinal, palavras que aqueles homens, pouco afeitos aos anseios do espírito, não compreendiam em toda sua plenitude. Comentando, depois, uns com os outros, trocando as impressões vividas naqueles breves instantes, acharam por bem registar conforme entenderam aquele acontecimento, que julgaram de grande importância para os destinos da pátria, rematando o feito na expressão grandiloquente que a história grafou: "Independência ou morte!".
Às margens do riacho Ipiranga, naquela manhã do dia 7 de setembro de 1822, nascia um país que se tornará, pela afirmação sublime de Humberto de Campos, o coração do mundo e a pátria do Evangelho!

Caráter da revelação

Francisco Muniz
(publicado originalmente na revista Visão Espírita n.° 24 - Ano II - Novembro.2000)

Depois do ótimo "O sexto sentido", o thriller paranormal parece ser o novo filão a ser explorado pelo cinema americano, Desta vez, o clima de suspense quase macabro fica por conta de "Revelação", estrelado por Harrison Ford e Michelle Pfeiffer, e dirigido por Robert Zemeckis (que esteve à frente do também excelente "Contato", sobre vida extraterrestre). O filme é um prato cheio para os cinéfilos espíritas, que adoram ver e comentar as incoerências doutrinárias das histórias, embora saibam de antemão que Hollywood não tem compromisso com a Doutrina Espírita.
A história gira basicamente em torno da mediunidade descontrolada de Claire Spencer (Pfeiffer), uma dona de casa um tanto quanto entediada, pois abandonou a carreira musical para se dedicar ao marido e á filha, que logo no início do filme sai de casa para cursar a faculdade. Ford vive o doutro Norman, cientista de renome e marido dedicado de Claire. Mas o passado e Norman traz à tona acontecimentos bizarros, e quem mais sofre é justamente sua esposa, que passa a ouvir sussurros estranhos pela casa e se vê às voltas com um fantasma de mulher que aparece refletido na água da banheira.
A partir daí, o filme é uma sucessão de sustos vindos do além, até a sequência final, mórbida e asfixiante, que faz a tal "revelação". Estão presentes nesse longa-metragem todos os elementos de um processo obsessivo por espírito desencarnado: um crime, um desejo de vingança, a mediunidade desajustada de alguém próximo daquele a quem se quer atingir.
Como qualquer mulher que vê um espírito em casa, Claire acha que ficou louca. Até aceita consultar-se com um psiquiatra, mas acaba mesmo é realizando uma sessão mediúnica em casa, para entender o que se passa. Norman, o marido, a princípio duvida da esposa, mas aos poucos vai se convencendo de que há, realmente, um espírito entre eles, e o personagem passa então por uma transformação radical.
Descontados os óbvios exageros, que ficam por conta do caráter comercial do filme, a história é perfeitamente plausível, do ponto de vista doutrinário. Trata-se de uma perseguição espiritual, igual a tantas de que temos notícia no meio espírita, só que aterrorizadora e misteriosa como convém ao cinema.
Harrison e Michelle foram duramente criticados por atuarem nesse tipo de filme, que recebeu até a injusta denominação de "Sexta-feira 13 de meia-idade". Mas o fato é que, cada vez mais, as histórias sobre a realidade do mundo espiritual despertam o interesse do público em geral, e os grandes astros e estúdios já perceberam isso.

Remédios falsos

Francisco Muniz
(publicado originalmente na revista Visão Espírita n.° 5 - Ano I - Agosto.1998)

A ânsia de ganhar dinheiro fácil faz a mente criminosa arquitetar os planos mais maquiavélicos, até mesmo eliminando vidas preciosas para satisfazer seus propósitos...

Se não fosse a tentativa de algumas mulheres em não quererem mais engravidar, talvez a sociedade brasileira ainda estivesse sem saber da proliferação de remédios falsificados sendo comercializados em farmácias e drogarias principalmente do Sudeste do País. Com a apuração das primeiras denúncias, novas descobertas de fraudes cometidas por laboratórios grandes e pequenos, muitos deles clandestinos, vieram à tona, por conta da investigação da imprensa e das autoridades sanitárias e policiais. Para estupefação do cidadão comum, viu-se que até mesmo simples analgésicos sem o necessário princípio ativo (inócuos, portanto) estavam - ou ainda estão - sendo vendidos a incautos e desprotegidos consumidores.
O mais grave é que somente após as denúncias é que muita gente está se dando conta de que seus entes queridos morreram em decorrência da ingestão desses medicamentos falsos, uma vez que não faziam efeito algum no organismo afetado por doenças várias. Tal foi o caso, por exemplo, de um homem de tratava um câncer de próstata e, ao saber que tomava remédio falso, perdeu as esperanças de obter a cura. Sua filha, indignada, decidiu processar o laboratório fabricante do medicamento, medica que também estão adotando algumas das mulheres que engravidaram contra a vontade, pois tomavam certo anticoncepcional que acreditavam eficiente.
Não menos grave também é o fato de que grande parte desses medicamentos falsificados é distribuída gratuitamente na própria rede oficial de serviços de saúde, entre centenas de pacientes que não têm recursos suficientes para comprá-los em farmácias. Nesse aspecto, inclusive portadores de Aids se descobriram ingerindo remédios falsos, comprometendo o esperado restabelecimento orgânico. No mínimo, a situação faz pensar numa grande e bem articulada quadrilha de falsários preocupada em obter ganhos fabulosos (o preço dos remédios é sempre elevado, no Brasil!), sem qualquer escrúpulo em sacrificar vidas humanas.
Apesar das investigações policiais e do esforço do governo nesse sentido, o fato é que nenhum responsável pelo problema foi indiciado. O fechamento provisório do laboratório de onde saíram os anticoncepcionais ditos "de farinha" foi mais uma medida administrativa que jurídica, tanto que foi autorizado, dias depois, a voltar a fabricar medicamentos sem similar no mercado.

Endividamento cármico

O ambiente espiritual do planeta é duplamente o de uma escola e o de um hospital, segundo se depreende da simples observação e da leitura dos relatos de autores espirituais como André Luiz, por exemplo, através da mediunidade de Chico Xavier. Os espíritos que reencarnam na Terra, ainda inferiores, como devedores ante as leis divinas, trazem necessidades reeducativas que não raro se traduzem em conturbações orgânicas, afetando a saúde do corpo físico.
Assim sendo, muitos precisam se valer de remédios que, no fundo, são o ponto de focalização da fé que verdadeiramente cura. Entretanto, no atual estágio evolutivo do planeta os doentes ainda precisam do remédio material como coadjuvantes do tratamento de muitos males cuja origem está mesmo na roupagem espiritual, ou perispírito.
Além de um grande hospital, o mundo também é uma escola de reajustamento, onde os espíritos/alunos devem aprender a conviver uns com os outros pautados principalmente pela noção de fraternidade. Nem todos caminham por essa trilha, porém, preferindo ignorar os impositivos conscienciais e continuar na senda criminosa, entregando-se às aventuras do egoísmo.
Desse modo, se pessoas se valem da inteligência para perpetrar crimes contra a vida de seus semelhantes, envenenando-os e até precipitando-lhes a desencarnação, a princípio estão seguramente contraindo débitos pesadíssimos. Contudo, como espíritos responsáveis, isto é, capazes de responder por todos os seus atos, terão de, mais cedo ou mais tarde, enfrentar o tribunal da própria consciência e se render aos imperativos da Lei maior, dos quais ninguém se furtará.


Lições que ficam

É possível que nem todos os leitores tenham ouvido falar de placebos. Segundo a definição dos dicionários, placebo é o "medicamento inerte ministrado com fins sugestivos ou morais, ou, ainda, em trabalhos de pesquisa, quando é dado a um grupo de pacientes que ignoram estar, paralelamente, tomando o remédio que se quer investigar". Nos testes das vacinas contra câncer e Aids eles vêm sendo largamente utilizados. Raciocinando-se por aí, as mulheres que engravidaram enquanto tomavam  a pílula de farinha de certa formam ingeriam placebos, posto que ignoravam sua ineficácia.
Admiravelmente, pelo que se tem notícia, nenhuma delas se revoltou ante a situação, aceitando a chegada de mais um filho que de certa forma agravaria a condição social da família, em vista do desemprego ou dos parcos rendimentos dos pais. Essa talvez tenha sido uma das principais lições em todo o drama gerado pela falsificação de remédios. Talvez tenha sido, também, mais uma forma engendrada pela Espiritualidade para garantir a reencarnação de espíritos necessitados de resgatar antigos débitos e, quem sabe, até mesmo propiciar o equilíbrio familiar, com promessas de dias mais felizes.
Outra lição diz respeito à automedicação. É costume do brasileiro em geral consumir remédios por conta própria, seja porque o acesso aos serviços médicos gratuitos impõe uma grande dose de paciência (daí os doentes serem chamados de "pacientes"), seja pelo custo das consultas particulares, pelo medo de ir ao médico e descobrir-se portador de uma doença mais séria do que pensa, ou por diversos outros motivos. Coma sabida proliferação de remédios falsificados, com certeza muita gente deverá pensar duas vezes antes de retirar produtos nas prateleiras das farmácias, porque acima de tudo as pessoas têm medo de que lhes acontece o pior - e por isso tomam remédios...

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

O Espiritismo e a Ciência

Francisco Muniz 
(publicado originalmente no jornal Tribuna Espírita de Salvador n.° 11, de Out.-Nov.-Dez.2009)


Mais que a Biologia, o Espiritismo é a ciência da Vida. Mais que a Química, é a ciência da Transformação; mais que a Física, é a ciência da Energia; mais que a Meteorologia, é a ciência do Tempo; mais que a Astronomia, é a ciência do Espaço, mais que a Psicologia, é a ciência das Relações; mais que a Matemática, é a ciência da Razão; mais que o Direito, é a ciência da Justiça; mais que a Religião, é a ciência do Divino. Faz algum tempo escrevemos essas palavras. Agora, que se nos é pedido um comentário sobre a Doutrina dos Espíritos em sua relação com a Ciência, elas nos vêm à lembrança, já definindo nosso posicionamento como espírita e perante a ortodoxia da Ciência terrena, bem mais afeita à condição material da natureza.
Allan Kardec, em O Livro dos Espíritos, ressalta que o materialismo é o grande inimigo do Espiritismo e com tais palavras o Codificador quer dizer - assim o compreendemos - que o culto à realidade material, tão somente, é o mal que precisamos combater em nós mesmos. Tendo sucesso nesse tentame, conseguiremos alertar outros companheiros de jornada para semelhante equívoco, consoante as palavras do Cristo: "Estais no mundo, mas não pertenceis a ele" (João 17:11,14). Isto é, nossa natureza mesma é espiritual e é desta ciência (conhecimento) que devemos nos ocupar.
Que não se veja neste nosso pensamento, contudo, nenhuma base de fundamentalismo, uma vez que, conforme condicionou Allan Kardec, o Espiritismo caminhará passo a passo com a Ciência e se modificará naquilo em que a Ciência aponte como erro. Isso significa que, do mesmo modo como a Ciência colabora com a Doutrina, ampliando-lhes os campos de pesquisa, o Espiritismo também é um precioso auxiliar dos desbravadores da natureza material, oferecendo meios de compreensão dos muitos fenômenos que se dão na matéria, tanto quanto no tocante à presença do homem no mundo e suas consequências.
Entre os leigos - e mesmo em alguns setores do movimento espírita - carece de sentido o afirmarmos o caráter científico do Espiritismo (além de ciência, é a Doutrina dos Espíritos também filosofia e religião), por desconhecerem a metodologia das pesquisas efetuadas por Kardec e outros expoentes da ciência espírita. Pura negação a priori, portanto. Entretanto, a par da indiferença dos homens, os espíritos se aproveitam de algumas distrações para se revelarem no mundo, como é o caso da transcomunicação instrumental (TCI), que começou aparentemente por acaso, com as experiências do sueco Friedrich Jurgenson. Após constatar que em suas gravações de cantos de pássaros se misturavam palavras humanas, vindas do mundo dos espíritos, lançou o livro Telefone para o Além, tornando a possibilidade de captação de vozes dos "mortos" conhecida do grande público.
Pensadores e cientistas, no mundo todo, caminham pra o encontro com a realidade do espírito, a exemplo dos físicos Amit Goswami e Fritjof Capra, embora certos setores da pesquisa acadêmica pareçam levar a uma estrada contrária, a julgar pelas manifestações ateístas do biólogo inglês Richard Dawkins, autor de Deus, um delírio. Mas Kardec já havia reparado, desde o século XIX, que a recusa na admissão do mundo dos espíritos se deve unicamente ao orgulho humano e que é só uma questão de tempo até que as evidências ganhem foro de verdade comprovada.

domingo, 6 de janeiro de 2013

Desinteresse moral e material

Francisco Muniz
(publicado originalmente no informativo Mediunato, do C. E. Deus, Luz e Verdade, em junho de 2009)

No capítulo XXVI de O Evangelho Segundo o Espiritismo, sob o título "Dai de graça o que de graça recebestes", Allan Kardec chama a atenção para a prática do intercâmbio espiritual dizendo que "as principais condições para harmonizar a benevolência dos Espíritos são: a humildade, o devotamento, o mais absoluto desinteresse moral e material". O Codificador ainda grifa as duas expressões, reforçando o pensamento segundo o qual os médiuns espíritas devem ter a mente e o coração livres de todo empeço ao pleno exercício da faculdade mediúnica. Cá para nós, é perfeitamente compreensível o alerta quanto ao desinteresse material, uma vez que é desnecessário, absurdo mesmo, ir a uma sala mediúnica em busca de ganhos materiais, ainda que no início a maioria dos médiuns tenha chegado à casa espírita motivados por circunstâncias de ordem material, quais os comprometimentos físicos, mesmo que gerados por problemas espirituais inconscientes. Mas o aviso sobre o desinteresse moral merece ser analisado mais detidamente, porque quando queremos servir na obra divina com amor estamos imbuídos dos mais sinceros propósitos e dizemos querer fazer o bem os espíritos encarnados ou desencarnados, principalmente. Mas será assim mesmo?
De acordo com o pensamento de Kardec, nem mesmo esse desejo deve ser abrigado no íntimo do médium - o de querer fazer o bem -, e ele, o Codificador, informa a razão disso, no tópico sobre a mediunidade gratuita (itens 7 a 10, fechando o citado capítulo XXVI), afirmando que o próprio médium não é senhor de sua faculdade e que a mediunidade é neutra, não sendo o médium que dela se serve, mas os Espíritos. Não é por acaso, então, que muitas vezes ouvimos dirigentes espirituais de nossas reuniões mediúnicas dizerem que não vamos à sala fazer, como pensamos, mas receber caridade. Por isso devemos pensar melhor a respeito de nosso labor mediúnico, porquanto nos diz Allan Kardec que "a mediunidade é uma faculdade santa e deve ser praticada santamente, religiosamente". Assim a postura do médium, especialmente daquele que está iniciando no exercício de sua faculdade, deverá ser a da neutralidade a mais completa possível, a fim de obter o sucesso que se espera. Porque é muito comum, nesses momentos, o médium, em vez de se entregar com confiança, ao labor junto aos Espíritos, ficar imaginando situações, duvidar da presença das entidades espirituais ou simplesmente dar vazão a sua fé e se postar em oração enquanto aguarda uma possível comunicação...
Conforme se depreende do comentário do Codificador, o médium deve ser mesmo um instrumento para a ação dos Espíritos. Nesse sentido, precisa ser um instrumento o mais afinado possível. Deve, também, ser o canal através do qual as águas da Espiritualidade se derramem sobre as necessidades alheias, suavizando dores e consolando aflições. Para tanto, esse canal deverá ser o mais limpo possível, para que essas águas alcancem seu objetivo a contento.

Fora da caridade não há salvação

Francisco Muniz
(publicado originalmente no informativo Mediunato, do C. E. Deus, Luz e Verdade, em maio de 2009)

Tal é o lema do Espiritismo e não por acaso a Doutrina nos recomenda a prática da caridade como meio de nos libertarmos do predomínio da matéria sobre nossa condição espiritual. Recordemos que no livro Brasil, coração do mundo, pátria do Evangelho o Espírito Irmão X (Humberto de Campos), narrando a visita da comitiva do Cristo à região da Pátria do Cruzeiro, trazia ela num estandarte esta divisa: "Deus, Cristo e caridade".
A caridade, portanto, está presente em todos os cometimentos espirituais e deve fazer parte de todas as ocupações e preocupações humanas. O espírita já sabe disto e é apontado nas ruas, quase sempre, como exemplo atual do samaritano referido no Evangelho. Esse é o caminho da salvação, que significa vitória sobre si mesmo, sobre o orgulho e o egoísmo que ainda são traços da personalidade humana mantida na imperfeição moral.
Em O Livro dos Espíritos, Allan Kardec questiona sobre a noção de caridade tal como entendia Jesus e os Espíritos Superiores nos oferecem uma tríplice resposta: "Benevolência para com todos; perdão das ofensas; e indulgência para com as faltas alheias". Como se vêm a caridade é expressão das faculdades morais do homem, mesmo quando manifestada por vias materiais, por dar cumprimento à lição magna de Jesus: o que se quer para si mesmo deve-se fazer primordialmente ao outro.
Ao médium espírita tais recomendações parecem falar mais alto, embora elas atendam à generalidade dos homens. É que aqueles comprometidos com os ideais do Cristo nas lides do Consolador respondem mais diretamente ao convite do Evangelho, em examinando a própria consciência quanto aos deveres relativos à interpretação e disseminação das orientações provindas do Alto e destinadas ao esclarecimento das almas ainda na inferioridade. É quando se faz cumprir a lei de solidariedade, ocasião em que a caridade necessita se efetivar.
O espírita é aquele de quem se espera, em seu próprio meio, que urgentemente envergue a túnica do homem de bem delineado por Allan Kardec: "É aquele que cumpre a lei de justiça, amor e caridade em sua total pureza". Os tempos atuais, de intensa transformação planetária com vistas a alçar a Terra à condição de mundo de regeneração, exigem tal postura comportamental. Para tanto, é cada vez mais necessária a recomendação do Cristo quanto ao vigiar e orar para não nos desviarmos do caminho reto que leva à porta estreita.
O Cristo, nas palavras proferidas a seus discípulos há mais de dois mil anos, e ainda ecoando através dos séculos, ensina que devemos amar-nos uns aos outros como a nós mesmos. É assim, pois, que se começa a praticar a caridade, amando-nos para sabermos como amar ao próximo. Depois desse aprendizado, ou mesmo durante esse exercício, despertaremos para outra condição especificada por Jesus, a de renunciarmos a nós mesmos em favor dos mais necessitados, tal como procederam os grandes benfeitores da Humanidade.
Desse modo, então, esqueceremos o caminho da perdição, marcado com os estigmas do orgulho e do egoísmo, e libertados da identificação com o que é perecível, pelos próprios esforços em demanda da imortalidade, encontrar-nos-emos de possa dessa salvação descrita no Evangelho, que vem a ser, em suma, o encontro conosco mesmos na condição dos deuses, conforme explicou o Cristo.

Natal e privilégios

Francisco Muniz
(publicado originalmente no jornal Tribuna Espírita de Salvador n.° 15)

“Se o plano superior já te permite pisar na Seara Espírita, não te limites à prece.” (Emmanuel) [5]

Eis que é de novo Natal e o Homem vem mais uma vez meditar acerca do Cristo, relembrando o nascimento do menino Jesus na simplicidade da manjedoura, fato que por si só deveria lançar-nos a projetos diferenciados dos que temos abrigado na mente e no peito. Talvez não haja, na História, exemplo mais expressivo do convite à reforma interior e, pela compreensão dos ensinamentos cristãos/evangélicos, à renúncia de si mesmo como forma de, com brevidade, realizar a construção do Reino de Deus no coração de cada um. Significa tomar para si a túnica do servidor e abrir mão dos privilégios e recompensas pretendidos por quem acredita que todo trabalho deva ter reconhecimento.
No capítulo 20 do Evangelho de Mateus [4], os versículos 20 a 23 tratam de uma interessantíssima conversa que Jesus teve com Salomé, a mãe dos apóstolos João e Tiago. Era desejo dela que o Mestre concedesse destaque a seus filhos, não no panorama ilusório do mundo, mas no próprio Reino do Senhor. “Não sabeis o que pedis”, Ele repostou, para afinal explicar que “o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir”.
É próprio da natureza humana, marcada por uma estreita, pequena compreensão de sua natureza espiritual, ansiar pelos privilégios e honrarias, colocando-se o Homem na condição de julgar-se merecedor de todas as benesses a despeito mesmo das necessidades de seus semelhantes. E ainda que o Cristo tenha vindo pessoalmente indicar o caminho mais seguro para se alcançar tais benefícios, o egoísmo, ou seja, o culto de si mesmo empana a consciência de si e o Homem, então, gira seguidamente em torno dele próprio, repetindo experiências até finalmente despertar para a verdade e integrar-se ao pensamento renovador.
A vontade tem papel preponderante nesse processo e por isso o ser precisa estar consciente sempre do que quer, a fim de encontrar-se bem conduzido no caminho que deve percorrer com vistas à própria elevação, que em suma representa a libertação das ilusões da matéria. “O objetivo maior da vida é despertar em cada um de nós os valores que o Pai nos deu para cultivar”, diz o Espírito Irmão Jerônimo [1], mentor do Centro Espírita Deus, Luz e Verdade. Segundo esse orientador espiritual, “muitas pessoas deixaram de ser escravas dos homens. Entretanto, continuam sendo escravas do pensamento, o que é bem pior”. Devemos compreender, então, que ele se refere ao pensamento desagregador, posto que inferior e distante daquele objetivo sublime.
O filósofo Huberto Rohden [3] identifica três espécies de homens: o profano, o asceta e o espiritual. Do primeiro, citando Santo Agostinho, diz que “é um cego que corre vigorosamente, mas sem saber para onde – magni passus extra viam, grandes passos... fora do caminho”. O asceta, por seu turno, “é um vidente que, paralisado de medo, prefere recolher-se a uma caverna, longe das maldades do mundo”. Já o homem espiritual “é um vidente que anda seguro e firme nos caminhos do mundo profano, sem se profanar, mas irradiando para seus semelhantes a luz da sua vidência e a força da sua santidade”.
Vemos aí o que pode ser o querer do homem enquanto realiza sua ascensão espiritual, que é algo além do desejo que marca a fase inicial da evolução dos seres e deve se aproximar do esforço consciente que chamamos aspiração, para a realização do reino de Deus no próprio coração, conforme nos convida o Cristo. Ainda segundo Rohden [2], esse algo além é o dever, a que o homem profano foge trocando-o pelo prazer. “O querer o prazer é do ego”, ressalta o filósofo, apontando para um conflito entre querer e dever, “porque o homem não harmonizou ainda o seu ego externo com o seu Eu interno”. Para Rohden, “enquanto o querer do ego está em conflito com o dever do Eu, o homem é infeliz, e tenta sufocar sua infelicidade com toda espécie de prazeres e paliativos”.
Refletir sobre nós mesmos a partir de tais parâmetros será importante para vivermos cotidianamente o verdadeiro Natal do Cristo, colocando-nos na posição do servidor de todos, conforme Sua conclamação.

Fontes:
1. Santana, Bernadete de Oliveira. Querer é Poder (pelo Espírito Irmão Jerônimo).
2. Rohden, Huberto. A Experiência Cósmica. Martin Claret.
3. ______. Profanos e Iniciados. Alvorada.
4. A Bíblia de Jerusalém. Paulinas.
5. Agenda Renascer 2009. EME.

O bem comum

Irmã Rafaela

A união entre as almas é algo que sublima os sentimentos, porquanto as relações harmoniosas entre os homens na Terra provêm do Espaço, isto é, da dimensão espiritual, consoante a vontade divina, que preconiza o amor, o respeito, a tolerância, a compreensão e a concórdia entre os seres da Criação.
Tal é a razão das conquistas a que os corações são chamados a alcançar, a todo instante, mercê também dos ensinos e recomendações de Jesus, o Amor encarnado, que veio ao mundo mostrar aos homens o roteiro de felicidade pelos caminhos do sentimento.
Palmilhai essa senda bendita e a breve tempo vereis coroados de êxito os vossos intentos, desde que estejais trabalhando pelo bem comum, desinteressados de toda recompensa mundana.
O Cristo vos deu os exemplos nesse sentido e pede que sejais sempre agradáveis a Deus e assim participareis sem demora de Seu reino de amor.
Avante, amigos, marchai; trabalhai arduamente por vossa felicidade, posto que nada se conquista sem esforço. Irmãos nossos que sois, vinde partilhar conosco do celestial banquete!