quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Às margens do Ipiranga

Francisco Muniz
(publicado originalmente na revista Além da Vida n.° 13 - SP - s.d.)

Corria o ano de 1822. Havia no Brasil, entre as gentes de todas as províncias, circulando nas mentes e corações qual mosca especulando a qualidade dos alimentos expostos, uma ideia de liberdade que absolutamente não era nova. Há quase um século tal era o ideal do povo brasileiro, que soube refrear seus impulsos desde que o Alferes havia pago com a vida a ousadia de desafiar Portugal. Entretanto, viviam-se tempos novos em todo o território americano. A febre de liberdade espalhava-se qual rastilho de pólvora, e mesmo o príncipe regente não estava imune a ela.
D. Pedro, porém, era um filho fiel e um administrador ciente de suas funções, e sabia o papel que desempenhava no brasil, como representante da Coroa portuguesa. Mas o príncipe amava esta terra, amava o povo, apaixonado e ainda desconhecedor do futuro grandioso que apenas se pressentia para a pátria adotada havia 300 anos. Para Pedro, portanto, o Brasil não era o "quinto dos infernos" detestado  por sua mãe, a rainha Carlota Joaquina, mas, comungando com o sentimento dos brasileiros, via no torrão sul-americano um pedaço do paraíso despegado do próprio Céu. Era assim, com o pensamento e o coração inebriados, que Pedro se deixava preencher de amor pela terra que o acolheu, aproveitando as delícias oferecidas a mão cheia, até mesmo as que exerciam um forte apelo a seus instintos mais primários.
Adorado pelo povo, nem por isso o príncipe deixava de ser exigido na correspondência desse amor através de atos que tornassem patente, de alguma forma, sua preferência pelo Brasil em relação a Portugal, que lhe dera o berço. A fidelidade, principalmente ao pai, - o velho rei D. João, com quem recusara seguir de volta à Europa, em atendimento aos apelos do povo para que ficasse no Brasil -, e a sincera afeição a sua nova pátria eram para ele, Pedro, fontes de terríveis dramas conscienciais. Se, por um lado, devia obrigações à Coroa portuguesa, por outro, seus deveres para com o Brasil falavam-lhe bem forte à razão e ao sentimento.
Foi num desses estados de angústia que, na manhã daquele 7 de setembro, Pedro acordou sobressaltado. Tivera uma noite difícil em meio à viagem a São Paulo. Um sonho do qual não consegui lembrar-se ocupava ainda sua mente. Na verdade, toda sua alma agitava-se em estranha perturbação que chegava aos poros. Pedro suava como se em febre, e ele levantou-se do leito improvisado à beira da estrada em demanda do riacho que serpenteava ali perto. À volta, todos dormiam.
A fonte rumorejava docemente, e o visitante atirou-se a ela com sofreguidão, não tanto para saciar a sede que abrasava sua garganta, mas para afastar de si a sensação incômoda de que se via possuído. Molhou o rosto várias vezes e quando, por fim, abriu os olhos viu a rosa, imóvel sobre o cristal das águas. O Sol ainda não havia despontado, mas à visão de Pedro a flor era como se estivesse nimbada de luz, como em verdade tivesse luz própria, um pequeno astro fulgurante a pairar ante o príncipe atônito. Ele nem sequer ouviu que o chamavam, e foi preciso mesmo tocá-lo para que despertasse do torpor. Antes, porém, de dar atenção a quem insistia em lhe falar, Pedro arrebatou a rosa, num ímpeto, e só então procurou saber o que queriam com tanta insistência.
Tratava-se do emissário da Sede do reino, a mando do conselheiro José Bonifácio, com a mensagem segundo a qual a Coroa exigia a volta definitiva de Pedro a Portugal. Informado das razão da matriz portuguesa, o príncipe regente teve um breve acesso de raiva, esbravejou e decidiu retornar ao Rio de Janeiro, para protestar contra os desejos do rei. A essa altura, seus companheiros de viagem já haviam levantado e começavam a preparar os cavalos, intentando seguir rumo a São Paulo antes que o calor do Sol tornasse insuportável a cavalgada. Assim, à ordem do príncipe, todos montaram e se dispuseram a tomar o caminho de volta. Mas, nem bem haviam galopado meia hora, margeando o riacho que lhes garantia frescor e saciedade inclusive aos cavalos, foram interceptados por tropas de soldados portugueses, chegados à Colônia para fazer cumprir - à força, se preciso - as determinações reais.
Nesse momento, a exaltação mental de Pedro, que já era grande, tomou proporções ainda maiores, e o príncipe parecia mesmo fora de si, após ouvir as admoestações dos patrícios. Era, pois, chegado o momento da decisão. Pedro havia de escolher o lado para o qual mais fortemente pendia seu coração. E então deu-se o prodígio. Pedro ergueu o braço e deixou que a voz explodisse num brado, jogando no ar toda a angústia que oprimia seu peito. Nesse instante, no alto de seu braço erguido, na mão fechada como se empunhasse um sabre, um imenso facho de luz brotava, ofuscando a quantos ali se encontravam. Era a rosa, que Pedro não mais largara desde seu encontro na fonte. À luz do Sol que começava a despontar, o brilho da flor ganhava maior intensidade, figurando como um pequeno sol sustentado pela mão do príncipe. Mas a rosa não era percebida pelos cavaleiros, agora dominados pela perturbação proporcionada pelo brilho que os ofuscava, tanto quanto se assustaram ante a vociferação que escapara da garganta de Pedro.
Que ouviram? Sim, em meio aos sons de desabafo que irrompera da laringe do príncipe, palavras muito bem articuladas foram ouvidas. Palavras que em verdade não era Pedro quem pronunciava, mas que pareciam vir do próprio Céu, tão tonitruantes ecoavam. Aos homens em volta, entretanto, era mesmo o príncipe que, espada em punho, bradava contra a tirania portuguesa, revoltado ante a imposição da Coroa e tomando definitivamente o partido dos brasileiros em suas intenções separatistas. Naquele momento, pois, o Brasil já se consideraria de uma vez por todas livre do jugo de Portugal, a quem dera, por tês séculos, todas as satisfações da vassalagem. No entanto, as palavras que da boca do príncipe jorravam aos borbotões não tinham o ímpeto da simples revolta, da pueril indignação de quem por anos cansara de cumprir tarefas para um soberano usurpador.
Não. Pelo contrário, eram palavras de candentes ensinamentos, revelações acerca do futuro inevitável quanto á grandeza do Brasil no concerto das nações da Terra, porquanto o próprio Cristo comandava os destinos desta plagas, que nos planos siderais se elevam como a "pátria do Cruzeiro". Eram palavras que diziam um hino em louvor ao Criador de todas as coisas e ao Cordeiro, sob cujas ordens se ensejaram aquelas revelações, bendizendo a terra nova e glorificando-a na posteridade desde 300 anos antes, quando fora "descoberta" para o mundo de então.
Eram, afinal, palavras que aqueles homens, pouco afeitos aos anseios do espírito, não compreendiam em toda sua plenitude. Comentando, depois, uns com os outros, trocando as impressões vividas naqueles breves instantes, acharam por bem registar conforme entenderam aquele acontecimento, que julgaram de grande importância para os destinos da pátria, rematando o feito na expressão grandiloquente que a história grafou: "Independência ou morte!".
Às margens do riacho Ipiranga, naquela manhã do dia 7 de setembro de 1822, nascia um país que se tornará, pela afirmação sublime de Humberto de Campos, o coração do mundo e a pátria do Evangelho!

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