sábado, 2 de julho de 2016

A alegria do pastor

Francisco Muniz

“Se me amais, guardai meus mandamentos. E eu rogarei ao Pai, e Ele vos dará outro Consolador, para que fique eternamente convosco.” 
(João, 14:15 a 17 e 26)


Ele se recordava... Fazia, sim, muito tempo, desde que era um rapazote e pastoreava ovelhas nas cercanias pedregosas de Belém. Vivia despreocupado então, atento unicamente ao cuidado que devia ter para com o pequeno rebanho de seu pai, do qual provinha o sustento da família. Sim, muito tempo se passou. Hoje ele tinha sua própria família: tivera mulher que lhe dera três filhos e agora também se alegrava com a companhia serena dos dois netinhos que eram a razão de sua viuvez. Deus achara por bem lhe tirar a esposa, vitimada por uma doença estranha que nem mesmo os feiticeiros conseguiram debelar, mas o premiara com o encanto do sorriso de duas lindas crianças que a todo momento o solicitavam chamando-o de “vovô”, principalmente quando queriam ouvir histórias antigas. E ele então recordava...
Naquela noite, os animais pareciam indóceis, agitados por algum motivo que ele não compreendia. Já deveriam estar dormindo, como de costume, mas algo os inquietava e, percebendo que os balidos não cessavam, ele dirigiu-se ao redil e espantou-se vendo que as ovelhas olhavam para o alto. Ele fez o mesmo e, coisa estranha!, havia no céu uma como estrela diferente das outras: seu brilho parecia escorrer na direção da terra; reparando bem, era como se ela apontasse para algum lugar na terra que era ali mesmo, em Belém. O que significaria tudo aquilo? Assim como os animais, ele também se assustara e instintivamente abriu a portinhola do cercado e as ovelhas de seu pai precipitaram-se para a frente, num movimento que o fez despertar de seu breve torpor, seguindo atrás delas, que não poderiam perder-se ou ele sofreria a fúria de seu pai.
Os animais só pararam na estrebaria do velho Joaquim, um homem bondoso que a todos tratava com gentileza. Ali, ao lado de alguns jumentos, bois e vacas, suas ovelhas reuniam-se em torno de uma das manjedouras e ele aproximou-se, curioso, tanto mais porque um homem e uma mulher se ajoelhavam ao lado de um recém-nascido que dormia placidamente no cocho improvisado como berço. Uma força inexplicável o fez ajoelhar-se também e ele orou a Deus, o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó, os pais espirituais de seu povo. Ele recordava esse episódio com a mesma emoção experimentada naquela noite e seus netinhos viam as lágrimas caírem de seus olhos e, a cada vez que isso acontecia, eles faziam a mesma pergunta:
– Vovô, você está chorando com saudade de Jesus?
“Sim”, ele respondia, acrescentando ter sido dos primeiros a testemunhar o nascimento do Messias, uma vez que, morando muito perto da estrebaria, pôde oferecer alguma colaboração aos pais do menino, Maria e o carpinteiro José, e até mesmo observou os três visitantes estrangeiros que também foram prestar homenagem ao Salvador do mundo.
– Naquela noite, meus filhos – ele voltava a confidenciar às crianças muito amadas –, a Terra inteira se iluminou quando nosso Deus derramou a expressão mais eloquente de seu amor por cada um de seus filhos rebeldes, que somos todos nós, porquanto pudemos ouvir, os que estávamos lá, vinda das esferas celestiais, a voz que até hoje ecoa não nos meus ouvidos, mas na região mais profunda de minha consciência: “Glória a Deus nas alturas e paz na Terra aos homens de boa vontade”...
– Mas por que Ele morreu, vovô? – as crianças se referiam a Jesus, sobre quem o ancião falava e que havia sido crucificado alguns anos antes.
– Não é só saudade desse bondoso Amigo, meus queridos filhos – tentava explicar o velhinho. – Choro principalmente condoído de nossa condição moral, pois fomos, aqueles de nós que O expulsamos daqui, incapazes tanto de ver a grande Luz que Ele nos trazia, compadecido, por Sua vez, de nossa cegueira espiritual, quanto de reconhecermos a mensagem de paz de que era portador, da parte do Deus infinitamente grande em seu amor pelos homens.
– E agora, vovô, o que será de nós? – voltavam a questionar os pequenos, demonstrando receio pelos dias que viriam.
– Confiemos, meus filhos, pois Jesus nos deixou a esperança ao dizer que não ficaríamos órfãos após Sua partida. Haveremos de ser consolados um dia, conforme Ele nos prometeu. E enquanto esse dia não chega para a redenção de nossas almas sofredoras, direcionemos a Deus o apelo em favor de nós mesmos e de todos os nossos irmãos, através da prece que Ele nos ensinou.
E assim, contritos, avô e netos rezaram em voz alta o “Pai nosso”, sem se aperceberem de que suas palavras, singelamente pronunciadas, ressoavam no espaço como música cariciosa que se elevava aos Céus:
– Senhor Deus, nosso Pai que estais em toda parte, seja vosso nome reverenciado em todo o Universo que criastes; que a vossa santa vontade faça-se em nós, conduzindo-nos pelos caminhos do mundo, tanto quanto nos amparando quando daqui partirmos; que o vosso Reino de amor e justiça acerque-se de nós e cresça em nossos corações ansiosos de paz; dai-nos o pão da vida e ensina-nos, Senhor, a perdoar aos homens que nos ofenderem como desejamos que Vós nos perdoeis os pecados; mas não permitais, Senhor, que novamente cedamos à tentação dos erros, para que não nos aconteça o pior. Assim seja!


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