terça-feira, 28 de janeiro de 2014

"Sou contra endeusarem Raul"

Francisco Muniz

Esta entrevista com a a mãe do cantor e compositor baiano Raul Seixas, D. Maria Eugênia Seixas, foi realizada no final dos anos 1990 para a revista Visão Espírita, a propósito da repercussão alcançada pelo livro Um Roqueiro no Além, ditado ao médium psicógrafo Nelson Moraes, de São Paulo, pelo Espírito Zílio, identificado por muita gente com o autor de "Ouro de tolo".

Quando a Sra. leu o livro "Um roqueiro no Além", que sensação teve?
Eu gostei imensamente e achei que tinha ali, realmente, muita coisa característica do Raul, muita coisa que podia ser ele mesmo falando. O mais interessante é que muita coisa dita ali nunca tinha sido publicada. Eu recebi dois exemplares do livro: um, do fã-clube do Raul em São Paulo, e, o outro, do autor, Nelson Moraes, com uma dedicatória muito gentil. O do Nelson veio primeiro e o li com mita alegria. Quando chegou o segundo, eu reli a história.

Então a Sra. reconheceu Raul naquela história.
É como disse: muita coisa que está ali é muito característica dele, do Raul.

A Sra. tinha, antes, alguma noção de vida após a morte ou esse tipo de relato causou alguma surpresa?
Eu sou uma pessoa já idosa. Já tenho muita vivência, já ouvi falar muito sobre essas coisas. Não condeno ninguém. Acho que não há o que falar. Ao meu ver, o que vale é a fé naquilo que você acredita e professa. Senão, o que seria dos japoneses e chineses, que acreditam em Buda e COnfúcio? Ia tudo para o inferno...

E quanto à história do livro, ao fato de Raul já estar adaptado? Como recebeu isso?
Adaptado a quê?

À nova realidade.
À realidade em que ele está hoje. Acredito. Às vezes, fico pensando comigo: será que essas manifestações todas que fazem para Raulzito não o perturbam, ele que está lá, quieto, sossegado, na outra vida? O pessoal fica a fazer essa euforia toda, fazendo dele um deus... eu sou contra isso. Mas não posso falar, não posso divulgar isso em revistas comuns, dizer às pessoas que endeusam Raul que eu sou contra isso. Acho que tais manifestações têm muito de exagero, capaz de perturbar o pobre do espírito que está lá, coitado, sossegado, que deve ter, pelo tempo, já deve ter pago os pecados cometidos aqui.

A Sra. se recorda, na história do livro, da perturbação de que diz ter sofrido após o desenlace?
É lógico! Ele foi um pecador como todos nós e talvez um pouquinho mais. Não sei se devemos dizer assim... Ele saiu um pouco das normas de nossa sociedade atual. Ele ultrapassou, fez coisas erradas, na nossa concepção, mas, para um artista... Eu penso que um artista tem o espírito, a alma muito sensível, à flor da pele. Qualquer coisa, para ele, é mais do que para nós. Você vê na história dos compositores clássicos - Strauss, Schubert, Chopin, essa cambada velha, antiga -, todos eles tiveram problemas com a sociedade, com reis, impérios... foram presos... há tanta história sobre eles... Com Raul foi a mesma coisa. É tudo a mesma coisa. Eu, uma vez, falei com ele sobre isso e disse assim: por que você está parado aí, olhando aquela cadeira? Ele disse: "Não, estou estudando como é aquele pé". Uma bobagem, né? Para  nós, uma bobagem; para ele, é muita coisa. Ele era um artista, nsceu com esse dom e nisso eu creio. Porque o acompanhei desde menino, desde quando ele começou a se entender como gente. Com seus sete, oito anos, ele gastava inúmeros cadernos fazendo histórias e, sabido como era, vendia ao irmão mais novo.

O Raul tinha uma inclinação muito forte para as coisas ocultas. A Sra. percebia isso nele?
Ele dizia muitas vezes... ele falava muito assim: cada um de nós tem um deus em seu coração, que cada um pensasse da forma como quisesse - tudo valia. Não tem aquela música que ele fez, que diz que vale tudo? (Ela se refere à composição "Sociedade alternativa", feita por Raul em parceria com Paulo Coelho.)

Como a Sra. vê as manifestações espirituais?
Acredito, elas existem, realmente, têm que existir, porque a própria religião católica é, de certa forma, espírita, porque Deus é espírito. Os santos - por que acreditam nos santos? As almas que andaram aqui no mundo, que fizeram algum benefícios... todos eles são espíritos.

Então, para a Sra. não é nenhuma fantasia o relato do livro.
Não, não... eu já tenho muita vivência. Setenta e oito anos são um caminho comprido.

Raul está completando agora 10 anos de desencarnado. Alguma vez a Sra. sentiu a "presença" dele aqui [a entrevista foi realizada na casa de D. Maria Eugênia, em Salvador]?
Sempre, mas no sonho. Eu sonho muito com ele e são sonhos muito nítidos, muito perfeitos: com Raul, com meu marido, também chamado Raul (igualmente desencarnado), minha mãe... eu só posso sonhar com gente do passado, né?

Como são esses sonhos com Raul?
Agradáveis. Em geral, eu sonho com eles lá em nossa chácara (na cidade de Dias D´Ávila), onde Raul gostava muito de ir. Quando ele vinha a Salvador e queria fugir do assédio da mídia, pedia logo para ir para a chácara. Os sonhos, então, são diversos, diferentes, mas muito nítidos.

A Sra. já sabe que Nelson Moraes está recebendo novas mensagens do Raul/Zílio? Qual sua expectativa quanto a elas?
Nelson me falou qualquer coisa a esse respeito. Espero que sejam mensagens agradáveis. Ele, Nelson, falou que o Raul disse, no livro, que eu ia ficar doente, qualquer coisa assim. E, realmente, agora, de dois anos pra cá, estou diabética e tive uma isquemia cardíaca. Por isso não viajo mais, para não me arriscar fora da Bahia.

Espera reencontrar Raul um dia?
Gostaria, e são só a ele, mas a meu marido, minha mãe, meu pessoal todo, todos os meus entes queridos.

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