domingo, 19 de janeiro de 2014

Essa tal felicidade

Francisco Muniz

Em seu livro "Hei de vencer" (Ed. Pensamento), Arthur Riedel(*) conta uma história bastante interessante sobre sua meninice em São Paulo que serve de reflexão para todos aqueles que se encontram no afã de buscar a felicidade. Leiam e tirem suas conclusões:

"Quando eu era menino, existia no Largo da Sé, no velhíssimo Largo da Sé, hoje Praça da Sé, um café na esquina da Rua 15 de Novembro, chamado Café dos Girondinos. Os de mais de meio século devem lembrar-se dele. Eu ia para a escola ali na velha Rua da Boa Morte, hoje Rua do Carmo; passava pelo Café Girondino e ouvia sempre o garção gritar lá dentro: "Sai um pingado!".
Aquele "pingado" que o garção servia me dava então ideia de ser uma coisa grande, deliciosa, e eu, impressionado, não fazia oura coisa senão passar o dia inteiro desejando tomar um "pingado". Mas o empregado que me acompanhava ao colégio não me permitia nunca que eu entrasse no café para tomar o tal "pingado".
O "pingado" era a minha alucinação, o meu sonho, o meu desejo. À noite, sonhava com ele. Uma manhã, quando ia para o colégio, avisaram-me, em casa: "Você hoje tem que ir sozinho; o empregado não pode acompanhá-lo". Que alegria, que satisfação! Iria tomar um "pingado"!
Corri ao meu cofre, daqueles antigos, feitos de barro, quebrei-o, peguei as moedas, enchi o bolso enquanto pensava comigo mesmo: "Será que isto chega para um "pingado"? Entrei no Café, e sentei-me. Nem um rei era tão feliz quanto eu, nem uma noiva no dia do seu noivado! Quando o garção chegou, pedi-lhe, com voz emocionada, um "pingado".
Esperava uma coisa maravilhosa; não sabia o que era, mas a minha imaginação havia criado tal forma, que devia ser uma coisa maravilhosa. O garção gritou lá para dentro, com voz aportuguesada: "Um pingado!" Fiquei esperando. De repente veio o garção e colocou na minha frente um como de leite com um pingo de café: a mesma coisa que eu bebia todas as manhãs em minha casa era o tal "pingado"!
Vieram-me lágrimas aos olhos, joguei um níquel sobre o balcão e saí de lá soluçando. Esta lição ficou-me pela vida afora. Daí em diante, quando me vinha um sonho de glória, um sonho de amor, uma ambição, um desejo, algo que queria muito, eu pensava: Não será um "pingado"? Posso-lhe afirmar que nas poucas coisas pelas quais lutei e venci, alcancei sempre um "pingado". Encontrei um "pingado" em todos os meus sonhos."

Meditemos, pois.

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(*) Arthur Riedel foi um mestre da vida, conforme se lê na orelha da 11.ª edição de seu livro. Professor, articulista e palestrante de dotes inigualáveis, "ensinou milhares de pessoas a serem donas de si mesmas", através de comentários otimistas de cunho espiritualista que podem ser resumidos na frase que dá título a sua obra: hei de vencer! Nesse livro, que reúne algumas das conferências que ele proferiu lá pelos anos 40 do século passado, Riedel, citando um outro autor, dá-nos um mantra com o qual podemos observar e garantir nosso bem estar permanentemente: "Todos os dias, sob todos os aspectos, sinto-me cada vez melhor!" E é verdade.

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