terça-feira, 3 de setembro de 2013

Panteísmo

Francisco Muniz
(publicado originalmente na revista Visão Espírita n.° 21 - Ano II - Junho.2000)

As questões 14 a 16 de O Livro dos Espíritos fecham o primeiro capítulo, dedicado ao tema "Deus", e abordam exclusivamente a noção de panteísmo, falsa doutrina segundo a qual tudo é a divindade, uma vez que tudo no universo foi criado por Deus. O estudo acurado do Espiritismo nos mostra que tal pensamento carece de solidez. "Não podendo ser Deus, quer o homem ser, ao menos, uma parte de Deus", respondem os Espíritos Superiores a Allan Kardec (questão 15), revelando a inconsistência do panteísmo, resultado da pouca compreensão dos homens acerca do universo, da natureza e do próprio Deus.
Em decorrência desse pouco entendimento, os homens primitivos idealizaram a crença em pretensas representações de Deus, através de ídolos, chegando ao cúmulo de a eles fazerem oferendas, incluindo-se aí até mesmo o sacrifício de animais e de seres humanos. Mais tarde, a teologia elaborou o conceito de que os homens foram feitos à imagem e semelhança do Criador e assim concebeu-se um Deus antropomorfizado. Tal ideia leva a pensar que cada um, então, imagina Deus a partir de si próprio, com as virtudes e imperfeições que tiver, o que é absurdo.
- Deus é um ser distinto ou, como pensam alguns, será a resultante de todas as forças e de todas as inteligências do universo?, indaga o Codificador (q. 14), recebendo dos amigos espirituais esta resposta: "Se assim fosse, Deus não existiria, porque seria efeito e não causa. E ele não pode ser simultaneamente uma e outra coisa". Isso porque, como já vimos anteriormente, Deus é a "causa primeira de todas as coisas", conforme a definição dos Espíritos, na pergunta que abre a primeira obra da Codificação Espírita. "Deus existe - não podeis duvidar - e isto é o essencial", frisam os Espíritos Superiores.
Continuando, eles dizem: "Não queirais ir além. Não vos percais num labirinto de onde não podereis sair. Isto não vos tornaria melhores, mas talvez mais orgulhosos, porque acreditaríeis sabe quando na verdade não sabeis. Então ponde de lado todos esses sistemas; há mujitas coisas que vos tocam diretamente, a começar por vós mesmos. Estudai vossas imperfeições, a fim de vos desembraçardes delas; isto será mais útil do que pretender penetrar o impenetrável".
Neste momento vem bem a calhar a ponderação do dramaturgo inglês William Shakespeare: "Há muito mais entre o céu a terra do que sonha nossa vã filosofia" (o grifo é nosso). Mas é do homem dar asas à imaginação e por vezes essa asas são a cegueira e a incoerência, até que por fim venha o esclarecimento, à custa de muito esforço. Somente então é que se chega ao entendimento das palavras do Cristo, segundo as quais precisamos adorar a Deus "em espírito e verdade".
Assim, os que professam o panteísmo - por incrível que possa parecer, essa crença ainda persiste, mesmo em meio a homens ditos esclarecidos - "pensam nele achar a demonstração de alguns atributos de Deus. Sendo os mundo infinitos, por isso mesmo Deus o é também", pondera Kardec. Seguindo esse pensamento, o Codificador inquire os Espíritos: Não havendo o vácuo em parte alguma, Deus está em toda parte, pois que tudo é parte integrante de Deus, a todos os fenômenos da natureza ele dá uma razão de ser inteligente. Que se pode opor a esse raciocínio?" A resposta é a da lógica, da coerência e do bom senso que caracterizam a Doutrina Espírita: "A razão. Refleti maduramente e não vos será difícil reconhecer-lhe o absurdo", dizem os Espíritos Superiores.
Por fim, Kardec rechaça o panteísmo nestes termos: "Essa doutrina faz de Deus um ser material e, posto que dotado de uma inteligência suprema, seria em ponto grande aquilo que somos em ponto pequeno. Ora, desde que a matéria se transforma incessantemente, se assim fosse, Deus não teria estabilidade; estaria sujeito a todas as vicissitudes, a todas as necessidades da própria humanidade; faltar-lhe-ia um dos atributos essenciais da divindade: a imutabilidade. Não é possível aliar as propriedades da matéria à ideia de Deus sem o rebaixar em nosso pensamento; e todas as sutilezas doi sofisma não conseguirão resolver o problema de sua natureza íntima. Não sabemos tudo que ele é, mas sabemos aquilo que ele não pode ser, e esse sistema (o panteísmo) está em contradição com suas propriedades mais essenciais; ele confunde o Criador com a criatura, do mesmo modo como se quiséssemos que uma máquina engenhosa fosse uma parte integrante do mecânico que a idealizou. A inteligência de Deus se revela em suas obras, como a de um pintor em seu quadro; mas as obras de Deus não são o próprio Deus, do mesmo modo que o quadro não é o pintor que o concebeu e realizou" (grifo nosso).

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