sábado, 28 de setembro de 2013

Discurso do Casamento: uma cerimônia - ou Palavras aos noivos

Minha fala na Cerimônia Poética do casamento de minha filha Ananda e Gabriel, na Academia de Letras da Bahia, aberta e presidida pelos "imortais" João Eurico Matta e Aleilton Fonseca, respectivamente, tendo por mestre de cerimônia o radialista Marcos Castelhano, da Rádio Educadora. Foi algo inédito para a Academia e inusitado para quem participou. Ah, a cerimônia contou também com a musicalidade da cantora Manuela Rodrigues, amiga dos noivos.
O texto abaixo foi inspirado pela amiga espiritual Irmã Rafaela.

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Há muito tempo – e já se passaram 20 séculos – houve no mundo uma certa festa de bodas na qual faltou vinho, tido como ingrediente importante naquela como em toda celebração desse gênero. Um homem fora chamado a suprir essa carência e, segundo reza a tradição, ele transformou água em vinho – e era um vinho de excelente qualidade.
Aqueles dentre nós minimamente versados em Religião sabem que falamos do Cristo Jesus e do episódio das Bodas de Caná. Há um simbolismo nessa passagem evangélica que acreditamos seja significativo para o dia de hoje, o dia em que Gabriel e Ananda formalizam o mútuo “sim”, um sim, em verdade, dito quando os olhares de ambos se cruzaram há aproximadamente sete anos. Hoje é o dia em que eles começam a descobrir, portanto, que a transformação da água em vinho deverá ser uma constante na vida deles. O vinho de antes era mesmo sem gosto, em comparação com o vinho novo, o vinho das alegrias imorredouras.
No entanto, transformar água em vinho é uma arte dominada por poucos, especialmente na esfera conjugal, razão pela qual pensamos dever ministrar aqui algumas orientações à guisa de conselhos aos jovens noivos – e que bom seria que ouvidos atentos as tomassem por importantes, ainda que não tenhamos a pretensão de converter ninguém e por nos vermos sem a devida qualificação para tal.
Quem me conhece sabe que, na condição de espírita, sou reencarnacionista e por isto acredito que o olhar de Gabriel sobre Ananda – e vice-versa – traz a luz de um passado para nós desconhecido e, para eles, estranhamente intuído, como se se perguntassem: onde já vi esse rosto antes?
Quem me conhece, igualmente sabe que sou o pai de Ananda, a quem dei o nome de Felicidade – é este o significado do nome de minha filha em sânscrito. Ananda, portanto, traz a felicidade consigo e por isto, Gabriel, você não precisa se esfalfar para fazê-la feliz. Digo-lhe que você não o conseguirá, porque cada um é feliz por si mesmo. Você deve, porém, fazer-se feliz ao lado dela – e é então que você terá ocasião de transformar água em vinho. Do mesmo modo, Ananda não precisa fazer Gabriel feliz, bastando externar sua felicidade intrínseca até o ponto em que ele possa, como o colibri atraído pela exuberante sutileza da flor, contaminar-se e assim sorver o vinho capitoso advindo da água transformada pelos esforços inteligentes com a finalidade de superar a rotina por vezes sufocante que tortura os casais em suas tentativas de convivência, no que chamamos de vida em comum.
E há uma causa para isso, responsável pela inobservância da milagrosa quão necessária transformação da água em vinho: e é que as pessoas, pretendendo unirem-se em matrimônio, não realizam o imprescindível autocasamento. Sim, é preciso que, antes de casarem um com o outro, casem-se íntima e solitariamente, aliando suas duas naturezas – a humana e a divina, ou espiritual –, para o abrandamento das provações futuras, uma vez que são inevitáveis. É quando os corações sensíveis e sensibilizados necessitam recorrer a Deus, ao Cristo, aos auxiliares invisíveis, reconhecendo a Potência Divina que dormita em nosso íntimo, à qual denominamos fé, como o bastião de todas as possibilidades de harmonização entre os seres.
Importa, portanto, reconhecer, cada um, a dimensão ignota da própria alma em suas manifestações na realidade material. Isto configura o indispensável autoconhecimento, o que em suma significa estarmos conscientes de nós mesmos, no tocante à integralidade do ser, e dessa forma promovermos a valorização de nossas relações, fazendo aos outros o que Deus faz por todos e por cada um de nós, ou, conforme as palavras do Cristo, só fazermos aos outros o que gostaríamos que nos fosse feito – tal é a Regra de Ouro para o sucesso dos relacionamentos.
Assim sendo, esta cerimônia se reveste de um sentido tão poético quanto transcendental – levando em conta que a Poesia é mesmo um exercício transcendente, levando-nos ao encontro das Musas, numa dimensão que diríamos para-humana, porquanto essencialmente espiritual, fazendo-nos afeitos ao romantismo. E é próprio das pessoas românticas viverem como se mergulhadas num livro – de prosa ou de poesia –, desejosas de tornar a vida algo grandioso – humano, sim, mas sem as agruras e as perturbações que acompanham a existência na Terra, vivendo um mundo à parte das provas concernentes a cada um.
Mas a Utopia é um não-lugar e precisamos, em nome da deusa Razão, viver com alegria e convicção o ambiente momentâneo, com a finalidade de transformá-lo e aprendermos a abandoná-lo no instante em que isto se imponha como necessidade. Bem viver, eis o grande desafio, para cuja vitória todos nós somos chamados, individualmente, na intimidade de nosso ser. No entanto, essa aventura espiritual, de cunho eminentemente moral ou moralizante, pode ser feita em conjunto – e a dois poderá ser bastante agradável, desde que saibamos carregar a própria cruz, cada um por si mesmo, embora cientes da importância do auxílio mútuo, em nome da Fraternidade.
Ananda e Gabriel acreditam ser chegada a vez deles. Cabe-nos apoiá-los nessa decisão e por isto aqui estamos, manifestando condescendência para com os esforços de ambos; mas que este testemunho não seja nunca, de nossa parte, conivência ante as atitudes desarvoradas que porventura venhamos a observar em seu comportamento. Juízo, meninos! Confiamos em vocês e esta confiança decorre da complacência divina perante a determinação demonstrada por ambos, e por tal razão não precisamos perguntar, ao contrário da tradição, se vocês aceitam um ao outro como seu legítimo compartilhante de tristezas e alegrias, posto ser isto, para todos nós, uma evidência.
Portanto, Ananda; portanto, Gabriel, beijem-se e vivam sua felicidade responsavelmente, sob as nossas bênçãos e, sobretudo, as bênçãos de Deus, nosso e vosso Pai.
- Laurinha, pode trazer as alianças!

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