domingo, 16 de dezembro de 2012

Natureza íntima de Deus

Francisco Muniz
(publicado originalmente na edição n.° 19 - Ano II - Dezembro de 1999)

"O homem pode compreender a natureza íntima de Deus?", pergunta Allan Kardec ao mensageiros do Espírito de Verdade, na décima questão de O Livro dos Espíritos. Os autores invisíveis da Doutrina Espírita responderam que não, que falta ao homem, para tanto, um sentido. Kardec, em seguida, dirige-se aos amigos espirituais nestes termos (questão 11): "Será um dia permitido ao homem compreender o mistério da Divindade?" A resposta nos esclarece que sentido seria esse que nos falta para nos facilitar essa compreensão: "Quando seu espírito não estiver mais obscurecido pela matéria, e por sua perfeição tiver se aproximado dela, então a verá e compreenderá".
Em decorrência de tal resposta, o Codificador faz o seguinte comentário: A inferioridade das faculdades do homem não lhe permite compreender a natureza íntima de Deus. na infância da humanidade, o homem o confunde muitas vezes com a criatura, cujas imperfeições lhe atribui; mas, à medida que seu senso moral se desenvolve, seu pensamento penetra melhor o fundo das coisas, e ele faz então, a seu respeito, uma ideia mais justa e mais conforme com a boa razão, embora sempre incompleta. Mas "se não podemos compreender a natureza íntima de Deus, podemos ter uma ideia de algumas de suas perfeições?", Kardec volta a indagar, ao que os Espíritos Superiores o informam positivamente: "Sim, de algumas (perfeições). O homem as compreende melhor à medida que se eleva sobre a matéria; ele as entrevê pelo pensamento".
Tudo isso quer dizer, simplesmente, que, embora estejamos ainda ,longe de penetrar a essência mesma de Deus, podemos tentar compreendê-la e pelo exercício da razão lograr esse intento, ainda que distantes da verdadeira realidade divina. Houve um tempo - e ele começa a se desvanecer por força da inteligência do homem - em que a Religião nos impunha um Deus semelhante ao homem (o conceito teológico que faz do homem criado à semelhança da Divindade é expressão dessa ideia). No discurso feito por ocasião do sepultamento do corpo que animou Allan Kardec, Camille Flammarion exclama, conforme transcrito em Obras Póstumas: "A Natureza abrange o Universo, e o próprio Deus, feito outrora à imagem do homem, a moderna Metafísica não o pode considerar senão como um espírito na Natureza".
Assim sendo, será necessário sempre fazer uso da razão para, primeiro, compreendermos quem somos e, de posse desse conhecimento, conseguirmos chegar à compreensão de Deus. Em sua primeira investida nas páginas de Visão Espírita, o escritor mineiro Henrique Rodrigues causou certa comoção ao declarar sua visão particular "disso a que chamamos Deus". O homem erra antropomorfizando Deus, dizia Rodrigues em eu artigo, mas, ressaltamos, sem parâmetros que nos levem a uma definição próxima da Verdade, a melhor maneira de nos aproximarmos da essência divina é trazendo-a para perto de nós, vendo-a e glorificando-a como a causa primária de tudo que é.

2 comentários:

  1. Este comentário foi removido por um administrador do blog.

    ResponderExcluir
  2. Gostei muito do artigo. Mas qualquer definição de Deus, na nossa condição, será precária.

    ADEMAR AMANCIO

    ================================

    Caro Ademar, muita paz.

    Agradeço-lhe pela visita, pelo elogio e pela reserva.
    Grande abraço.

    Obs.: Eu cliquei no lugar errado e, sem querer, deletei seu comentário original. Perdoe-me.

    ResponderExcluir

Abra sua alma!