segunda-feira, 17 de julho de 2017

Sintomatologia mediúnica

Francisco Muniz



Vem da pena do poeta seiscentista Gregório de Matos um conceito acerca dos sintomas que caracterizam as enfermidades que poderíamos, por analogia, adaptar aos estudos sobre a eclosão das faculdades mediúnicas, motivados pelo texto de Manoel Philomeno de Miranda no livro Reencontro com a Vida (psicografia de Divaldo Franco).

Assim, parafraseando o poeta baiano, observemos o candidato aos labores mediúnicos: já toma ele consciência de sua faculdade? – sim, toma; toma coragem para vencer os percalços da caminhada evolutiva nesse mister? – sim, toma; toma as necessárias providências para se moralizar? – sim, toma; toma os cuidados imprescindíveis para atender aos bons Espíritos e auxiliar os mais necessitados? – sim, toma. Então, com tantos “sintomas”, ele já pode se considerar pronto para a tarefa do intercâmbio espiritual.

Ora, é sabido que, no passado, a ignorância a respeito da mediunidade fez com que essa ferramenta de comunicação com os Espíritos fosse tomada como fator de distúrbios físicos e mentais ou efeito da ação diabólica sobre certas pessoas. Esse entendimento equivocado levou muitos médiuns à fogueira, durante a Idade Média, e aos hospícios, na contemporaneidade. Para a Psiquiatria, a causa era a loucura, a perturbação mental a atrapalhar a convivência em sociedade.

No entanto, graças aos esforços e aos estudos de Allan Kardec, diversos profissionais das Ciências se debruçaram, desde o século XIX, sobre o que se convencionou chamar de fenômenos paranormais. Desse modo, já se entende que a mediunidade nada tem de enfermiça e se sua manifestação faz pensar dessa forma, é que se trata dos distúrbios provacionais aos quais o detentor da faculdade se submete com vistas a seu reajustamento às leis divinas. É o que pondera Philomeno no capítulo 8 do livro supracitado, afirmando que “não poucas vezes [a mediunidade] é detectada por características especiais que podem ser confundidas com síndromes de algumas psicopatologias que, no passado, eram utilizadas para combater a sua existência”.

Convém recordarmos a preciosa colaboração que nosso companheiro André Ribeiro nos deu, no último Aprimoramento, ao abordar esta questão, citando os estudos do médico Dr. Pacheco que na primeira metade do século XX concluía por responsabilizar a mediunidade eclodida pelo estado de insanidade de alguns de seus pacientes, combatendo por isso o Espiritismo. Certamente o nobre esculápio não conhecia – ou não se interessou – a tese de um ilustre colega seu, Adolfo Bezerra de Menezes, que no final do século XIX publicara o livro A Loucura sob Novo Prisma, no qual procura desmistificar a faculdade mediúnica.

Quando, porém, nos comprometemos com o estudo sério, avaliando não só o “sintoma”, mas toda a história de vida da pessoa “atormentada”, conhecendo suas crenças, suas tendências e modos de relacionamento com os demais, e se temos o mínimo esclarecimento advindo da Ciência Espírita, compreenderemos que não se trata, a mediunidade, nem de doença nem de fator de enfermidade.

É, como aprendemos, instrumento de progresso concedido indistintamente a todos os filhos de Deus, merecendo tão somente a devida conscientização para que se lhe dê bom uso e permita, em conseqüência, alcançar os sublimes desideratos.

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