segunda-feira, 17 de julho de 2017

Exorcismo como prática desobsessiva: inútil

Francisco Muniz


Quando, de acordo com os relatos evangélicos, João Batista, então preso no palácio do rei Herodes, enviou um emissário para saber se Jesus era mesmo o Messias anunciado nas profecias, o Cristo, dentre outras coisas, indica que “os demônios são expulsos”, deixando de afligir aqueles beneficiados pela ação benfazeja do Mestre. Hoje sabemos, graças ao conhecimento espírita, que a “expulsão de demônios” outra coisa não é senão o tratamento da obsessão, que vem a ser a constrição que um espírito mau exerce sobre outro, mormente quando este está encarnado. Reinterpretando os conceitos do Codificador a respeito de tão grave problemática, o Espírito Manoel Philomeno de Miranda afirma, no capítulo 4 de seu livro Reencontro com a Vida, que a obsessão é resultado do intercâmbio psíquico, emocional ou físico entre dois seres que se amam ou se detestam.

Muito provavelmente, os homens – e mulheres – atormentados pelo assédio de “demônios”, no grau de possessão, não tinham qualquer noção das causas dessa enfermidade, nos recuados tempos do Cristianismo nascente. Essa ignorância acerca das peculiaridades da realidade espiritual fez com que os primeiros teólogos – entre eles, Santo Agostinho – elaborassem teorias estapafúrdias e instituíssem, no âmbito da Igreja de Roma, processos de eliminação da possessão demoníaca como os exorcismos. A propósito, Santo Agostinho, um dos pais da Igreja, criou a lenda de espíritos íncubos, que atormentariam sexualmente as mulheres, e os súcubos, responsáveis, segundo a idéia agostiniana, por perturbar os homens. Em decorrência desse equívoco, que só a Doutrina Espírita foi capaz de desfazer, milhares de pessoas, principalmente do sexo feminino, foram levadas a morrer nas fogueiras da Inquisição, sob a acusação de bruxaria, embora apenas sofressem os efeitos da mediunidade de prova.

Em sua obra, no citado capítulo 4, intitulado “Exorcismo inútil”, Manoel Philomeno repete Allan Kardec ao dizer que “a obsessão somente se instala porque há receptividade do paciente que lhe tomba nas malhas constritoras”. A causa desse conúbio – e Philomeno aponta vários fatores predisponentes – seria a inferioridade moral da vítima. No entanto, o autor espiritual pondera que essa é “qualidade peculiar à maioria dos temperamentos humanos”, ocasionando em resposta os tentames de vingança, o que só agrava o problema. Sendo assim, a prática do exorcismo segundo a práxis católica resulta inútil, porquanto não se esclarecem os antagonistas dos dois planos da existência.

Foi com o conhecimento proporcionado pelo Espiritismo, trazendo à razão humana as leis que regem as relações entre os dois mundos - o dos espíritos e o dos homens – que se descobriram as terapias saudáveis para atendimento das obsessões e suas vítimas (e o obsessor também é vítima, ainda que momentaneamente no papel de algoz). Ensina-nos Manoel Philomeno que “em quaisquer situações de enfermidades espirituais as condutas terapêuticas a adotar-se são a da compaixão e da caridade, do amor e do perdão em relação à vítima, assim como ao seu perseguidor, ambos incursos nos mesmos soberanos códigos da vida dos quais ninguém consegue fugir”.


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