sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Sonho sonhado

Francisco Muniz


Os sonhos são algo muito mais complexo do que imaginam os tratados de psicologia. Para aqueles que admitem a existência e a vida do espírito independentemente da atividade corporal, isto é, do ponto de vista restrito da vida material, os sonhos são a real expressão da emancipação espiritual. As lembranças trazidas dessa experiência - e às quais chamamos de sonhos - são uma pequena parte da atividade que o espírito desenvolve enquanto seu corpo repousa da agitação diária. De acordo com alguns relatos, o sono, muitas vezes, são verdadeiros transes que resultam em cometimentos mediúnicos no plano astral. Em seu livro "Recordações da mediunidade", a médium brasileira Yvonne do Amaral Pereira narra, num dos capítulos, a importância dos sonhos para os estudantes do Espiritismo e pesquisadores dos fatos mediúnicos em geral.

Sonhares

Jorge Luis Borges, o grande escritor argentino, era fascinado por sonhos, como tudo que envolvesse mistérios. Ele como que colecionava, em vários de seus livros, sonhos sonhados por vários povos, num trabalho antropológico de relacionar pontos em comum entre diversas culturas, e isso era como abrir uma janela para pesquisar o sonho da Humanidade. Tal procedimento, entretanto - é bom convir -, só mistificava ainda mais a matéria onírica. É de convir, também, que não poderia ser outro o resultado, se analisarmos que a mística em torno dos sonhos vai direto a sua essência, ou seja, à própria alma. É a alma quem vive a experiência cuja recordação é o sonho. Outros autores, inclusive psicólogos do porte de Carl G. Jung e o "pai da psicanálise", Sigmund Freud, chegaram perto desse entendimento, mas um certo receio os fez interromper a marcha. Jung, ao menos, conseguiu intuir a teoria dos arquétipos, antevendo que a lógica vivenciada nos sonhos é, digamos, diametralmente oposta à que utilizamos na vida de relação, o que nos deixa livres para pensar que a linguagem dos sonhos é quase sempre simbólica - é preciso buscar sentidos ocultos em cada imagem visualizada na paisagem onírica. Enquanto não se chega ao entendimento completo, é fazer como disse Shakespeare: "...deitar, dormir, sonhar, talvez...".

Sobre sonhos e sobressaltos

Pesadelos. Sonhos que causam extremo e mediano incômodo. Embora os fisiologistas disponham de um arsenal de justificativas para casos assim, preferimos a explicação espírita para tais fenômenos. Dizem os Espíritos (vide O Livro dos Espíritos) que, uma vez que somente o corpo necessita de repouso, o sono nada mais é que a oportunidade que o espírito (a alma dos seres viventes na Terra) tem de se libertar um pouco, indo ao encontro de outros que lhes sejam afins. Como os sonhos são a lembrança desses (re)encontros, os pesadelos indicam a qualidade das experiências realizadas pela alma durante o sono corporal. Melhor explicando: há um axioma, entre os espíritas, que diz que semelhante atrai semelhante; sendo assim, se tenho um pesadelo, logicamente encontrei-me com aqueles com quem tenho afinidade. Mas, então, por que o incômodo? Para entendermos essa peculiaridade será preciso saber que gênero de afinidade une os espíritos. Mais que os gostos, trata-se de uma afinidade moral, isto é, o estado mental/espiritual a condicionar os encontros - noturnos ou não -, sem levar em consideração o desejo, muitas vezes sincero, de se melhorar que o sonhador abriga intimamente. Mas justamente por isso, frequentemente, este terá pesadelos, até que o(s) outro(s) perceba(m) que o sonhador (espírito encarnado) está seguro de suas intenções e firme em seus propósitos de renovação e talvez por isso o deixe(m) em paz.

Ilusão, fantasia e sonho

Muitas pessoas fazem confusão entre essas três instâncias da mente. Melhor seria dizer, em vez de instâncias, inconstâncias. E aqui tomamos o sonho segundo a (falsa) interpretação da palavra, para não incorrermos em mais confusão. Mas podemos pôr as três palavrinhas no liquidificador da realidade e a sopa que resultará disso será tão-somente a ignorância, o desconhecimento acerca dos fatos conscienciais que fazem o homem alhear-se de si mesmo, de sua essência mais íntima, porque não sabe quem é, efetivamente. Então vive a sonhar, perdido em fantasias e mergulhado na ilusão do que pensa ser. É necessário, pois, passar essa sopa pela peneira (ou filtro) do discernimento, para que a ignorância transcenda à sabedoria. O homem esclarecido saberá, então, que, nesta acepção, o sonho é a perpetuação de antigos desejos que não pode realizar, os quais sua mente elabora fantasiosamente e ele como que vive imerso nessa condição ilusória até que a verdade faça desmoronar seu castelo de areia. É bom sonhar, dizem, esquecidos (porque intimamente talvez saibam) de que "sonhos" são etapas de planejamento de uma condição futura. E planejamentos não são necessariamente concretizados, principalmente quando faltam bases sólidas. Sonhar, então, em casos assim, poderá ser mera perda de tempo. É preciso envidar esforços em realizações concretas e alvissareiras, em benefício não apenas de um só, mas de todos, de modo que aqueles que sonham com primazias e benesses estão dando vazão apenas a sua condição egóica e carente de sentido.

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