sexta-feira, 30 de agosto de 2013

O espírita perante as eleições

Francisco Muniz
(publicado originalmente na revista Visão Espírita n.° 6 - Ano I - Setembro de 1998)

Ainda que no Brasil - e no resto do mundo, inclusive nos países considerados desenvolvidos - a atividade política seja vista como prática ilícita, tantas são as notícias de corrupção envolvendo governantes e representantes dos interesses do povo, o brasileiro, de modo geral, é instado, nessas ocasiões, a tomar partido, mesmo que indiretamente, por este ou aquele candidato. Embora seja um direito do cidadão, o voto, neste País, é obrigatório e sua abstenção impõe sanções ao eleitor. Assim, todos são "democraticamente" convocados a comparecer às urnas e cumprir esse dever para com a pátria, independentemente de qualquer ideologia.
Os espíritas, é claro, não fogem à regra e também são chamados a se pronunciar através do voto. Como se trata de tentativas (renovadas a cada quatro anos) de construção de uma nação comprometida com os ideais que norteiam o progresso sócio-cultural da população, cabe principalmente aos espíritas irem às urnas com a intenção fervorosa de que o panorama político do País realmente se modifique, para que nos anseios por uma vida digna resultem em conquistas satisfatórias para a maioria da população, senão para todos os brasileiros.
É comum observar-se no Movimento Espírita uma certa indiferença e até mesmo uma franca oposição à participação política, tal o conceito negativo de que os políticos modernos se revestem, com as devidas ressalvas. Mas quem age ou pensa assim talvez desconheça que a vida em sociedade é totalmente política e essa função está presente até mesmo no âmbito do Movimento Espírita. O progresso espiritual não prescinde das relações políticas, inclusive a de nível partidário, por implicar também o progresso material, obtido pelo trabalho intelectual dos homens.
Como a evolução não se dá apenas no nível individual, importa que os membros da coletividade estejam irmanados e imbuídos do desejo de transformação (melhoramento) geral, para que, mudando intimamente, alcancem a mudança abrangente necessária. É essa a lição educativa do Espiritismo, que objetiva dar aos espíritos encarnados (principalmente) em processo evolutivo a noção exata de fraternidade, isto é, o trabalho de cada um em favor da comunidade em que vive, porque, em suma, o bem de todos é benefício para cada indivíduo que o promova.

A experiência de quem está lá

Tem sido comum alguns espíritas demonstrarem ojeriza à participação política, por conta dos casos de corrupção, fraudes e falcatruas envolvendo alguns dos ditos representantes do povo. De acordo com Luiz Bassuma e Carlito Moreira Menezes, respectivamente vereadores em Salvador e em Feira de Santana (àquela época), essa visão negativa sobre a política precisa ser melhor avaliada pelo Movimento Espírita. Bassuma, engenheiro paranaense radicado na Bahia, atua há 15 anos (à época) no movimento espírita. Segundo ele, o militante espírita não tem o direito de se afastar enquanto não houver equilíbrio social no País. "É egoísmo nosso nos afastarmos quando podemos contribuir com a comunidade", salienta. Carlito Moreira, por sua vez, recorda que o maior representante que o Espiritismo já teve no Brasil, o médico Adolfo Bezerra de Menezes, também exerceu mandatos políticos no Rio de Janeiro, sendo um exemplo de probidade para quantos o queiram imitar.
O vereador feirense, que já ocupou cargos no movimento espírita, a exemplo da presidência da (então) Aliança Regional Espírita 5 (ARE-5), sediada em sua cidade, ressalta ainda um lembrete de Allan Kardec, segundo o qual "na ausência dos bons os maus prosperam". Assim, a presença de homens de bem nos cargos representativos é imprescindível. Para Luiz Bassuma, a militância sindical, paralelamente à atuação no movimento espírita, ajudou na decisão pela candidatura à Câmara Municipal de Salvador. Como vereador, diz, teve a oportunidade de ampliar o trabalho executado na Creche-Escola Allan Kardec, no Nordeste de Amaralina, um dos bairros mais carentes da capital baiana.
Como para justificar que o envolvimento no Espiritismo não garante eleição, Bassuma afirma que só teve 60 votos na comunidade do Nordeste de Amaralina, dentre os 4.500 obtidos no total. De qualquer modo, "não tive a pretensão de vincular a prática assistencial com a política", completou. Com votos conquistados nos vários segmentos sociais, nem Luiz Bassuma, nem Carlito Moreira se acreditam representantes exclusivos dos espíritas nas respectivas municipalidades. Pelo contrário, colaboram mais para o conjunto da sociedade. Carlito, por exemplo, diz apresentar projetos benéficos para a área social de Feira de Santana.
De acordo com Carlito, tudo no País depende de decisão política e por isso não faz sentido as pessoas, principalmente os espíritas, dizerem que se trata de uma atividade suja, mesquinha, e que não é coisa para homens sérios. Caso contrário, pondera, como mudar as coisas? "É preciso colocarmos pessoas sérias e determinadas nos locais sérios". Tanto Carlito, em Feira, quanto Bassuma, em Salvador, garantem que fogem ao estereótipo do político comum por não entrarem nas discussões inócuas e por se pautarem eticamente, adeptos que são de um tipo de moral que não se adequa às práticas de bastidores. Conscientes da condição espiritualista que adotaram, Bassuma afirma não desprezar as intuições vindas do Alto e Carlito, por sua vez, diz que ora muito para obter serenidade nos trabalhos legislativos e sempre conversa com lideranças espíritas para reafirmar apoio e discutir alguns projetos conjuntos.

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