sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Paciência

(Retirado do perfil de Antonio Celso Poltronieri no Facebook.)

A doente se queixava em desespero, a senhora que lhe velava o leito perguntou:
 - Permite que eu leia para seu reconforto algum pequeno trecho de Allan Kardec?
 - Deus me livre! - gritou a enferma, cuspindo-lhe aos pés.
 Ainda assim, as mãos abnegadas da companheira continuaram ajeitando-lhe os lençóis...
 - Quero água! - exigiu a doente.
 A amiga trouxe-lhe água pura e fresca.
 De copo às mãos, a enferma, num ímpeto, atirou-lhe todo o líquido à face, vociferando:
 - Água imunda!... Como se atreve a tanto? Quero outra!
 Paciente e humilde, a senhora enxugou o rosto molhado e, em seguida, trouxe mais água.
 - Quero chá.
 E o chá surgiu logo.
 - Chá malfeito! Chá frio! O conteúdo da taça foi projetado ao peito da outra, ensopando-lhe a blusa.
 - Traga chá quente! Foi a ordem obedecida.
 - Você aceita agora o remédio? - indagou a assistente.
 - Que venha depressa.
 Ao tomar, contudo, a poção, a dama inconformada agarra a colher e vibra um golpe no braço da amiga.
 Surge pequeno ferimento, mostrando sangue.
 E a enferma cai em crise de lágrimas.
 Chora, chora e depois diz:
 - Anália, se a religião espírita que você abraçou é o que lhe ensina a me suportar com tanta calma, leia o que quiser.
 A interpelada sentou-se.
 Tomou "O Evangelho segundo o Espiritismo" e leu a formosa página intitulada A Paciência, no capítulo IX, que começa afirmando:
 "A dor é uma bênção que Deus envia a seus eleitos..."
 Acalmou-se a doente, que acabou aceitando o socorro do passe e o benefício da água fluída.
 Conversaram ambas.
 A enferma, asserenada, ouviu da companheira os planos que arquitetava para o futuro, em benefício dos meninos abandonados à rua.
 No dia seguinte, ao despedir-se, a obsidiada em reequilíbrio beijava-lhe as mãos e dava-lhe os primeiros dois contos de réis para começar a grande obra.
 Essa enfermeira admirável de carinho e devotamento era Anália Franco, a heroína da Seara Espírita paulista, que se fez sublime benfeitora das criancinhas desamparadas.

***

Hilário Silva - Psicografia de Chico Xavier
Extraído do livro "A Vida Escreve"

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