João Fernando Gouveia (*)
Há pessoas que passam pela Terra como rios: seguem seu curso, matam a sede de quem encontram e, quando alcançam o mar da eternidade, continuam existindo na memória das águas. Chico Xavier foi uma dessas raras presenças. Sua ausência física completa duas décadas, mas sua voz ainda ecoa na consciência de um país que aprendeu a reconhecer, em seu silêncio, um dos mais eloquentes discursos sobre o amor.Certa vez, disse que gostaria de desencarnar num dia em que o povo brasileiro estivesse feliz. A vida, essa discreta poeta do destino, pareceu atender ao seu desejo. Em 30 de junho de 2002, enquanto o Brasil celebrava o pentacampeonato de futebol, Chico partia serenamente. O país dividia o mesmo coração entre o riso e a lágrima. Também foi assim comigo: comemorei a conquista da Copa e, poucas horas depois, senti que o Brasil perdia um de seus maiores patrimônios humanos.
Partiu como parte uma borboleta ao concluir sua travessia pelo jardim: sem alarde, deixando apenas a delicadeza do voo gravada na lembrança das flores. Aos 92 anos, encerrava-se a jornada de Francisco Cândido Xavier, mas permanecia viva a figura de Chico - homem simples que se tornou símbolo da solidariedade, da humildade e da esperança.
Nascido em Pedro Leopoldo, Minas Gerais, em 2 de abril de 1910, conheceu cedo o peso do trabalho e das dificuldades. Foi vendedor, operário de tecelagem, datilógrafo e servidor público. Entretanto, foi na simplicidade da própria existência que encontrou sua verdadeira grandeza. Sua mediunidade jamais foi instrumento de prestígio pessoal, mas ferramente de serviço. Transformou o dom em pon te para o consolo, fazendo da própria vida uma extensão do Evangelho vivido.
Sua obra impressiona pelos npumeros, mas emociona muito mais pelo destino que deu a eles. Psicografou mais de 450 livros atribuídos a diversos autores espirituais, obras traduzidas para inúmeros idiomas, que ultrapassam dezenas de milhões de exemplares vendidos. Toda a renda autoral foi destinada a instituições beneficentes. Em tempos em que tantos transformam a fama em patrimônio, Chico fez do patrimônio um caminho para aliviar a dor alheia.
Mas talvez sua maior obra não esteja nas estantes das bibliotecas. Ela repousa nas lágrimas de milhares de pais, mães, filhos e irmãos que encontraram conforto nas mais de dez mil cartas psicografadas destinadaas a familiares de pessoas desencarnadas. Para quem sofria, aquelas palavras eram como pequenas janelas abertas em noites sem lua, permitindo que um dia de esperança voltasse a iluminar o coração.
Quem teve a oportunidade de encontrá-lo dificilmente esqueceu aquele olhar manso, o sorriso tímido e a fala sempre envolvida pela ternura. Havia nele uma rara combinação de firmeza moral e humildade espontânea. Nunca se colocou acima de ninguém. Viveu modestamente, sustentando-se com o salário recebido no Ministério da Agricultura, recusando privilégios e permanecendo fiel ao ideal da caridade silenciosa.
Seu exemplo ultrapassou fronteiras religiosas. Espíritas, católicos, evangélicos, judeus, muçulmanos, agnósticos e pessoas sem religião encontravam nele algo comum a toda a humanidade: a bondade. Por isso foi reconhecido internacionalmente como uma liderança espiritual, comparado, por muitos, a outras grandes rferências mundiais de paz e fraternidade. Sua indicação ao Prêmio Nobel da Paz, no início da década de 1980, foi apenas o reconhecimento formal de uma obra que já havia conquistado o coração do povo.
Também a academia voltou seus olhos para o fenômeno Chico Xavier. Pesquisas desenvolvidas pelo Núcleo de Pesquisa em Espiritualidade e Saúde, da Universidade Federal de Juiz de Fora, examinaram cartas psicografadas buscando verifica a possibilidade de obtenção das informações por meios convencionais. Os estudos apontaram elementos que despertaram significativo interesse científico e continuam estimulando novas investigações.
No campo literário, sua produção igualmente desperta fascínio. Teses de mestrado e doutorado, especialmente na área de Teoria Literária, analisaram poemas atribuídos a autores dessencarnados, comparando linguagem, métrica, estilo, vocabulário e recursos expressivos com as obras publicadas por esses escritores em vida. Os resultados revelaram um elevado grau de semelança estilística, alimentando um dos mais intreigantes diálogos entre litteratua, espiritualidade e crítica textual já registrados no Brasil.
Entretanto, tal vez o maior milagre de Chico não tenha sido escrever livros nem cartas. Foi ensinar qua a verdadeira grandeza cabe dentro de um gesto simples: repartir um prato de sopa, um pedaço de pão, uma roupa, um abraço, uma palavra de consolo ou um sorriso sincero. Ele fez da caridade uma linguagem universal e demonstrou que o amor, quando praticado, dispensa tradução.
Vinte e quatro anos após sua partida, sua presença continua florescendo onde alguém escolhe o perdão em vez da vingança, a solidafriedade em vez da indiferença e a esperança em vez do desalento. Em tempos de discursos inflamados, intolerâncias, negacionismos, extremismos e uma espiritualidade frequentemente substituída pelo espetáculo religioso, Chico permanece como um farol cuja luz não acusa nem ofusca: apenas ilumina.
Algumas estrelas desaparecem do horizonte porque amanhece. Assim também acontece com certos homens. Não deixam de exstir; apenas continuam brilhando onde os olhos comens já não alcançam. Chico Xavier pertence a essa constelação dos espíritos que fizeram da própria vida uma carta de amor à humanidade - uma carta sem destinatário específico, porque foi escrita para todos nós.
(*) João é espírita, biólogo, professor e poeta baiano.
Brasil, pátria do espiritismo. Obrigado senhor por nos privilegiar com essa graça.
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