NOÉLIA RODRIGUES DUARTE
Dona Noélia Rodrigues Duarte nasceu em Salvador, no dia 24 de dezembro de 1928. Com um ano de idade ficou órfã de mãe. A tia Clara, já idosa, severa e muito rigorosa, foi quem a criou. Seu despertar para a Doutrina Espírita se deu ainda bem jovem, com 14 anos, quando leu os romances Dor Suprema e Renúncia. A partir dessas leituras, tomou a decisão que mudaria a sua vida e comunicou à tia: "De hoje em diante serei espírita!" Meses antes de se casar, foi levada por seu noivo ao Centro Espírita Caminho da Redenção, onde, sob a orientação do jovem Divaldo Pereira Franco, iniciou seu aprendizado, desenvolvendo suas faculdades mediúnicas. Essa data memorável jamais seria esquecida: 13 de agosto de 1948 – uma sexta-feira 13 de um ano bissexto.
Aqui, um parênteses, para falar do seu grande amor, Heliano, com quem começou a namorar aos 15 anos. Casaram-se em 22 de dezembro de 1948, quando ela tinha 20 anos. Aos filhos gerados, Márcia, Heliano Marcos e João Marcos, acrescentaram a filha adotiva Elisabete Cristina e mais os filhos de criação, Cristina – já falecida –, José e Roque. As bodas de ouro foram celebradas em grande estilo, na Casa da Fraternidade, a segunda instituição espírita que Noélia fundou. Todos conhecem a história desse amor, contada em prosa e verso para todos, sempre que uma oportunidade se lhe apresentava.
Casada, com filhos, um dia, em casa cuidando dos seus afazeres, o Dr. Bezerra de Menezes – seu pai espiritual – apareceu-lhe e disse que ela iria fundar um centro espírita, inclusive indicou o local onde seria construído, no bairro de Brotas. Com a ajuda do marido e de amigos devotados construiria a Casa de Oração Bezerra de Menezes (Cobem). Isso se deu, nos idos de 1968.
O tempo foi passando, muitas coisas foram acontecendo. Coisas boas, coisas más, como é normal no decorrer da vida. Entre elas, aconteceu que D. Noélia adoeceu gravemente. Recuperou-se e, convalescendo, em agosto de 1987, na casa dos amigos-irmãos Ivanise e Ismael, estando a ler o livro Além da Morte, teve a percepção de construir um outro centro. Por vários dias a mesma intuição: "Prepare-se para fazer um Centro na Boca do Rio." Largava o livro, fechava os olhos e dizia: "Oh, meu Deus! Nova tarefa?" E completava: "Mas, se for pela Sua vontade e com a ajuda dos Amigos Bondosos, eu farei."
E os amigos não faltaram. Tanto os bondosos amigos espirituais quanto os inumeráveis amigos feitos durante a sua trajetória espírita, cuja marca era a disponibilidade para atender a todos aqueles que a procuravam em busca de ajuda, de orientação, de uma palavra de conforto, de esperança. Comprado o terreno, deu-se início à construção do Centro com recursos angariados através de doações, realizações de muitos eventos tais como jantares, almoços, bazares, festas juninas e outros. A construção se seguindo, paredes sendo levantadas, mas não havia ainda um nome escolhido. Que nome dar a este Centro, fruto de desígnios mais altos? Foi feita, então, uma relação dos nomes sugeridos por todos os companheiros-irmãos, procedeu-se a um sorteio e, coincidentemente, o nome contemplado foi Casa da Fraternidade, que era o de preferência de Noélia.
Assim, em 28 de setembro de 1987 foi fundada a Casa da Fraternidade, que funcionou por um ano e 10 meses na casa de D. Noélia, no Jardim Imperial, bairro da Boca do Rio, enquanto ia se construindo a sede própria. Só no ano de 1989 é a Casa que começou a funcionar nas novas instalações, tendo como primeiro evento uma doutrinária e, depois, uma reunião mediúnica, aos sábados à tarde, atividades que foram se ampliando e sendo acrescidas de atendimento fraterno, cursos, passes. Em 1995 teve início o trabalho de Atendimento Espiritual à Saúde "Irmão Velhinho", sob a coordenação de Noélia.
Ainda no Jardim Imperial, foi iniciado o trabalho de assistência social com os moradores do Alto do São João. Quinzenalmente, um grupo de evangelizadoras se reuniam na casa de Noélia, faziam a prece e depois se dirigiam à comunidade. Algumas evangelizadoras trabalhavam com as crianças e outras, com as mães. No final de cada trabalho, distribuíam mingau e pão e, quando recebiam doações, entregavam também roupas, sapatos, brinquedos, utensílios e gêneros alimentícios.
No ano de 1990 este trabalho de assistência com a comunidade começou a ser feito na Casa, semanalmente. Aos poucos, foi se ampliando, aumentando o número de mães assistidas, instituído o farnel mensal, enxoval para recém-nascidos. No dia 22 de outubro de 1992, foi feita a primeira sopa na Casa. Este trabalho de assistência social com atendimento às mães e a evangelização de jovens e crianças continua sendo feito, acrescido de atendimento médico a idosos carentes da comunidade.
Aquela doença que acometeu Noélia nos idos de 1987 deixou sequelas. Sua saúde era bastante frágil, mas nunca foi impedimento para continuar sua tarefa, a missão que a Espiritualidade Maior havia lhe concedido. Presidente da Casa da Fraternidade, enquanto pôde esteve à frente das inúmeras atividades, atenta a tudo e a todos. Personalidade forte, decidida, sabia como ninguém comandar e se fazer obedecida. Claro que a alguns ela contrariou, era natural. Não se agrada a todos. Era amável, educada, alegre, compreensiva. Amorosa, bondosa, solidária.
Numa manhã de uma quarta-feira – 13 de julho de 2005 – serenamente, retornou ao Pai. Partiu e deixou muitas saudades. Acreditamos que foi recebida pelo muito amado Dr. Bezerra de Menezes, que deve ter-lhe dito: “Sede benvinda, filha da minh’alma!”
E nós dizemos: Fique em paz, D. Noélia. Siga a sua trajetória com a certeza de que os trabalhadores da sua Casa da Fraternidade, continuarão sustentando a sua bandeira de amor, trabalho, harmonia e perfeita convivência. Este foi o compromisso assumido. A melhor forma de demonstrar o quanto esta personalidade impar foi, e continuará sendo, importante para todos aqueles que laboram na Casa da Fraternidade.
(Fonte: memoriaespiritual.blogspot.com)
(Trilha sonora: "Riacho de areia" - Dércio Marques)
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