TOMÁS DE KEMPIS
Poucos autores cristãos influenciaram tantas gerações quanto Tomás de Kempis. Seu livro, A Imitação de Cristo, atravessou os séculos e se tornou uma das obras mais lidas da história. Ainda assim, o homem por trás da segunda obra mais lida da história do cristianismo não pôde ser canonizado. A explicação está em um episódio acontecido após sua morte que acabou atrapalhando o processo que iria declará-lo santo.
Tomás nasceu em 1380, na cidade de Kempen, na Alemanha. Ainda adolescente, foi enviado para estudar e se destacou como copista de manuscritos. Em 1399, ingressou na comunidade dos Irmãos da Vida em Comum. O grupo defendia uma espiritualidade marcada por vida comunitária e disciplina. Produziu cerca de quarenta obras de espiritualidade cristã. A mais conhecida, "A imitação de Cristo", é composta por quatro livros e propõe uma vida moldada no exemplo de Jesus.
Tomás morreu no mosteiro onde viveu e foi sepultado em 1471, por volta dos 92 anos. As crônicas do mosteiro relatam que ele sofria de hidropisia, uma doença comum na época que causa inchaço no corpo por acúmulo de líquidos.
Após sua morte, Tomás de Kempis passou a ser visto como um homem de vida exemplar. Séculos depois, seu processo de canonização foi iniciado. Como era costume, o processo envolvia a análise detalhada de sua vida e escritos. Durante esse procedimento, surgiu um relato que, assim como sua fama, resistiu ao tempo. Na exumação do corpo, teriam sido encontrados arranhões na parte interna do caixão e fragmentos de madeira sob as unhas. A interpretação levantada foi a de que Tomás poderia ter sido enterrado vivo.
Essa hipótese foi suficiente para travar a causa. Sem testemunhas ou registros claros sobre os últimos momentos, a Igreja não teria como confirmar as circunstâncias da morte nem o estado em que o candidato se encontrava. Pelas regras do processo, isso impede o avanço da canonização. As crônicas do próprio mosteiro, fontes mais próximas do período, não mencionam qualquer enterro prematuro.
Registros posteriores também não tratam esse episódio como fato comprovado. Ainda assim, quando a causa de canonização foi considerada, séculos depois, o procedimento exigia cautela máxima. Nesse tipo de processo atuava o chamado “advogado do diabo”, figura responsável por levantar dúvidas sobre a santidade atribuída ao candidato. Seu papel era impedir que uma canonização avançasse diante de qualquer incerteza relevante.
Foi assim que o relato da exumação ganhou relevância. Sem documentos sobre as circunstâncias da morte de Tomás de Kempis, a dúvida não pôde ser descartada e o processo foi interrompido. Houve tentativas posteriores de retomada, mas nenhuma avançou. Com o tempo, a causa permaneceu arquivada. Kempis nunca foi canonizado, não por falta de fama de santidade, mas pela rigorosidade do processo, que exige ausência de dúvidas relevantes. Uma controvérsia surgida séculos após sua morte foi suficiente para travar a causa. Sua obra, porém, atravessou os séculos sem depender desse reconhecimento oficial.
(Fonte: brasilparalelo.com.br)
(Trilha sonora: "A vaca de fogo" - Madredeus)
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