Os bens do homem de bem

Francisco Muniz



O item 3 do XVII capítulo de O Evangelho Segundo o Espiritismo trata do tópico “O homem de bem”, no qual Allan Kardec pontua algumas das qualidades que constituem o homem – espírita ou não – que atua responsavelmente na Terra cumprindo a lei de Deus, a lei de amor, justiça e caridade, em sua total pureza, quer dizer, o quanto ele for capaz. De acordo com o escritor e divulgador espírita baiano Adilton Pugliese, aquelas conceituações de Kardec configuram a “constituição do homem de bem”, ou seja, o conjunto de regras que, se bem cumpridas, propiciarão em pouco tempo nossa elevação espiritual.

Dentre essas regras, três merecem uma atenção mais acurada de nossa parte, desde que observemos as recomendações do Cristo em relação ao desapego aos bens materiais. Uma delas diz, textualmente, que o verdadeiro homem de bem “não se envaidece de sua riqueza nem de suas vantagens pessoais, por saber que tudo o que lhe foi dado pode lhe ser tirado”. A outra, logo em sequência, pondera que esse homem “usa, mas não abusa dos bens que lhe são concedidos, sabe que é um depósito de que terá de prestar contas e que o mais prejudicial emprego que lhe pode dar é o de aplicá-lo à satisfação de suas paixões”. A terceira é, na verdade, anterior a essas duas e informa que o homem de bem “tem fé no futuro, razão pela qual coloca os bens espirituais acima dos bens temporais”.

Como se percebe, são um convite a nos tornarmos bons administradores, sabendo que as riquezas que nos foram confiadas, por empréstimo divino, devem ser partilhadas com os mais necessitados ou investidas em obras que visem a promoção humana, em lembrança das palavras do Cristo na Parábola dos Talentos: “Como foste fiel no pouco, eu te farei fiel no muito.” Mais ainda, tais lições são dadas pelo Mestre Nazareno para que saibamos agir com desprendimento, desapegando-nos dos bens transitórios do mundo. Muita gente aproveita mal esses recursos voltando-os unicamente ao gozo pessoal, contrariando as recomendações de Jesus, que talvez desconheçam. Segundo o filósofo Huberto Rohden, “não se pode gozar o mundo de Deus sem o Deus do mundo”, de modo que se pagará um preço muito alto no dia da prestação de contas, pela análise da própria consciência.

É nesse momento que a prática da caridade se faz importante, tanto a posição do Espírito na Terra, para o qual é imprescindível discernir a quem serve, se a Deus ou a Mamon, quanto a direção a seguir, avançando na senda redentora, escolhendo o caminho reto que leva à porta estreita, sob pena de paralisar sua marcha ascensional, posto que não há retrogradação. O homem, pois, é chamado a ser, mais do que usufrutuário, um verdadeiro administrador dos bens divinos, promovendo o progresso de seus irmãos de caminhada, agindo com abnegação e devotamento, conforme salienta o Espírito da Verdade em O Evangelho Segundo o Espiritismo.

Contudo, de acordo com as ponderações do Codificador, não basta apenas praticar a lei de caridade, porquanto é necessário ainda o amor e a justiça a conduzir as ações do homem de bem. Desse modo, deverá ele distribuir amor em doses generosas na forma da multiplicação de valores morais junto a todos que cruzarem seu caminho, certo de que é muito mais inteligente acumular tesouros no Céu, onde os ladrões não roubam nem a ferrugem consome ou as traças destroem. Assim ele se porá sempre ao lado da justiça, recebendo da Providência, no nível espiritual, o correspondente a suas ações abnegadas, certo de que o homem justo é aquele que se deixa conduzir pelas supremas leis que regem o Universo.

Consideremos que é interesse do Criador e também do Cristo aperfeiçoarmo-nos para tornar-nos cocriadores, isto é, auxiliares devidamente capacitados para a colaboração com os Emissários celestiais nos trabalhos de melhoramento da Humanidade e do Planeta que o Cristo governa. E o meio para isto é justamente a união dos esforços na boa administração dos recursos celestiais. “Reflete, por um momento só”, diz Emmanuel nas páginas de Estude e Viva, “nas riquezas ilimitadas ao teu dispor, nos reservatórios da Natureza, e compreenderás que ninguém vive só.” Assim, sabendo administrar e cooperar, ouviremos a consciência nos felicitar com estas palavras divinas pronunciadas pelo Cristo na Parábola dos Talentos: “Bom e fiel servo, entra na alegria do teu Senhor!”





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