Robson Ferrer
A festa acabou, o que fazer?
Voltar à sua vidinha de antes, ou aproveitar ainda o resto de alegria e vigor que restou para recolocar seus sonhos em dia, já que, até ontem, sonhou o sonho dos outros, e dos que disseram que o seu sonho sonhado iria se realizar?
E agora, que o som estridente parou na avenida, quem sabe você possa ouvir sua voz interna a lhe dizer o que fazer, visto que nestes dias emprestou seus ouvidos para escutar e se encantar com os sons frenéticos das guitarras e baterias, tambores e atabaques, e refrãos musicais ininteligíveis que durante o ano não curte nem cantarola?
E agora você, qual o circuito a se direcionar, já que foram tantos nestas últimas semanas que perdeu o senso de si mesmo, por nunca ter sido bom em autodireção, pela falta de percepção existencial, e de um sentido para viver o essencial?
E agora você? Onde estão as fantasias que vestiu a cada dia para estar entre os foliões dos blocos e das pipocas? Onde estão os abadás e adereços que começou a pagar no ano passado, e continuará ao longo deste para saldar a dívida financeira que contraiu para dar a falsa impressão de ser a estrela do espetáculo de rua, mas que agora percebe-se nu diante dos holofotes apagados, pois tudo não passou de uma ilusão, utopia na satisfação do ego, nos breves minutos de fama sem câmeras?
E agora, meu rapaz? Onde estão todos? A multidão que te acompanhava, freneticamente, na frente, ao lado ou atrás do grande caminhão que seguia a passos de tartaruga por falta de espaço para mover suas rodas e equipamentos sofisticados? O que fazer sem ela, e se encarrar sozinho e carente de calor, suor e empurrões humanos, neste longo trajeto sem ninguém mais a pular com você?
E, agora que tudo passou, será que já consegue se identificar como normal? Ou terá sido uma experiência anormal? Porque foram tantos dias embriagado pelos vapores etílicos e substâncias alucinógenas que você sequer se viu a si mesmo pelas imagens transmitidas nos muitos telões nos corredores da folia que lhe mostravam como estava, nos passos e coreografias que você encenava a cada nova música cantada pelos músicos lá de cima, contagiando os ouvintes lá de baixo, numa simbiose psicodélica.
E agora você, o que fazer para reaver o que lhe foi roubado pela suposta alegria destes sete dias de excessos e extravagâncias, visto que o corpo já não responde aos seus comandos por estar sobrecarregado das energias luxuriantes. Ele – o corpo – por certo desejaria volta para casa numa ambulância, como sendo a melhor opção para não ficar retido no chão quente da calçada ou na areia molhada da praia por não ter força física e mental pra dizer: “Vamos pra casa, a festa acabou à luz do meio-dia. Voltemos a pé (e na fé), porque não tenho mais força, nem dinheiro do buzu, ou metrô”.
Pois é, rapaz, agora é a hora de compreender que o Carnaval chegou e já acabou... E que foi bom enquanto durou, mas que não passou de uma brincadeira, na qual você se “divertiu” para valer, mas que ainda continua vazio do que foi se preencher nestes dias de frenesi. A quem buscar ou recorrer? Aos vendedores de sonhos? Aos influenciadores das mídias? Aos artistas? Ou aos donos dos camarotes ou dos blocos que lhe disseram que lá você viveria momentos de eterna felicidade?
Para finalizar, diz aí VOCÊ, agora ou amanhã: o que fazer para colocar em dia seus sonhos sonhados porque, “quando o carnaval chegar” no próximo ano, você saberá o que fazer para não se entristecer depois que o trio passar.
Diz aí... porque eu também não sei o que mais lhe dizer nem perguntar.
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